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sábado, 2 de junho de 2018

O inferno somos nós uma apreciação



Em Abril ministrei uma palestra no espaço monografarte em Campo Grande a respeito do inferno na perspectiva de C. S. Lewis, que foi a temática do meu TCC em Ciências da Religião. Neste período tive de fazer muita divulgação e nesta atividade percebi o quanto o brasileiro em geral (resguardadas as exceções), lida com aquilo que julga conhecer, e na verdade, não conhece. Pior, há uma preocupação com a manutenção da doutrina do inferno à todo e qualquer custo, mesmo que não se faça a mínima ideia do que os textos bíblicos queiram dizer. 

Por inúmeras vezes tive de repetir que a maioria dos textos não é e nem pode ser literal, que o Pentateuco não traz ideia a respeito da vida do homem após a morte, que se a questão fosse fechada não haveriam grupos que desacreditassem da vida após morte no tempo de Jesus, e que nossa percepção sobre o assunto baseia-se mais em Platão do que nas Escrituras. E o mais importante, que creio na dimensão existencial do inferno, EMBORA NÃO POSSA MAIS CRER NESTE COMO UMA REALIDADE GEOGRÁFICA

Na medida em que faz as suas escolhas pessoais, o homem torna-se seu próprio inferno pessoal. A leitura conjugada de Crônicas de Nárnia, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, e O Grande Abismo sugere algo mais interessante do que a fábula mítica corrente. O que se faz inferno, não é um ser humano pleno, mas o que sobra de um ser humano sucessivamente desconstruído por suas más escolhas.  

Recentemente passei por uma experiência ainda mais intrigante. Postei a fala da Monja Coen em um grupo "cristão". Em primeiro lugar, sou cristão. Segundo, o fato de o ser não me impede de apreciar o pensamento de outras religiões (algo que todo leitor de Platão e Sócrates faz por tabela, uma vez que o primeiro tem claras influências do orfismo [uma seita de mistério da religião grega, que apontava o caminho para a quebra do ciclo de encarnações], e o segundo inicia sua missão como filósofo após a consulta de Querofonte ao oráculo de Delphos]). Terceiro, entendo que caminho na verdade, que é Cristo, mas que nem o Pai, e nem o filho me deram o monopólio da verdade. 

A última das razões é a Teologia da Imago Dei, que insistem em varrer para baixo do tapete. Todo ser humano, por mais caído que seja, representa o domínio de Deus sobre a natureza, o Reino Dele, ninguém escapa. Mas a Teologia Reformada afirma que por ser a imagem de Deus em algum momento ele pode afirmar a VERDADE DE DEUS, como o faz com a ética, e as leis justas. 

A postagem da fala de uma budista foi o suficiente para mostrar que não estamos preparados para a cultura de paz. E tudo por conta do medo. Medo de que alguém faça confusão entre Cristianismo e Budismo, ou que ache que ele, o budismo é uma coisa boa, ou uma opção viável ao cristianismo. Sei que ambas as visões são destoantes, não concordo com tudo que os budistas dizem e falam, mas isto não me dá o direito de silenciar a verdade quando ela é dita por alguém, só porque esta pessoa não joga no meu time de coração. Por outro lado reconheço que um Cristianismo com base em discernimento é um caminho demasiadamente estreito. 

O livro? Reconheço que de ótima qualidade, me espanta a percepção que ambos possuem daquilo que entendo como sendo a verdade. Me assombra o conhecimento de Karnal a respeito da tradição cristã católica ocidental, prometo ler outros livros dele, tal como fiz com os de Luís Felipe Pondé, e faço com os de C. S. Lewis. 

A construção de uma cultura de paz, passa pela construção de uma cultura de não medo (a despeito de o medo funcionar em algumas ocasiões como um sinal de alerta de um perigo eminente), de uma cultura de maior ênfase no diálogo, do que na agressão. E para o diálogo, necessário se faz ouvir o outro, coisa que honestamente, nós cristãos (não sem razão, é claro), estamos nos tornando indispostos, em razão da militância errada que se tem praticado. 

Acho impressionante a noção de pecado original presente em ambos, na verdade no Budismo isto é ate´mais radical, visto que o problema não é algo externo a cada um de nós, mas nós mesmos (o que se aplica à questão da violência em todo o livro, visto que nos mesmo se afirma que toda reação violenta contra a violência é uma faceta do mal que trazemos em nós). Confesso não fecho de todo nesta questão, mas vejo aqui um ponto de intercessão, que viabiliza o diálogo entre cristãos e budistas. 

De minha parte resta orar para que o Espírito prometido nos encha de discernimento e nos capacite a distinguir entre o que é bom e o que mal, indistintamente dos r´tulos e embalagens com os quais ambos se apresentem a nós. Somente assim se supera a cultura de violência e se estabelece uma cultura de paz. Esta não demanda que se pense igual, que haja homogeneidade, mas que haja hermonia. Em música Harmonia é a execução simultânea de três notas. A diferença de ambas é mantida, mas a execução simultânea dá um novo colorido à melodia e ao ritmo. A paz funciona assim. 

Sobre a questão do inferno, cabe aqui mais um esclarecimento. Platão entendia o inferno como parte de uma dimensão supra lunar e para elaborar suas ideias usou categorias órficas. Santo Agostinho fez uma síntese de neo platonismo e tradição cristã e apontou o inferno como sendo o fim do projeto humano, mas aqui o inferno passa a ser simbolo de uma vida distanciada e privada de Deus. Lewis confere dimensão existencial, psíquica e social ao inferno, embora não descarte a tradição popular sobre o assunto. 

Sarte em sua peça entre quatro paredes afirma que o inferno são os outros. Karnal e Coen apontam que são os outros, mas também somos nós mesmos com nossos medos. Gays com medo de que políticos evangélicos instaurem uma nova idade média, evangélicos com seus medos de que gays instaurem uma ditadura que não permita a eles o exercício da pregação do evangelho, capitalistas com medo de socialistas, estes com medo daqueles e a dinâmica do medo não cessa. 

Me preocupo seriamente com meu futuro, e necessariamente com a minha eternidade, mas sei que esta decorre daquilo que estou construindo agora. Tal como no xadrez, para usar uma imagem de Lewis, o resultado final se desenha já nas primeiras jogadas. Não creio que os que vivem em guerra aqui gozem a paz no além. O desafio do cristão é muito mais pesado, demonstrar com a vida presente a realidade do Reino futuro. 

Aos que desejarem ler o livro fica aqui a minha indicação e o desejo de uma excelente leitura. Que Deus os abençoe. 

Marcelo Medeiros. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

Nota de Repúdio


Não sou muito fã do discurso daquilo que chamam de a esquerda brasileira. Mas venho aqui manifestar meu repúdio ao ato covarde que ceifou a vida desta vereadora, cuja trajetória intelectual, acadêmica e política foi tragicamente interrompida. Ato contínuo convido aos meus irmãos evangélicos e demais leitores deste blog a fazerem o mesmo. 

Por favor não me venham com aquele discurso do tipo: e as mortes de policiais e cidadãos comuns? Falo e protesto contra ambas aqui neste espaço. Morte alguma pode ser naturalizada, nem a de agentes de segurança, nem a do Zezinho da comunidade, da Paulinha da zona Sul e muito menos a da vereadora. 

Daí meu total alinhamento com a nota de repúdio da OAB. Não é hora de brincar de guerra fria, de proferir discursos maniqueisantes, de mensurar qual morte é mais importante. A hora é de solidariedade, de ruptura com o discurso e com ideologias que somente servem para aprofundar ainda mais a divisão social e inviabilizar um discurso que analise os reais problemas de nossa nação.

Aqui cabem as lições do mestre Paulo Freire, cuja proposta educacional passava pelo referencial dialógico. Uma das formas para se inviabilizar a revolução era dividir para comandar, ou governar. E uma das formas para dividir é alimentar o ressentimento e a paixão e com isto inviabilizar o diálogo, sem o qual não há verdadeira democracia.

Na medida em que reflito sobre os problemas políticos que me cercam, percebo que o fervor ideológico pode ser instrumentalizado para impedir o diálogo e mascarar questões comuns. A morte de Mariella representa um tiro no discurso de representatividade da mulher, do negro e do favelado? Sim. Mas é igualmente um tiro na ascensão social de quem vem de comunidades carentes e vê na educação um meio para tal.

Mas há um elemento que não podemos deixar escapar. O motorista também morreu, e antes que matassem uma vereadora cuja trajetória foi marcada por conquistas sociais, acadêmicas e políticas, mataram uma policial negra há alguns anos atrás (na verdade duas), e três mulheres na semana passada.

Não ignoro a possibilidade de crime político, embora não pretenda especular sobre nada aqui, apenas desejo reforçar fatores sociais e históricos que promovam algo do qual nossa sociedade e forma de fazer política carecem: SOLIDARIEDADE. Ou o entendimento de que estamos no mesmíssimo barco e daí, morte alguma possa ser naturalizada. 

O momento é de solidariedade, repito, pois se faz necessária. É tempo de ensaio de uma união, onde as diferenças político partidárias sejam colocadas de lado e o bem estar de todos os nossos cidadãos, bem como os direitos destes sejam pauta da discussão. Salomão fala que na morte os homens tendem à reflexão e por este motivo podem se tornarem mais sábios. Quem sabe?

Marcelo Medeiros

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Fátima Bernardes e sua Polêmica Enquete



Raramente invisto o meu precioso tempo com programação televisiva. Mas por razões bem óbvias e passíveis de serem verificadas nas postagens deste blog, invisto em militância política, educacional e teológica. Meu Facebook tem sido instrumento de divulgação e viralização de postagens com tais teores e pretendo replicar uma por uma neste blog.

O momento presente tem sido marcado pela ação de políticos que visando consertar os rombos da crise econômica têm buscado subtrair direitos trabalhistas. Para tal usam de todo expediente, inclusive o de depreciação do funcionalismo público. Um dado pontual é o pacote de maldades enviado pelo governador do Rio à ALERJ.

Não bastasse tudo isto, a apresentadora Fátima Bernardes propõe uma das enquetes mais polêmicas que se poderia propor. Entre a vida de um traficante ferido e um policial baleado na cabeça, quem você socorreria? Durante o programa a maioria optou pelo traficante. Para o desastre da mesma no sábado uma aeronave policial cai durante operação na Cidade de Deus e os tripulantes da mesma, todos policiais militares, são executados. Esta é a versão a que tive acesso. O resultado foi uma semana de ódio nas redes sociais contra Fátima Bernardes. 

Em meio a tanta cordialidade (falas com o coração e com a emoção), uma fala sensata de ninguém mais do que Maurício Zágari (leia aqui), indica que na mente cristã tal dicotomia não deveria existir. Ao que acrescento comentando que no evangelho Jesus atende livremente o centurião romano, a mulher siro fenícia e ao ladrão da cruz. Mas não há como ouvir tal enquete como esta da Fátima Bernardes e se calar. Não se trata de partido, mas da manifestação deliberada de repúdio ao modo como as questões foram colocadas.

Vai render e muito ainda. Nem tanto pelo posicionamento da rede de TV, conhecido de todos já. Vai render pelo processo incessante de depreciação que o funcionalismo público está sofrendo por parte dos políticos e da grande mídia, faz tempo. Mas a dicotomia tem de ser superada sim. E creio que o Evangelho seja a chave, afinal nada mais imparcial e superador do que o exemplo de Cristo. 

Em se tratando do Evangelho, nele se vê Jesus atendendo a dois centuriões (Mt 8; Jo 4. 44ss), como no caso de Cornélio (pra não falar naqueles soldados romanos que ouviram a pregação de João Batista, e creram). Há que se lembrar aqui, que na Cruz o ladrão que não creu, antes fez coro com a multidão descrente foi condenado. Logo, o critério não é ser policial, ou bandido, mas crer.

Forte Abraço, em Cristo, Marcelo Medeiros 

domingo, 20 de novembro de 2016

Apenas um sol nublado no céu do Brasil


O dia de hoje não é mais um em meio a tantos vividos e morridos. Não, de forma alguma. Hoje possivelmente seja o sepultamento de quatro policiais mortos em operação policial na Cidade de Deus. O mais cruel é que a sociedade já se acostumou com a morte dos mesmos, mais do que isto, aprendeu a naturalizar os óbitos de policiais através de frases do tipo: eram os riscos da profissão deles. Curioso é que nenhum defensor, ou defensora dos direitos humanos esteja disposto a dizer algo similar com respeito aos marginais, que são tidos como vítimas da sociedade.

Na semana de luta de policiais civis e militares pela manutenção de seus direitos, veio a pior das demonstrações do quão desumana é o exercício das funções destes profissionais, que se dedicam a amenizar e corrigir aquilo que eles não criaram, o caos social. A recompensa pela missão hercúlea são projetos que o honestíssimo governo deste estado cria para subtrair direitos e o descaso, ou ausência de comoção diante de uma ato brutal como este.

Resta-me orar para que Deus conforte Às famílias e conceda às mesmas a necessária força para prosseguirem; que ele oriente a nossa mais que desorientada sociedade, a fim de que diante de ocorrências como estas sintam o real repúdio ao invés de racionalizarem tais tragédias. Que haja maior solidariedade e repúdio a toda ação que vise subtrair quaisquer direitos que sejam, de policiais, médicos e professores. Que a classe artística e política corem de vergonha por toda palavra, opinião e ação injuriosa para com estes heróis sociais. Que se reveja a estereotipia de que todo agente da lei é um opressor. Somente assim, teremos em cada policial que volta para sua família após uma missão, um sol que nasce no céu do Brasil.

Marcelo Medeiros.  

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Redução da maioridade penal



O assunto do momento é a aprovação, na câmara do projeto de redução da menoridade penal. Antes da aprovação no senado é perceptível a reação que o mesmo tem causado junto ao público. Não faltam aqueles que identificam o processo como um retrocesso ora em virtude do contexto mundial, ora em razão do processo histórico dos direitos da criança e do adolescente neste país. 

Os que se manifestam favoráveis o fazem em razão da escalada da violência, (falo dos assaltos cometidos por menores nas calçadas dos centro do Rio e do emprego dos mesmos como mão de obra no tráfico de drogas). Mas não posso deixar de ver esta visão como maniqueísta. A violência não é algo que está lá fora, mas que está dentro de cada um, e da qual se escapa mediante mecanismos existenciais, tais como escrever, ler, estudar, praticar esporte, trabalhar, crescer e ascender socialmente. 

Do outro lado da ponta está os que sinalizam a educação como saída para o problema do menor infrator, o que entendo como igualmente ingênuo, e vou explicar o motivo. Educação é mais do que escolarização, é o processo de transmissão de valores, saberes e práticas. Ela transcende a escola integral, e a diversidade de teorias pedagógicas. 

Desde oitenta e seis, com a candidatura de Darcy Ribeiro lido com este ideal de que a educação seria a solução para os problemas, dentre os quais, a escalada da violência. Mas ele não explica o fenômeno da violência na classe média, por exemplo, sem falar da influência de uma visão acrítica da educação como redenção. Mas o pior problema para os que defendem tal opinião não esta aí. 

Entendo que o maior problema para os que defendem que a saída para este quadro seja o investimento em educação seja tornar tal proposta efetiva. Da maneira como se fala, a educação ideal é sempre algo que está por se concretizar. Algo utópico, enquanto a violência se apresenta como concreto. Daí a descrença de muito gente boa em relação a esta proposta. 

Creio que no fundo, no fundo as pessoas que defendem a redução da menoridade penal sabem que a mesma não é a solução, mas o grito por medidas efetivas e o acuo em que a população se encontra promove tais medidas como saídas messiânicas, ao passo que são meras válvulas de escape. Eu gostaria de apresentar nas breves palavras que encerram este post. 

Creio que o que falta a quem se entrega à marginalidade é esperança. Não falo da espera letárgica que paralisa, mas esperança do verbo esperançar, a capacidade de criar utopias, falo de propostas que visem melhorar o mundo que incentivam as pessoas a olharem para o horizonte. Enquanto se olhar com saudosismo para o passado a geração atual transmitirá às gerações que virão a ideia de que a vida não é boa, não presta. E face a esta visão negativa nem a educação resolve. 

Me lembro que ao entrar na escola tinha um horizonte de possibilidades profissionais, sociais, e afetivos á minha frente. Qual o horizonte de quem se entrega para o tráfico, de quem opta por praticar pequenos delitos, de quem barateia a vida alheia? Mais do que isto que horizonte um país como este oferece? Corruptores e corruptos beneficiados por brechas na lei, por esquemas partidários, pela letargia do judiciário (tudo isto contrastando com gente humilde que é presa por ter roubado para comer)? 

Para mim, o clima político, a forma de se fazer política nesta nação já é por si só indício de que está faltando esperança. A aposta em medida paliativas como esta da redução da menoridade penal, a ascensão de politicas salvacionistas (sejam de esquerda, ou de direita), são claros indicadores de desespero. Repito aqui a frase de João Alexandre: onde estará a esperança outrora perdida? A saída? No refrão da música Brasil, olha pra cima.....


Marcelo Medeiros

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A triste notícia da semana


Confesso que fiquei tão estarrecido com as imagens desta matéria que me resguardei de escrever algo sobre ela. A história é bem simples, e pode ser conferida na foto abaixo.


  1. Um dos assaltantes, ao que tudo indica, um menor de idade, observa um casal, identifica o alvo, o cordão do rapaz.
  2. O bandido arranca o cordão pelas costas do rapaz, sem dar chance de reação ao mesmo.
  3. O rapaz persegue o menor, e, ao que parece consegue derrubar o mesmo.
  4. Mas é acuado por supostos comparsas que além de darem plena cobertura ao menor, ainda roubam o óculos do mesmo.
 
Minhas perguntas são: a quem vamos culpar por isto? Mais ainda, porque o Globo, e demais jornais não deram cobertura a esta notícia? Seria pelo fato de que a mesma revela o inconteste fato de que mesmo diante da realização de grandes eventos, a nossa segurança é por demais frágil? Onde está aquela mesma população que se revoltou, e com justiça,contra os justiceiros que amarraram o menor em um poste; mas que quase nunca se manifesta contra tais atos? E os direitos humanos? onde estão aqueles nobres e zelosos deputados que de forma prestimosa se articularam para calar a boca de uma jornalista que nada mais fez além de expor a hipocrisia social.
Antes que alguém apareça aqui contestando a reação do rapaz, gostaria de saber qual seria a sua sugestão em termos de reação a atos como este. Devemos nos calar como ovelhas mudas, recuar para que junto com os nossos cordões levam nossas calças? Responda: é este o projeto de sociedade que você defende? Há algo a ser feito para melhorias efetivas ocorram?
Antes que alguém me pergunte se sou favorável a vingança pessoal, vou dizendo que não. A aplicação das penas cabe ao Estado, que biblicamente foi levantado como potestade espiritual para o louvor das boas obras e condenação das más. Mas sei também que este Estado é composto por pessoas caídas, e que volta e meia os valores se invertem. Mas o que fazer quando isto acontece e conforme delineado em Utopia, o estado passa a produzir as engrenagens da violência, conforme exposto acima?
 
Marcelo Medeiros
 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Caça às bruxas


Uma caçada brutal e cruel, é assim que defino a ação de moradores de Guarujá, que com base exclusivamente em um boato disseminado em um site resolveram fazer justiça com as próprias mãos, e espancaram até a morte a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, tudo em razão de um boato ligando a vítima a supostas mortes de crianças em rituais de magia negra (aqui).
O fato traz à tona a dinâmica do "fazer justiça com as próprias mãos", algo que está ligando a uma séria deturpação do senso de justiça das pessoas. Outro fator a ser seriamente considerado é o hábito de demonizar o outro. Ele ocorre mediante a necessidade de se transferir a culpa dos males do mundo para outra pessoa, por exemplo, não faltou jornalista para insinuar uma possível responsabilidade de Rachel Sheherazade em fatos análogos a este, como se o linchamento fosse algo tão novo, ou que tenha vindo a ocorrer exclusivamente em função do comentário infeliz da jornalista do SBT.
O sistema de transferência de culpa para os terceiros pode ser explicado mediante categorias psicológicas, psicanalíticas e teológicas. Como teólogo que sou me atenho á última. Um dos primeiros efeitos do pecado nas relações interpessoais, foi justamente este, o homem, ao ser indagado de sua condição culpou a mulher, e a mulher a serpente.
Já o fazer justiça com as próprias mãos tem mais a ver com a inercia estatal, e a escalada crescente da violência, algo que ficou implicitamente explícito no comentário da Rachel Sheherazade, o que pode ser constatado pelas notícias vinculadas a violência e que podem ser acessadas nesta página. Até um proeminente jornalista e um pastor do caminho embarcaram nesta canoa furada (para mais repostas à fraude em questão veja aqui).
A morte de tantas outras pessoas inocentes é o produto de uma equação que combina senso de justiça distorcido, ausência de aparato estatal, escalada crescente da violência e inercia dos mecanismos estatais de inibição. Caso você não seja crente pare a leitura por aqui, mas caso o seja, some a isto o pecado e você verá que a lógica dos espancadores é a mesma de quem culpa o outro pelos males do mundo.
 
Marcelo Medeiros.

terça-feira, 15 de abril de 2014

No beco onde explode a violência


A notícia da morte de um jovem negro, supostamente portador de deficiência mental, por espancamento associada a um relatório da ONU que coloca onze cidades brasileiras entre as trinta mais violentas do mundo trouxe extremo alarme ao meu coração. Não é de hoje que , na condição de cristão e cidadão, tenho me incomodado com este assunto. Como crente me pergunto onde tenho falhado no que tange à missão de preservar e influenciar este mundo, como cidadão me pergunto o que posso fazer de forma efetiva para que tais vitimas não continuem nesta condição, para que meu discurso em prol do oprimido não se esgote em palavras momentâneas, afinal, não me cabe amar apenas de palavra, mas em obra e em verdade.

Há que se perguntar em meio a este contexto pelo papel do Estado, visto que segundo a noticia a policia chegou apenas duas horas depois. O leitor atento da Bíblia sabe que não cabe ao ser humano a retaliação pelo mal, uma vez que a Deus pertence a vingança (Rm 12. 19), mas que o Estado, biblicamente falando, é sim, um instrumento de justiça para louvor das boas obras e condenação das más, e é exclusivamente neste condição que se aplica a recomendação apostólica de obediência ao poder estatal (Rm 13. 1 - 5). Mas o que acontece quando a maldade humana se soma à omissão, flagrante injustiça, ou ineficiência do mesmo? Quando agentes da lei morrem e não se faz menção à morte dos mesmos, antes se trata do fato como se natural fosse (aqui)?

A despeito de qualquer tentativa de associação do fato com discursos acalorados (aqui e aqui), quero lembrar que linchamentos sempre ocorreram, e desconfio que da mesma forma que jovens negros morrem nas mãos de uma turba enfurecida, também morrem nas mãos dos traficantes nas cadeias, mas infelizmente tais dados não são dispostos na mídia. Embora não esteja aqui para repetir aquele velho lema: culpa do governo! Infelizmente o Estado falhou sim na distribuição da justiça e na criação de meios que garantam uma condição digna, bem como desenvolvimento humano, o que na minha opinião não resolveria o problema (aqui), mas amenizaria e teríamos um Estado cumpridor do seu papel bíblico.

Nesta falha nem os direitos humanos escapam. O papel dos representantes dos mesmos tem sido ressaltado na mídia no sentido de defender os direitos das minorias, infelizmente quando estas já são vítimas do Estado. Em outras palavras, aqui os Direitos humanos além de não se manifestarem de forma igualitária, ainda chegam com aquele atraso, uma vez que o estrago já foi feito, como no caso do rapaz. Há de se pensar em direitos humanos com u papel mais ativo, e mais igualitário.

De igual modo me pergunto pela Igreja deste rapaz, ou da mãe do mesmo, que além de se dizer cristã, invocou a justiça divina quanto ao fato ocorrido. Creio que não precisaríamos estar comentando este assunto aqui caso algo tivesse sido feito. Sei que Deus pode ter lá os seus planos e mesmo o jovem tendo sido linchado ele poderia ter dado uma mãozinha, como no caso do policial, mas mesmo os milagres bíblicos se dão na cooperação do homem com Deus.

A música O Beco, sucesso com o grupo Paralamas do Sucesso, demonstra que violência não é novidade alguma em nosso país. Violência sempre esteve ao lado (falo no sentido de conviver), da miséria, da religião, e dos nossos prazeres fugazes. A novidade é que somos a sexta economia mundial, mas temos um dos piores quadros em educação, saúde e segurança, além de um baixíssimo IDH (índice de desenvolvimento humano), e esta contradição tem sido fator preponderante para o crescimento da violência, uma vez que fica cada vez mais evidente que os meios que a população empregava para amenizar não estão funcionando. É algo para se pensar
Marcelo Medeiros

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Dois pesos e duas medidas


Aprendi a desde cedo reconhecer o valor da imprensa no tocante á veiculação de informações. E cedo ainda aprendi como é importante que se filtre as informações recebidas por meio das nossas mídias, sejam analógicas, ou digitais. E desde então na mesma proporção com que vou com sede em busca das novas noticias, as examino criteriosamente. Dois fatos curiosos desta semana me chamaram a atenção. De um lado a morte de uma policial militar de 22 anos, lotada na UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do Parque Proletário, no Complexo da Penha, zona norte do Rio. O nome dela? Alda Castilho foi ferida na região lombar, pelas costas. Socorrida para o HEGV (Hospital Estadual Getúlio Vargas), não resistiu e morreu no centro cirúrgico (aqui e aqui). De outro a humilhação de um adolescente suspeito de praticar furtos na zona sul foi espancado, ferido com faca e amarrado nu a um poste na avenida Rui Barbosa, no Flamengo (aqui).

Ao leitor, quero desde já esclarecer que nem de longe pretendo comparar uma mulher negra, trabalhadora, com um menor suspeito de crimes, ou infrações, como queira. A discussão que quero provocar aqui é de outro caráter. É a respeito da hipocrisia social, e de como a mesma se reflete no modo com o qual a mídia lida com determinados fatos. Nas exibições de ambas as manchetes percebemos que no tocante ao ocorrido com o menor, a imprensa mostrou a indignação pública, ao passo que com a policial, apenas manifestações por parte de representantes do poder público, e mesmo assim, a ênfase recaiu sobre a afronta ao Estado. Este foi afrontado? Sim! Mas uma mãe teve de viver com o horror de sepultar uma filha. Jovens colegas viram os sonhos de uma colega serem interrompidos pela violência. E isto foi uma afronta à humanidade! E por que não houve a uma única exibição de manifestação pública? Respondo nas linhas abaixo.

Em primeiro lugar os direitos humanos são voltados para pessoas que podem ter o seus direitos violados com facilidade, e policiais, pasmem, estão fora desta conceituação, na verdade são vistos como potenciais violadores dos direitos humanos. Em suma, nossos direitos humanos são profundamente contaminados pelo que Pondé chama de praga Politicamente Correto. Antes que você me venha com aquele papo de estatísticas de transgressões e delitos em que policiais foram envolvidos, gostaria que você aplicasse aos mesmos o mesmo critério que aplica a casos como o do menor, algo do tipo: ninguém merece este tipo de tratamento. Quem sabe assim você não conclua junto comigo que nada justifica a morte violenta de um policial militar?

Em segundo lugar, o critério adotado pelos defensores dos direitos humanos deveria mudar. Nenhum bandido armado é frágil. E se o marginal é um produto do sistema, coisa que em parte creio sim que o seja, mas lembrando, eu disse: em parte; o policial também o é, afinal, não houvessem injustiças não haveria violência, e com isto nem a figura do marginal, que por sua vez torna necessária a do tão odiado, ou ignorado, ou rejeitado policial.

Por último, creio que a sociedade aprendeu a naturalizar a morte de policiais militares, mesmo que sejam mulheres, que estas sejam negras, que tenham deixado saudades nos pais (tomados pelo horror da morte de quem deveria lhes enterrar). Creio ainda que por detrás da naturalização de atos hediondos como este esteja um processo de desumanização da figura do policial, que não são mais vistos como pessoas, mas como engrenagens em uma maquina, a da segurança pública. Em outras palavras são servíveis apenas na medida em que funcionam, se morrem, e deixam de funcionar, são substituídos. Mas quem é amigo, pai, mãe os enxerga além da funcionalidade, e nestes fica o vazio. Creio que uma sociedade constituída de seres humanos, e com tendências à solidariedade (na visão dos especialistas, é claro), deveríamos estar sentindo a dor dos genitores, e talvez nos colocando no lugar deles. Pode parecer mórbido, o povo da alegria, do samba, do futebol cultivar tais sentimentos, mas é uma prática muito mais humanitária do que a naturalização.

A respeito da imprensa, começo a vislumbrar um sinal de esperança no ar. Há alguns meses atrás O globo (quem diria?) publicou uma reportagem assinada por Maria Cecilia de Souza Minayo que trazia como título a seguinte frase: Policiais não são maquinas de segurança (aqui). A autora ali destaca o que todo profissional da área sabe por experiência própria: carga horaria excessiva, ansiedade, stress, precárias condições de trabalho. E não são poucos os que somadas as condições citadas, ainda recorrem aos estudos como forma de melhoria social, o que aumenta ainda mais a carga sobre este trabalhador. O problema é que estudos como este são uma agulha no palheiro em meio a tantas produções antiquadas, do tipo que coloca a culpa de tudo na policia.

Os algozes da policial são tão covardes quanto os que amarraram e expuseram o menor ao vexame. Na verdade tenho razoes pessoais para crer que neste último caso houve mais consideração para com a vida humana do que no primeiro. Que ambos sejam devidamente punidos. Que do mal seja queimada a semente, que não tenhamos mais de ver algo tão cruel como a interrupção da vida de uma jovem cheia de expectativas. Que lutemos por este ideal, e que fatos como este não sejam vistos como naturais pode nenhum de nós. Que grupos manifestantes dos direitos humanos aprendam a se manifestarem contra tamanha crueldade.
Marcelo Medeiros

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Causas da Violência





A injustiça como causa da violência
 
O profeta Habacuque clama a Deus nas seguintes palavras: Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás? Por que razão me mostras a iniqüidade, e me fazes ver a opressão? Pois que a destruição e a violência estão diante de mim, havendo também quem suscite a contenda e o litígio. Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, e a justiça se manifesta distorcida (Hc 1. 2 - 4).
Notemos por este texto que a maior marca da violência não são as agressões, mas a exclusão decorrente da iniquidade e da opressão social. O ímpio, diz o texto, cerca o justo, e a justiça se manifesta distorcida. Se a justiça é o reconhecimento do direito do próximo, a injustiça é a negação, é o bloqueio, a obstrução. Salomão fala de pessoas que não conseguem dormir enquanto não fazem o mal; perdem o sono se não causarem a ruína de alguém, e completa, eles se alimentam de maldade, e se embriagam de violência (Pv 4. 16, 17 NVI). Este é o perfil do verdadeiro ímpio, e motivações como estas no coração dos homens são a causa das injustiças, e estas produzem a violência.
A má notícia é que moramos em um mundo caído, em que a natureza das pessoas é predisposta à prática do mal, e lei alguma pode corrigir isto. As palavras de Hobbes ganham outra conotação diante desta realidade.  É isto mesmo: "o homem é o lobo do homem". A boa notícia, que Deus reservou a sabedoria para livrar os justos do mau caminho e guiar os mesmos no caminho da justiça
Pois o Senhor é quem dá sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o discernimento. Ele reserva a sensatez para o justo; como um escudo protege quem anda com integridade, pois guarda a vereda do justo e protege o caminho de seus fiéis. Então você entenderá o que é justo, direito e certo, e aprenderá os caminhos do bem. Pois a sabedoria entrará em seu coração, e o conhecimento será agradável à sua alma. O bom senso o guardará, e o discernimento o protegerá (Pv 2. 6 - 11 NVI).
Somente no caminho da sabedoria, que não deve ser confundida com "conheimento", é que podemos encontrar os meios para superar este clima caótico e fazer o ensaio para o reino milenar de Cristo, que Deus nos abençoe.
 
Pr Marcelo Medeiros

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Lição da EBD nº 9






Habacuque e a soberania de Deus sobre as nações

O profeta Habacuque é mais um dos profetas menores que apresentam dificuldades de contextualização histórica e geográfica em razão da escassez de informações em seus escritos. Outro fator digno de nota é a ausência de um oráculo profético. O livro em apreço começa com as seguintes palavras: "peso que viu o profeta Habacuque ". A palavra peso, que alguns manuscritos trazem הַמַּשָּׂא֙ (massã), tem como significado, o sentido de despesa, ou de dívida, podendo ser uma declaração de maldição. O termo deriva de uma palavra hebraica (nãsha), cujo sentido é o de suportar, carregar.
Via de regra, o termo introduz algum oráculo que os profetas fazem contra as nações. Habacuque não tem um oráculo contra as nações, mas uma sentença contra Judá. Contemporâneo de Jeremias, Sofonias, e da famosa e prestigiada profetiza Hulda, o profeta Habacuque vê o peso do Senhor contra Judá. O quadro descrito pelo profeta não é nada agradável. Ele clama a Deus com as seguintes palavras: Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás? Por que razão me mostras a iniqüidade, e me fazes ver a opressão? Pois que a destruição e a violência estão diante de mim, havendo também quem suscite a contenda e o litígio. Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, e a justiça se manifesta distorcida (Hc 1. 2 - 4).
O profeta clama contra a violência חָמָ֖ס (hãmas), mas o sentido desta palavra nada tem a ver com os disturbios sociais verificados em nossos dias, mas com o que ao meu ver com é a causa da violência, a crueldade, ganho injusto, falsidade. Em Gn 49. 5, quando Jacó faz predições a respeito dos seus filhos, ele diz que Simeão e Levi tinham espadas cheias de sangue e violência (חָמָ֖ס ), neste sentido a palavra tem o seu cunho no aspecto de violência fisica. Mas ainda em Gn, odemos ver um texto no qual a palavra é usada no sentido social (Gn 6. 11).
Um desdobramento desta violência חָמָ֖ס (hãmas), é a iniquidade אָ֙וֶן֙ ('awen), que pode ser traduzida como vaidade, futilidade e injustiça, ou iniquidade. O termo opressão וְעָמָ֣ל ('amãl), pode ser traduzido por qualquer coisa que provoque dor, amargura. Enfim, וְעָמָ֣ל ('amãl) é o mal em si, e a questão que o profeta levanta, é: Teus olhos são tão puros, que não suportam ver o mal; não podes tolerar a maldade. Por que toleras então esses perversos? Por que ficas calado enquanto os ímpios engolem os que são mais justos do que eles? (Hc 1. 13 NVI).
Violência חָמָ֖ס (hãmas), iniquidade אָ֙וֶן֙ ('awen), opressão וְעָמָ֣ל ('amãl), são causadores das contendas e dos litígios. Este é um ponto no qual o profeta se aproxima dos oráculos de Jeremias, que vaticina: Assim como um poço produz água, também ela produz sua maldade. Violência! Destruição! É o que se ouve dentro dela; doenças e feridas estão sempre diante de mim. Ouça a minha advertência, ó Jerusalém! Do contrário eu me afastarei inteiramente de você e farei de você uma desolação, uma terra desabitada (Jr 6. 7, 8 NVI). A diferença está em que em Jeremias, o quadro de Jerusalém provoca dor, ao passo que em Habacuque, perpelxidade. O que faz com que violência חָמָ֖ס (hãmas), seja um dos termos chaves do livro do profeta em apreço.
Esta palavra é um dos conceitos chaves no livro do profeta (Hc 1. 2, 3, 9; 2. 8, 17). É dela que advém todas as demais questões levantadas no livro. Afirmamo isto porque ao ler o livro posso perceber que o profeta começa protestanto contra a violência de Judá (Hc 1. 2, 3) e ao ser informado pelo Senhor que os caldeus serão usados como instrumento de juízo (Hc 1. 5 - 11), ele segue protestando contra a violência dos mesmos.
É quando o profeta clama por causa do absurdo dos caminhos de Deus. Para o profeta não há sentido no fato de um Deus justo e santo usar ímpios como os caldeus para julgar e disciplinar o seu povo. É neste momento que vem a segunda resposta de Deus. Deus ordena que o profeta escreva a visão, pois ela se cumprirá em breve, e adverte: Eis o soberbo! A sua alma não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá (Hc 2. 4).
O termo אֱמוּנָתֹ֥ו (emunãh) tem o sentido de firmeza e de flexibilidade, indicando a capacidade que o justo tem de ter para resisitir às pressões mais adversas. O caminho que Deus propõe é duro, primeiro ele julga e pune o seu povo e somente depois ele se volta para as demais nações. Este conceito está presente em outros textos. Tanto Isaías (Is 10. 5 - 12), quanto Jeremias (Jr 25. 15 - 29) o abordam. Sendo que este último o faz a partir de uma perspectiva mais elaborada. Um cálice é dado ás nações para beberem, e elas não podem negar.
Deus está começando a julgar a terra por sua santa cidade, mas quando ele terminar, ele se voltará para as demais nações. Começo a trazer desgraça sobre a cidade que leva o meu nome; e vocês sairiam impunes? Sem dúvida não ficarão sem castigo! Estou trazendo a espada contra todos os habitantes da terra’, declara o Senhor dos Exércitos (Jr 25. 29).
É neste ponto que se faz mais clara a soberania de Deus sobre toda a terra. Deus usa um povo violento como o caldeu para julgar o seu povo por causa da violência חָמָ֖ס (hãmas), iniquidade אָ֙וֶן֙ ('awen), opressão וְעָמָ֣ל ('amãl); mas pelos mesmos motivos julga o povo caldeu. O oráculo do profeta é claro, a violência que você cometeu contra o Líbano o alcançará, e você ficará apavorado com a destruição de animais, que você fez. Pois você derramou muito sangue, e cometeu violência contra terras, cidades e seus habitantes (Hc 2. 17 NVI).
A lista do profeta Jeremias é ainda maior. Lá podemos ver mais nações, visto que edomitas, amonitas, moabitas, egípcios e até filisteus são convidados a beberem do cálice da ira de Deus. Mas o príncipio é o mesmo. Deus julgará os caldeus. Nas palavras de Jeremias: Quando se completarem os setenta anos, castigarei o rei da Babilônia e a sua nação, a terra dos babilônios, por causa de suas iniqüidades, declara o Senhor, e a deixarei arrasada para sempre. Cumprirei naquela terra tudo o que falei contra ela, tudo o que está escrito neste livro e que Jeremias profetizou contra todas as nações. Porque os próprios babilônios serão escravizados por muitas nações e grandes reis; eu lhes retribuirei conforme as suas ações e as suas obras (Jr 25. 12 - 14 NVI).
O brado final de Habacuque é: o Senhor está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda a terra (Hc 2. 20 NVI). Sim, todas as nações são convocadas a se calarem diante do Deus Todo Poderoso e Soberano.

Pr Marcelo Medeiros
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