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sábado, 29 de agosto de 2015

A Corrupção dos Últimos Dias



O entendimento comum de corrupção é o de depravação moral, devassidão e coisas afins. Mas há um sentido pouco trabalhado que é o de decomposição, putrefação. É com este sentido que o termo grego correspondente διαφθοραν (diaphthoran) é empregado nestes textos (At 2. 37; 13. 35, 37). Já em Rm 8. 21; I Co 15. 50; II Pe 2. 19) aparece φθοραν (phthoran), por exemplo, com o mesmo sentido. 

A corrupção moral do tempo presente tem como principal causa a tendência dos homens dos homens à decomposição física. Em outras palavras os homens se vendem como escravos ao pecado por terem noção do seu senso de finitude. Este é um ponto crucial para a compreensão da tendência à apostasia nestes dias finais. Na dúvida, veja este texto:
Prometendo-lhes liberdade, sendo eles mesmos servos da corrupção. Porque de quem alguém é vencido, do tal faz-se também servo. Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro (II Pe 2. 19, 20 ACF). 
Perceba a expressão δουλοι υπαρχοντες της φθορας [doyloi huparchontes tees phthoras], sendo eles mesmos servos da corrupção. Em outras palavras os falsos mestres, tem como seu senhor o senso de sua finitude. É este que lhes dita o comportamento que os mesmo têm de ter. Sob este prisma empreenderei algumas considerações a respeito do texto bíblico. 

Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos (II Tm 3. 1 ACF). 

A expressão εσχαταις ημεραις [eschatais heemerais] é indicador do tempo decorrente da ascenção de Cristo até seu retorno glorioso. Daí que não seja uma descrição dos dias atuais em si, mas de algo que vai do tempo de Paulo até os dias atuais e chegando a té a vinda de Cristo. 

Em segundo lugar o entendimento de que os dias finais são καιροι χαλεποι [kairoi chalepoi], em outras palavras tempos perigosos. Perigosos devido à qualidade de homens com quem os crentes, e principalmente pastores novos como Timóteo terão de lidar. Segundo Paulo, os homens serão:
amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te (II Tm 3. 2 - 5 ACF). 

  1.  amantes de si mesmos, sem a mínima capacidade de pensarno bem estar alheio. Este é o sentido de φιλαυτοι [philautoi]. 
  2. avarentos, o mesmo que amantes do dinheiro, ou amigos do. O que se pode ver na expressão  φιλαργυροι [philargoi]. Os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores (I Tm 6. 9, 10 ACF). 
  3. presunçosos. A presunção é um tipo de afetação, vaidade pessoal. αλαζονες [alazones] é o mesmo que fanfarrão, uma pessoa que fala o tempo todo de suas realizações ao ponto de extrapolar a verdade. Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas, sim, aquele a quem o Senhor louva (II Co 10. 17, 18 ACF). 
  4. em decorrência os homens se tornam altivos, soberbos, o termo original é υπερηφανοι [hypereephanoi]. 
  5. βλασφημοι [blasfemoi] é o termo grego que dá origem à palavra blasfêmia, cuja definição lexiacal é de palavra ofensiva à divindade, praga, imprecação. Mas no sentido bíblico pode ser, entre outros o de caluniador. 
  6. desobedientes a pais e mães. O uso do termo απειθεις [apeitheis] indica que são pessoas que não se deixam convencer por nenhuma admoestação paterna, quando a recomendação bíblica é justamente a contrária. Ouvi, filhos, a instrução do pai, e estai atentos para conhecerdes a prudência (Pv 4. 1 ACF). 
  7. Incapazes de ações de graças. Acham que tudo lhes é devido, daí sua ingratidão para com tudo e com todos. 
  8. profanos, ou ανοσιοι [anosioi], sem percepção do que e sagrado, daquilo que lhes supera. Incapazes de qualquer atitude de reverência para com as coisas de Deus. 
  9. αστοργοι [astorgoi] é uma expresão para se referir a quem é destituído de qualquer afeição natural (filhos, mulher, parentes, amigos, etc...). 
  10. ασπονδοι [aspondoi] pessoas que nutrem tamanha hostilidade que não admitem tréguas. 
  11. διαβολοι [diaboloi], caluniadores, acusadores. 
  12. ακρατεις [akrateis]. Pessoas sem o mínimo de controle próprio. Como a cidade derrubada, sem muro, assim é o homem que não pode conter o seu espírito (Pv 25. 28 ACF). 
  13. ανημεροι [anemeroi] pessoas selvagens, sem civilidade. Em decorrência de sua falta de controle. 
  14. αφιλαγαθοι [aphilagatoi], sem amor uns para com os outros, principalmente para com os bons. Um desdobramento da primeira marca. 
  15.  προδοται [prodatai], palavra empregada para designar pessoas que tinham faltando para com seu juramento, que haviam desertado de um exército. 
  16. προπετεις [propeteis], alguém que é obstinado, não sujeito à mudança, nem admoestação. 
  17. Orgulhosos, ou cheios de algo, expressão mais adequada para traduzir τετυφωμενοι [tetyphoomenoi]
  18. φιληδονοι μαλλον η φιλοθεοι [philedonoi mallon e philotheoi] designa pessoas que colocam seus prazeres pessoais acima de Deus. 
A recomendação de Paulo é: destes afasta-te. Eles aparentam piedade, mas negam o poder da mesma, com uma vida contraditória. Em razão de seu caráter eles sempre resistirão a verdade, que não podem conhecer plenamente em razão de seu mau caráter (II Tm 3. 5 - 7). Diante disto o que um líder cristão pode fazer?
Não irão longe, porém; como no caso daqueles, a sua insensatez se tornará evidente a todos. Mas você tem seguido de perto o meu ensino, a minha conduta, o meu propósito, a minha fé, a minha paciência, o meu amor, a minha perseverança, as perseguições e os sofrimentos que enfrentei, coisas que me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra. Quanta perseguição suportei! Mas, de todas essas coisas o Senhor me livrou! De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Contudo, os perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados (II Tm 3. 9 - 13 ACF). 

  1. Acreditar que em algum momento a insensatez dos mesmos será evidenciada aos olhos de todos.
  2. Transmitir o ensino fiel aos demais crentes. 
  3. Contar com a graça de Deus com o fim de ser exemplo. 
  4. Entender que os verdadeiros cristãos são testados mediante o sofrimento, algo que os apóstatas acima descritos não suportam. 
  5. A despeito das observações supra, o movimento apóstata seguirá em frente. 
Contudo Timóteo tem de responder com apego à doutrina, e fidelidade na pregação, sabendo com que finalidade as Escrituras foram concedidas
Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as sagradas letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra (II Tm 3. 14 - 17 ACF). 
Em Cristo, Marcelo Medeiros.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Nova Religiosidade



Ao fazer uma pesquisa do significado lexical dos conceitos de religião e religiosidade, percebe-se que aquela pode ser compreendida como uma manifestação exterior e institucional desta. O primeiro termo está ligado ao serviço, ao culto, ao rito, ao sistema de crenças, ao dogma, à moral (sistema ético), à obrigação, ao temor que se deve; podendo ser expresso de forma externa e interna. O segundo, por sua vez é definido de forma estritamente subjetiva.

O vocábulo religião tem sido cada vez mais relegado, e religiosidade cada vez mais acolhido. Este é um fenômeno que tem de ser devidamente considerado neste estudo, a fim de que se compreenda mais a nova religiosidade. Tal compreensão demanda igualmente uma percepção clara das tendências culturais do presente tempo.

UMA OUTRA ESPIRITUALIDADE

De uns dez anos para cá tem sido cada vez mais comum se falar em "outra espiritualidade". A expressão é um claro sintoma de que as formas institucionalizadas de religiosidade estão cada vez mais falidas. O motivo? As mazelas humanas. O exemplo vem de um artigo de Ed René Kivitz
em que o autor aborda o clássico O Monge e o Executivo.

Não concordo com tudo o que Kivitz fala. Mas a abordagem crítica que o mesmo faz aos vícios da relaçãoes pessoais é pontual. Segundo este autor os bastidores da "empresa eclesiástica" não diferem muito da selva das empresas mundanas. Ele chega ao ponto de afirmar que uma reunião de presbitério escandalizaria tais consultores. É dispensável a afirmação de que Movimentos como Caminho da Graça e Os deseigrejados são resultado deste desgaste, que é pessoal e institucional.

A espiritualidade que é buscada atualmente é mais pessoal, íntima, e ou subjetiva, livre do controle de instituições. Logo, ser, por exemplo, presbiteriano, não mais significa estar preso a este, ou aquele credo (conjunto de crenças). O mesmo se pode dizer de ser pentecostal (alias, o que é isto mesmo?). Há fieis no primeiro caso que são arminianos e no segundo que se identificam com a Teologia Reformada [aqui].

Católicos carismáticos, Papa com pensamento quase que Reformado. Alias o atual pontífice romano é um caso bem interessante. Jesuíta por ordem Jorge Mário Bergolio após ser eleito escolhe o nome de Franciso, o que demonstra sua clara identificação para com a causa franciscana. Mais do que isto, ele incorpora o ideal franciscano [aqui].

Se Você acha que já viu de tudo, há também a Igreja dos sem Religião [aqui]. Composta por gente que se reúne para celebrar a vida e cantar canções. Sim, as pessoas querem espiritualidade, experiências transcendentais. De acordo com Stott e Shaeffer a busca por experiências com drogas revela que as pessoas querem contato com a transcedência. Tudo isto são novas formas de espiritualidade que estão sendo propostas.

NOSSO DESAFIO

O desafio do crente na atualidade consiste em responder de forma relevante ao mundo como a proposta da espiritualidade bíblica pode ser relevante e consistente mesmo em um contexto cuja definição é a ausência de valores, a quebra da autoridade, e a ênfase no subjetivismo. 

Face ao exposto a primeira questão a ser tratada é que não há, de fato verdadeira religião sem atitude exterior. É claro que ao fazer tal afirmação, considero que "Deus olha o coração", para o íntimo do homem, ao invés de para a aparência do mesmo. Mas desconsidero totalmente uma religiosidade cuja expressão se resume "ao sentimento de dependência do que é absoluto".
Em Rm 1. 9 Paulo afirma prestar um culto em seu espírito. Todavia este mesmo culto ganha contornos exteriores ao se expressar por meio de dois importantíssimos serviços: a pregação do Evangelho e a oração do apóstolo pelas cominudades que havia fundado, bem como pela de Roma, que ele sequer conhecia. Há outro texto que ao meu ver é um perfeito encontro da objetividade com a subjetividade. 

Rm 12. 1 o mesmo apóstolo pede aos crentes que apresentem a totalidade do seu ser (este é o sentido da expressão σωματα [soomata] aqui), como sacrifício a Deus. Este é o culto. O mesmo tem de ser oferecido a partir de uma mentalidade renovada (Rm 12. 2). Todavia não prevalece a pura e simples subjetividade. O culto ganha a sua expressão em serviços comunitários (Rm 12. 3 - 8). 

A espiritualidade sadia traz o desefio de relacionamentos pessoais, tanto na esfera vertical [do homem com Deus, e deste para aquele], quanto na esfera horizontal (entre os homens em geral). Não há religiao cristã, sem relacionamentos. 

Não é sem razão que as religiões orientais crescem justamente no momento em que as pessoas mais se divorciam e menos se relacionam pessoal e interpessoalmente. Relacionar signicia sofrer em termos práticos, e em mundo cuja filosofia é a busca do prazer a todo o custo e a máxima eliminação do sofrimento uma religiosidade mais comtemplativa e mais silenciosa é infinitamente mais sedutora [até mesmo para cristãos]. 

Todavia estas mesmas religiões partem do pressuposto de que a "personalidade" é uma ilusão, tal como o mundo que nos circunda. Ambos são emanações de uma divindade chamada Brahma, que está sonhando com o mundo e com uma infinidade de deuses. O Budismo sequer possui "deus", ou "deuses". Em algumas formas deste, buda é o seu deus. Somente o cristianismo vai na contramão desta onda. 

Frequantemente encontro com crentes que devido a alguma decepção se afastaram da congregação. Eles apresentam um discurso de que "Igreja somos nós", e concordo. Sim, "IGREJA SOMOS NÓS" em comunidade, em comunhão. Como sucessivas vezes disse Stott, a meditação de um cristão é com o olhar para fora, pois ele acredita que a natureza revela a glória e a majestade de Deus, ao passo que a meditação de um oriental é para dentro (reflexo da crença de que o mundo não é real). 

NOSSA PROPOSTA

A proposta evangélica pode e deve ter lá seus teores de subjetividade sim, mas terá no testemunho e na prática da oração. Também terá dimensões cominitárias. Tal envolve séria revisão do modo altamente institucional de ser igreja ao longo da história. Alias, há que se resgatar o sentido bíblico deste termo (que nada tem a ver com prédios e edifícios), mas com comunidade. 

Não se trata também de todo e qualquer ajuntamento comunitário. Jesus disse a Pedro: sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (Mt 16. 16 - 18). A Igreja não é um prédio, mas um grupo de pessoas, uma assembléia. Este é o sentido de εκκλησιαν [ekklesian]. Jesus não morreu por templos, CNPJ's, denominações, mas por pessoas (Ef 5. 25, 26). 

A Igreja não é um projeto humano, mas divino. Assim como os blocos de pedra, ou de tijolos são unidos de forma a formar um edifício, os crentes são unidos uns aos outros até que se tornem morada de Deus no Espírito (Ef 2. 18 - 20; I Pe 2. 5). Isto não é, e nem pode ser um projeto humano, visto que somente Deus por Cristo e por seu Espírto podem levar o mesmo a consecução. 

A Igreja é edificada sobre a crença de que Jesus Cristo é Messias, o Filho do Deus Vivo. O ponto de contato, ou seja a liga entre um bloco e outro de pedra é Jesus. Shows agregam, aglomeram, mas não unem e nem dão liga entre pessoa e pessoa. Se Jesus não está entre as pessoas, permeando relacionamentos não há "COMUNIDADE". Mas se ELE estiver além de comunidade há vitórias sobre os desafios que a convicência traz. 

Esta é a proposta bíblica. Nosso desafio é demonstrar comunitariamente que ela é viável. Novas formas de Igreja são, em parte, modos de responder a esta demanda, cada vez mais atual. E a recomendação bíblica é que o mundo nos veja desta forma (Fp 1. 29; 2. 14 - 16). 

Em Cristo. Marcelo Medeiros. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

As Mudanças dos Valores Morais




O que é moral? Qual a fonte da mesma? Como distinguir ética de moral? Há possibilidades reais de uma Ética universal? Existe uma moral que sirva de padrão para todas as culturas? São perguntas que precisam de serem feitas antes que se empreenda em um estudo a respeito do tema. O que tem assutado cristãos que nasceram antes da década de oitenta do século anterior, é a mudança nos valores e no comportamento.

Marcha pela liberação de entorpecentes, descriminalização do aborto, casamento entre iguais; são cada vez mais frequentes. Tais temáticas ganham pauta no debate filosófico e político. Mais do que isto são veiculadas pela cultura como se fossem "direitos legítimos". É neste mundo que o cristão tem o seu chamado para ser sal da terra e luz do mundo.

POR UM SENTIDO FILOSÓFICO DE ÉTICA E DE MORAL


Ética é um conjunto de valores que os seres humanos em geral usam para responder três perguntas básicas: Quero? Devo? Posso? Esta é a definição de Mário Sérgio Cortella. O que faz tal reflexão mais do que necessária? A necessidade de conviver, ou de coexistir. É tão somente a partir desta que a Ética se torna necessária. 


Para que serve a Ética? Para estabelecer os devidos limites entre a nossa natureza, os nossos instintos e o que precisamos fazer para um bom convívio. Com fins a resposta das perguntas: quero, devo e, ou posso, necessário se faz um conjunto de valores. Pode-se dizer que Ética também seja orientada por princípios. Logo, 
A Ética é, antes de mais nada, a capacidade de protegermos a vida coletiva. Afinal de contas, nós, homens e mulheres vivemos juntos. Aliás, para seres humanos não existe vivvência, existe apenas convivência. Nós só somos humanos com outros humanos. A nossa humanidade é compartilhada. Ser humano é ser junto. Isto significa que é preciso que saibamos que a nossa convivência exige uma noção especial de nossa igualdade de existência, o que nos obriga a afastar do ponto de partida de qualquer forma de arrogância (CORTELLA, 2011). 
E moral? Retornando ao filósofo em questão percebe-se que para o mesmo a moral é a aplicação da ética. Resumindo:

  1. Ética é a reunião de valores com vistas a responder três questões básicas: quero? Posso? Devo? questões que nem sempre encontram-se devidamente alinhadas. 
  2. Para que ocorra tal reflexão, necessário se faz com que o ser humano adote uma noção de valores. 
  3. A finalidade da mesma consiste em equacionar os conflitos decorrentes da natureza humana em parte e da necessidade do mesmo em conviver. 
  4. Moral é a capacidade de aplicar esta ética. 
Cortella escreveu em parceria com Yves de La Taille um fantástico livro cujo título "Nos Labirintos da Moral" descreve bem o desafio de se formular uma moral satisfatória. A leitura de Pascal aponta para o problema do "limite da moral". Isto porque conforme reconhecido por Cortella, a Ética tem por objetivo, ou finalidade equacionar os desejos, com as possiblidades e os deveres. 

NOS LIMITES DA MORAL

As reflexões sobre Ética buscavam equacionar desejo com dever. Daí que não entende a Ética grega sem a concepção de eudaimonia (a felicidade sob a proteção de um Deus). Pascal percebeu isto. Tanto que ele afirmou a respeito dos homens: não encontram outro meio de satisfazer sua concupiscência sem fazer mal aos outros (pág. 58). 

Todavia, esta ética nada tinha a ver com a satisfação plena dos desejos, mas com a supressão dos mesmos. E este é mais um ponto de convergência entre Pascal e os antigos, visto que aquele afirma: a vontade própria nunca satisfará, ainda quando tivesse o poder de realizar tudo o que quer, mas fica-se satisfeito logo que se renuncia a ela. Sem ela não se pode estar descontente, por ela não se pode estar contente (pág. 143). Mas qual o limite da moral?

Pascal enxerga uma terrível ambiguidade dentro do ser humano. Este é, ao mesmo tempo grande e miserável. Diante de tal constatação não cabe que se estime, ou deprecia demasiadamente o homem, mas que o veja em sua real condição. É nesta incapacidade de conhecer plenamente o bem que reside a falha do homem em elaborar uma ética satisfatória. 
Que o homem sem fé não pode conhcer o verdadeiro bem, nem a justiça. Todos os homens procuram ser felizes. Isso não tem exceção, por mais diferentes que sejam os meios empregados. Todos tendem para este fim. O que faz com que uns vão à guerra e outros não vão, é esse mesmo desejo que está em ambos acompanhado de diferentes visões. É o motivo de todas as ações do homem, até mesmo dos que vão se enforcar (pág 82, 83). 
Os desejos são a fonte dos desarranjos do ser humano. Para Pascal somente Deus pode preencher este desejo, mas aqui se tem um dilema. Ao mesmo tempo que somente Deus pode satisfazer plenamente o homem, as volúpias do mesmo o afastam ainda mais de Deus. 
É necessário que, para tornar  o homem feliz. ela lhe mostre que há um Deus, a quem somos obrigados a amar, que a nossa verdadeira felicidade está em estar nele, e o nosso único mal consiste em estar separado d'Ele, que ela reconheça que somos cheios de trevas, que nos impedem de conhecê-lo e de amá-lo, e que assim, obrigando-nos aos nossos deveres de amar a Deus, e disto nos desviando as nossas concupiscências, estamos cheios de injustiças. É necessário que ela nos dê as razões dessas oposições que temos em relação a Deus e nosso próprio bem. É necessário que nos ensine os remádios para essas impotências e os meios de obter esses remédios (pág. 84).
A moral humana decorre de seres caídos, ambíguos, inadequados, que caminham no labirintos de desejos contrários. Este é o limite da moral com o qual o ser humano tem de lidar. 

DILEMAS ÉTICOS ATUAIS

Até agora foi contemplado neste estudo a fonte dos dilemas éticos, a ambiguidade humana. Agora convém voltar o olhar para uma outra questão: Quais os dilemas éticos da atualidade? Na área da sexualidade a emergência das práticas homossexuais para a esfera pública. (Este é o momento em que convém lembrar que toda atitude pública é alvo de crítica, exemplo, eu, por escrever em rede me exponho à crítica). 

O dilema inicial que surge é o exercíco do direito à crítica com o "respeito" ao "outro". Em outras palavras: a crítica de forma alguma pode ser vexatória, odiosa, mas unica e somente uma expressão, ou juízo de valor, algo que é exercido por toda e qualquer pessoa, pricipalmente por você, que lê este texto que escrevi. 

Outro ponto crucial é a afirmação da laicidade estatal, o que coloca o Estado como ministro, ou serviçal a favor de todos os cidadãos, garantindo às Igrejas o direito à pregação de seus dogmas, inclusive a questão do pecado, e os direitos fundamentais das minorias, inclusive gays e lésbicas. Destaco aqui a "proteção à vida e integridade física dos mesmos". 

A respeito das drogas há de se observar o crescimento do discurso pró liberação sob a argumentação de que a liberalização das mesmas fosse um poderoso meio de combater o narcotráfico. Uma observação inicial é que o crime migra. Fato amplamente comprovado por meio da implatação da UPP's no Rio de Janeiro, sendo que neste caso ocorreu apenas imigração do tráfico. 

Outra questão, que ao meu var cancela tal argumento, é que a legalização de bebidas e cigarros não impede a venda ilegal dos referidos produtos. É a chamada pirataria. Apenas lanço mão de tais exemplo com a fim de apontar aqui que a legalização de drogas não ameniza em nada a criminalidade. 

A respeito das drogas, o vazio da vida moderna é o principal motivo da procura da mesma. As pessoas buscam preencher o vazio que antes era ocupado pela experiência religiosa e pela existencial com o uso de drogas. E conforme observado por Pascal, o homem segue buscando a felicidade acima de qualquer outra coisa. 

A estas práticas, o aborto tem sido apresentado como algo legítimo, ao passo que na verdade nada mais é do que assassinato, o que se comprova nas tentativas de desumanização do feto [aqui]. 

CONTINUA

Marcelo Medeiros. 

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