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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A polêmica em torno do modelito da presidenta Dilma



Uma polêmica que não posso deixar passar, é a que se deu em torno das críticas recebidas pela chefe de Estado Dilma Rousseff, em razão do modelito usado pela mesma na posse. As feministas de plantão vieram contudo contra os autores da crítica, e um novo processo de demonização deu início. Confesso que, mesmo não achando nada aprazível a imagem da presidenta reeleita, a crítica foi de mau tom. Todavia minha interpretação inicial (tida como monolítica), foi a de que a repercussão dos comentários em torno os modelitos da mesma, na verdade eram reflexo de uma insatisfação com a situação política atual.

Antes que você venha me dizer da aprovação popular do governo de Dilma, quero dizer que com a maioria das pessoas (intelectuais diga-se de passagem), com as quais tive a oportunidade de dialogar, de alguma forma demonstraram não estarem plenamente satisfeitas com o governo, mas que a despeito das mazelas, ainda assim votariam no PT. Não foram poucas as vezes que me expressei neste espaço a respeito deste assunto. A reeleição de Dilma, foi o resultado da soma de todos os medos, o medo do retorno do PSDB com sua política de privatização e arroxo salarial [aqui]. 

O pior em meio a isto tudo, é que foi esquecido que a ascensão do PT ao poder se deu por meio de alianças, diga-se de passagem inimagináveis a um petista da década de oitenta, e com o adiamento da agenda que caracteriza a luta desta partido, e adoção de uma agenda, que não é necessariamente de esquerda. 

O ruim em todo este processo é que o PT tornou-se herdeiro de mazelas outrora tucanas, peemedebistas, ou chame do que quiser chamar, mas quem está na vitrine agora, são os petistas, que brilharam como oposição e agora estão diante do ônus de serem situação. Com uma recessão batendo as portas, e diante da possibilidade de frustração das expectativas eleitoreiras do povo com Dilma, fica a seguinte questão: até quando durará a aprovação da mesma? De uma certa forma o recado foi dado nas eleições [aqui], agora é deixar a ficha cair. 

Uma outra questão, interpretar as críticas a Dilma, como expressão de machismo e misoginia, é um absurdo. Não sou adepto da cultura atual, que subordina beleza à magreza e ao padrão midiático, entendo que esta luta do feminismo é legítima [aqui]. Mas isto não me impede de reconhecer que nas entrevistas e nos debates das eleições a presidenta se apresentou bem melhor, isto é algum crime? De forma alguma, apenas o livre exercício da liberdade de expressão, que estará cada vez mais limitada. 

Marcelo Medeiros

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O som e a fúria do Tim



O bochicho da semana é a versão que a Rede Globo fez, em formato de documentário, do filme de Tim Maia. O filme em si foi feito com base no livro Vale Tudo, o som e a fúria d Tim Maia, e foi show, por mostrar a história de um cantor cujo talento musical era inegável, mas que ao que parece não foi devidamente reconhecido por não se enquadrar nas regras que o jogo exige. 

Voltando à polêmica entorno do documentário da Globo, a opinião geral nas redes, ao que parece, é a supressão de uma cena do filme, em que Roberto Carlos aparece deslumbrado com a própria fama e humilha Tim Maia, quando este vai pedir uma ajuda [aqui]. Uma coisa que ficou clara para mim, é que para a emissora em apreço não basta a aposta anual na figura de um artista que já deu o que tinha de dar. Não! É notável a necessidade de venda de uma imagem quase que intocável do mesmo. Daí a forçação de barra.

Na boa, isto não deveria ser espanto para ninguém. A verdade é que desde 2007 Roberto se envolveu em uma disputa judicial com o jornalista Paulo César Araújo em decorrência de uma biografia autorizada. Ele e uma série de artistas são contrários a tais biografias sem a autorização da família e da pessoa envolvida [aqui]. Pascal explica, e em mínimos detalhes. 

A lição que levo da vida do Tim, é a mesma de Salomão, ou do pregador, não é dos ligeiros a carreira, nem dos fortes a batalha, nem tão pouco dos sábios o pão, nem dos prudentes a riqueza, nem dos entendidos o favor, mas o tempo e a oportunidade ocorrem a todos (Ec 9. 11 ACF). O reconhecimento das qualidades e potenciais que o ser humano traz não é espontâneo e muito menos natural, ele depende do momento e da oportunidade que a todos ocorrem. 

Nem Roberto Carlos, nem ninguém é rei em função de ser rei, ou o que quer que seja, mas de como joga o jogo. Ao que parece, faltou ao Tim a malícia do jogo, mas talento, ele tinha de sobra. Uma lição fundamental do filme, e do documentário exibido na globo: toda carreira termina algum dia, a questão é como terminar. Ninguém é rei para sempre, vence para sempre, corre para sempre, e a melhor forma de parar é no auge, a fim de que a melhor imagem fique. 

Mesmo com o recurso de biografias e filmes, eles em nada se comparam a impressão deixada na mente de quem esteve em um show e curtiu a música e a fúria do artista supra, ou mesmo de tantos outros em tempo real. Aliás, é justamente o testemunho de quem conviveu que permite a construção de uma história, ampliando o conceito de carreira. Há o momento de fazer história produzindo o material com que outros farão a nossa história, e o momento de ficar na cabeça e no coração das pessoas. 

Marcelo Medeiros

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Deus dá sua Lei ao povo de Israel



A lei de Deus é antes de qualquer coisa, dádiva, dom, presente. Via de regra os cristãos a associam com o jugo farisaico, ou com o conjunto de tradições que Jesus deliberadamente rejeitou. Davi afirma: a lei de Iahweh é perfeita, faz a vida voltar (Sl 19. 8 [7] Bíblia de Jerusalém). Aqui se vê um testemunho similar ao de Paulo, para quem a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom (Rm 7. 12 Bíblia de Jerusalém).

Daí a compreensão que partilho aqui de que originalmente a lei não pretendia ser um fardo pesado para o povo de Israel, mas um caminho de vida. Outra dimensão desta mesma lei é que ela foi dada em meio a celebração de uma aliança, a do Sinai, é isto que precisa de ser visto, ao revisar a lei para o povo, Moisés afirmou: ouve ó Israel, os estatutos e as normas que hoje vos proclamo aos vossos ouvidos. Vós os aprendereis e cuidares de pô-los em prática. Iahweh, nosso Deus concluiu conosco uma aliança no Horebe (Dt 5. 1, 2 Bíblia de Jerusalém). É a partir destes pressupostos que estarei elaborando os posts que abordam os dez mandamentos.

A AUTORIA

A despeito das discussões entre os proponentes da Escola ortodoxa e os da escola crítica a autoria da תֹּ֘ורַ֤ת (torah), a respeito da autoria mosaica da lei, há que se ressaltar aqui o fato de que o paralelismo existe entre esta e as leis de povos vizinhos de Israel, pode ser um fruto da graça comum, de modo que não tenho quaisquer dificuldade com a crítica bíblica, visto que a graça o responde. Em outras palavras, Paulo reconheceu que existem gentios para os quais a lei de Deus está escrita em seus corações e eles por natureza obedecem a lei. Neste caso, o fazem pressionados exclusivamente por suas próprias consciências. 

Voltando ao entendimentos das escolas liberais e ortodoxas, para aqueles a lei é resultado de uma série tradições orais que foram se acumulando até que durante o reino persa foram organizados por Esdras e a autoria foi concedida à Moisés (esta afirmação pode ser vista na introdução ao Antigo Testamento de Erick Zengüer). 

Os mais ortodoxos como Hill e Walton até entendem e aceitam que existem textos no pentateuco que não podem ser de autoria mosaica, tais como o registro da morte do profeta e legislador, e a narrativa da contenda deste com Miriã e Arão, mas no geral entendem juntamente com testemunho de Jesus e dos apóstolos que grande parte do conteúdo da תֹּ֘ורַ֤ת (torah) é mosaico. 

O CONTEXTO

A promulgação da lei se deu no contexto da celebração de uma aliança entre Deus e o povo. Esta aliança foi celebrada três meses após a saída do povo do Egito (Ex 19. 1). Tão logo o povo chegou ao Sinai, Moisés foi chamado ao monte para ouvir as palavras de Deus (Ex 19. 2, 3). Ali foi feito um memorial das obras de Deus (Ex 19. 4), e celebrada uma aliança בְּרִיתִ֑י (berit). 

Os dez mandamentos são o marda da aliança que Iahweh está celebrando com o seu povo. Ao lembrar a lei para o povo Moisés ressaltou como se deu tal aliança: O Senhor nosso Deus fez conosco aliança em Horebe. Não com nossos pais fez o Senhor esta aliança, mas conosco, todos os que hoje aqui estamos vivos. Face a face o Senhor falou conosco no monte, do meio do fogo (Dt 5. 2 - 4 ACF). 

Aqui se percebe uma verdade, a de que a aliança do Sinai estava inaugurando uma nova etapa na economia da salvação. Os pactos feitos com Noé, Abraão, eram incondicionais, mas ao povo de Israel Deus colocou condições, neste caso a obediência à lei. E como resposta o povo disse a Moisés: o que te disser o Senhor nosso Deus, o ouviremos e cumpriremos (Dt 5. 27 ACF). De acordo com o relato de Êxodo, o povo respondeu a uma só voz: tudo o que o Senhor tem falado faremos (Ex 19. 8 ACF). 

Apesar do compromisso assumido a história de Israel mostra que o povo não obedeceu conforme proposto, tanto que ainda no monte Deus fala com Moisés: quem dera eles tivessem sempre no coração esta disposição para temer-me e para obedecer a todos os meus mandamentos. Assim tudo iria bem com eles e com seus descendentes (Dt 5. 29 NVI). 

O TEMOR COMO BASE DA ALIANÇA

A manifestação de Deus no Sinai provocou terror e espanto no povo, ao ponto deste pedir que Moisés falasse com Deus (Ex 20. 19). Em princípio as palavras do povo foram moldadas pelo temor, mas Deus sabia que eles não teriam sempre a mesma disposição. Diante do espanto e do terror provocado pela teofania, os israelitas pensaram que iam morrer. Foi quando Moisés disse: não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis (Ex 20. 20 ACF).  

O comentário da lição de Escola bíblica dominical pontua que os sinais exibidos na cordilheira do Sinai tinham por objetivo fortalecer a autoridade de Moisés como líder e legislador. Creio que isto se aplique aos Sinais que Deus deu ao líder em apreço, com vistas a autenticar sua liderança aos olhos do povo quando no momento da saída do Egito (Ex 4. 1- 9). Mas a manifestação na outorga da lei, visava provocar temor no coração do povo. Deus ordenou à Moisés: reúna o povo diante de mim, para ouvir as minhas palavras, a fim de que aprendam a me temer enquanto viverem sobre a terra (Dt 4. 10). 

É o temor que produz a obediência. Assim, que lembrou ao povo as palavras da aliança (Dt 5), Moisés disse: 
Esta é a lei, isto é, os decretos e as ordenanças, que o Senhor, o seu Deus ordenou que eu lhes ensinasse, para que vocês os cumpram na terra para a qual estão indo para dela tomar posse. Desse modo vocês, seus filhos e seus netos temerão ao Senhor, o seu Deus, e obedecerão a todos os seus decretos e mandamentos, que eu lhes ordeno, todos os dias da sua vida, para que tenham vida longa (Dt 6. 1, 2 NVI). 
Note que a lei tem de ser ensinada. Aqui cabe ressaltar novamente o sentido de תֹּ֘ורַ֤ת (torah), que não se restringe à lei, mas abrange igualmente a questão da instrução. A instrução da lei aumenta o temor no coração do povo, e conforme pontuado no texto bíblico, é o temor que livra o homem de pecar, melhor, o conduz na perfeita obediência da lei. 

Marcelo Medeiros.                                                                                                                                                                                                                                                                                        

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