Esta data é reservada para a conscientização do autismo, mas o que é isto? É uma síndrome (conjunto de sintomas, perceba que no tocante a mesma a palavra doença tem sido evitada), que afeta três áreas, a comunicação, a socialização e o comportamento. A ONU criou a data no fim de 2007, e iniciou a campanha de conscientização em 2 de Abril de dois mil e oito (aqui).
Confesso que a síndrome sempre me despertou curiosidade, desde os antigos comerciais que passavam na TV, onde o autista era sempre retratado como aquele individuo isolado, até a faculdade, onde ao cursar a disciplina Educação Especial, escolhi estudar o autismo na educação. Três anos depois tive meu segundo filho, e dois anos depois o susto de saber que o mesmo era autista, afinal, a curiosidade acadêmica e pessoal é muito distante da experiência pessoal. De lá para cá não foram poucos os dilemas, os sonhos frustrados, as decepções, as revoltas internas, e as indagações (afinal, por que eu?).
O livro confiança cega de Brennan Manning, foi e tem sido decisivo em uma constante tomada de postura de minha parte. Qual? A de eliminar toda autocomiseração e a de confiar na constante e enigmática graça de Deus, que sabe fazer vir sol e chuva sobre bons e maus, e justos e injustos. A leitura do confiança cega me fez ver que na pessoa de um autista Deus me deu um dos maiores presentes, e com esta graça a oportunidade de amar irrestritamente, e a despeito de quaisquer falhas alguém além de mim mesmo.
O medo teve de dar lugar á coragem, se ser pai de um filho dito normal já é um ato de coragem, ter um filho autista demanda uma dosagem exponencialmente maior de destemor, e portanto (caso seja cristão como eu), de confiança em Deus, em seus planos, projetos e propósitos. E se você vê nestas palavras algo em comum com o que tem sido atribuído a Saramago, saiba que é isto mesmo, vivo tendo de superar não somente o medo de perder o meu filho, mas de que ele me perca, ou que não tenha quem cuide dele na minha ausência. Mas como diz o cartaz, ele é emprestado, e sei quem me emprestou meu filho e no final das contas confio a ele o cuidado (aqui).
Uma coisa é certa, não há como sentir orgulho em uma ocasião destas. Vou me explicar, a grande lição que tenho aprendido com a experiência de ser pai de autista é que, ou confio em Deus (e se fosse ateu procuraria algo que o substituísse), ou dou lugar á revolta e a impotência que a situação me coloca e afogo as mágoas em algum vicio. Fico com a primeira alternativa, e conto á cada dia com a graça de Deus e me alegro com as graças que ele me dá dia após dia.
Tenho percebido o quanto meu filho é especial, no sentido de me fazer uma pessoa melhor, de me ensinar o quanto a vida é, ou tem de ser simples. Mas precisamos ainda de mais conscientização a respeito desta e das demais diferenças, para que o mundo seja melhor para todos. Um forte abraço para você leitor e para você pai e mãe de autista.
Marcelo Medeiros, pai de autista com a graça de Deus.
