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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A Natureza dos Demônios - Agentes da maldade no mundo espiritual



O termo batalha espiritual pressupõe, por si só, a existência de lados antagônicos em torno de uma questão. Não há sentido em se falar de um conflito espiritual a partir de uma percepção monista, salvo se houver admissão de que o Absoluto possa trazer alguma forma de conflito em si. Fato, é que a partir de um determinado momento as Escrituras Judaicas inserem a figura dos demônios em sua teologia, mais do que isto faz desta inserção uma forma de de explicar a realidade e os constantes conflitos entre o povo judeu e os que buscavam corromper sua fé. 

Aqui, convém que se afirme uma verdade: poucos são os teólogos dispostos a levarem às ultimas consequências a declaração de que a revelação (ou se quiser entender como "percepção do sagrado", que o seja, é progressiva, ou processual). Com isto quero dizer que o modo como o homem percebe e descreve o  sagrado é histórico. 

Que o leitor não se espante caso eu abuse do negrito e do itálico, mas é algo necessário a fim de que algumas verdades teológicas possam ser estabelecidas neste estudo. De Gn até I Sm não há o mínimo indício de uma crença judaica na existência dos demônios. Pelo menos não como ocorre no no livro de Tobias e no restante da literatura apócrifa (apocalíptica). 

Mesmo as referências em que se fazem menção aos demônios, na verdade são descrições da percepção que se tinha a respeito dos ídolos (Dt 32. 17; II Cr 11. 15; Sl 106. 37). Não há, por parte do judeu, o menor interesse em formalizar sua crença nos demônios. Tanto as coisas boas, quanto as coisas más eram atribuídas à Deus (Is 45. 7). O anjo que se manifesta para Balaão, digo para a mula deste adivinho também é chamado de Satã no texto em hebraico (Nm 22. 22, 32). 

Um indicador importante é o modo como II Sm 24. 1 e I Cr 21 narram o mesmo fato. Na versão antiga, Deus se ira com Davi e com o intuito de o castigar, o incita  enumerar o povo de Israel. Na versão mais recente não é mais Deus, mas Satã quem se levanta contra Davi. Mesmo em Jó, o termo não significa ainda um princípio mal que se opõe a Deus, mas uma espécie de promotor público do céu (Jó 1 - 2). 

É tradição entre nós atribuir textos de Is 14. 12 - 15 e Ez 28. 12 - 15 o caráter de descrição de queda de Satanás, quando não o são. Falam respectivamente dos soberanos de Babilônia e Tiro. Tanto que Norman L. Geisler em sua Teologia Sistemática lançada pela Casas Publicadoras das Assembleias de Deus, assume que o entendimento de que tais textos sejam uma referência a uma possível queda de Satanás, seja na verdade uma inferência por analogia. 

O que quero falar aqui é que a leitura direta dos textos sugere o entendimento de que ambos falem de soberanos humanos. O contexto cultural em que o bem e o mal são explicados em termos de efeitos da obediência e desobediência à aliança, não abre espaços para a crença em demônios, como agentes do mal, e nem como seres possuidores de autonomia para agir. 

A expressão δαιμονιων (daimonion), vem do grego δαιμον, que na cultura grega era um deus, ou gênio bom que seguia as pessoas mais proeminentes na sociedade. No diálogo platônico Eutífron, é dito por Eutífron que Sócrates afirmava ouvir um δαιμον a todo o momento. Com isto a Filosofia de Sócrates, que é primorosa era atribuída à ação demoníaca. 

Aqui há que se lembrar que na cultura grega não há a diferença entre demônios e deuses. Somente a partir da Filosofia Helenística que se desenvolverão na cultura grega a crença em uma hierarquia demoníaca que fará a mediação entre deuses e os homens. Logo a percepção de que os demônios são maus caberá aos judeus, que farão associação destes com os espíritos que lançam males nos homens. 

É no livro de Tobias que tal entendimento aparece pela primeira vez. Antes de abordar tal passagem, necessário se faz observar que embora a declaração de fé das Assembleias de Deus não reconheça a inspiração de tais livros, e as teologias criticas, bem como as Ciências da Religião, lancem dúvidas sobre o caráter canônico de qualquer livro, há que se reconhecer a diferença entre valor sagrado e valor histórico. 

Para autores como Wheeler e Gabel, o valor canônico é constituído pela leitura e importância que a comunidade dá a um determinado livro. Já o valor histórico é atribuído ao historiador e ao exegeta, que a partir de determinados documentos procuram entender o contexto cultural em que determinados textos foram elaborados. 

Com isto, quero dizer que entendo a posição dos formuladores da Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Mas como Teólogo e Cientista da Religião não posso deixar de dar o devido valor aos documentos históricos. Tal como não posso ignorar o processo linguístico na formulação do conceito judaico de demônios. Feitas tais considerações poderei passar para o livro de Tobias. 
Então Tobias perguntou ao Anjo: "Azarias, meu irmão, que remédio há no coração, no fígado e no fel do peixe?" Respondeu-lhe ele: "se se queima o coração, ou o fígado de um peixe diante de um homem, ou uma mulher atormentado por um demônio, ou por um espírito mau, a fumaça afugenta todo o mal e o faz desaparecer para sempre. Quanto ao fel, untando com ele os olhos de um homem que tem manchas brancas, e soprando sobre as manchas ele ficará curado (Tob 6. 7 - 9 Bíblia de Jerusalém). 

Particularmente não uso como regra para minha vida prática o ato de exorcizar espíritos maus através de queima de quaisquer substâncias. Mas reconheço o valor histórico de tais narrativas. Estas refletem a crença de uma determinada época. Assim, quando orientado a se casar com a filha do devedor de seu pai, Tobias responde ao Anjo Rafael:
Azarias, meu irmão, ouvi dizer que a mesma foi dada a sete maridos e que todos morreram na noite de núpcias; morriam ao entrar onde ela estava. também ouvi dizer que era um demônio que os matava, por isto tenho medo. A ela não faz mal algum, porque a ama, mata porém quem queira aproximar-se dela. Sou Filho único, se eu morrer farei descer ao túmulo a vida de meu pai em consequência da sua tristeza por minha causa (Tob 6. 14, 15 Bíblia de Jerusalém). 
Diante de tal o Anjo Rafael repete a orientação dada nos versos anteriores. Ao seguir as orientações do anjo, o demônio Asmodeu é expulso e preso no Egito. 

É tardia a percepção de que a serpente do Éden fosse uma entidade espiritual que em decorrência de uma queda veio a tornar-se um inimigo de Deus e dos homens. Conforme ressaltado pelo autor da lição de Escola Bíblica Dominical, é tardia, na verdade oriunda da literatura apócrifa e apocalíptica a percepção de um adversário que se opõe a Deus e aos homens. 

O autor de Sabedoria de Salomão afirma que Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez imagem de sua própria natureza, foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo (Sab 2. 23, 24 Bíblia de Jerusalém). em regra diabo, ou διαβολου (diabolou) é a designação grega para o Hebraico השטן (ha Satan), que significa o Adversário. Mas aqui há que se fazer lembrar as observações de Walter Eichrodt para quem tanto השטן quanto διαβολου somente assumirão o status de maiorais dos demônios na literatura apocalíptica. Antes disto διαβολου e השטן são termos equivalentes para designar uma espécie de promotor celestial. 

Assim, no livro de Jó, Satanás vem entre os benai elohim - בני האלהים - ou filhos de Deus para lembrar ao próprio Deus que a fidelidade de Jó não é nada especial, uma vez que a mesma nunca fora realmente testada (Jó 1. 6- 9; 2. 1 - 6). O mesmo ocorre com Zc 3. 1, 2 e,m que o sumo sacerdote Josué é acusado, mas suas próprias vestes depõem contra ele. Satanás somente o acusa. 

O livro de Enoque apresenta uma versão suy generis para a origem dos demônios. Ali anjos abandonam seu principado e movidos pela concupiscência eles constituem corpos para si e coabitam com as mulheres (En Et 6. 1ss; II Pe 2. 4; Jd v. 6). Desta união espúria surgem surgem os Nephilins que correspondem aos Titãs de acordo com Gn 6. 1- 4ss. 

De acordo com En Et 6 - 16 o chefe dos guardiões são presos e outra parte segue atormentando aos demais homens até o dia em que serão julgados. É em Ap 12 que a João faz uma breve retrospectiva da história que visa narrar a luta entre o bem e o mal. Ali Satanás é identificado com a serpente do Éden e s conceitos acima são reunidos e integrados a esta pessoa. 
E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz. E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas. E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho. E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono. E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias. E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte. Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo. E, quando o dragão viu que fora lançado na terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho homem. E foram dadas à mulher duas asas de grande águia, para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente. E a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar. E a terra ajudou a mulher; e a terra abriu a sua boca, e tragou o rio que o dragão lançara da sua boca. E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao remanescente da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo (Ap 12. 1- 17 ACF). 

  1. Os intérpretes são unívocos em concordar que a mulher é um símbolo de Israel, que desde o Egito sofre inúmeras perseguições e ameaças de extinção, por conta de ser o povo do qual viria o Messias. 
  2. Para outros autores, esta mesma mulher é a Igreja que agora aguarda o retorno de seu Senhor. 
  3. O sol, aqui é símbolo da glória de Israel na antiga dispensação e da Igreja na Nova. É prometido na literatura apocalíptica que os sábios resplandecerão como luzeiros e estrelas no firmamento.
  4. O dragão é um animal mitológico que corresponde a uma serpente, daí a identificação deste com a mesma, mas que é empregado para fazer intercâmbio com a noção de Leviatã. 
  5. Neste texto ocorre uma associação entre o Dragão e a figura enoquiana de Azazel que assume a condição de príncipe dos demônios. 
  6. Embora Satanás seja descrito como o autor da perseguição aos crentes o grande fato é que ele já está derrotado e sua derrota é previamente enunciada pelo sucesso de Miguel e seus anjos em expulsar esta figura do céu. 
  7. Embora muitos teólogos vejam aqui mais uma descrição da queda, que ocorreu antes da criação, tendo a ver como uma espécie de conciliação entre as antigas ideias judaicas e as novas. Com este trabalho ocorre uma perfeita aglutinação entre a figura do judaísmo posterior em que Satanás é apresentado como promotor e a figura apocalíptica em que é o sedutor e responsável pela sedição dos anjos. 
  8. Há que se considerar aqui a fala de Franklin Ferreira em sua Teologia Sistemática. Para este as ideias correntes a respeito da queda de Lúcifer decorrem, na verdade, da obra o Paraíso perdido de Milton. 
  9. No presente texto a derrocada de Satanás é um esforço de se recuperar face à vitória inevitável dos santos, que vencem por meio do sangue do cordeiro e da palavra do Testemunho. 
  10. Este é um aspecto a ser considerado na concepção de Batalha Espiritual, visto que o Apocalipse é um escrito que visa dar ânimo e consolo às comunidades em perseguição, conforme pode ser visto nas sete cartas às sete Igrejas da Ásia. 
  11. Mesmo derrotado, o dragão se volta agora para a Igreja e induz às nações da terra contra esta. 
  12. Da mesma forma que ocorrera com Israel, a Igreja, a semente da mulher, é levada ao deserto a fim de experimentar livramento das insídias de Satã. 
  13. Mas mesmo no deserto ele movimenta as nações da terra contra a noiva do cordeiro. 
  14. O apocalipse se encarra com a vitória do cordeiro sobre o dragão e sua besta, como sobre as demais potências infernais, indicando a vitória dos cristãos contra as perseguições do império romano. 
  15. Neste aspecto ocorre um alinhamento com as demais formas literárias do Novo Testamento. Paulo por exemplo percebe na morte de Cristo na cruz. uma antecipação da vitória de Cristo sobre as hostes infernais (Cl 2. 14, 15). 
  16. O próprio Jesus entendia que suas curas e expulsões de demônios eram na verdade, antecipações da derrota final de Satanás (Mt 12. 28 - 30). Até os demônios reconhecem que Cristo os condenará (Mc 1. 23 - 28). 
  17. Ainda que venhamos a reconhecer a particularidade de cada gênero literário, é perceptível aqui o alinhamento das ideias da vitória de Cristo sobre os poderes das Trevas. 
  18. A diferença da literatura apocalíptica é que a vitória do cordeiro ganha dimensões cósmicas. 
Espero que este estudo instigue cada vez mais a curiosidade do estudante da Bíblia, e contribua para maior compreensão por parte de professores e alunos a respeito do papel dos demônios na Batalha espiritual. No período bíblico, esta representava a derrocada iminente do mal. Hoje infelizmente tem sido re-significada de forma grosseira. 

Em Cristo, Pastor Marcelo Medeiros, Teólogo, Pedagogo, Especialista em Ciências da Religião. 

sábado, 14 de abril de 2018

ÉTICA E DIREITOS HUMANOS



Esta é uma reflexão inicia, ao invés de uma palavra final. 

Já foi visto neste espaço o conceito de Ética como sendo o emprego dos valores provenientes de uma cosmovisão na tomada de ações que afetam nossa convivência. É sob tais prismas que se pretende discutir os direitos humanos. Todavia este é um conceito que precisa ser revisto entre nós dado ao ressentimento mútuo nutrido por setores da sociedade. 

A noção de direitos humanos nada tem a ver com o protecionismo aos setores marginalizados em detrimento dos "cidadãos cumpridores dos seus deveres". Os Direitos humanos preconizam que todos os seres humanos são sujeitos de direito, e que os direitos fundamentais são: 

  1. A inviolabilidade da vida. 
  2. Liberdade. 
  3. Saúde. 
  4. Segurança. 
O fundamento de tais direitos são: 
  1. A dignidade inerente à todos os seres humanos. 
  2. O pressuposto da igualdade entre os mesmos. 
  3. A ideia de fraternidade entre os mesmos. 
  4. A noção de igualdade. 
Mas o que tais direitos tem a ver com a cosmovisão cristã? Esta é uma pergunta que merece a nossa consideração. Em primeiro lugar a inviolabilidade da vida fundamenta-se no conceito de a vida é sagrada. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem (Gn 9. 6 ACF). 

Até aos homicidas a garantia de inviolabilidade da vida era concedida, tanto que os vingadores de sangue eram autorizados a matá-los apenas após julgamento que comprovasse a culpa dos mesmos, conforme visto na citação abaixo transcrita:
Ou por inimizade o ferir com a sua mão, e morrer, certamente morrerá aquele que o ferir; homicida é; o vingador do sangue, encontrando o homicida, o matará. Porém, se o empurrar subitamente, sem inimizade, ou contra ele lançar algum instrumento sem intenção; Ou, sobre ele deixar cair alguma pedra sem o ver, de que possa morrer, e ele morrer, sem que fosse seu inimigo nem procurasse o seu mal; Então a congregação julgará entre aquele que feriu e o vingador do sangue, segundo estas leis. E a congregação livrará o homicida da mão do vingador do sangue, e a congregação o fará voltar à cidade do seu refúgio, onde se tinha acolhido; e ali ficará até à morte do sumo sacerdote, a quem ungiram com o santo óleo. Porém, se de alguma maneira o homicida sair dos limites da cidade de refúgio, onde se tinha acolhido, E o vingador do sangue o achar fora dos limites da cidade de seu refúgio, e o matar, não será culpado do sangue. Pois o homicida deverá ficar na cidade do seu refúgio, até à morte do sumo sacerdote; mas, depois da morte do sumo sacerdote, o homicida voltará à terra da sua possessão. E estas coisas vos serão por estatuto de direito às vossas gerações, em todas as vossas habitações. Todo aquele que matar alguma pessoa, conforme depoimento de testemunhas, será morto; mas uma só testemunha não testemunhará contra alguém, para que morra. E não recebereis resgate pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá. Também não tomareis resgate por aquele que se acolher à sua cidade de refúgio, para tornar a habitar na terra, até à morte do sumo sacerdote. Assim não profanareis a terra em que estais; porque o sangue faz profanar a terra; e nenhuma expiação se fará pela terra por causa do sangue que nela se derramar, senão com o sangue daquele que o derramou. Não contaminareis pois a terra na qual vós habitais, no meio da qual eu habito; pois eu, o Senhor, habito no meio dos filhos de Israel (Nm 35. 21 - 34 ACF). 
Por liberdade entenda-se aqui o poder de agir livremente em uma sociedade organizada pela lei. A opção por tal definição parte do pressuposto que de a palavra em apreço é extremamente plástica, e isto, ao ponto de ter significados diferentes para os mais variados grupos. Liberdade aqui opõe-se à escravidão. 

Em temos bíblicos os povos em geral, eram tribais e sucessivamente escravistas. Em outras palavras escravos foram a garantia de produção e do ócio em sociedades como a egípcia, a grega e romana. Daí a ausência de uma palavra mais contundente contra a escravidão nos textos bíblicos. Contudo alguns elementos precisam ser considerados a fim de que uma reflexão séria e justa seja realizada no tocante à temática. 

  1. Não se pode confundir a escravidão dos tempos bíblicos com a escravidão decorrente do surgimento a modernidade. Haviam escravos decorrentes de guerra? Sim, mas também haviam os que por conta de falência vendiam a si mesmos como escravos, até terem autonomia financeira para a alforria. É sob esta luz que as palavras de Paulo precisam ser compreendidas. Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião (I Co 7. 21 ACF). 
  2. INFELIZMENTE SOMENTE OS FILHOS DE ISRAEL GOZAVAM DE TAIS PRERROGATIVAS. Quando também teu irmão empobrecer, estando ele contigo, e vender-se a ti, não o farás servir como escravo. Como diarista, como peregrino estará contigo; até ao ano do jubileu te servirá; Então sairá do teu serviço, ele e seus filhos com ele, e tornará à sua família e à possessão de seus pais. Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não serão vendidos como se vendem os escravos. Não te assenhorearás dele com rigor, mas do teu Deus terás temor. E quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas. Também os comprareis dos filhos dos forasteiros que peregrinam entre vós, deles e das suas famílias que estiverem convosco, que tiverem gerado na vossa terra; e vos serão por possessão. E possuí-los-eis por herança para vossos filhos depois de vós, para herdarem a possessão; perpetuamente os fareis servir; mas sobre vossos irmãos, os filhos de Israel, não vos assenhoreareis com rigor, uns sobre os outros (Lv 25. 39 - 46 ACF). 
  3. Um judeu não poderia ser posse de nenhum outro. 
  4. Entre os Hebreus a escravidão tinha tempo determinado. Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça (Ex 21. 2 ACF). 
  5. Do mesmo modo que aos senhores era ordenado o descanso, os servos, por força de lei era dado o mesmo direito. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho nele, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro de tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia de sábado (Dt 5. 14, 15 ACF). Há que se perceber que em alguma instância o servo é colocado em pé de igualdade com seu senhor. 
  6. O Novo Testamento radicaliza este princípio ao colocar escravos e senhores em igualdade na comunidade cristã e evocar tratamento justo para os mesmos (Gl 3 28; Ef 6. 5 - 9; Cl 4. 1; Fm 16, 17). 
Nos tempos bíblicos não havia a noção de Estado (no sentido moderno da palavra). Sob a aliança a saúde é um bem decorrente da obediência e da sabedoria (Pv 4. 22; 12. 18; 13. 17; 14. 30; 16 24). O que fica implícito aqui é que doença e saúde estão para além do funcionamento correto do corpo. Saúde abrange a harmonia espiritual. A garantia de paz, educação,saneamento básico e outros direitos que influem na saúde é de competência do Estado. 

Este é visto em Filosofia como decorrente da vontade humana. Em outras palavras os homens abrem mãos de seus medos individuais para terem garantias como a proteção da violência, tão comum ao que Hobbes chama de estado de natureza (que é a violência inerente a todos os homens, que agora transferem a retribuição pelos seus maus atos, ao ESTADO). 

Na garantia da vida está implícito o direito á segurança É principalmente em relação a estes dois que o Estado tem falhado. Na verdade em não garantir a todos os direitos fundamentais, o Estado termina por propagar a violência que deveria combater. É aqui que nascem os espaços para o surgimento de grupos de defesa dos direitos humanos. 

O problema com relação a tais grupos é a ausência de protestos quando um joão ninguém morre. A imagem dos grupos de defesa dos direitos humanos tem sido associada aos infratores da lei, o que tem marginalizado tais grupos É necessário um trabalho que reverta esta péssima imagem. Por outro lado alguns candidatos tem assumido um discurso que vai na contramão da universalização dos direitos humanos. 

Tais se valem do lastro de insatisfação que tem havido em uma população em que mais de noventa por cento dos crimes de assassinato não são resolvidos, e que por estas e outra se vê cada vez mais refém da violência. Todavia, voltar-se contra direitos humanos não é a resposta. Se sob uma legislação e constituição humanitária tais crimes acontecem, imaginem o que ocorreria em caso de oficialização do estado de natureza?!

A doutrina da criação e da queda são os pressupostos para a crença na igualdade e fraternidade. Somos irmãos por sermos filhos de Deus. Somos iguais por que por excelentes que sejamos em determinadas áreas somos solidários em nossas idiossincrasias e por isto capazes dos mais nobres e mais vis atos. É a partir de tais prismas que a reflexão sobre direitos humanos precisa dar-se. 

Marcelo Medeiros. 

sábado, 7 de abril de 2018

Ética e Ideologia de Gênero


Boa tarde. Não disponho de muito tempo para elaborar um artigo complexo a respeito de Ideologia de Gênero e ética, dai que traçarei em breves linhas minha compreensão a respeito. Em razão do público a que me dirijo serei o mais simples possível,as teorias estarão presente, mas abordarei o assunto de forma direta. 

Quaisquer ideias abaixo esboçadas aqui neste espaço podem ser revisitadas e corrigidas mediante novas leituras, mas por hora este é o meu pensamento. 


  1. O nome Ideologia de Gênero é inadequado, o termo mais adequado seria questão de gênero 
  2. Ele foi cunhado por Simone de Beauvoir em seu célebre livro o segundo sexo. A questão que a autora busca tratar é o papel da mulher dentro da sociedade Burguesa. Às mulheres burguesas era reservado o direito de se casarem com um homem burguês e o governo da casa. Foi contra este papel que ele se revoltou. Tanto que de acordo com alguns biógrafos, ele vibrou, e muito quando sua família veio à falência. 
  3. A falência da família, sua progressão nos estudos, aliada à sua carreira como professora, lhe facultou a possibilidade de viver de acordo com seus desejos e seguir a carreira que tanto almejara. 
  4. A própria filosofia de Marx era uma revolta contra o estilo burguês. Sua crítica à religião precisa ser lida sob o contexto da filosofia de Hegel, para quem o Estado era a realização do Espirito Absoluto. 
  5. Marx aponta como o Estado e o Capital assumem o papel outrora reservado a Deus nas sociedades antigas. 
  6. A luta de Gramsci era contra o fascismo (um movimento que precisa ser estudado por nós). Feitas estas considerações convém que voltemos a Beuavoir. 
  7. Ela nada tinha contra quem quer que quisesse seguir uma vida nos padrões burgueses, desde que fosse livre para seguir a vida como desejasse e ser escritora. Também nunca colocou sua relação com o filósofo Jean Paul Sartre como padrão a ser seguido. 
  8. Neste aspecto, para que se entenda a Filosofia de Beauvoir, necessário se faz o entendimento da de Sartre. Para este o homem tinha de arcar com o peso da liberdade. Em outras palavras cada formulava para si sua própria noção de valores, a partir da qual constituiria sua Ética pessoal. 
  9. Em Filosofia isto não é muito novidade, uma vez que nenhum filósofo elaborou regras do tipo: faça isto e não faça aquilo. Nesta lista podem ser incluídos Platão, Aristóteles, Kant e Nietzsche. 
  10. A diferença é que nestes há espaço para que se pense em uma essência humana ao passo que no existencialismo a existência precede a essência, ou seja se Aristóteles afirma em sua ética que a felicidade do homem consiste em viver de forma racional, Sartre dirá que o homem não é essencialmente racional, mas se constitui como tal na sua existência. 
  11. A filosofia de Sartre é uma leitura da filosofia de Nietzsche. 
  12. Foi a pedagogia qeer que se apropriou da questão de gênero para forjar uma pedagogia que vise combater toda forma de preconceito contra mulheres, negros e gays. 
SOBRE A LIÇÃO EM SI

  1. O termo ideologia de gênero não é apropriado, questão de gênero é mais indicado. 
  2. Para nós cristãos a Bíblia é a fonte de reflexão ética dada autoridade que emana da mesma. Mas isto é para nós cristãos. Em alguns casos nem a Bíblia ocupa tal espaço, mas a tradição e a intuição (sempre atribuída ao Espírito Santo). 
  3. Embora creiamos que a narrativa de Gênesis e a percepção de Jesus da mesma em Mt 19 seja parâmetro para o casamento, vivemos em uma sociedade onde nossos pensamentos não devem ser impostos, ainda que precisem ser defendidos. 
  4. Concordo quando o autor fala de patrulhamento ideológico e no hábito de taxar e classificar o outro como homofóbico, fundamentalista, fascista, machista, misógino, reacionário e coisas do tipo. Mas há que se observar que estamos em uma democracia e que tais conflitos devam ser resolvidos com diálogo. 
  5. Tanto a sexualidade quanto o indivíduo resultam da equação entre sua característica biológica com sua interação com a cultura. Nem um nem outro podem ser desprezados. 
  6. Com isto quero dizer que EMBORA CREIA QUE DEUS FEZ A HUMANIDADE COMO MACHO E FÊMEA, PRECISO ENTENDER QUE O PECADO TRANSMUTOU ESTA CONDIÇÃO. 
  7. A NARRATIVA DE GÊNESIS DÁ A ENTENDER QUE UM ÚNICO HOMEM FOI CRIADO PARA UMA ÚNICA MULHER E QUE AMBOS FORAM COLOCADOS EM UM JARDIM (AMBIENTE EDÍLICO). MAS APÓS A ENTRADA DO PECADO TEMOS UM HOMEM CASADO COM DUAS MULHERES. 
  8. OS HOMENS ALTERARAM AQUILO QUE DEUS FEZ. DA MONOGAMIA ATÉ AS RELAÇÕES HOMOAFETIVAS. MAS ESTA É UMA CRENÇA NOSSA COMO CRISTÃOS. E CÁ PRA NÓS DEUS VIU TUDO E POUCO INTERVIU. 
  9. Dos patriarcas de Abraão à Davi, apenas Isaque e José foram monogâmicos. Daniel e Jeremias, ao que conste não se casaram. Paulo não era nada fervoroso ou animando em relação ao casamento. E até afirmou que o celibato era um dom e de fato o é.
  10. Jesus alertou que os dias finais seriam como os dias de Noé, e como nos dias de Sodoma e de Gomorra, não por conta de depravação sexual destes tempos, mas pelo fato de que seriam dias de pouca, ou nenhuma preocupação com questões que ultrapassem a satisfação de seus desejos mais básicos. 
  11. O Ensino e a instrução precisam ser a arca para o povo de Deus neste momento final. Somente com ensino que as pessoas poderão discutir e viabilizar a paz no ambiente democrático, e cumprir o papel de sal e de luz do mundo. 
Marcelo Medeiros, Em Cristo. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

As obras da Carne e o Fruto do Espírito


Todo crente nascido de novo experimenta um conflito interior. É como se houvessem duas pessoas lutando dentro do mesmo, e cada uma com desejos opostos entre si. A ideia evoca a conhecida imagem dos desenhos animados onde diante de um dilema, a pessoa se vê diante de um diabinho e um anjo incitando à escolhas opostas entre si.

Uma oura imagem que pode ser evocada é a do clássico da literatura o médico e o monstro, principalmente na etapa em que Dr Jackil não consegue mais dominar as suas transformações em Mr Hyde. Trato pormenorizadamente desta questão em meu livro Se Tiverdes Fé. Neste aponto que somente quando o homem se desespera de si mesmo e se entrega absolutamente a Deus, pode vir a vencer a carne com suas paixões e concupiscências.

Antes de comentar a lição propriamente dita há que se estabelecer que a abordagem paulina a respeito de obras da carne e fruto do Espírito se encontram no contexto polemista da carta de Paulo aos Gálatas, onde se faz contraste entre o falso e o verdadeiro Evangelho. Nem o Evangelho da tradição e nem o progressista podem libertar o homem das amarras de seus instintos, somente a GRAÇA  o faz.

ANDAR NA CARNE E ANDAR NO ESPÍRITO
Ora, eu vos digo, conduzi-vos pelo Espírito e não satisfareis o  desejo da carne. Pois a carne tem aspirações contrárias ao Espírito, e o espírito contrárias à carne. Eles se opõem reciprocamente, de sorte que não fazeis o que quereis. Mas se vos deixais guiar pelo Espírito não estais debaixo da lei (Gl 5.. 16 - 18 Bíblia de Jerusalém). 
O verbo περιπατεω (peripateioo), é usualmente traduzido como andar, mas pode ser também como viver, tal como ocorre na Nova Versão Internacional. A expressão pode significar andar como também conduzir a vida, daí o modo de vida.

Já a expressão carne pode significar a parte física do homem, sendo correlata ao termo hebraico בָּשָׂר (basar). Esta equivalência aparece em Hb 2. 14, por exemplo, onde se lê: uma vez que os filhos tem em comum carne e sangue (....). O termo pode igualmente ser empregado para expressar aquilo que é exterior, facilmente identificado, aparente. expressões como sábios segundo a carne, ou sabedoria carnal  (I Co 1. 26; II Co 1. 12), logo, σοφοι κατα σαρκα (sophoi kata sarka) ou σοφια σαρκικη (sophia sarkike), são equivalentes e significam sabedoria aparente.

O termo também pde significar meio de geração e parentesco. Neste sentido Jesus Cristo é o descendente de Davi segundo a carne (Rm 1. 3). Aos quais pertencem os patriarcas e dos quais descende o Cristo segundo a carne (Rm 9. 5 Bíblia de Jerusalém). O uso que me interessa aqui é o de carne, ou σαρξ (sarx), e´aquele em que σαρξ equivale à dimensão pecaminosa do homem. Este é o conceito paulino predominante em Rm 7.

A expressão Espírito, é frequentemente interpretada pelos dicotomistas e tricotomistas como sendo a parte superior do homem, que se distingue da animal. Na verdade esta percepção é mais patônica do que bíblica, cristã e teológica em si. Na verdade tanto ר֣וּח (ruach), quanto πνευμα (penuma), são palavras para fôlego, hálito, vento, respiração. logo, com exceção das palavras em que se refere ao Espírito de Deus (ruach elohim -  ר֣וּחַ אֱלֹהִ֔י), ou πνευμα του θεου (pneuma ton theou), ou em que o próprio Deus é chamado de Espírito (Jo 4. 24; II Co 3.17).

O espírito de que Paulo fala neste texto é o Espírito de Deus.
Vós não estais na carne mas no Espírito, se é verdade que o Espírito de Deus habita em vós pois quem não tem o Espírito de Cristo não pertence a ele. Se, porém Cristo está em vós, o corpo está morto, pelo pecado, mas o Espírito é vida pela justiça. E se o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos dará a vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós. Portanto, irmãos, somos devedores, não à carne, para vivermos segundo a carne, pois, se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo morrereis. Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus (Rm 8. 9 - 14 Bíblia de Jerusalém). 
Segue-se então que a força, e a capacidade para vencer as obras da carne não está no ar vital do ser humano, mas no Espírito de Deus que em nós habita. Andar no Espírito equivale a ser guiado, orientado por este. Por sua vez andar na carne indica ser orientado pelos instintos egoístas. Este é o ponto em que se faz necessário considerar a lista de obras da carne, a fim de prosseguir com o estudo.

AS OBRAS DA CARNE
Como de dia, andemos decentemente; não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procurareis satisfazer os desejos da carne (Rm 13. 13, 14 Bíblia de Jerusalém). 
O primeiro vício condenado por Paulo aqui é a orgia. A expressão grega κωμοις (komois) indica a procissão em honra à Baco. Este era feita à noite. O segundo vício, μεθαις (methais), indica a prática da bebedice, geralmente acompanhando as orgias. A devassidão aqui é a palavra κοιταις (koitais), raiz da palavra coito, em nosso idioma, que a BJ traduz por devassidão. libertinagem, ou dissolução são termos que traduzem ασελγειαις (aselgeiais). Por fim εριδι και ζηλω (eridi kai zeeloo), são respectivamente traduzidos como rixa e ciúme. 
Eu vos escrevi em minha carta que não tivésseis relações com os devassos. não me referia de modo geral, aos devassos deste mundo, ou aos avarentos, ou ladrões, ou devassos, pois então teríeis que sair deste mundo. Não, escrevi-vos que não vos associeis com alguém que traga o nome de irmão e, não obstante, seja devasso, ou avarento, ou idólatra, ou injurioso, ou ladrão. Com tal homem nem deveis tomar a refeição (I Co 5. 9 - 11 Bíblia de Jerusalém). 
Então não sabeis que injustos não herdarão o Reino de Deus? Não vos iludais! Nem devassos, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos herdarão o reino de Deus. Eis o que vós fostes, ao menos alguns. Mas vós vos lavastes,  mas fostes santificados, mas fostrs justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus (I Co 6. 9 - 11 Bíblia de Jerusalém). 
Em um primeiro momento o grande aprendizado consiste em nutrir uma vontade contrária à satisfação dos desejos da carne. Em um segundo momento, que crentes precisam se distinguir do mundo, e o fazem por meio de um procedimento que abomina a devassidão (πορνειαν - porneian), ou imoralidade sexual. Contudo, há que se evitar igualmente a avareza. o termo πλεονεξιαν (pleonexia), indica alguém que busca satisfazer seus desejos a qualquer custo, ainda que mediante sequestro e extorsão. Daí a ligação com o termo αρπαξιν  (arpaxin), cujo sentido é o de alguém que comete extorsão. 

Para todos os efeitos o caminho para a vitória sobre a natureza está na ação do Espírito Santo de Deus. Nada de exercícios de mortificações, mas no poder de Cristo, que opera por meio do Espírito. Esta lista de vícios morais, ou obras da carne são abordadas em vários textos paulinos. Estes retornarão ao longo desta série de estudos. 

O FRUTO DO ESPÍRITO
Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio, Contra estas coisas não há lei (Gl 5. 22 - 23 Bíblia de Jerusalém). 
Amor aqui nada tem a ver com atração física, simpatia e amizade, do contrário seria impossível amar aos inimigos. o termo αγαπη (ágape), indica a mais profunda devoção pelo bem estar do objeto do amor. Já alegria -  χαρα (chara) - não se limita à excitação das funções orgânicas, em razão de um satisfação momentânea, contudo é a alegria em Deus. A paz (ειρηνη - irene), não consiste em ausência de conflito, antes é harmonia, prosperidade tudo quanto se encerra no termo שָׁלֹ֣ום (shalom). 

A longanimidade, ou μακροθυμια (machrotymia) é uma paciência nas relações que permite suportar injúrias alheias. Bondade pode ser também gentileza, ao passo que benignidade é a gentileza em ação. Fidelidade, ou fé do grego πιστις. A lista de virtudes ou frutos se encerra com mansidão e temperança, πραοτης εγκρατεια (parautes e ekgrateia). 

Como este fruto se desenvolve?

  1.  Por meio da decisão do crente em viver pelo Espírito. 
  2. Reconhecendo que para viver em amor o crente depende em tudo do Espírito de Deus e da ação do próprio Deus na vida do mesmo.
  3. Sabedor que a carne não está sujeita à lei de Deus e nem pode ser
  4. Reconhecendo uma por ma das obras da carne e a incompatibilidade destas com a vida cristã e com a vida no Espírito. 
  5. Fazendo morrer, por meio do Espírito de Deus uma por uma das obras da carne. 
Em Cristo, Marcelo Medeiros. 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Deus o Primeiro Evangelista




Este é mais um post que tem como objetivo principal dar aos alunos e professores da Escola Bíblica Dominical, que estudam a lição das Casas Publicadoras das Assembleias de Deus, os subsídios necessários para um maior aproveitamento de seus estudos. A lição deste próximo domingo parte da premissa de que Deus deu início à atividade de evangelização e que por este motivo exige de nós amor e responsabilidade para com esta tarefa.

Já na introdução é perceptível a intenção do autor em articular a revelação de Deus à pessoa de Abraão com o anúncio do Evangelho enquanto iniciativa divina. O problema que se levanta contra esta pressuposição é o de que desde o Éden o Senhor deu claros indicativos de que haveria de redimir o homem de seu estado pecaminoso.

A ideia de que Deus anunciou o Evangelho primeiramente a Abraão, vem de uma citação paulina cujo texto na íntegra afirma: Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti (Gl 3. 8 ARCF). feita a colocação, cabe a pergunta: o que precisamente Paulo está querendo dizer ao afirmar que Deus anunciou o primeiro o evangelho a Abraão?

O TEXTO ÁUREO EM SUA ACEPÇÃO


Acepção aqui é a distinção entre o que o autor do texto bíblico quer dizer, e o que o autor da lição disse. Não creio ser incorreto afirmar que Deus é um evangelista (portador de boas novas). Ele trouxe excelentes notícias aos patriarcas, aos profetas, reis e inúmeros servos dentre o povo de Deus. Mas ainda se faz necessário que se considere do texto áureo em seu contexto.

Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti. De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão (Gl 3. 6 - 9 ARCF). 
A expressão inicial das palavras de Paulo nesta sentença  "Assim como" são indicadores de que uma similitude, ou um paralelismo está se estabelecendo aqui. Em primeiro lugar ao efetuar uma leitura em seu devido contexto percebe-se que o autor do texto acima faz uma conexão entre a promessa a Abraão e a pregação da fé.Esta evidenciou Jesus e trouxe o Espírito para a dimensão de vida dos crentes da Galácia.

Em seguida Paulo propõe um paralelo entre a benção de Abraão e a justificação pela fé em Cristo. Este é o Evangelho que Deus anunciou primeiramente a Abraão.
Então levantou Abraão os seus olhos e olhou; e eis um carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres, num mato; e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho. E chamou Abraão o nome daquele lugar: o Senhor proverá; donde se diz até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá. Então o anjo do Senhor bradou a Abraão pela segunda vez desde os céus, E disse: Por mim mesmo jurei, diz o Senhor: Porquanto fizeste esta ação, e não me negaste o teu filho, o teu único filho, Que deveras te abençoarei, e grandissimamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e como a areia que está na praia do mar; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos (Gn 22. 13 - 17 ARCF). 
Na carta aos Romanos Paul vai afirmar que esta descendência de Abraão não é o povo que descende do patriarca segundo a carne, mas aqueles que são da fé.
Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque, nosso pai; Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú (Rm 9. 6 - 13 ARCF).
Este mesmo argumento será reforçado em Gálatas quando Paulo afirma: Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo (Gl 3. 16 ARCF).  É em Cristo que as promessas de Deus feitas aos patriarcas são realizadas. Todavia a realização das mesmas não mais está na esfera material, mas na espiritual.

Em outras palavras, a benção de Abraão aqui nada tem a ver com a as campanhas de fé, realizadas por gente inescrupulosa, que na verdade não possui fé alguma. É antes a fruição plena das promessas de justificação pela fé e de vida no Espírito. Tanto Jonh MacArthur quanto Jonh Stott afirmam asseveradamente estas verdades.;

Nas lições do corrente trimestre e nos estudos publicados neste blog, há que se esclarecer que o cerne do Kerigma (entenda-se pregação) apostólico era este: Deus cumpriu em Cristo as promessas feitas aos patriarcas e ratificadas ao povo da aliança. O Messias encarnado, crucificado e ressurreto cumpre plenamente as expectativas depositadas Isaque e sua descendência.

Assim MacArthur entende que as boas novas à Abraão se manifestam na promessa de salvação para todos os povos, sendo este patriarca o instrumento para o cumprimento das mesmas. Retornando ao texto de Gálatas há que se observar ainda que para Paulo dar maior tom de autoridade à sua argumentação ele apela às Escrituras. Aqui há que se perceber mais uma vez que o Evangelho é estritamente escriturístico.

Toda vez que se depara com uma profecia messiânica as boas novas aparecem repentinamente diante do leitor da Bíblia. Com vistas a realçar esta verdade Paulo personifica as Escrituras, afirmando que as mesmas previram que Deus havia de justificar pela fé os gentiosPorque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra (Rm 9. 17 ARCF), e: Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido (Rm 10. 11 ARCF). e ainda: Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas, e derribaram os teus altares; e só eu fiquei, e buscam a minha alma? (Rm 11. 2, 3 ARCF).

Neste ponto especificamente a Escritura é equiparada ao próprio Deus, quando Paulo prossegue afirmando: Mas que lhe diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos a Baal (Rm 11. 4 ARCF).O Evangelho é a Escritura. Sem esta não existe aquele. Logo, a afirmação de que a benção de Abraão se realiza na justificação pela fé dos crentes é fundamentada. 

O EVANGELHO NAS ESCRITURAS
Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar (I Pe 1. 10 - 12 ARCF). 
Há que se observar aqui que tudo o que ocorreu com Cristo é produto do cumprimento das profecias. Tudo mesmo. Seu nascimento virginal, sua pobreza, a visita dos magos, sua apresentação no templo, a fuga para o Egito, o retorno para a Galiléia o estabelecimento em Nazaré, vida, morte, e ressurreição são descritos como realização das profecias. 

O quer este texto diz é que o Evangelho foi antecipado nas Escrituras. Ele foi dito antecipadamente quando nas estepes do Sinai Deus vindicou para si toda a terra como sua propriedade e marcou Israel como propriedade exclusiva.Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel (Ex 19. 5, 6 ARCF).  

Os sinais que Deus realizou antes da saída do povo do Egito antecipam o Evangelho, uma vez que por meio dos mesmos o nome de Deus foi glorificado. 
Então disse o Senhor a Moisés: Levanta-te pela manhã cedo, e põe-te diante de Faraó, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus dos hebreus: Deixa ir o meu povo, para que me sirva; Porque esta vez enviarei todas as minhas pragas sobre o teu coração, e sobre os teus servos, e sobre o teu povo, para que saibas que não há outro como eu em toda a terra. Porque agora tenho estendido minha mão, para te ferir a ti e ao teu povo com pestilência, e para que sejas destruído da terra; Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra (Ex 9. 13 - 16 ARCF). 
Perceba que na palavra que Deus ordena que Moisés fale ao soberano egípcio é dito claramente que Faraó foi mantido em seu posto para que o nome de Deus fosse glorificado em toda a terra. E eu endurecerei o coração de Faraó, para que os persiga, e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, e saberão os egípcios que eu sou o Senhor. E eles fizeram assim (Ex 14. 4 ARCF).  

Quando Paulo citou este texto, empregou διαγγέλω (diaggeloo), que consiste em anunciar plenamente um fato, ou notícia. No texto grego do AT, διαγγέλω é empregado para traduzir סַפֵּ֥ר (Shapt). E o fato é que o nome de Deus espalhou a partir dos feitos, tanto que Raabe disse aos espias que acolheu: Bem sei que o Senhor vos deu esta terra e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desfalecidos diante de vós (Js 2. 9 ARCF). 

Sob este prisma o propósito da lei é revelar a sabedoria manifesta de Deus, bem como a proximidade deste em relação ao povo. 
Vedes aqui vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Senhor meu Deus; para que assim façais no meio da terra a qual ides a herdar. Guardai-os pois, e cumpri-os, porque isso será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo é nação sábia e entendida. Pois, que nação há tão grande, que tenha deuses tão chegados como o Senhor nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? E que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós? (Dt 4. 5 - 8 ARCF). 
Deus faz inúmeras promessas de que os povos haveriam de serem incluídos na economia da Salvação. E alguns destes textos podem ser mencionados abaixo. 
Todos os limites da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor; e todas as famílias das nações adorarão perante a tua face. Porque o reino é do Senhor, e ele domina entre as nações (Sl 22. 27, 28 ARCF). 
Todas as nações que fizeste virão e se prostrarão perante a tua face, Senhor, e glorificarão o teu nome. Porque tu és grande e fazes maravilhas; só tu és Deus (Sl 86. 9, 10 ARCF).  
Para anunciarem o nome do Senhor em Sião, e o seu louvor em Jerusalém, Quando os povos se ajuntarem, e os reinos, para servirem ao Senhor  (Sl 102. 21, 22 ARCF).  
Em alguns momentos da vida do povo eleito esta verdade foi ofuscada pelo nacionalismo e  pela xenofobia. Mas a verdade persistiu. Hoje o desafio se foca na questão do denominacionalismo e outros vícios evangélicos que tem feito da Igreja um clube particular de santos, ou uma agência de entretenimento, ao invés de uma prestadora de serviços na divulgação do Evangelho.

Marcelo Medeiros.

domingo, 10 de abril de 2016

A Necessidade de Salvação



A tese central da Carta aos Romanos é que o Evangelho é o Poder de Deus para a salvação daquele que crê (Rm 1. 16), em outras palavras a reposta mais eficaz a real situação do homem. Aqui convém perguntar: que situação é esta? A que é brilhantemente resumida nas palavras do apóstolo: todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Rm 3. 23 ACF), ou, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado (Rm 3. 9 ACF).

Neste post compartilho de um estudo que produzi há muito tempo atrás, mas que traz uma abordagem ao tema. Graça e paz.

A exposição de Paulo nesta seção, parte do princípio de que toda a humanidade está debaixo do pecado. Sendo que todos pecaram e estão privados da glória de Deus(Rm. 3. 23). Mas o Todo Poderoso não pode ser responsabilizado pela transgressão da humanidade caída, pelo contrário ele sempre providenciou meios para que o homem pudesse encontrá-lo, ainda que tateando o pudessem achar (At. 17. 27). De sorte que, em coerência com sua pregação, Paulo entende a própria existência como testemunho de Deus. Mesmo aos que estão sem lei, fio dado um testemunho. Algo que nos conhecemos como consciência (que em grego se lê syneideeseoos), ora nos acusa, ora nos defende (Rm. 2. 14 – 16).
Mas a despeito de todo o esforço divino, o quadro apresentado pela humanidade não é de longe o melhor possível.

Não há homem justo, não há um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus.Todos se extraviaram, todos juntos se corromperam; não ha quem faça o bem, não há um sequer.Sua garganta é sepulcro aberto, a sua língua profere enganos; há veneno de serpente debaixo de seus lábios, sua boca esta cheia de maldição e azedume.Seus pés são velozes para derramar sangue; há destruição e desgraça em seus caminhos.Desconhecem o caminho da paz, não há temor de Deus diante de seus olhos  ( Rm. 3. 10 – 17 B. J.).

Antes de falarmos a respeito da ira de Deus, precisamos entender quer sua manifestação se da por motivos justos. Mesmo separado do homem por causa do pecado deste, o Criador faz de tudo, usa de todos os mios para se aproximar da humanidade caída, mas recebe como resposta a idolatria dos gentios(que por sua vez resulta em depravação moral) e hipocrisia religiosa do judeu.  Sendo que todos pecaram e estão privados da glória de Deus(Rm. 3. 23).   

1 – Os gentios debaixo da ira de Deus.

Por que o que de Deus se pode conhecer, é  manifesto entre eles, pois Deus lhes revelou. Sua realidade invisível, seu eterno poder e divindade, torno-se inteligível desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não tem desculpa. Pois tendo conhecido a Deus não o honraram como Deus nem lhe renderam graças; pelo contrário, eles se perderam em vãos arrazoados e seu coração ficou nas trevas. Jactando-se de possuir a sabedoria, tornaram-se tolos e trocaram a gloria do Deus incorruptível por imagens de homem corruptível, de aves, de quadrúpedes e répteis.(Rm. 1.19 – 23).

As imprecações que Paulo lança contra a os gentios por sua idolatria; lembra, em alguns aspectos, os escritos pós-exílicos. Na verdade ocorre uma mescla entre estes e a pregação dos profetas.  Estes textos lidos e comparados com o da carta aos Romanos, nos dão uma ampla visão do aspecto ambíguo da situação humana. Deus lhe faz uma revelação excelente, mas os sentidos deste o arrastam ainda mais para seu estado de pecado.

Sim, naturalmente vãos foram todos os homens que ignoraram a Deus e que partindo dos bens visíveis, não foram capazes de reconhecer Aquele que É, nem considerando suas obras reconhecer o artífice. Mas foi o fogo, ou o vento, ou o ar sutil, ou a abóboda estrelada, ou a água impetuosa, ou os luzeiros do céu que eles reconheceram como deuses, regentes do mundo! Se fascinados por sua beleza, os tomaram como deuses, aprendam quanto lhes é superior o senhor de todas as coisas, pois foi a própria fonte da beleza que as criou. E se os assombrou sua força e atividade, calculem quanto mais poderoso é Aquele que as fez, pois a grandeza e a beleza das suas criaturas fazem, por analogia, contemplar o seu Autor.Estes não merecem contudo, senão breve repreensão, pois talvez se extraviem buscando a Deus e querendo encontrá-lo.
 Vivendo no meio das suas obras, exploram-nas, mas a sua aparência os subjuga, tanto é belo o que vêem!Entretanto, nem estes sequer são perdoáveis: pois se foram capazes de conhecer tanto, a ponto de prescrutar o mundo, como não descobriram antes o seu senhor? (SABEDORIA 13 . 1 – 9).

O que podemos destacar da comparação entre estes dois textos?

  • ·         Deus revela a si mesmo ao homem através de sua criação.
  • ·         Os sentidos humanos encontram-se obscurecidos a esta revelação, impedindo uma resposta positiva por parte da humanidade decaída.
  • ·         Enganados pelos sentidos, asso brados pela beleza dos elementos naturais, estes divinizam a criação no lugar do Criador.
  • ·         O autor não descarta possibilidade de alguns destes idolatras terem sido enganados em sua busca sincera, mas condena o fato de se deixarem levar pela beleza dos sentidos.
  • ·         Por ultimo, os considera indesculpáveis – pois estes possuem todas as condições necessárias ao conhecimento de Deus.


Estes são os motivos pelos quais os gentios se encontram debaixo da ira divina.

2 – os judeus debaixo da ira de Deus.

Se ao gentio foi dada uma revelação indireta, e mesmo assim Deus pede contas  de suas ações idolatras,  os judeus se encontram em uma situação mais delicada. Estes se gloriam de serem conhecedores da lei, e, portanto, da vontade de Deus. Entre os tantos motivos de orgulho que um judeu contemporâneo de Paulo poderia ter destacamos os seguintes: a capacidade de discernimento, a revelação superior da lei, a sua posição de mestre e luz para os ignorantes e uma intimidade com Deus (baseada no cumprimento da lei (Dt. 4. 6 – 8; Rm. 2. 17 - 22). Mas exatamente naquilo que o judeu condena o gentio, ele se condena a si mesmo de sorte que é inescusável (termo cujo significado é: indesculpável). O mau testemunho dado por este traz escândalo. De sorte que podemos ler: tu, que te glorias na lei, estas desonrando a Deus pela transgressão da lei, pois está escrito: por vossa causa o nome de Deus esta sendo blasfemado entre os gentios (Rm. 2. 23, 24 B.J.). Os vários privilégios desfrutados pelos descendentes de Abraão só fazem aumentar a sua responsabilidade diante de Deus.  A situação destes pode ser resumida assim:

  • ·         por terem recebido a lei de Deus pensam que são mais sábios e inteligentes do que os gentios (Rm. 2. 20).
  • ·         Mas os gentios que não receberam a lei e ainda assim a cumprem ( por que a tem escrita em seus corações, Rm. 2. 12 – 16), estes sim serão justificados no juízo final.
  • ·         Os padrões do julgamento divino são: segundo a verdade  (Rm. 2.2), segundo as obras de cada um(Sl. 62. 12; Rm. 2. 6 – 10) e sem acepção de pessoas (Dt. 10. 17; Rm. 2. 11).
  • ·         Com base neste aspecto, afirmamos em coerência com o ensino da carta de Romanos que judeus e gentios se encontram em condições semelhantes diante de Deus.
  • ·         A circuncisão do judeus somente lhe será útil, do momento em que este obedece a lei (Rm. 2.25 – 27). Caso contrario, será julgado pelo incircunciso que cumpriu a lei.
  • ·         Se a economia divina coloca o judeu como primeiro na salvação, o justo juízo de Deus o coloca também como primeiro na condenação. 


 Todos estes dados fazem de Deus o justo juiz, e do homem um pecador culpado. Mas mesmo após a resposta negativa do ser humano, o Senhor se revela misericordioso, fiel e benigno ao tratar com a humanidade. Mesmo sendo pecadores, ele envia o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados(I Jo. 2. 1, 2) para morrem por nossos pecados e ressuscitar para a nossa justificação.

Eis por que isto lhe foi levado em conta para a justiça. Não foi escrito só para ele: - foi-lhe levado em conta – mas também para nós. Para nós os que cremos naquele que ressuscitou dos mortos, Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação (Rm. 4. 22 – 25 B.J.).

Em Cristo, Marcelo Medeiros. 


sábado, 9 de abril de 2016

Para Entender a Epístola aos Romanos





Este é um dos mais significativos documentos do Novo Testamento. A influência que a carta aos Romanos exerce na Cristandade se vê pela quantidade de comentários que lhe são dedicados. Stott aponta Agostinho, Lutero, Calvino e Karl Barth entre os que se propuseram a refletir a respeito do conteúdo desta epístola.

Não bastasse a reflexão dos autores supra, Stott destaca as controvérsias acadêmicas que a mesma provocou. Trata-se da ênfase. Afinal, Romanos aborda a questão da justificação pela fé versus a confiança nas obras, ou na inclusão ods gentios na fé em Cristo, que até aquele momento era vista como sendo uma ramificação do judaísmo.

O fato que se ressalta é o de que cristãos que primam pelo discipulado, precisam conhecer esta carta a fim de ampliarem sua percepção a respeito do Evangelho, e em face do aumento de sua percepção quando ao mesmo, poderem dispor de um contéudo que lhes permita discipular. Discipular nada mais é do que ensinar as pessoas a guardarem o que Cristo disse. Com este propósito em mente convido o leitor a prosseguir na leitura deste post.

O AUTOR


Mais do que o consenso a respeito da autoria paulina da carta, é perceptível que quaiquer teses acadêmicas que duvidem de tal não possuam o mínimo crédito. Há um acordo, isto é fato. Quando se volta para o texto percebe-se que o autor se apresenta da seguinte forma: Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus (Rm 1. 1 ACF).


Em primeiro lugar Paulo é um δουλος ιησου χριστου (doulos Iesou Christou), ou servo de Jesus Cristo. Uma leitura desta expressão sob a ótica de I Co 9. 19 onde ele mesmo afirma: Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais. Esta mesma Igreja estava profundamente dividida pelo partidarismo. Uns diziam ser de Paulo, outros de Pedro, outros de Apolo. Qual é a resposta do Apóstolo?

Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? (I Co 3. 5 ACF). A expressão aqui é διακονοι (diakonoi), cujo sentido seria o de um garçom que serve à mesa. Mas em algumas vezes pode ser empregada como sinônimo de δουλος. A percepção de Paulo a respeito de si mesmo é a de um servo que serve por meio da pregação do Evangelho.

A segunda percepção de Paulo a respeito de si mesmo é de que ele é um apóstolo. O termo αποστολος é correlato ao verbo αποστοληω, cujo snrtido é o de enviar. Um apóstolo é alguém enviado com uma missão específica. Tomando Paulo como exemplo é também um plantador de Igreja. Apenas neste sentido os apóstolos atuais podem se igualar a ele.

No tocante à posse de uma autoridade normativa, jamais. Apóstolo algum é, ou será como Pedro, Paulo, e os demais. Eles foram sucessores dos profetas e a Igreja está edificada sobre o fundamento lançado pelos mesmos. Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina (Ef 2. 19, 20 ACF).

Os apóstolos atuais, podem no máximo serem como foi Epafrodito, de quem Paulo diz: Julguei, contudo, necessário mandar-vos Epafrodito, meu irmão e cooperador, e companheiro nos combates, e vosso enviado para prover às minhas necessidades (Fp 2. 25 ACF). O termo empregado aqui é αποστολον, ou enviado.

Por último, Paulo diz de si mesmo:  separado para o evangelho de Deus. Aqui ele faz referência a sua chamada para levar o Evangelho diante dos reis e das nações da terra, conforme se lê: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome (At 9. 15, 16 ACF).

LOCAL, DATA, DESTINATÁRIOS


Sabe-se destes elementos a partir de uma leitura do penúltimo capítulo da carta em apreço quando Paulo afirma:

Quando partir para Espanha irei ter convosco; pois espero que de passagem vos verei, e que para lá seja encaminhado por vós, depois de ter gozado um pouco da vossa companhia. Mas agora vou a Jerusalém para ministrar aos santos. Porque pareceu bem à macedônia e à Acaia fazerem uma coleta para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém. Isto lhes pareceu bem, como devedores que são para com eles. Porque, se os gentios foram participantes dos seus bens espirituais, devem também ministrar-lhes os temporais. Assim que, concluído isto, e havendo-lhes consignado este fruto, de lá, passando por vós, irei à Espanha. E bem sei que, indo ter convosco, chegarei com a plenitude da bênção do evangelho de Cristo. E rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que combatais comigo nas vossas orações por mim a Deus; Para que seja livre dos rebeldes que estão na Judéia, e que esta minha administração, que em Jerusalém faço, seja bem aceita pelos santos; A fim de que, pela vontade de Deus, chegue a vós com alegria, e possa recrear-me convosco (Rm 15. 24 - 32 ACF). 
Possivelmente Paulo tenha escrito seu trabalho em Corinto, quando estava prestes a regressar a Jerusalém com a coleta que fizera para os pobres de lá. Ao que parece o propósto do apóstolo era o de após passar por Jerusalém, dirigir-se à Espanha. Neste caso Roma era uma rota entre os dois destinos.

Todavia, em sua passagem por Roma, Paulo pretendia compartilhar algo do Evangelho que ele pregava. Com este intuito escreve a carta em apreço aos crentes de Roma, a fim de informar aos mesmos a respeito do Evangelho que ele pregava. A necessidade de tais informações se devia ao fato de que esta era uma comunidade que não havia sido fundada pelo apóstolo.

As origens da comunidade romana são incertas. A hipótese mais acertada e com a qual Stott e Murray trabalham é a de que no Pentecostes haviam peregrinos procedentes de Roma, e que com o regresso de alguns, a comunidade fora fundada. Aqui se faz necessário considerar que a comunidade de Antioquia (que era base oriental do ministério de Paulo), fora fundada de forma similar. Sendo que neste último caso, seus fundadores saíram de Jerusalém por ocasião das perseguições empreendidas por Saulo de Tarso (que mais tarde viria a ser Paulo).

Um ponto interessante é que a Igreja, ao que parece era formada tanto por judeus, quanto por gentios, ou pagãos. Isto se infere dos textos em que Paulo parece dialogar com judeus. Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; E sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei (Rm 2. 17, 18 ACF). Não sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei) (Rm 7. 1 ACF).

Todavia ambos os autores abandonam completamente quaisquer especulações a respeito da proporção de judeus e gentios que esta comunidade teria. E focam a Teologia do apóstolo neste documento cristão. Daí a necessidade de minha parte em adotar similar poroceder e me antecipar com relação ao propósito de tal carta.

PROPÓSITO DA CARTA


Ao longo deste estudo foi estabalecido que a comunidade romana não fora plantada por Paulo, mas que a mesma era fruto da ação missonária de irmãos que possivelmente tenham tido seu contato com o Evangelho no dia de Pentecostes. Paulo não queria plantar em campo semeado por outros. Todavia entendia que tinha algum χαρισμα (charisma), para compartilhar, ou comunicar com os santos daquela localidade.


Daí a necessidade de o apostolo se fazer conhecido aos cristãos de Roma, e apresentar aos mesmos suas credenciais apostólicas, bem como o programa de seu Evangelho. Este engloba a apresentação da situação geral dos homens, tanto judeus quanto gentios (Rm 1. 18 - 3. 19), a imputação da justiça de Deus ao homem pecador (mediante a fé em Cristo [Rm 3. 21 - 5. 10]), a liberação da escravidão do pecado e o processo de santificação (Rm 6 - 8), a promessa de Deus para com Israel (Rm 9 - 11) e as consequências da salvação na vida pessoal (Rm 12 - 15). 

Na opinião de Murray e Stott, Roma era uma rota importante no caminho entre Jerusalém e Espanha. Do mesmo modo que Paulo tinha feito de Antioquia sua base para a Evangelização no Oriente, e na Acaia, ao que parecia ele pretendia fazer de Roma sua base de Evangelização no Ocidente. Mas antes de prosseguir para seu destino, ele pretendia passar por Jerusalém com a coleta que fizera pelos santos de lá.

Na opinião do apóstolo, se os gentios desfrutavam dos bens espirituais dos judeus, por que não poderaiam compartilhar dos materiais com os mesmos? Na opinião de Stott e Murray, os planos do apóstolo não se concretizaram, visto que ao se dirigir para Jerusalém com a coleta pelos santos, ele foi preso pelos judeus. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros. 

quinta-feira, 31 de março de 2016

O Destino Final do Mortos



Franklin Ferreira afirma, acertadamente, em sua Sistemática, que a religião tem como finalidade fornecer ao homem resposta sobre sua condição. Uma das temáticas privilegiadas é a morte. A questão que se coloca é: esta é o fim da trajetória humana, ou tão somente a passagem para uma outra vida? Na cosmovisão cristã esta é uma passagem para uma outra vida, ou para a verdadeira vida, entendida como Eternindade.

Considerável parte desta temática foi abordada neste blog em uma série de Estudos. Contudo, julgo conveniente retomar às mesmas questões com vistas ao Estudo em tela. Assim, abordarei a respeito do Estado Intermediário, da Situação dos Mortos, e do destino final dos mesmos. Todavia, o farei sabedor de que não há como se ter uma palavra final a respeito.

Isto, porque o que se tem em termos de informação bíblica não se constitui como base para uma opinião definitiva. Assim, conforme adimitido por Geisler, o que se pode é fazer inferências e levantar hipóteses especulativas, desde que as mesmas não firam o que é dito nas Escrituras. É com tal princípio em mente que prosseguirei neste singelo estudo.

O ESTADO INTERMEDIÁRIO


Conforme sugerido no próprio nome, este consiste no período entre a morte do homem e a sua ressurreição. A causa das grandes controvérsias existentes a respeito do mesmo se deve em razão das poucas informações que a Bíblia dá a respeito do mesmo. A leitura de Teologia do Antigo Testamento de Eichrodt me fez perceber que a ausência de informações a respeito do mundo dos mortos se deve, em parte à influência que as culturas vizinhas de Israel podessem ter sobre tal nação.


Considerando que as Escrituras tem na "inspiração divina" a sua origem, não é de estenhar que os Escritores tenham dado pouca importância à questão. Afinal, a prática de se consultar aos mortos tinha de ser combatida. Sob o prisma da revelação progressiva pode-se afirmar que os judeus mantiveram por longo período crenças aparentemente contraditórias.

De um lado os que criam que a morte cessava com todas as atividades dos "mortos". Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma (Ec 9. 10 ACF). De outro os que criam que as funções eram mantidas. O que pode ser visto no cântico fúnebre que Isaías entoa em relação à Babilônia.

O inferno desde o profundo se turbou por ti, para te sair ao encontro na tua vinda; despertou por ti os mortos, e todos os chefes da terra, e fez levantar dos seus tronos a todos os reis das nações (Is 14. 9 ACF). Perceba que o texrto fala em chefes da terra e  reis das nações. E aqui surge uma verdade, a de que a Bíblia, no caso, o Antigo Testamento fala da morte, não como um fim, mas como um meio. Este é o ponto em que o Ensino de Escatologia Geral se encontra com a Escatologia Individual.

A morte é falada na literatura sapiencial com o intuito de chamar o homem a uma atitude frente ao momento presente. Este é, por exemplo, o Ensino de Eclasiastes, para quem:
  1. A morte está dentro do Chronos, a sucessão de eventos. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou (Ec 3. 2 ACF). 
  2. Tanto homens como animais estão sujetos à mesma, sendo ambos passageiros. Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade (Ec 3. 19 ACF). 
  3. A morte não é píor do que o nascimento de alguém. Melhor é a boa fama do que o melhor ungüento, e o dia da morte do que o dia do nascimento de alguém (Ec 7. 1 ACF). 
  4. Ir a um entenrro pode ser uma atitude sábia, uma vez que faz com que o homem atente para o seu fim. Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração (Ec 7. 2 ACF). 
  5.  Sendo que todos irão morrer, a vida presente precisa ser melhor aproveitada (Ec 9. 5 - 11). 
O ensino sapiencial a respeito da morte exige, demanda algum tipo de resposta por parte do indivíduo no tempo presente. Não existem especulações profundas a respeito da vida no além túmulo, apenas hipóteses. E o Estado Intermediário é Intermediário, ao invés de o Destino Final. Os mortos estão aguardando a Ressurreição do juízo, ou a resssurreição da vida. 

Em Daniel lê-se: E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno (Dn 12. 2 ACF). Jesus mesmo disse: Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação (Jo 5. 28, 29 ACF). 

O que se sabe é que dentre justos e injustos, os mortos aguardam a ressurreição para o seu estado definitivo. Há duas teses que se contraditam uma é a de que os mortos estão em bem-aventurança (é o caso dos justos), ou em tormento (é o caso dos ímpios). Para Tal lança-se mãos da parábola do Rico e do Lázaro. 

Todavia esta não tem como finalidade o ensino de novíssimos, mas tão somente despertar os ricos para o uso correto da riqueza a fim de que os mesmos não se vejam na condição do rico no Hades, conforme amplamente dito neste post. A percepção oposta é dos que se apegam aos textos que retrata a situação do morto como um sono, conforme se vê neste post

Momentos antes de sua morte Estevão estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus; E disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus (At 7. 55, 56 ACF). Momentos após, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu (At 7. 60 ACF). 

Este texto é revelador, pois mostra que ambas as estruturas devem de ser mantidas. No momento de sua morte os crenes contemplam a Deus em sua formosura e majestade, e ato contínuo descansam de suas obras e de seus sofrimentos na esperança de uma união definitiva com Cristo. A paz que o vislumbre do rosto de Cristo e da face de Deus concederam a Estevão foi tal que ele teve sua mente e coração pacificado para pedir perdão pelas ofensas de seus detratores. 

A SITUAÇÃO DOS MORTOS

A situação dos homens após a morte é descrita de forma um tanto obscura no Antigo Testsamento. Os mortos são descritos da seguinte forma por Elifaz: 
Entre pensamentos vindos de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo, Sobrevieram-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram. Então um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos da minha carne. Parou ele, porém não conheci a sua feição; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz que dizia: Seria porventura o homem mais justo do que Deus? Seria porventura o homem mais puro do que o seu Criador? Eis que ele não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui loucura; Quanto menos àqueles que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó, e são esmagados como a traça! (Jó 4.13-19 ACF). 
Elifaz credita a crença de que homem algum pode ser justo diante de Deus, a fala de um espírito, cujo contato se deu em meio às visões noturnas. Todavia Jó, em seu desespero parece acreditar em algo diferente do que Elifaz cria.
Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó, Ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta. Porém, morto o homem, é consumido; sim, rendendo o homem o espírito, então onde está ele? Como as águas se retiram do mar, e o rio se esgota, e fica seco, Assim o homem se deita, e não se levanta; até que não haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono (Jó 14. 7-12 ACF). 
Em alguns raros momentos se expressa a crença em uma visão de Deus após a morte.
Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, Vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior (Jó 19. 25-27 ACF). 
Ao que parece somente a Parábola do Rico e do Lázaro fundamenta a opinião de um Estado de Bem-aventurança, ou de condenação imediata após a morte, uma impressao que no mínimo será revista após a leitura deste post.  Um outro texto é o relato da crucificação de Cristo, cuja interpretação pode ser vista neste post.

A respeito do texto apocalíptico que fala das almas debaixo do altar, convém reparar que após o clamor das almas é dito às mesmas que repousem, até que o número dos que haverão de morrer da mesma forma se complete.
E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram (Ap 6. 9 - 11 ACF). 
A respeito do Estado Intermediário, creio que as duas imagens, a da morte como um sono, e a do imediato estado de bem-aventurança, ou de suplício devam ser mantidas, a despeito da tensão entre as mesmas. 

O DESTINO FINAL DOS MORTOS

Alguns textos são bem pontuais no que tange ao destino final dos mortos, para o apocalipsista Daniel: muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno (Dn 12. 2 ACF). Vida Eterna é equivalente a cèu, ou à presença de Deus, ao passo que vergonha eterna é o afastamento de Deus, conforme se pode ler neste texto de Santo Agostinho extraído do livro "A Cidade de Deus". 
A morte existirá, mas será eterna, quando a alma não poderá viver, por estar separada de Deus, nem ver-se livre das dores do corpo pela morte. A primeira morte tira do corpo a alma contra a vontade dela, e a segunda retém-na no corpo contra a vontade dela. Uma e outra têm em comum que o corpo faz sofrer à alma o que ela não quer (AGOSTINHO, 2012, p. 573). 
C. S. Lewis observa que quando os santos são chamados ao céu, após o julgamento, eles são chamados a um reino que lhes foi preparado, ao passo que os ímpios vão para um lugar que foi preparado para o diabo e seus anjos. Daí a eterna inadequação do homem a este lugar e a inviabilidade de felicidade no mesmo. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros.  
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