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sábado, 4 de abril de 2015

Kim Kataguiri versus Jean Wyllys



O mais novo meme da net é o vídeo de um neto de japoneses, defensor do liberalismo econômico, que infelizmente não alçou à popularidade em razão das ideias econômicas que defende, mas por haver respondido a Jean Wyllys [veja aqui]. O nome dele? Kim Kataguiri. Dono de uma excelente articulação e capacidade oratória, ele tem demonstrado segurança no que fala. Diante de Maria Lídia do Gazeta Goiás, ele foi firme em suas colocações [veja aqui]. 

O seu artigo na Folha de São Paulo [leia aqui], faz uma boa diagnose da política brasileira que tem se caracterizado por paternalismo e acomodação por exemplo. Daí, que socialistas, comunistas, liberais, ou qualquer outra posição política que se tome, a participação popular tem de ser efetiva. Do contrário a corrupção cresce a níveis insuportáveis como se tem visto aqui. Mas discordo que o liberalismo, ou qualquer outra posição, seja a solução para os problemas da nação. 

Um fator a ser devidamente observado é que modelos são arquétipos, referenciais, e tão somente, quando transformados em paradigmas engessam a ação. O que quero dizer com isto? A história mostra que em um dado momento, que foi anterior a segunda grande guerra até as primeiras décadas do pós guerra, o socialismo russo funcionou. O próprio capitalismo teve de se remodelar sucessivas vezes. Daí minha discordância de que o liberalismo defendido por Kataguiri seja solução. 

Outro ponto no qual coaduno com o autor é o de que a política brasileira com seus mais de trinta partidos políticos está para lá de doente. Não existe oposição real e a classe empresarial de fato aprendeu a tirar proveito da situação, de forma que nem entre eles se percebe real oposição ao modelo econômico que aí está. 

Sobre Jean Wyllys, estava na hora de alguém com acesso à grande mídia dar o devido troco, em outras palavras o deputado colheu tarde os frutos de sua desonestidade intelectual, visto que em sucessivas ocasiões ele acusou evangélicos e católicos de serem propagadores de ideologias homofóbicas, criando o clima de guerra que se vê no cenário nacional. Todavia evangélicos não podem e não devem nutrir tamanhas expectativas em relação a Kataguiri. 

Forte Abraço, Marcelo Medeiros.  

O Evangelho Segundo Lucas



Evangelho é uma palavra que na sua acepção original remete ao galardão concedido aos que proclamam boas novas, no caso, as notícias em tempos de guerra. Passando sucessivamente a significar o ensino doutrinário e as boas notícias anunciadas pelos apóstolos de casa em casa e no templo judaico (At 5. 42). Daí que a primeira definição que o Michaellis dá a palavra seja doutrina de Jesus Cristo [aqui].

Mas a segunda definição reflete melhor a compreensão atual a respeito do que seja Evangelho. Os quatro primeiros livros do Novo Testamento, os escritos pelos evangelistas Mateus, Marcos. Lucas e João, em que está narrada a vida e doutrina de Jesus Cristo. Dentre estes destaca-se um pela singularidade literária, predileção temática e emprego de palavras próprias de um técnico, é o Evangelho de Lucas. Que os amantes do estudo da Bíblia e fraquentadores da Escola bíblica dominical estarão estudando aos domingos pela manhã. 

AUTORIA E DATA

O primeiro ponto favorável a autoria lucana do terceiro evangelho é o apoio da tradição que desde cedo atribuiu a este médico, pouco citado nas Escrituras, é claro, os créditos pela elaboração da obra em apreço. A leitura deste primeiro tratado ao lado do segundo (At 1.1, 2), a observação dos termos comuns a ambas indica que o autor é o mesmo. Todavia este não se identifica nem no primeiro, nem no segundo tratado, tudo o que se sabe é que é alguém que se interessa por medicina e que faz emprego de termos médicos, sendo inclusive seletivo com os termos gregos que emprega. 

Exemplos? Ao se referir aos prazeres da vida (ηδονων του βιου - edone toy bioy), ele emprega um termo que se aproxima da palavra para vida no sentido biológico (Lc 8. 14), e ele o faz mesmo sabendo que vida no sentido mais pleno é ζωη (zooeé), esta é mais uma distinção entre a vida presente (βιου) e a eterna (ζωην αιωνιον - zooeé aioonion). 

Ora, levantando-se Jesus da sinagoga, entrou em casa de Simão; e a sogra de Simão estava enferma com muita febre, e rogaram-lhe por ela. E, inclinando-se para ela, repreendeu a febre, e esta a deixou. E ela, levantando-se logo, servia-os (Lc 4. 38, 39 ACF). Perceba o emprego da expressão πυρετω μεγαλω (pyretoo megaloo), que pode ser traduzida como grande, ou muita febre, e segundo Vincent, é a expressão peculiar de um médico. 

Um outro detalhe é precisão de Lucas face aos acidentes geográficos. Nas cinco referências mais imediatas ao Lago de Genesaré (Lc 5. 1, 2; 8. 22, 23, 33), ele emprega λιμνην γεννησαρετ (limnee Genneesaret), ou simplesmente λιμνην (limnee), ao invés de θαλασσαν (thalassan), expressão para mar. Estes e outros fatores indicam alguém de mente grega. 

Lucas chama sua produção bibliográfica de επεχειρησαν (epecheiresan), cujo sentido é o de concepção de uma tarefa difícil (Lc 1. 1). Nada de anormal, uma vez que ele tem pretensões de organizar (αναταξασθαι - anatazanthai - ou por em ordem), o material colhido por meio de prováveis entrevistas às testemunhas oculares (Lc 1. 2). 

O que se chama atualmente de Evangelho foi primeiramente a proclamação e o ensino apostólico (Mt 5. 42). Foi somente na medida em que as testemunhas oculares foram morrendo que surgiu a preocupação com a produção literária dos evangelhos. Todavia os eruditos insistem que tal se deu em um prazo menor ao de trina anos, o que coloca a data de composição deste evangelho aproximadamente em sessenta e dois depois de Cristo. O que justificaria a ausência de menções, em Lucas e nos demais evangelistas de relatos da queda de Jerusalém.

FUNDAMENTOS E HISTORICIDADE DA FÉ CRISTÃ

Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra (Lc 1. 1, 2 NVI). 
Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, Segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde oprincípio, e foram ministros da palavra (Lc 1. 1, 2 ACF).  
A julgar pelas palavras de Lucas na epígrafe do seu Evangelho, é possível observar que:

  1. A pretensão do autor é a de colocar em ordem os fatos que se deram em Jerusalém e nas regiões adjacentes. 
  2. O mesmo se refere aos relatos registrados pelo nome de fatos, que em grego são chamados de πραγματων (pragmaton), possivelmente a palavra que tenha dado origem ao termo pragmatismo, que é um ramo da filosofia (de cunho americano), que preconiza que a finalidade última do conhecimento é a prática. 
  3. πραγμα, ou πραγματων são termos que denotam ação, atos, feitos, indicando que os Evangelhos são registros das ações de Cristo. 
  4. Os fatos narrados se deram na história, não é sem razão que Lucas faz frequentes alusões aos personagens históricos contemporâneos dos eventos que ele pretende registrar. 
  5. Os relatos são fruto da transmissão oral e escrita de testemunhas oculares. 
  6. Estas testemunhas presenciaram os eventos narrados desde o princípio, daí a legitimidade dos mesmos como ministros da Palavra. O termo para ministro é o mesmo empregado por Paulo (I Co 4.  1), υπηρεται (hyperetai), que no linguajar médico se aplica aos auxiliares do médico principal. 
  7. Para todos os efeitos, Lucas desenvolveu seu relato a partir de acurada investigação, conforme ele mesmo dá a entender por meio das seguintes palavras: havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio (Lc 1. 3 ACF). 
  8. Ao que parece Lucas dirige oseu evangelho a uma pessoa de posição elevada por nome de Teófilo, que é chamado de κρατιστε (kratiste), cujo sentido é o de nobilíssimo, sendo aplicado exclusivamente a quem está em eminência (At 23. 26; 24. 3; 26. 25). 
  9. A despeito da posição de autoridade ocupada por Teófilo, pode-se perceber que ele era um discípulo, uma vez que o verbo κατηχηθης  (kateecheethees) é a palavra que dá origem ao vocábulo catequese. Mais do que material para discipulado, Lucas pretende imprimir em Teófilo a certeza dos fatos em que o mesmo foi instruído. 
  10. ασφαλειαν (assphaleian) é um termo que junta α (de negação) com σφαλειαν (que segundo Vincent é cair), conferindo noção de estabilidade, segurança contra o erro, podendo ser traduzida como verdade e solidez. 
ALGUMAS VERDADES RESSALTADAS EM

Lucas é acertadamente o Evangelho da salvação universal. Nele Jesus é chamado de salvação, que preparaste à vista de todos os povos: luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel, teu povo (Lc 2. 30 - 32 NVI). Por este motivo asseguradamente é afirmado: E toda a humanidade verá a salvação de Deus  (Lc 3. 6 NVI). 

Olhando para os seus discípulos, ele disse: Bem-aventurados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus (Lc 6. 23 NVI). Lucas demonstra inegável olhar para com os pobres, que aqui não são pobres no sentido dos poucos recursos que possem, mas os seus discípulos, ou  aqueles que sabem que nada podem fazer por sua salvação. É a estes que  o ministério de Jesus se  dirige. 

O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos (Lc 4. 18 NVI). Não é sem razão que ele atenta para a viúva que em sua pobreza dá em oferta tudo quanto possui (Lc 21. 2 - 4), que no banquete, os párias sociais são privilegiados (Lc 14. 21ss). 

Mas Lucas também é o Evangelho em que a mulher assume papel significante. A pecadora que ungiu Jesus e lavou os pés recebe a honra de ter o seu ato lembrado onde o Evangelho for pregado (Lc 7. 37 - 50). Algumas mulheres que auxiliavam o ministério de Jesus são apresentadas aqui: e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens (Lc 8. 2, 3 NVI). 

Lucas mostra Jesus orando. Ele orou no batismo (Lc 3. 21, 22). A despeito da multidão que era atraída por seu ensino e milagres ele é descrito como alguém que gostava de se retirar para orar. A sua fama, porém, se propagava ainda mais, e ajuntava-se muita gente para o ouvir e para ser por ele curada das suas enfermidades. Ele, porém, retirava-se para os desertos, e ali orava (Lc 5. 15, 16 NVI). 

Após os momentos de conflito, decorrentes do conflito de interesses entre Jesus e os fariseus ele se retirou para orar. Logos após a noite de oração, ele chama os seus discípulos para que estes façam parte de seu colegiado. E, olhando para todos em redor, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele assim o fez, e a mão lhe foi restituída sã como a outra. E ficaram cheios de furor, e uns com os outros conferenciavam sobre o que fariam a Jesus. E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou a noite em oração a Deus (Lc 6. 10 - 12 NVI). 

Tantos em Atos quanto no Evangelho Lucas demonstra um interesse intenso no Espirito Santo (Lc 1. 15, 35, 41, 67, 80; 2. 25 - 27; 4. 1, 14, 18). Minha oração é que Deus por Cristo Jesus nos habilite a perseverar nos estudos das verdades fundamentais das boas novas de Cristo. 

Marcelo Medeiros

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Pastor Antônio Gilberto fala de Calvinismo



Sempre vi, e continuo a ver, o Pastor Antônio Gilberto como modelo de formação acadêmica a ser seguido por mim. Ele é uma raridade no meio pentecostal, marcado pela estranha ênfase no emocionalismo, na experiência prática em detrimento dos estudos, principalmente no que tange ao campo teológico. Daí a importância deste ícone das assembleias de Deus para jovens que pretendem unir piedade com erudição intelectual. 

Li alguns livros do autor, dentre os quais A Bíblia Através dos Séculos, e dois que falam sobre a Escola Dominical. Confesso que do pouco que li nada pode perceber a respeito de sua posição teológica no tocante à doutrina da salvação, ou seja, não sei dizer se o mesmo é, ou não reformado. E sinceramente, não interessa a esta altura do campeonato. 

Li um artigo no blog Teologia Pentecostal a respeito de vários temas, dentre os quais calvinismo, predestinação, arminianismo e outros receberam devida abordagem. Confesso que pouco entendi da posição do pastor supra, mas um fator importantíssimo ao debate veio à tona: a preocupação de que uma vez adotada a fé calvinista o Brasil se torne uma Europa, veja o tópico três [leia aqui]. Eu gostaria de fazer algumas observações:

  1. A frase uma vez salvo, salvo para sempre é uma afirmação do senso comum não encontrada na Bíblia, mas que expressa a verdade bíblica da doutrina da perseverança dos salvos. Segundo esta, os salvos, os eleitos perseverarão, pois estes possuem no penhor do Espírito (Ef 1. 13, 14; 4. 31), no caráter pleno da obra de Deus (I Co 1. 8, 9; Fp 1. 6; I Pe 5. 10) e no poder de Deus a garantia de que perseverarão (Jd 23, 24). Face ao fundamento e apoio bíblico desta doutrina, a questão a ser colocada é se esta é uma obra sinérgica, ou monergística. 
  2. A Bíblia trabalha com a ideia de apostasia e nenhum apóstolo incentiva o pecado, ou a falta de zelo. Mas mesmo nas exortações pertinentes ao perigo de desvio da fé, se percebe que os escritores bíblicos julgam estar falando com pessoas crentes (Hb 10. 34, 35, 38, 39; Jd 3 - 5, 19). 
  3. Calvinistas e arminianos não tem a mínima dificuldade de reconhecer que a eleição bíblica se dá por Cristo e em Cristo. A questão está no que isto vem a significar e creio que para ambos tem sentido diferente. 
  4. Para o arminiano a eleição é baseada na presciência de Deus, que elege as pessoas de acordo com a decisão futura delas em abraçar a Cristo. De imediato esta contradição foi percebida por Wayne Grüdem em sua Teologia Sistemática, e tratada como uma falsa solução. Mas o argumento de bíblico de que não há um justo, nem um sequer, ninguém que busque a Deus, é mais do que suficiente para anular esta concepção. 
  5. Colocar a culpa do esfriamento religioso da Europa no calvinismo é injusto, fatores históricos diversos precisam ser levados em conta. a) A prosperidade criada pelo capitalismo, foi identificada por Weber como causa de um futuro esfriamento da religião, b) associe a esta o crescimento da secularização (ou desencantamento de mundo), e é possível vislumbrar o ambiente europeu. c) Nesta equação não se pode deixar de considerar as guerras entre arminianismo e calvinismo. d) Estas redundaram no Evangelicalismo que devido ao seu caráter superficial permitiu que a cultura minasse a fé em países de primeiro mundo. É contra estas coisas que cristãos precisam se armar. 
  6. Os males do arminianismo não se resumem à autonomia exacerbada do homem, que na verdade está mais para o pelagianismo revivido por Finney do que para qualquer outra posição. 
  7. Enquanto doutrina, o arminianismo discorda do calvinismo apenas a partir do segundo ponto, e deixa o último em aberto. Esboço minha posição em um artigo que pode ser lido neste blog e acessado neste link. 
Mas sou forçado a concordar com a opinião do autor de que a melhor opção é o equilíbrio bíblico, que aliás vejo em calvinistas como Spourgeon, Lloydd-Jones e no evangelical Stott, e que de certa forma esboço em artigos que estão neste blog, dentre os quais este texto, este e este aqui. Que Deus em Cristo vos abençoe. 

Marcelo Medeiros. 
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