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sexta-feira, 26 de junho de 2020

Crise Ética, ou Eticorragia



O título do presente post remete-nos a um capítulo de um dos livros mais despretensiosos, de autoria de um dos escritores mais desprovido de quaisquer pretensões, que tenha visto ao longo da vida. O primeiro livro dele foi o Icabode - da mente de Cristo à secularização de mente - onde o autor fala a respeito de como o processo de modernização alterou a cosmovisão e mentalidade cristãs. Ao prefaciar o Excelentíssimos Senhores o autor afirmou que não contava com o sucesso do primeiro livro, por conta do volume de páginas do mesmo.

Na perspectiva do autor em apreço e na minha (também sou autor), livros volumosos desestimulam uma geração que se vê diante da possibilidade de uma gama volumosa de informações, bem mais fáceis de serem digeridas do que a leitura de livros críticos e volumosos. Mas o livro teve lá a sua acolhida e diante de tal a Ultimato, resolveu publicar mais um título do referido autor.

Ao que me parece Excelentíssimos Senhores é uma apanhado de artigos de autoria do Rúbem Amorese para a revista Ultimato. Alguns destes são um retorno às temáticas já tratadas no livro Icabode, sendo que de forma resumida. Eticorragia é o termo que Amorese emprega para o declínio ético na sociedade moderna em decorrência de uma crise de reflexão, de intelectualidade.

Aquilo que chamamos de moral é um conjunto de costumes e práticas, que visam tornar a vida em sociedade viável. Ela nos é imposta de forma coercitiva? Os que respondem afirmativamente o fazem acertadamente, primando por aqueles aspectos em que a nossa moral vai de encontro com os nossos desejos. Mas a moral entra em nossa mente por meio de histórias que nossos pais, mestres, padres, pastores nos contam, cujas lições podem ser aceitas, ou rejeitadas parcialmente, ou na íntegra.

Já a Ética é a reflexão que o dia-a-dia impõe ao ser humano. Ser Ético é ser capaz de refletir e dar respostas aos dilemas que a vida propõe. É neste contexto que surge a discussão a respeito de temas como aborto, clonagem, meio-ambiente, economia, saúde, afinal, por que o Estado deve desenvolver políticas públicas? Por que o estado deve dar o máximo de liberdade ao indivíduo? A questão aqui não é meramente econômica, conforme se possa pensar. Não! A Economia hoje é vista como uma ciência cuja finalidade é o domínio do funcionamento dos mecanismos de mercado. (Não quero dizer que todos os economistas a vejam assim, mas que esta é a percepção generalizante, e errônea).

Os primeiros economistas, dentre os quais Adam Smith e Karl Marx não eram estes técnicos cujo pensamento é voltado ao funcionamento do mercado financeiro. Eles também eram Filósofos Morais, ou moralistas. Este é outro termo que se perdeu ao longo do tempo. Um moralista hoje é visto como uma pessoa que busca impor sua moral aos demais. Nos idos dos séculos XVIII e XIX este termo era aplicado à pessoas como Blaise Pascal que analisavam as entranhas da alma humana. Mas é hora de voltar à Ética.

Amorese identifica uma crise Ética. O primeiro exemplo dele é o caso do antigo programa Você Decide, cujo título o autor vê como sugestivo. A sugestão do nome dá a entender em uma época marcada por uma subjetividade extrema, o homem possa passar por cima de todo e qualquer legado moral e fazer escolhas tendo como norte apenas seus desejos e sua vontade. Preste atenção porque discussões à parte este é o grande legado do autor para a discussão atual.

Para C. S. Lewis um erro recorrente dos moralistas na atualidade é a crença de que tal como ocorre em uma loja, mercado, ou shopping onde o sujeito (de fora) escolhe a peça, ou o produto que lhe agrada, tem - se a impressão de que na moral algo similar possa ocorrer. Mas ninguém se coloca em um vácuo moral para poder escolher uma moral. Já estamos em uma moralidade e é a partir da moralidade que recebemos através das histórias que nos foram contadas que escolhemos o que tem de permanecer e o que podemos descartar.

Em Cristianismo Puro e Simples Lewis fala que todos tem a noção do que é certo e do que é errado e que diante da transgressão da regra, ou norma, ninguém questiona, ou questionava a norma em si, mas todos procuram justificar porque no caso deles esta não se aplica, ou porque podem ser uma exceção. Pelo menos na época dele era assim. O chamado você decide (a partir de sua subjetividade) não existe. Nossa decisão não faz com que o errado se torne errado, porque nos o escolhemos. e é aí que mais uma vez a fala de Amorese é primorosa.

O episódio ao qual o autor se refere é o alguém que acha uma mala com uma quantia exorbitante de dinheiro e o apresentador joga para o público a decisão a respeito do devolver, ou não a quantia. A decisão majoritária do público é pela não devolução. Ali fica desenhada a mentalidade de uma considerável parcela da nossa população. Ao rever o livro não consegui identificar as possíveis razões que as pessoas tenham apresentado para a exceção da regra.

Um outro exemplo, ao qual ele frequentemente apela para demonstrar a crise ética é a questão do aborto, digo da defesa apaixonada dos defensores da causa. Já pontuei aqui que não sou favorável à prática do aborto e pontuei a necessidade de desumanização do feto a fim de que a ação possa ser tomada sem muitos dilemas.

Do ponto de vista Teológico e Filosófico a decisão não é nada fácil. Jó desejou ter sido abortado quando se viu diante da perda de todos os seus bens e o Pregador afirma em Eclesiastes que é melhor ser um aborto do que viver e não gozar o bem nesta terra. Em ambos os casos a vida se mensura pelo bem que se vive.

A moral cristã, como toda moral, vê as coisas a partir do sexo pré conjugal, ou do mau uso de métodos contraceptivos, ou até da falta de planejamento familiar. Do ponto de vista ético e reflexivo a questão não é nada fácil de se resolver. Uma mãe que tem de abortar  e passa por seus dilemas interiores vive a realidade da crise ética. Todavia crise aqui nada tem a ver com o modo como Amorese concebe. Aqui a crise é um processo que leva à decisão. O uso que o autor faz de crise é de uma conjuntura difícil sob uma dada perspectiva (que no caso do presente post é a Ética).

A crise no sentido do autor dá-se por conta de uma cultura hedonista, que privilegia o prazer em detrimento de qualquer forma de sofrimento. É este tipo de percepção que faz com que qualquer decisão a ser tomada seja em prol da facilidade. Se queremos emagrecer, não se faz necessária a disciplina alimentar acompanhada de exercícios. Queremos conhecimento, não é necessário estudo e leitura, bastam alguns cliques no doutor Google e a informação está toda pronta ali.

Tanto o emagrecimento saudável quanto o Estudo demandam disciplina. em ambos ocorre algo que C. S. Lewis compara a uma caminhada no deserto escaldante e ao momento em que as areias quentes entram na sola do pé. Toda caminhada proporciona seu prazer, mas junto do prazer vem os inconvenientes. A cultura atual não suporta mais isto.

Em áureas épocas o enriquecimento era fruto da disciplina em trabalhar aliada à frugalidade e a ascese de bens mundanos. Foi esta a análise que Weber fez a respeito da contribuição do puritanismo americano para fomentação do capitalismo. Dizem os comentaristas que ele igualmente previu o enfraquecimento da religião em razão da equação riqueza, busca por prazeres.

Mas o protestantismo que produz a Ética do Trabalho nos países europeus e na América, não desembarcou aqui. Aqui é a terra que tudo produz, tudo dá, o paraíso na terra, o lugar em que o esforço é dispensável. Não estou dizendo com isto que acredito no discurso da meritocracia, mas que igualmente desacredito da ideia de que as coisas caiam do alto aqui, no Brasil, de que todo sejam potenciais ganhadores da loteria. 


Somos herdeiros de uma ética frágil, que de alguma forma permite a luta contra o aborto, e a total indiferença ao número de crianças abandonadas. Pior, não se desenvolve sequer um trabalho robusto, e socialmente relevante de apoio às mães que passam por uma situação concreta de perigo. Voltando ao autor, em apreço, me pergunto quais seriam as reações de Rúbem Amorese, diante das publicações cristãs em rede social?


Ao que parece quando achamos uma carteira, ou alguma coisa de valor, que pertença a outrem, e não devolvemos cometemos crime de apropriação indébita, um ilícito já presente no código penal. No caso do programa ocorreu uma anuência para com um crime. Mas o problema é de natureza criminal somente? Óbvio que não! Mas algo similar acontece hoje no debate a respeito das Fakenews. 

Não houve a criminalização de ilícitos cometidos na internet, e este tem sido o principal argumento no qual os defensores do atual governo se apegam para justificar as ações daquilo que tem sido chamado de milícia digital. Os crimes de injúria, calúnia e difamação já são previstos no código penal. Mas quando se volta à proposta do autor é possível uma percepção maior da temática. 

Ela não pode ser vista unicamente a partir do ponto de vista técnico, no caso o do Direito. Ações políticas precisam ser vistas do ponto mais plural e multidisciplinar possível. No Campo da Moral, as considerações mais viáveis são as da Filosofia, e por que não da Teologia? Algo pode não ser crime, mas ser imoral (algumas leis o são, outras além de imorais ainda são injustas). Fakenews não é crime tipificado no código penal, mas é moral? Lógico que não! É imoral em excesso. 

Agora entra a minha percepção pessoal, particular. O senso ético e moral antecedem a criação de leis. A despeito de alguns dicionários associarem a religião à moral (algo que já aparece em August Comte), acredito na existência de algo chamado Tao, uma espécie de fio condutor moral que guia as mais variadas formulações morais. 

Lewis assume o posicionamento de que este Tao antecede ao próprio cristianismo. Mas isto nos interessa? Sim, porque tanto crentes quanto não crentes respondem a uma moral, ou uma espécie de apelo moral. Que apelo é este? Falar a verdade de coração, não difamar, não espalhar notícias falsas, ser solidário. 

Para Caio Fábio o Evangelho não é Ético e menos ainda moral. Ele desenvolve a ideia no livro Sem Barganhas com Deus. Ele dá como exemplo as escolhas divinas, desde um Abrão que não tinha lá aqueles amores pela verdade até um Judas (que sabidamente era o diabo, além das mais variadas falhas de caráter). Mas o próprio Caio reconhece que existem consequências éticas que o Evangelho traz. 

Jesus resume a Ética da lei e dos profetas nos mandamentos de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo (Mt 22. 38, 39), e a consequência do amar a Deus e ao próximo é traduzida na regra de ouro: tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles; porque esta é a Lei e os Profetas (Mt 7. 12). 

Sob a ótica do Evangelho o exercício ético consiste em se colocar no lugar do outro e uma vez colocado no lugar do outro perguntar: como gostaria que agissem comigo se tivesse no lugar de quem indo para a Igreja é assaltado, espancado, ou perde a mala de dinheiro, ou sendo uma adolescente, engravidou? É este exercício que a Ética do Evangelho nos convida. 

De igual modo o imperativo categórico com o seu age de tal forma que a tua ação se torne uma máxima universal. Em que consiste o Imperativo Categórico? Num exercício de imaginação. Qual? Este: o modo como trato uma pessoa que precisa de minha ajuda, a adolescente que engravidou, ou o sujeito que perdeu uma carteira, ou algum outro bem, pode ser universalizado?

Imaginem uma sociedade em que todos possam espalhar mentiras a respeito das outras, levar os pertences dos outros, ser indiferentes uns para com os outros, uma sociedade em que não existam bons samaritanos, ou parteiras que descumpram as ordens e os projetos eugênicos do soberano. Imaginou? 

Marcelo Medeiros. 

sábado, 14 de abril de 2018

ÉTICA E DIREITOS HUMANOS



Esta é uma reflexão inicia, ao invés de uma palavra final. 

Já foi visto neste espaço o conceito de Ética como sendo o emprego dos valores provenientes de uma cosmovisão na tomada de ações que afetam nossa convivência. É sob tais prismas que se pretende discutir os direitos humanos. Todavia este é um conceito que precisa ser revisto entre nós dado ao ressentimento mútuo nutrido por setores da sociedade. 

A noção de direitos humanos nada tem a ver com o protecionismo aos setores marginalizados em detrimento dos "cidadãos cumpridores dos seus deveres". Os Direitos humanos preconizam que todos os seres humanos são sujeitos de direito, e que os direitos fundamentais são: 

  1. A inviolabilidade da vida. 
  2. Liberdade. 
  3. Saúde. 
  4. Segurança. 
O fundamento de tais direitos são: 
  1. A dignidade inerente à todos os seres humanos. 
  2. O pressuposto da igualdade entre os mesmos. 
  3. A ideia de fraternidade entre os mesmos. 
  4. A noção de igualdade. 
Mas o que tais direitos tem a ver com a cosmovisão cristã? Esta é uma pergunta que merece a nossa consideração. Em primeiro lugar a inviolabilidade da vida fundamenta-se no conceito de a vida é sagrada. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem (Gn 9. 6 ACF). 

Até aos homicidas a garantia de inviolabilidade da vida era concedida, tanto que os vingadores de sangue eram autorizados a matá-los apenas após julgamento que comprovasse a culpa dos mesmos, conforme visto na citação abaixo transcrita:
Ou por inimizade o ferir com a sua mão, e morrer, certamente morrerá aquele que o ferir; homicida é; o vingador do sangue, encontrando o homicida, o matará. Porém, se o empurrar subitamente, sem inimizade, ou contra ele lançar algum instrumento sem intenção; Ou, sobre ele deixar cair alguma pedra sem o ver, de que possa morrer, e ele morrer, sem que fosse seu inimigo nem procurasse o seu mal; Então a congregação julgará entre aquele que feriu e o vingador do sangue, segundo estas leis. E a congregação livrará o homicida da mão do vingador do sangue, e a congregação o fará voltar à cidade do seu refúgio, onde se tinha acolhido; e ali ficará até à morte do sumo sacerdote, a quem ungiram com o santo óleo. Porém, se de alguma maneira o homicida sair dos limites da cidade de refúgio, onde se tinha acolhido, E o vingador do sangue o achar fora dos limites da cidade de seu refúgio, e o matar, não será culpado do sangue. Pois o homicida deverá ficar na cidade do seu refúgio, até à morte do sumo sacerdote; mas, depois da morte do sumo sacerdote, o homicida voltará à terra da sua possessão. E estas coisas vos serão por estatuto de direito às vossas gerações, em todas as vossas habitações. Todo aquele que matar alguma pessoa, conforme depoimento de testemunhas, será morto; mas uma só testemunha não testemunhará contra alguém, para que morra. E não recebereis resgate pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá. Também não tomareis resgate por aquele que se acolher à sua cidade de refúgio, para tornar a habitar na terra, até à morte do sumo sacerdote. Assim não profanareis a terra em que estais; porque o sangue faz profanar a terra; e nenhuma expiação se fará pela terra por causa do sangue que nela se derramar, senão com o sangue daquele que o derramou. Não contaminareis pois a terra na qual vós habitais, no meio da qual eu habito; pois eu, o Senhor, habito no meio dos filhos de Israel (Nm 35. 21 - 34 ACF). 
Por liberdade entenda-se aqui o poder de agir livremente em uma sociedade organizada pela lei. A opção por tal definição parte do pressuposto que de a palavra em apreço é extremamente plástica, e isto, ao ponto de ter significados diferentes para os mais variados grupos. Liberdade aqui opõe-se à escravidão. 

Em temos bíblicos os povos em geral, eram tribais e sucessivamente escravistas. Em outras palavras escravos foram a garantia de produção e do ócio em sociedades como a egípcia, a grega e romana. Daí a ausência de uma palavra mais contundente contra a escravidão nos textos bíblicos. Contudo alguns elementos precisam ser considerados a fim de que uma reflexão séria e justa seja realizada no tocante à temática. 

  1. Não se pode confundir a escravidão dos tempos bíblicos com a escravidão decorrente do surgimento a modernidade. Haviam escravos decorrentes de guerra? Sim, mas também haviam os que por conta de falência vendiam a si mesmos como escravos, até terem autonomia financeira para a alforria. É sob esta luz que as palavras de Paulo precisam ser compreendidas. Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião (I Co 7. 21 ACF). 
  2. INFELIZMENTE SOMENTE OS FILHOS DE ISRAEL GOZAVAM DE TAIS PRERROGATIVAS. Quando também teu irmão empobrecer, estando ele contigo, e vender-se a ti, não o farás servir como escravo. Como diarista, como peregrino estará contigo; até ao ano do jubileu te servirá; Então sairá do teu serviço, ele e seus filhos com ele, e tornará à sua família e à possessão de seus pais. Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não serão vendidos como se vendem os escravos. Não te assenhorearás dele com rigor, mas do teu Deus terás temor. E quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas. Também os comprareis dos filhos dos forasteiros que peregrinam entre vós, deles e das suas famílias que estiverem convosco, que tiverem gerado na vossa terra; e vos serão por possessão. E possuí-los-eis por herança para vossos filhos depois de vós, para herdarem a possessão; perpetuamente os fareis servir; mas sobre vossos irmãos, os filhos de Israel, não vos assenhoreareis com rigor, uns sobre os outros (Lv 25. 39 - 46 ACF). 
  3. Um judeu não poderia ser posse de nenhum outro. 
  4. Entre os Hebreus a escravidão tinha tempo determinado. Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça (Ex 21. 2 ACF). 
  5. Do mesmo modo que aos senhores era ordenado o descanso, os servos, por força de lei era dado o mesmo direito. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho nele, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro de tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia de sábado (Dt 5. 14, 15 ACF). Há que se perceber que em alguma instância o servo é colocado em pé de igualdade com seu senhor. 
  6. O Novo Testamento radicaliza este princípio ao colocar escravos e senhores em igualdade na comunidade cristã e evocar tratamento justo para os mesmos (Gl 3 28; Ef 6. 5 - 9; Cl 4. 1; Fm 16, 17). 
Nos tempos bíblicos não havia a noção de Estado (no sentido moderno da palavra). Sob a aliança a saúde é um bem decorrente da obediência e da sabedoria (Pv 4. 22; 12. 18; 13. 17; 14. 30; 16 24). O que fica implícito aqui é que doença e saúde estão para além do funcionamento correto do corpo. Saúde abrange a harmonia espiritual. A garantia de paz, educação,saneamento básico e outros direitos que influem na saúde é de competência do Estado. 

Este é visto em Filosofia como decorrente da vontade humana. Em outras palavras os homens abrem mãos de seus medos individuais para terem garantias como a proteção da violência, tão comum ao que Hobbes chama de estado de natureza (que é a violência inerente a todos os homens, que agora transferem a retribuição pelos seus maus atos, ao ESTADO). 

Na garantia da vida está implícito o direito á segurança É principalmente em relação a estes dois que o Estado tem falhado. Na verdade em não garantir a todos os direitos fundamentais, o Estado termina por propagar a violência que deveria combater. É aqui que nascem os espaços para o surgimento de grupos de defesa dos direitos humanos. 

O problema com relação a tais grupos é a ausência de protestos quando um joão ninguém morre. A imagem dos grupos de defesa dos direitos humanos tem sido associada aos infratores da lei, o que tem marginalizado tais grupos É necessário um trabalho que reverta esta péssima imagem. Por outro lado alguns candidatos tem assumido um discurso que vai na contramão da universalização dos direitos humanos. 

Tais se valem do lastro de insatisfação que tem havido em uma população em que mais de noventa por cento dos crimes de assassinato não são resolvidos, e que por estas e outra se vê cada vez mais refém da violência. Todavia, voltar-se contra direitos humanos não é a resposta. Se sob uma legislação e constituição humanitária tais crimes acontecem, imaginem o que ocorreria em caso de oficialização do estado de natureza?!

A doutrina da criação e da queda são os pressupostos para a crença na igualdade e fraternidade. Somos irmãos por sermos filhos de Deus. Somos iguais por que por excelentes que sejamos em determinadas áreas somos solidários em nossas idiossincrasias e por isto capazes dos mais nobres e mais vis atos. É a partir de tais prismas que a reflexão sobre direitos humanos precisa dar-se. 

Marcelo Medeiros. 

sábado, 7 de abril de 2018

Ética e Ideologia de Gênero


Boa tarde. Não disponho de muito tempo para elaborar um artigo complexo a respeito de Ideologia de Gênero e ética, dai que traçarei em breves linhas minha compreensão a respeito. Em razão do público a que me dirijo serei o mais simples possível,as teorias estarão presente, mas abordarei o assunto de forma direta. 

Quaisquer ideias abaixo esboçadas aqui neste espaço podem ser revisitadas e corrigidas mediante novas leituras, mas por hora este é o meu pensamento. 


  1. O nome Ideologia de Gênero é inadequado, o termo mais adequado seria questão de gênero 
  2. Ele foi cunhado por Simone de Beauvoir em seu célebre livro o segundo sexo. A questão que a autora busca tratar é o papel da mulher dentro da sociedade Burguesa. Às mulheres burguesas era reservado o direito de se casarem com um homem burguês e o governo da casa. Foi contra este papel que ele se revoltou. Tanto que de acordo com alguns biógrafos, ele vibrou, e muito quando sua família veio à falência. 
  3. A falência da família, sua progressão nos estudos, aliada à sua carreira como professora, lhe facultou a possibilidade de viver de acordo com seus desejos e seguir a carreira que tanto almejara. 
  4. A própria filosofia de Marx era uma revolta contra o estilo burguês. Sua crítica à religião precisa ser lida sob o contexto da filosofia de Hegel, para quem o Estado era a realização do Espirito Absoluto. 
  5. Marx aponta como o Estado e o Capital assumem o papel outrora reservado a Deus nas sociedades antigas. 
  6. A luta de Gramsci era contra o fascismo (um movimento que precisa ser estudado por nós). Feitas estas considerações convém que voltemos a Beuavoir. 
  7. Ela nada tinha contra quem quer que quisesse seguir uma vida nos padrões burgueses, desde que fosse livre para seguir a vida como desejasse e ser escritora. Também nunca colocou sua relação com o filósofo Jean Paul Sartre como padrão a ser seguido. 
  8. Neste aspecto, para que se entenda a Filosofia de Beauvoir, necessário se faz o entendimento da de Sartre. Para este o homem tinha de arcar com o peso da liberdade. Em outras palavras cada formulava para si sua própria noção de valores, a partir da qual constituiria sua Ética pessoal. 
  9. Em Filosofia isto não é muito novidade, uma vez que nenhum filósofo elaborou regras do tipo: faça isto e não faça aquilo. Nesta lista podem ser incluídos Platão, Aristóteles, Kant e Nietzsche. 
  10. A diferença é que nestes há espaço para que se pense em uma essência humana ao passo que no existencialismo a existência precede a essência, ou seja se Aristóteles afirma em sua ética que a felicidade do homem consiste em viver de forma racional, Sartre dirá que o homem não é essencialmente racional, mas se constitui como tal na sua existência. 
  11. A filosofia de Sartre é uma leitura da filosofia de Nietzsche. 
  12. Foi a pedagogia qeer que se apropriou da questão de gênero para forjar uma pedagogia que vise combater toda forma de preconceito contra mulheres, negros e gays. 
SOBRE A LIÇÃO EM SI

  1. O termo ideologia de gênero não é apropriado, questão de gênero é mais indicado. 
  2. Para nós cristãos a Bíblia é a fonte de reflexão ética dada autoridade que emana da mesma. Mas isto é para nós cristãos. Em alguns casos nem a Bíblia ocupa tal espaço, mas a tradição e a intuição (sempre atribuída ao Espírito Santo). 
  3. Embora creiamos que a narrativa de Gênesis e a percepção de Jesus da mesma em Mt 19 seja parâmetro para o casamento, vivemos em uma sociedade onde nossos pensamentos não devem ser impostos, ainda que precisem ser defendidos. 
  4. Concordo quando o autor fala de patrulhamento ideológico e no hábito de taxar e classificar o outro como homofóbico, fundamentalista, fascista, machista, misógino, reacionário e coisas do tipo. Mas há que se observar que estamos em uma democracia e que tais conflitos devam ser resolvidos com diálogo. 
  5. Tanto a sexualidade quanto o indivíduo resultam da equação entre sua característica biológica com sua interação com a cultura. Nem um nem outro podem ser desprezados. 
  6. Com isto quero dizer que EMBORA CREIA QUE DEUS FEZ A HUMANIDADE COMO MACHO E FÊMEA, PRECISO ENTENDER QUE O PECADO TRANSMUTOU ESTA CONDIÇÃO. 
  7. A NARRATIVA DE GÊNESIS DÁ A ENTENDER QUE UM ÚNICO HOMEM FOI CRIADO PARA UMA ÚNICA MULHER E QUE AMBOS FORAM COLOCADOS EM UM JARDIM (AMBIENTE EDÍLICO). MAS APÓS A ENTRADA DO PECADO TEMOS UM HOMEM CASADO COM DUAS MULHERES. 
  8. OS HOMENS ALTERARAM AQUILO QUE DEUS FEZ. DA MONOGAMIA ATÉ AS RELAÇÕES HOMOAFETIVAS. MAS ESTA É UMA CRENÇA NOSSA COMO CRISTÃOS. E CÁ PRA NÓS DEUS VIU TUDO E POUCO INTERVIU. 
  9. Dos patriarcas de Abraão à Davi, apenas Isaque e José foram monogâmicos. Daniel e Jeremias, ao que conste não se casaram. Paulo não era nada fervoroso ou animando em relação ao casamento. E até afirmou que o celibato era um dom e de fato o é.
  10. Jesus alertou que os dias finais seriam como os dias de Noé, e como nos dias de Sodoma e de Gomorra, não por conta de depravação sexual destes tempos, mas pelo fato de que seriam dias de pouca, ou nenhuma preocupação com questões que ultrapassem a satisfação de seus desejos mais básicos. 
  11. O Ensino e a instrução precisam ser a arca para o povo de Deus neste momento final. Somente com ensino que as pessoas poderão discutir e viabilizar a paz no ambiente democrático, e cumprir o papel de sal e de luz do mundo. 
Marcelo Medeiros, Em Cristo. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Fátima Bernardes e sua Polêmica Enquete



Raramente invisto o meu precioso tempo com programação televisiva. Mas por razões bem óbvias e passíveis de serem verificadas nas postagens deste blog, invisto em militância política, educacional e teológica. Meu Facebook tem sido instrumento de divulgação e viralização de postagens com tais teores e pretendo replicar uma por uma neste blog.

O momento presente tem sido marcado pela ação de políticos que visando consertar os rombos da crise econômica têm buscado subtrair direitos trabalhistas. Para tal usam de todo expediente, inclusive o de depreciação do funcionalismo público. Um dado pontual é o pacote de maldades enviado pelo governador do Rio à ALERJ.

Não bastasse tudo isto, a apresentadora Fátima Bernardes propõe uma das enquetes mais polêmicas que se poderia propor. Entre a vida de um traficante ferido e um policial baleado na cabeça, quem você socorreria? Durante o programa a maioria optou pelo traficante. Para o desastre da mesma no sábado uma aeronave policial cai durante operação na Cidade de Deus e os tripulantes da mesma, todos policiais militares, são executados. Esta é a versão a que tive acesso. O resultado foi uma semana de ódio nas redes sociais contra Fátima Bernardes. 

Em meio a tanta cordialidade (falas com o coração e com a emoção), uma fala sensata de ninguém mais do que Maurício Zágari (leia aqui), indica que na mente cristã tal dicotomia não deveria existir. Ao que acrescento comentando que no evangelho Jesus atende livremente o centurião romano, a mulher siro fenícia e ao ladrão da cruz. Mas não há como ouvir tal enquete como esta da Fátima Bernardes e se calar. Não se trata de partido, mas da manifestação deliberada de repúdio ao modo como as questões foram colocadas.

Vai render e muito ainda. Nem tanto pelo posicionamento da rede de TV, conhecido de todos já. Vai render pelo processo incessante de depreciação que o funcionalismo público está sofrendo por parte dos políticos e da grande mídia, faz tempo. Mas a dicotomia tem de ser superada sim. E creio que o Evangelho seja a chave, afinal nada mais imparcial e superador do que o exemplo de Cristo. 

Em se tratando do Evangelho, nele se vê Jesus atendendo a dois centuriões (Mt 8; Jo 4. 44ss), como no caso de Cornélio (pra não falar naqueles soldados romanos que ouviram a pregação de João Batista, e creram). Há que se lembrar aqui, que na Cruz o ladrão que não creu, antes fez coro com a multidão descrente foi condenado. Logo, o critério não é ser policial, ou bandido, mas crer.

Forte Abraço, em Cristo, Marcelo Medeiros 

terça-feira, 27 de maio de 2014

Acácio e o menor do poste


 
Desde já antecipo ao leitor que já falei sobre este assunto aqui, aqui, e aqui. Retomo assunto face a este texto, que vi no facebook (aqui), e compartilho com os leitores. Não concordo com quaisquer discursos que enfatizem o mérito, por uma razão simples, todo mundo precisa da ajuda de alguém, do contrario não dá.  Mas discordo do discurso de vitimização, visto que em termos psicológicos, todo mundo teve, em algum momento de matar a fera que traz em si. E mesmo o ato de vontade é um ato de supressão de uma outra vontade.
Para os que não possuem conta no fcebook, segue o texto abaixo, texto este que traz fatos incontestes.
 
Uma explicação bem simples pra vocês.

O rapaz da esquerda como todos se lembram é Acácio. Acácio era pobre, negro e já morou na rua. Dentre todas estas dificuldades nunca precisou roubar, matar ou traficar. Estudou, e virou oficial da Po...
lícia Militar, frutos estes do seu próprio esforço. Foi morto covardemente em serviço. Não houve direitos humanos, não houve indignação da mídia e nem de boa parte da sociedade.

O rapaz da direita também era pobre, negro e como Acácio, nada o impedia de viver uma vida honesta. Mas ele preferiu roubar, não estudar e viver a famosa "vida louca". Foi pego pelos próprios cidadãos - ao cometer um crime - amarrado nu ao poste até que a polícia chegasse. Este rapaz teve o choro da Maria do Rosário (DH), a indignação da sociedade, dos políticos, do DH e se bobear foi até pra ONU.

Aonde eu quero chegar? Eu quero mostrar pra vocês que não existe motivo, razão ou circunstância para você ser um criminoso, vagabundo e delinquente. É opcional! Seja você branco, negro, pobre, rico, cristão e etc.

Cada um tem a opção de escolher o caminho a trilhar na vida. E nós da página não descriminamos ninguém por raça, cor ou religião.

Esclarecido, esquerdista pseudo salvador aglomerador de titica no cérebro?!
 
Marcelo Medeiros, um abraço.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Não podendo comprar é legitmo roubar?


Li recentemente uma matéria em que a senadora Ana Rita (PT-ES), afirma que s furtos não devem ser vistos como um problema criminal, mas social, uma vez que muitos dos casos são motivados pela equação entre os estímulos da propaganda, a incitação ao alto consumo e a dificuldade da pessoa em lidar com sua inadequação financeira (aqui). Mais uma vez os líderes, os intelectuais de plantão se demonstram ótimos na analise do problema, mas inadequados em prover uma solução para o mesmo. Sei que não sou parâmetro, e sei do relativismo de nossa sociedade. Mas tenho dificuldades com tal ideia. Sou de uma época em que batalhava-se pelo que se quisesse ter, e se não pudesse ter paciência. Mas o assunto não se esgota aí. A proposta foi recebida com suspeita pelo público, e queira o leitor, ou não, quem a interpretasse como o reflexo de uma política de protecionismo à marginalidade. Temo pelo possa vir adiante. Descriminalização de crimes e criminalização de direitos, como o da liberdade de expressão? Confuso!
Contudo, ao ver a situação sob o prisma intelectual, vislumbro uma hipótese significativa para a interpretação e reflexão sobre o fato. Este tipo de ação trágica se explica. É o estado querendo resolver aquilo que se resolve exclusivamente a partir do foro intimo do individuo. É por causa dos valores que o sujeito traz consigo que ele supera a dificuldade financeira e a excessiva exposição dos estímulos da propaganda. O que faz um homem ser ético?! Isto é um dilema, parece que desde os dias de Sócrates e Platão, até os dias atuais. O que é ética? Fico com o Cortella, que diz ser a ética um conjunto de valores que orientam a conduta do individuo (o texto na íntegra pode ser acessado aqui). Neste mesmo textos, os antiéticos e os aéticos, o autor afirma que mesmo bandido tem ética, porque eles tem um conjunto de princípios que os permitem julgar.
É neste ponto que a questão recai sobre a educação, e quando falo em educação, não falo da especializada, mas do fenômeno que ocorre quando seres humanos transmitem saberes, valores e conhecimentos uns aos outros na dinâmica das relações sociais. É o que ocorre na família, na Igreja, na sala de aula, no recreio, no bobs, mac donalds, cinema, na sala de estar, no quarto, na área, nos estádios, etc.... Para julgar o papel da educação na formação de valores que irão constituir a ética do sujeito, ou o tecido ético social, há de se ir para além das salas de aula. Necessário se faz com que se capte os valores que a sociedade transmite aos indivíduos. Desde a Grécia antiga, a busca pela felicidade foi de suma importância no desenvolvimento dos valores que constituem a ética. Mas os gregos antigos entendiam que a felicidade estava na vida bem ordenada. Na proposta platônica esta se dava a partir da justiça, da prudência, ou sabedoria, fortaleza, ou valor, e temperança. Sei que existem muitas outras visões a respeito do assunto, mas não posso me deter nas mesmas neste post.
O que quero afirmar aqui é que na minha leitura, percebo que a busca da felicidade de alguma forma se subordina à busca do sumo bem. Na concepção aristotélica existem varias formas de bens e eles variam tanto quanto os seres, mas mesmo neste pensador se percebe a busca pelo bem supremo, que por sua vez norteia outras formas de bem. Creio ser isto o que falta em nossos dias. E não é para menos, visto que a cultura atual é a de massificação. Com a cultura de massa a individuação perde o seu espaço, na verdade, ser individuo hoje é uma verdadeira via crucis. Daí que a alternativa viável para grande parte das massas seja o enquadramento neste, ou naquele papel. Ou o homem consumista, ou o trabalhador eternamente frustrado, ou o playboy, ou o adolescente que comete furtos.
Algum setor de nossa sociedade tem de começar com este processo de desconstrução, e o mais indicado seria a Igreja. Disse seria porque na verdade a própria Igreja tem sido engolida neste processo e como tal se tornado mais um produto atraente do mercado, mas ainda assim, é de lá que vem algumas vozes da resistência. E defender a moderação em uma sociedade hedonista, que em consequência de tal hedonismo incentiva demasiadamente o consumo e caminha para minimização dos delitos; é um trabalho hercúleo. Na verdade, é um trabalho para homens regenerados, que assumem seu papel como sal e luz e com o seu comportamento evitam a degeneração de nossa sociedade.
 
Marcelo Medeiros.
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