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sábado, 14 de abril de 2018

ÉTICA E DIREITOS HUMANOS



Esta é uma reflexão inicia, ao invés de uma palavra final. 

Já foi visto neste espaço o conceito de Ética como sendo o emprego dos valores provenientes de uma cosmovisão na tomada de ações que afetam nossa convivência. É sob tais prismas que se pretende discutir os direitos humanos. Todavia este é um conceito que precisa ser revisto entre nós dado ao ressentimento mútuo nutrido por setores da sociedade. 

A noção de direitos humanos nada tem a ver com o protecionismo aos setores marginalizados em detrimento dos "cidadãos cumpridores dos seus deveres". Os Direitos humanos preconizam que todos os seres humanos são sujeitos de direito, e que os direitos fundamentais são: 

  1. A inviolabilidade da vida. 
  2. Liberdade. 
  3. Saúde. 
  4. Segurança. 
O fundamento de tais direitos são: 
  1. A dignidade inerente à todos os seres humanos. 
  2. O pressuposto da igualdade entre os mesmos. 
  3. A ideia de fraternidade entre os mesmos. 
  4. A noção de igualdade. 
Mas o que tais direitos tem a ver com a cosmovisão cristã? Esta é uma pergunta que merece a nossa consideração. Em primeiro lugar a inviolabilidade da vida fundamenta-se no conceito de a vida é sagrada. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem (Gn 9. 6 ACF). 

Até aos homicidas a garantia de inviolabilidade da vida era concedida, tanto que os vingadores de sangue eram autorizados a matá-los apenas após julgamento que comprovasse a culpa dos mesmos, conforme visto na citação abaixo transcrita:
Ou por inimizade o ferir com a sua mão, e morrer, certamente morrerá aquele que o ferir; homicida é; o vingador do sangue, encontrando o homicida, o matará. Porém, se o empurrar subitamente, sem inimizade, ou contra ele lançar algum instrumento sem intenção; Ou, sobre ele deixar cair alguma pedra sem o ver, de que possa morrer, e ele morrer, sem que fosse seu inimigo nem procurasse o seu mal; Então a congregação julgará entre aquele que feriu e o vingador do sangue, segundo estas leis. E a congregação livrará o homicida da mão do vingador do sangue, e a congregação o fará voltar à cidade do seu refúgio, onde se tinha acolhido; e ali ficará até à morte do sumo sacerdote, a quem ungiram com o santo óleo. Porém, se de alguma maneira o homicida sair dos limites da cidade de refúgio, onde se tinha acolhido, E o vingador do sangue o achar fora dos limites da cidade de seu refúgio, e o matar, não será culpado do sangue. Pois o homicida deverá ficar na cidade do seu refúgio, até à morte do sumo sacerdote; mas, depois da morte do sumo sacerdote, o homicida voltará à terra da sua possessão. E estas coisas vos serão por estatuto de direito às vossas gerações, em todas as vossas habitações. Todo aquele que matar alguma pessoa, conforme depoimento de testemunhas, será morto; mas uma só testemunha não testemunhará contra alguém, para que morra. E não recebereis resgate pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá. Também não tomareis resgate por aquele que se acolher à sua cidade de refúgio, para tornar a habitar na terra, até à morte do sumo sacerdote. Assim não profanareis a terra em que estais; porque o sangue faz profanar a terra; e nenhuma expiação se fará pela terra por causa do sangue que nela se derramar, senão com o sangue daquele que o derramou. Não contaminareis pois a terra na qual vós habitais, no meio da qual eu habito; pois eu, o Senhor, habito no meio dos filhos de Israel (Nm 35. 21 - 34 ACF). 
Por liberdade entenda-se aqui o poder de agir livremente em uma sociedade organizada pela lei. A opção por tal definição parte do pressuposto que de a palavra em apreço é extremamente plástica, e isto, ao ponto de ter significados diferentes para os mais variados grupos. Liberdade aqui opõe-se à escravidão. 

Em temos bíblicos os povos em geral, eram tribais e sucessivamente escravistas. Em outras palavras escravos foram a garantia de produção e do ócio em sociedades como a egípcia, a grega e romana. Daí a ausência de uma palavra mais contundente contra a escravidão nos textos bíblicos. Contudo alguns elementos precisam ser considerados a fim de que uma reflexão séria e justa seja realizada no tocante à temática. 

  1. Não se pode confundir a escravidão dos tempos bíblicos com a escravidão decorrente do surgimento a modernidade. Haviam escravos decorrentes de guerra? Sim, mas também haviam os que por conta de falência vendiam a si mesmos como escravos, até terem autonomia financeira para a alforria. É sob esta luz que as palavras de Paulo precisam ser compreendidas. Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião (I Co 7. 21 ACF). 
  2. INFELIZMENTE SOMENTE OS FILHOS DE ISRAEL GOZAVAM DE TAIS PRERROGATIVAS. Quando também teu irmão empobrecer, estando ele contigo, e vender-se a ti, não o farás servir como escravo. Como diarista, como peregrino estará contigo; até ao ano do jubileu te servirá; Então sairá do teu serviço, ele e seus filhos com ele, e tornará à sua família e à possessão de seus pais. Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não serão vendidos como se vendem os escravos. Não te assenhorearás dele com rigor, mas do teu Deus terás temor. E quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas. Também os comprareis dos filhos dos forasteiros que peregrinam entre vós, deles e das suas famílias que estiverem convosco, que tiverem gerado na vossa terra; e vos serão por possessão. E possuí-los-eis por herança para vossos filhos depois de vós, para herdarem a possessão; perpetuamente os fareis servir; mas sobre vossos irmãos, os filhos de Israel, não vos assenhoreareis com rigor, uns sobre os outros (Lv 25. 39 - 46 ACF). 
  3. Um judeu não poderia ser posse de nenhum outro. 
  4. Entre os Hebreus a escravidão tinha tempo determinado. Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça (Ex 21. 2 ACF). 
  5. Do mesmo modo que aos senhores era ordenado o descanso, os servos, por força de lei era dado o mesmo direito. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho nele, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro de tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia de sábado (Dt 5. 14, 15 ACF). Há que se perceber que em alguma instância o servo é colocado em pé de igualdade com seu senhor. 
  6. O Novo Testamento radicaliza este princípio ao colocar escravos e senhores em igualdade na comunidade cristã e evocar tratamento justo para os mesmos (Gl 3 28; Ef 6. 5 - 9; Cl 4. 1; Fm 16, 17). 
Nos tempos bíblicos não havia a noção de Estado (no sentido moderno da palavra). Sob a aliança a saúde é um bem decorrente da obediência e da sabedoria (Pv 4. 22; 12. 18; 13. 17; 14. 30; 16 24). O que fica implícito aqui é que doença e saúde estão para além do funcionamento correto do corpo. Saúde abrange a harmonia espiritual. A garantia de paz, educação,saneamento básico e outros direitos que influem na saúde é de competência do Estado. 

Este é visto em Filosofia como decorrente da vontade humana. Em outras palavras os homens abrem mãos de seus medos individuais para terem garantias como a proteção da violência, tão comum ao que Hobbes chama de estado de natureza (que é a violência inerente a todos os homens, que agora transferem a retribuição pelos seus maus atos, ao ESTADO). 

Na garantia da vida está implícito o direito á segurança É principalmente em relação a estes dois que o Estado tem falhado. Na verdade em não garantir a todos os direitos fundamentais, o Estado termina por propagar a violência que deveria combater. É aqui que nascem os espaços para o surgimento de grupos de defesa dos direitos humanos. 

O problema com relação a tais grupos é a ausência de protestos quando um joão ninguém morre. A imagem dos grupos de defesa dos direitos humanos tem sido associada aos infratores da lei, o que tem marginalizado tais grupos É necessário um trabalho que reverta esta péssima imagem. Por outro lado alguns candidatos tem assumido um discurso que vai na contramão da universalização dos direitos humanos. 

Tais se valem do lastro de insatisfação que tem havido em uma população em que mais de noventa por cento dos crimes de assassinato não são resolvidos, e que por estas e outra se vê cada vez mais refém da violência. Todavia, voltar-se contra direitos humanos não é a resposta. Se sob uma legislação e constituição humanitária tais crimes acontecem, imaginem o que ocorreria em caso de oficialização do estado de natureza?!

A doutrina da criação e da queda são os pressupostos para a crença na igualdade e fraternidade. Somos irmãos por sermos filhos de Deus. Somos iguais por que por excelentes que sejamos em determinadas áreas somos solidários em nossas idiossincrasias e por isto capazes dos mais nobres e mais vis atos. É a partir de tais prismas que a reflexão sobre direitos humanos precisa dar-se. 

Marcelo Medeiros. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

No beco onde explode a violência


A notícia da morte de um jovem negro, supostamente portador de deficiência mental, por espancamento associada a um relatório da ONU que coloca onze cidades brasileiras entre as trinta mais violentas do mundo trouxe extremo alarme ao meu coração. Não é de hoje que , na condição de cristão e cidadão, tenho me incomodado com este assunto. Como crente me pergunto onde tenho falhado no que tange à missão de preservar e influenciar este mundo, como cidadão me pergunto o que posso fazer de forma efetiva para que tais vitimas não continuem nesta condição, para que meu discurso em prol do oprimido não se esgote em palavras momentâneas, afinal, não me cabe amar apenas de palavra, mas em obra e em verdade.

Há que se perguntar em meio a este contexto pelo papel do Estado, visto que segundo a noticia a policia chegou apenas duas horas depois. O leitor atento da Bíblia sabe que não cabe ao ser humano a retaliação pelo mal, uma vez que a Deus pertence a vingança (Rm 12. 19), mas que o Estado, biblicamente falando, é sim, um instrumento de justiça para louvor das boas obras e condenação das más, e é exclusivamente neste condição que se aplica a recomendação apostólica de obediência ao poder estatal (Rm 13. 1 - 5). Mas o que acontece quando a maldade humana se soma à omissão, flagrante injustiça, ou ineficiência do mesmo? Quando agentes da lei morrem e não se faz menção à morte dos mesmos, antes se trata do fato como se natural fosse (aqui)?

A despeito de qualquer tentativa de associação do fato com discursos acalorados (aqui e aqui), quero lembrar que linchamentos sempre ocorreram, e desconfio que da mesma forma que jovens negros morrem nas mãos de uma turba enfurecida, também morrem nas mãos dos traficantes nas cadeias, mas infelizmente tais dados não são dispostos na mídia. Embora não esteja aqui para repetir aquele velho lema: culpa do governo! Infelizmente o Estado falhou sim na distribuição da justiça e na criação de meios que garantam uma condição digna, bem como desenvolvimento humano, o que na minha opinião não resolveria o problema (aqui), mas amenizaria e teríamos um Estado cumpridor do seu papel bíblico.

Nesta falha nem os direitos humanos escapam. O papel dos representantes dos mesmos tem sido ressaltado na mídia no sentido de defender os direitos das minorias, infelizmente quando estas já são vítimas do Estado. Em outras palavras, aqui os Direitos humanos além de não se manifestarem de forma igualitária, ainda chegam com aquele atraso, uma vez que o estrago já foi feito, como no caso do rapaz. Há de se pensar em direitos humanos com u papel mais ativo, e mais igualitário.

De igual modo me pergunto pela Igreja deste rapaz, ou da mãe do mesmo, que além de se dizer cristã, invocou a justiça divina quanto ao fato ocorrido. Creio que não precisaríamos estar comentando este assunto aqui caso algo tivesse sido feito. Sei que Deus pode ter lá os seus planos e mesmo o jovem tendo sido linchado ele poderia ter dado uma mãozinha, como no caso do policial, mas mesmo os milagres bíblicos se dão na cooperação do homem com Deus.

A música O Beco, sucesso com o grupo Paralamas do Sucesso, demonstra que violência não é novidade alguma em nosso país. Violência sempre esteve ao lado (falo no sentido de conviver), da miséria, da religião, e dos nossos prazeres fugazes. A novidade é que somos a sexta economia mundial, mas temos um dos piores quadros em educação, saúde e segurança, além de um baixíssimo IDH (índice de desenvolvimento humano), e esta contradição tem sido fator preponderante para o crescimento da violência, uma vez que fica cada vez mais evidente que os meios que a população empregava para amenizar não estão funcionando. É algo para se pensar
Marcelo Medeiros

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Mais de Rachel Sheherazard

 
No dia 31 de Março do corrente ano foram comemorados os cinquenta anos de golpe militar. Confesso que não me lembro muito bem do período da ditadura haja visto que nasci em 74, mas uma marca que a mesma deixou em mim foi aquele estranho papel que aparecia antes das exibições dos programas de TV, novelas, shows, filmes, sim aquele em que vinha escrito em alguma cor que meu televisor preto e branco não identificava, mas que aqui vou colocar em vermelho, CENSURA. Em poucos anos presenciei o processo das diretas, mas sempre com a sensação de que algo da ditadura ficava. E agora, em períodos onde vemos uma jornalista sendo cerceada em seu direito de emitir opiniões, me sinto de volta àquele período.
De acordo com a deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ), a âncora do SBT, cometeu crime apologia e incitamento à tortura e ao linchamento, caracterizado no artigo 287 do Código Penal. A deputada foi além, ao rotular o discurso da jornalista como neo facista (aqui), o que, salvo seja comprovado que a jornalista faça parte de algum grupo que defenda ideias fascistas, é uma tática suja de associar a opinião alheia com algo que normalmente as pessoas sequer conhecem, mas que seja por propaganda, ou por um conhecimento raso da historia as pessoas repudiam.
Outra argumento ruim, para não dizer péssimo é a tese de que o Estado de Direito o pode ser criticado, quando na verdade o que a apresentadora criticou foi justamente um dos fatores que ameaçam o Estado de direito, a violência. A definição de Estado de Direito do Info Escola é: Estado que respeita as liberdades civis, os direitos humanos e as liberdades fundamentais por proteção jurídica, pois, até as autoridades também são submissas ao respeito da regra de direito. Ainda no mesmo site é possível observar o entendimento de liberdades civis, como sendo o direito das pessoas assumirem e externar livremente as suas convicções pessoais, sem com isto sofrerem perseguição, ou pressão, de qualquer governo, ou instituição, grupo étnico, ou social (aqui). Mas de cara não é o que se vê no caso da apresentadora.
A crítica de Rachel Sheherazade não foi ao Estado de Direito, mas a crise que o mesmo vive. Ainda que se aceite a suposição ingênua de que o menor amarrado em poste, se envolveu com a delinquência porque teve os seus direitos fundamentais violados, a sociedade tem de aceitar que o mesmo viole os direitos fundamentais de outra pessoa, ou permaneça na condição em que está? Não! Mas o que fazer para que a lógica da injustiça cesse por aí? Este é o desafio da fala de Rachel Sheherazade, com a campanha adote um bandido. Quem não analfabeto funcional, entende o grito da sociedade na voz da Sheherazade, e a contradição que nosso fantástico mundo de Bob vive, ao sufocar direitos  fundamentais de uma parcela significativa da sociedade para aplacar a culpa pela ineficiência na aplicação dos ditos direitos humanos.
É neste sentido que entendo a fala de Sheherazade, qualquer outro entendimento é falta de instrução, ou predisposição á maldade mesmo. O primeiro caso o Estado resolve com a educação que nega a significativa parcela da população. O segundo se resolve com terapia, igreja, eu indico o Evangelho. Uma coisa é certa, de nada adianta abolir a ditadura militar e instituir outra. Abraços fraternos em Cristo.
 
 
Marcelo Medeiros

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Campanha adote um bandido


A frase da jornalista do SBT Raquel Sheherazrd, provocou um mal estar tremendo em nossa sociedade. Os motivos já disse aqui neste espaço. O comentário da mesma desmascarou a complacência de uma sociedade contraditória que busca a paz sem a correção das mazelas sociais e num ataque de crise de consciência transforma menores infratores em vitimas e agentes da lei em algozes, contribuindo para o enfraquecimento do poder do estado e para o levante de ações paralelas, como a dos "justiceiros" que amarraram a pobre vítima ao post.
Creio firmemente que a justiça com a própria mão à moda Charles Bronson não resolve o problema. Mas quem pode negar que a mesma seja uma consequência inevitável de uma equação cujos componentes são as ondas de violência e a ineficiência do Estado? Embora entenda e respeite a opinião de Raquel Sheherazard, creio que como cristã lhe tenha escapado a percepção de que por trás de tal dinâmica opera o pecado, ou caso você seja um secularista, a ambivalência humana.
O motivo de escrever este post aqui é que tem crente afirmando por aí que um cristão não poderia afirmar o que ela afirmou uma vez que Cristo levou um marginal para casa, o ladrão da cruz. Minha observação aqui é a seguinte: a grande ironia desta observação é que Jesus não levou um bandido qualquer levou um bandido que se reconhecia merecedor da tortura que estava sofrendo. Além do mais em nossos dias os bandidos não se reconhecem como errados e ainda por cima ninguém os leva para casa, nossa sociedade apenas sente dó.
Não creio em caridade feita para qualquer pessoa. Até porque a mesma caridade que é descrita como sofredora, é igualmente amante da justiça e da verdade. Creio que parte de uma possível solução para os problemas referentes à violência em nosso pais, passa pelo reconhecimento sim da natureza pecaminosa que os homens trazem. Mas falarei a este respeito em outro post.
 
Marcelo Medeiros, em Cristo.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Nova Polêmica envolvendo Rachel Sheherazade

 
Não faz sequer uma semana que postei aqui uma critica ácida à hipocrisia social, que produz a lógica dos dois pesos duas medidas. Me espanto diante da revolta e da comoção nacional, bem com da ênfase excessiva que a mídia dá à violência contra o menor, que não é qualquer tipo de menor, mas especificamente um menor infrator. Embora reconheça que mesmo estes tem seus direitos garantidos na constituição, me pergunto porque tamanho comprometimento social (se é que possamos chamar assim com a causa da violência contra os mesmos), e a ausência da mesma quando um trabalhador, um representante do Estado, é igualmente vitimado. Confesso que fico estupefato diante de tal contradição. Expus meu espanto aqui.
Volto a este assunto após a polemica suscitada pelo comentário de Rachel Sheherazade, jornalista do SBT ao fato relacionado com a exposição e vexação pública do menor que sob pretexto de o mesmo estar cometendo furtos e outros delitos em uma área nobre do Rio de Janeiro. A jornalista em tese disse mais que o obvio, no lugar de prestar queixa contra os seus agressores, o menos preferiu fugir, ação plenamente compreensível se observarmos que o mesmo já tem passagens na delegacia. O motivo? furtos.
O comentário da jornalista, é que ação dos agressores é compreensível dada à realidade da violência, a omissão e ineficiência do estado frente às ondas crescentes de criminalidade, este é o resultado mais do que esperado. Minha citação embora seja uma paráfrase expõe a compreensão mais do que obvia das palavras da jornalista. Ainda que ao final do vídeo ela tenha caído em desgraça quanto ao comentário, no total esta é a essência da opinião da jornalista.
Embora não concorde em tudo com o que Rachel Sheherazade fale em seus comentários, entendo que neste em particular ela errou apenas quando disse que a ação dos agressores que amarraram o menor era justificável, ao passo que o termo correto é compreensível, e passo a explicar o porquê. Sabemos que a natureza humana é ambivalente. Ao mesmo tempo em que é capaz de praticar ações nobres, o ser humano traz em si o potencial para a igualmente cometer os atos mais hediondos. Como cristão que sou acredito nesta ambivalência e mais ainda afirmo o caráter paradoxal do ser humano. Neste paradoxo não há necessariamente preto e branco, mas zonas cinzentas. Em termos práticos, sabemos o que é a justiça, mas o nosso senso de justiça pode ser maculado, distorcido e na aplicação da mesma (o que em si é uma usurpação, visto que no estado de direito a aplicação das penas é uma atribuição exclusiva do mesmo). Mas o mesmo pode ser dito do menor, que para sobreviver apela ao furto. Conclusão, violência gera violência! Ainda que a ação seja ilegítima, não se faz necessário um QI elevadíssimo para entender que ela é mais do que natural, do contrario sequer teríamos leis que coibissem tais ações. Foi com esta ótica que li e entendi o comentário da jornalista. Creio que não seria difícil à assessoria de imprensa do referido canal fazer tal alegação, mas no lugar de explicar, os diretores tiraram o corpo fora.
Gostaria de extrair algumas lições do fato. Em primeiro lugar, já não é de hoje que Rachel Sheherazade é tachada de reacionária, ultraconservadora, fascista, elitista, escravocrata (veja alguns comentários neste artigo aqui). Embora não concorde com tudo o que ela fale, e ainda, entenda que boa parte de suas opiniões são rasas, logo destituídas de profundidade, reconheço que uma coisa é apontar a superficialidade, os lapsos, conforme feito acima; ou as idiossincrasias em seus comentários, outra é estereotipar a apresentadora simplesmente pelo fato de sua opinião não se coadunar com a aquilo que Pondé chama de praga politicamente correto. Infelizmente a estereotipia tem sido a arma mais recorrente dos ditadores da praga PC. Pior do que isto somente o suposto caso de um professor universitário, ou de alguém usando a sua conta no twitter, que desejou que ela fosse abraçada por um tamanduá após ser estuprada.
Segundo, fatos como este trazem á tona, que a despeito de nossa constituição garantir a liberdade de expressão a logica que rege as nossas conversações ainda é profundamente marcada pelo legado histórico da ditadura. É proibido, mas expressamente proibido pensar diferente, do contrario, nos iremos estereotipar você. Infelizmente é esta a mensagem que leio em todos estes acontecimentos. É a intolerância dos defensores da tolerância e a ditadura dos autocratas que se ocultam atrás do discurso pró liberdade.
Terceiro, me enojo diante da vitimização que se faz á figura de menores infratores tal como no caso do que fora amarrado. É como se ninguém soubesse que inúmeros jovens que ingressam no trafico, bem como em outras modalidades de crime, estão com sua sina selada. Qual? a de uma morte prematura! E sabe o que me espanta? A desconfiança de que algum sociólogo percebeu isto, fez algum trabalho sobre o tema, mas que, nem de longe, ganhou repercussão na mídia. O bando que amarrou o menor em um poste não pode ser tratado como heróis à moda Charles Bronson, e nem o menor como vítima do bando. Ali ambos são algozes, são feras, cada um á sua maneira, mas é isto que são. Sei que estou indo na contramão da cartilha do politicamente correto, mas o menos infrator é tão vítima da sociedade quanto cada um de nós o é. A diferença é que alguns escolhem o caminho do estudo, outros prestam concurso para algum cargo público, alguns valentes tentam conciliar vida acadêmica e profissão, outros escrevem, e assim vão aprendendo a viver de modo a demonstrar o valor de ideais nem sempre compreendidos e aceitos por nosso sociedade tão complacente.
A condescendência é definida como sendo a atitude de uma pessoa que concorda com alguma coisa fazendo sentir que poderia recusar. É esta a suspeita, quase improvável que tenho comigo. Creio que na verdade todos se recusam a aceitar o estilo de vida delinquente, mas por alguma razão que desconheço, quando este colhe o que plantou, todos são transigente com a atitude do mesmo. Enquanto isto outros tipos de violência vão sendo mais do que naturalizados.
Encerro este post com a reflexão a respeito da frase: adote um menor infrator. Creio que ela feriu mais ainda por ter esfregado na nossa cara, a nossa impotência diante de tais mazelas sociais. Temos muito assistencialismo, mas pouca assistência social. A diferença entre ambos é que o primeiro é uma medida que visa aplacar a crise de consciência dos que de alguma forma se entendem como reesposáveis (diretos, ou indiretos) pela criação de feras que furtam e feras que fazem justiça com as próprias mãos. Este é o caso dos nossos corruptos, por exemplo. O segundo caso é a intervenção direta nos fatores sociais e econômicos que produzem a marginalidade. Honestamente, vivemos em uma sociedade cada vez mais individualista, e via de regra ninguém quer pensar sobre isto. E os poucos que pensam são excelente na analise do problema e deficientes em apontar soluções. Este é o caso, por exemplo, de quem afirma que isto (ultrajar e agredir um menor infrator) não se pode fazer. É claro que não! Mas o que você sugere? Uma dica, culpar a Rachel Sheherazade não vale.
 
Marcelo Medeiros

sexta-feira, 8 de março de 2013

Marco Feliciano eleito para comissão de direitos humanos

 

Depois de sucessivos tumultos, interrupções , tentativas de obstrução por parte do outrora presidente da comissão dos direitos humanos, o deputado Marcos Feliciano é eleito para a presidência da referida comissão. Sua eleição seria uma ótima oportunidade para que como cristãos mediante o nosso bom exemplo pudéssemos calar a boca dos que falam contra nós. SERIA, MAS NÃO É. Meus senões com o referido deputado se devam ás declarações de péssimo tom que o mesmo deu a respeito dos negros e homossexuais dando a entender que era racista e homofóbico. De acordo com o site G1, ele chegou a publicar em seu twitter que "sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids, fome... Etc". A infelicidade é que se tais critérios de fato fossem seguidos países como Estados Unidos, entre outros, cujo número de satanistas cresce cada vez mais, seriam assolados em igual proporção. Com esta mesma declaração ele demonstrou extrema falta de percepção e despreparo teológico. Não estou usando este espaço para brincar de malhar o judas com o deputado e pastor, e quem lê meus posts sabe da minha antipatia com a agenda do politicamente correto. Também preciso falar que não tenho, nem posso ter problemas com a pessoa do pastor, apenas com suas idéias.
Associar as intempéries naturais que assolam a África com maldição é ignorância bíblica e histórica. Pior do que isto é associar o homossexualismo à criminalidade, quando a ligação não é nem de longe evidente. Assim minha critica se dirige às idéias do referido pastor, e sinto o quanto nossas igrejas carecem de discernimento por abrirem espaço a este tipo de ministro para falar. Sem contar que a palavra por ele ministrada em Camburiú é no mínimo vergonhosa, pedir oferta daquela forma, e tem sido a maior arma nas mãos dos nada simpáticos ao evangelho. HONESTAMENTE, TENHO MEDO.
 
Pr Marcelo Medeiros
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