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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A Natureza dos Demônios - Agentes da maldade no mundo espiritual



O termo batalha espiritual pressupõe, por si só, a existência de lados antagônicos em torno de uma questão. Não há sentido em se falar de um conflito espiritual a partir de uma percepção monista, salvo se houver admissão de que o Absoluto possa trazer alguma forma de conflito em si. Fato, é que a partir de um determinado momento as Escrituras Judaicas inserem a figura dos demônios em sua teologia, mais do que isto faz desta inserção uma forma de de explicar a realidade e os constantes conflitos entre o povo judeu e os que buscavam corromper sua fé. 

Aqui, convém que se afirme uma verdade: poucos são os teólogos dispostos a levarem às ultimas consequências a declaração de que a revelação (ou se quiser entender como "percepção do sagrado", que o seja, é progressiva, ou processual). Com isto quero dizer que o modo como o homem percebe e descreve o  sagrado é histórico. 

Que o leitor não se espante caso eu abuse do negrito e do itálico, mas é algo necessário a fim de que algumas verdades teológicas possam ser estabelecidas neste estudo. De Gn até I Sm não há o mínimo indício de uma crença judaica na existência dos demônios. Pelo menos não como ocorre no no livro de Tobias e no restante da literatura apócrifa (apocalíptica). 

Mesmo as referências em que se fazem menção aos demônios, na verdade são descrições da percepção que se tinha a respeito dos ídolos (Dt 32. 17; II Cr 11. 15; Sl 106. 37). Não há, por parte do judeu, o menor interesse em formalizar sua crença nos demônios. Tanto as coisas boas, quanto as coisas más eram atribuídas à Deus (Is 45. 7). O anjo que se manifesta para Balaão, digo para a mula deste adivinho também é chamado de Satã no texto em hebraico (Nm 22. 22, 32). 

Um indicador importante é o modo como II Sm 24. 1 e I Cr 21 narram o mesmo fato. Na versão antiga, Deus se ira com Davi e com o intuito de o castigar, o incita  enumerar o povo de Israel. Na versão mais recente não é mais Deus, mas Satã quem se levanta contra Davi. Mesmo em Jó, o termo não significa ainda um princípio mal que se opõe a Deus, mas uma espécie de promotor público do céu (Jó 1 - 2). 

É tradição entre nós atribuir textos de Is 14. 12 - 15 e Ez 28. 12 - 15 o caráter de descrição de queda de Satanás, quando não o são. Falam respectivamente dos soberanos de Babilônia e Tiro. Tanto que Norman L. Geisler em sua Teologia Sistemática lançada pela Casas Publicadoras das Assembleias de Deus, assume que o entendimento de que tais textos sejam uma referência a uma possível queda de Satanás, seja na verdade uma inferência por analogia. 

O que quero falar aqui é que a leitura direta dos textos sugere o entendimento de que ambos falem de soberanos humanos. O contexto cultural em que o bem e o mal são explicados em termos de efeitos da obediência e desobediência à aliança, não abre espaços para a crença em demônios, como agentes do mal, e nem como seres possuidores de autonomia para agir. 

A expressão δαιμονιων (daimonion), vem do grego δαιμον, que na cultura grega era um deus, ou gênio bom que seguia as pessoas mais proeminentes na sociedade. No diálogo platônico Eutífron, é dito por Eutífron que Sócrates afirmava ouvir um δαιμον a todo o momento. Com isto a Filosofia de Sócrates, que é primorosa era atribuída à ação demoníaca. 

Aqui há que se lembrar que na cultura grega não há a diferença entre demônios e deuses. Somente a partir da Filosofia Helenística que se desenvolverão na cultura grega a crença em uma hierarquia demoníaca que fará a mediação entre deuses e os homens. Logo a percepção de que os demônios são maus caberá aos judeus, que farão associação destes com os espíritos que lançam males nos homens. 

É no livro de Tobias que tal entendimento aparece pela primeira vez. Antes de abordar tal passagem, necessário se faz observar que embora a declaração de fé das Assembleias de Deus não reconheça a inspiração de tais livros, e as teologias criticas, bem como as Ciências da Religião, lancem dúvidas sobre o caráter canônico de qualquer livro, há que se reconhecer a diferença entre valor sagrado e valor histórico. 

Para autores como Wheeler e Gabel, o valor canônico é constituído pela leitura e importância que a comunidade dá a um determinado livro. Já o valor histórico é atribuído ao historiador e ao exegeta, que a partir de determinados documentos procuram entender o contexto cultural em que determinados textos foram elaborados. 

Com isto, quero dizer que entendo a posição dos formuladores da Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Mas como Teólogo e Cientista da Religião não posso deixar de dar o devido valor aos documentos históricos. Tal como não posso ignorar o processo linguístico na formulação do conceito judaico de demônios. Feitas tais considerações poderei passar para o livro de Tobias. 
Então Tobias perguntou ao Anjo: "Azarias, meu irmão, que remédio há no coração, no fígado e no fel do peixe?" Respondeu-lhe ele: "se se queima o coração, ou o fígado de um peixe diante de um homem, ou uma mulher atormentado por um demônio, ou por um espírito mau, a fumaça afugenta todo o mal e o faz desaparecer para sempre. Quanto ao fel, untando com ele os olhos de um homem que tem manchas brancas, e soprando sobre as manchas ele ficará curado (Tob 6. 7 - 9 Bíblia de Jerusalém). 

Particularmente não uso como regra para minha vida prática o ato de exorcizar espíritos maus através de queima de quaisquer substâncias. Mas reconheço o valor histórico de tais narrativas. Estas refletem a crença de uma determinada época. Assim, quando orientado a se casar com a filha do devedor de seu pai, Tobias responde ao Anjo Rafael:
Azarias, meu irmão, ouvi dizer que a mesma foi dada a sete maridos e que todos morreram na noite de núpcias; morriam ao entrar onde ela estava. também ouvi dizer que era um demônio que os matava, por isto tenho medo. A ela não faz mal algum, porque a ama, mata porém quem queira aproximar-se dela. Sou Filho único, se eu morrer farei descer ao túmulo a vida de meu pai em consequência da sua tristeza por minha causa (Tob 6. 14, 15 Bíblia de Jerusalém). 
Diante de tal o Anjo Rafael repete a orientação dada nos versos anteriores. Ao seguir as orientações do anjo, o demônio Asmodeu é expulso e preso no Egito. 

É tardia a percepção de que a serpente do Éden fosse uma entidade espiritual que em decorrência de uma queda veio a tornar-se um inimigo de Deus e dos homens. Conforme ressaltado pelo autor da lição de Escola Bíblica Dominical, é tardia, na verdade oriunda da literatura apócrifa e apocalíptica a percepção de um adversário que se opõe a Deus e aos homens. 

O autor de Sabedoria de Salomão afirma que Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez imagem de sua própria natureza, foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo (Sab 2. 23, 24 Bíblia de Jerusalém). em regra diabo, ou διαβολου (diabolou) é a designação grega para o Hebraico השטן (ha Satan), que significa o Adversário. Mas aqui há que se fazer lembrar as observações de Walter Eichrodt para quem tanto השטן quanto διαβολου somente assumirão o status de maiorais dos demônios na literatura apocalíptica. Antes disto διαβολου e השטן são termos equivalentes para designar uma espécie de promotor celestial. 

Assim, no livro de Jó, Satanás vem entre os benai elohim - בני האלהים - ou filhos de Deus para lembrar ao próprio Deus que a fidelidade de Jó não é nada especial, uma vez que a mesma nunca fora realmente testada (Jó 1. 6- 9; 2. 1 - 6). O mesmo ocorre com Zc 3. 1, 2 e,m que o sumo sacerdote Josué é acusado, mas suas próprias vestes depõem contra ele. Satanás somente o acusa. 

O livro de Enoque apresenta uma versão suy generis para a origem dos demônios. Ali anjos abandonam seu principado e movidos pela concupiscência eles constituem corpos para si e coabitam com as mulheres (En Et 6. 1ss; II Pe 2. 4; Jd v. 6). Desta união espúria surgem surgem os Nephilins que correspondem aos Titãs de acordo com Gn 6. 1- 4ss. 

De acordo com En Et 6 - 16 o chefe dos guardiões são presos e outra parte segue atormentando aos demais homens até o dia em que serão julgados. É em Ap 12 que a João faz uma breve retrospectiva da história que visa narrar a luta entre o bem e o mal. Ali Satanás é identificado com a serpente do Éden e s conceitos acima são reunidos e integrados a esta pessoa. 
E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz. E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas. E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho. E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono. E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias. E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte. Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo. E, quando o dragão viu que fora lançado na terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho homem. E foram dadas à mulher duas asas de grande águia, para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente. E a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para que pela corrente a fizesse arrebatar. E a terra ajudou a mulher; e a terra abriu a sua boca, e tragou o rio que o dragão lançara da sua boca. E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra ao remanescente da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo (Ap 12. 1- 17 ACF). 

  1. Os intérpretes são unívocos em concordar que a mulher é um símbolo de Israel, que desde o Egito sofre inúmeras perseguições e ameaças de extinção, por conta de ser o povo do qual viria o Messias. 
  2. Para outros autores, esta mesma mulher é a Igreja que agora aguarda o retorno de seu Senhor. 
  3. O sol, aqui é símbolo da glória de Israel na antiga dispensação e da Igreja na Nova. É prometido na literatura apocalíptica que os sábios resplandecerão como luzeiros e estrelas no firmamento.
  4. O dragão é um animal mitológico que corresponde a uma serpente, daí a identificação deste com a mesma, mas que é empregado para fazer intercâmbio com a noção de Leviatã. 
  5. Neste texto ocorre uma associação entre o Dragão e a figura enoquiana de Azazel que assume a condição de príncipe dos demônios. 
  6. Embora Satanás seja descrito como o autor da perseguição aos crentes o grande fato é que ele já está derrotado e sua derrota é previamente enunciada pelo sucesso de Miguel e seus anjos em expulsar esta figura do céu. 
  7. Embora muitos teólogos vejam aqui mais uma descrição da queda, que ocorreu antes da criação, tendo a ver como uma espécie de conciliação entre as antigas ideias judaicas e as novas. Com este trabalho ocorre uma perfeita aglutinação entre a figura do judaísmo posterior em que Satanás é apresentado como promotor e a figura apocalíptica em que é o sedutor e responsável pela sedição dos anjos. 
  8. Há que se considerar aqui a fala de Franklin Ferreira em sua Teologia Sistemática. Para este as ideias correntes a respeito da queda de Lúcifer decorrem, na verdade, da obra o Paraíso perdido de Milton. 
  9. No presente texto a derrocada de Satanás é um esforço de se recuperar face à vitória inevitável dos santos, que vencem por meio do sangue do cordeiro e da palavra do Testemunho. 
  10. Este é um aspecto a ser considerado na concepção de Batalha Espiritual, visto que o Apocalipse é um escrito que visa dar ânimo e consolo às comunidades em perseguição, conforme pode ser visto nas sete cartas às sete Igrejas da Ásia. 
  11. Mesmo derrotado, o dragão se volta agora para a Igreja e induz às nações da terra contra esta. 
  12. Da mesma forma que ocorrera com Israel, a Igreja, a semente da mulher, é levada ao deserto a fim de experimentar livramento das insídias de Satã. 
  13. Mas mesmo no deserto ele movimenta as nações da terra contra a noiva do cordeiro. 
  14. O apocalipse se encarra com a vitória do cordeiro sobre o dragão e sua besta, como sobre as demais potências infernais, indicando a vitória dos cristãos contra as perseguições do império romano. 
  15. Neste aspecto ocorre um alinhamento com as demais formas literárias do Novo Testamento. Paulo por exemplo percebe na morte de Cristo na cruz. uma antecipação da vitória de Cristo sobre as hostes infernais (Cl 2. 14, 15). 
  16. O próprio Jesus entendia que suas curas e expulsões de demônios eram na verdade, antecipações da derrota final de Satanás (Mt 12. 28 - 30). Até os demônios reconhecem que Cristo os condenará (Mc 1. 23 - 28). 
  17. Ainda que venhamos a reconhecer a particularidade de cada gênero literário, é perceptível aqui o alinhamento das ideias da vitória de Cristo sobre os poderes das Trevas. 
  18. A diferença da literatura apocalíptica é que a vitória do cordeiro ganha dimensões cósmicas. 
Espero que este estudo instigue cada vez mais a curiosidade do estudante da Bíblia, e contribua para maior compreensão por parte de professores e alunos a respeito do papel dos demônios na Batalha espiritual. No período bíblico, esta representava a derrocada iminente do mal. Hoje infelizmente tem sido re-significada de forma grosseira. 

Em Cristo, Pastor Marcelo Medeiros, Teólogo, Pedagogo, Especialista em Ciências da Religião. 

domingo, 6 de janeiro de 2019

Batalha Espiritual - A realidade não pode ser subestimada



Uma leitura atenta do Novo Testamento coloca o leitor diante de um dado curioso; o da existência de um conflito entre as forças do mal e as forças do bem. O que não se sabe é que tais passagens que sugerem semelhante conflito são resultado da influência da literatura apocalíptica e apócrifa interbíblica. Com isto não pretendo dizer que que o NT seja uma cópia de tais escritos, mas que recebe sim clara influência destes.

A Batalha Espiritual está presente na pregação e nas curas e expulsões de demônios realizadas por Jesus, por exemplo. O anúncio do Reino de Deus coincide com a perspectiva judaica do primeiro século, de que a qualquer momento a realidade poderia ser transformada e o Reino de Deus irromperia na mesma. Assim, o anúncio deste representa a derrocada definitiva do mal.

É sob esta perspectiva teológica que o relato de Lucas a respeito da missão dos setenta tem de ser entendida. Cada cura, cada exorcismo, é sinal claro de que o mal está sendo derrotado, e de que Satanás, o Valente está sendo amarrado e os seus bens (as vidas humanas), estão sendo saqueadas (Mt 12. 28ss; Mc 1. 23 - 28; Lc 10. 19ss). Cito aqui tais textos apenas à título de exemplo. Minha considerações iniciais se baseiam nas leituras de Gordon Fee e Douglas Stuartt, além das Teologias Bíblicas de Joachim Jeremias e George Eldon Ladd.

O grande problema consiste no fato de que o movimento de "Batalha Espiritual" parece ignorar tais elementos exegéticos e importar ideias totalmente estranhas ao contexto histórico e cultural. É com este propósito que a  presente lição está sendo ensinada. o texto escolhido para a primeira lição da série de estudos é I Pe 5. 8 - 10. 
Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar; Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo. E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça. 
Que, ou quais observações podem ser feitas a respeito deste texto? 

  1. Há no texto uma ordem para ser sóbrio, o que equivale a estar em constante vigilância. Aqui os termos são intercambiáveis. 
  2. O adversário (gr. διαβολος [diabolos]), anda ao derredor. Aqui um inimigo é destacado. Na verdade o nome significa acusador, ao passo que Satã sim é adversário em hebraico. 
  3. Todavia a palavra αντιδικος (antidikos) denota um adversário legal, que se opõe a uma pessoa em um julgamento. 
  4. A fé é o elemento fundamental para que se resista ao diabo, aqui personificado nos adversários que perseguem e acusam os crentes. 
  5. Com estas conotações iniciais, a batalha que teria uma ênfase pessoal, ganha dimensões espirituais. 
  6. O segredo da vitória neste ambiente hostil, é o Deus de toda a graça. É Ele quem dispõe dos recursos de sua graça para fazer com que os crente se tornem perfeitos, confirmados, fortificados e inabaláveis. 
Em geral, a primeira carta de Pedro fala a respeito do sofrimento cristão inicialmente, este é apresentado como sendo um meio pelo qual a fé é testada. Em outras palavras o teste autenticidade do cristão é o sofrimento, e de certa forma esta ideia retorna próximo ao fim da carta (I Pe 1. 6 - 9; 4. 1 - 5). O capítulo 2 traz a ideia de que não há problema em sofrer sendo justo, demonstrando com isto a crise que havia na comunidade da fé naqueles tempos, afinal, o sofrimento do justo sempre foi um dilema. A resposta para tal questão é que não há mérito em sofrer como ímpio, ou injusto, mas se sofremos como justos, encomendamos nossas almas ao criador e deixamos a justiça com ele (I Pe 2. 13 - 25; 3. 13, 14). 

Aquele que decide por seguir a Cristo, precisa estar armado com o mesmo sentimento que houve em Cristo, que sendo justo de dispôs a sofrer (I Pe 4. 1, 2). De forma que o "fogo", da tribulação que se alastra entre nós é sinal de que o mesmo Espírito que esteve em Cristo, está sobre nós (I Pe 4. 14). Fora o fato de que se Deus tem de julgar o mundo, ele tem de começar com a sua casa (I Pe 4. 17, 18). 

Mas as considerações apostólicas terminam com o apontamento de dois lados interessados nesta questão. De um lado o nosso adversário, de outro, nosso Deus. O primeiro é comparado aos leões, cuja fome os faz andar em derredor de potenciais vítimas, o segundo, dando aos seus o suporte necessário para suportarem o sofrimento. 

Daí minha total anuência aos comentários dos especialistas que produziram as notas da Bíblia de Estudo da Nova Versão Transformadora, para os quais  διαβολος [diabolos] é um nome genérico para um acusador, ou um difamador, o que é confirmado por Robinson (2012). Assim, há de se levar à sério a possibilidade de que este texto na verdade esteja falando dos acusadores e adversários dos cristãos nos tribunais.

Em todos os casos, é nítida a ideia de que a apocalíptica judaica influenciou em muito a percepção dos cristãos do Novo Testamento. Isto é tão verdadeiro que um estudioso judeu como Geza Vermes proponha o estudo de tais escritos como suporte exegético para a compreensão do Novo Testamento. E na apocalíptica os males sofridos pelos cristãos não são de origem exclusivamente humana, mas partem de um adversário espiritual que o Ap de João identifica como sendo tanto  διαβολος [diabolos], quanto Satanás (Ap 12. 9 - 18). 

Na expectativa de que com este estudo o interesse sadio no tema seja renovado, me despeço por agora. Em Cristo, Pastor Marcelo Medeiros. 

terça-feira, 9 de junho de 2015

O Poder de Jesus Sobre a Natureza e os Demônios



No início do capítulo quatro do Evangelho de Lucas o leitor se depara com o relato da tentação. Neste curioso episódio o tentador desafia sua filiação divina, a experiência de Cristo no Jordão e o amor marcante na sua relação com o Pai. A sequência traz um quadro diferente, no qual os demônios além de conhecerem a identidade de Cristo, ainda confessam o poder do mesmo. Este passa a ser o padrão comum nos encontros de Cristo com as pessoas oprimidas por espíritos malignos.

Quanto ao poder de Cristo sobre a natureza em Lucas ele é perceptível por meio da pesca maravilhosa (Lc 5). A despeito da explicações que possam ser elaboradas para o respectivo fato, a verdade é que tudo o que os discípulos possuem é a Palavra de Cristo para por meio da autoridade da mesma se orientarem a respeito de onde lançariam as redes. Embora o fato a ser observado hoje seja o controle do Cristo sobre a tempestade.

PODER SOBRE OS DEMÔNIOS


Aqui se faz necessário atenção para o seguinte texto:

E estava na sinagoga um homem que tinha o espírito de um demônio imundo, e exclamou em alta voz, Dizendo: Ah! que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste a destruir-nos? Bem sei quem és: O Santo de Deus. E Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-te, e sai dele. E o demônio, lançando-o por terra no meio do povo, saiu dele sem lhe fazer mal. E veio espanto sobre todos, e falavam uns com os outros, dizendo: Que palavra é esta, que até aos espíritos imundos manda com autoridade e poder, e eles saem? E a sua fama divulgava-se por todos os lugares, em redor daquela comarca (Lc 4. 33 - 37 ACF). 
algumas questões terãode serem observadas neste texto:

  1. O fato se dá em uma sinagoga. Este é uma instituição de ensino dos judeus. A mesma se popularizou após o exílio babilônico, e funcionava como um escola cujo fim era a educação dos meninos judeus na torah. 
  2. Jesus entrou nesta sinagoga, leu uma porção do profeta que versava a respeito de sua missão, que cinsisitia em pregar liberdade aos cativos (Lc 4. 19  ACF). 
  3. Uma pessoa possuída por espíritos malignos se manifestou em plena sinagoga. Em sua manifestação o demônio assumiu uma postura diferenciada em relação ao momento da tentação. Nesta ocasião o espírito maligno confessa que Cristo é o Filho de Deus a quem foi dado o poder para os condenar e atormentar. 
  4. Jesus não aceita o testemunho dos espíritos imundos, e os manda calar e saírem das pessoas, evitando assim quaisquer associações entre ele e os espíritos. 
  5. A despeito de sua clara oposição aos espíritos malignos na mentalidade dos fariseus ele era um associado de Belzebú, o príncipe dos demônios. 
  6. A despeito da oposição dos fariseus e demais autoridades políticas e religiosas da época, Jesus era estimado pelo povo, que reconhecia o seu poder em relação aos demônios. 
  7. Seu poder sobre os demônios foi um dos fatores que associados aos milagres mais diversos contribuíram para que sua fama se espalhasse divulgando-se por todos os lugares, em redor daquela comarca. 
Face às colocações supra cabe acrescentar que o ministério de Jesus não se centrava somente em exorcismos. Estes ocorriam dentro de um espectro maior, o ensino de Jesus. É a este que os espíritos malignos reagem a verdade ensinada por Cristo marca a proximidade do Reino. em decorrência do seu poder o espanto tomou conta dos que estavam na sinagoga a ponto de dizerem: Que palavra é esta, que até aos espíritos imundos manda com autoridade e poder, e eles saem? E a sua fama divulgava-se por todos os lugares, em redor daquela comarca (Lc 4. 37 ACF). 

De acordo com Vincent, este é um dos raros textos em que Lucas emprega o termo ακαθαρτοις πνευμασιν (akathartois penumasin), ou espírito impuro como as versões em lígua portuguesa. O poder de Cristo sobre os demônios é descrito por meio de dois termos εξουσια (exousia) e δυναμει (dinamei). A primeira expressão engloba o pleno poder que é confiado a alguém no exercício de uma missão. E Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo, ou como disse João: Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo (I Jo 3. 8 ACF).

O poder de Cristo sobre os demônios evidenciava-se também por meio da obediência dos demônios à pessoa de Cristo. Perceba a pergunta das testemunhas: Que palavra é esta, que até aos espíritos imundos manda com autoridade e poder, e eles saem? Mais do que isto, os espíritos malignos, além de submissos ao poder de Jesus ainda reconheciam a autoridade e missão messiânica do mesmo.

E também de muitos saíam demônios, clamando e dizendo: Tu és o Cristo, o Filho de Deus. E ele, repreendendo-os, não os deixava falar, pois sabiam que ele era o Cristo (Lc 4. 41 ACF). Este é um quadro bem oposto ao da tentação no deserto. Na referida ocasião o diabo tentou Jesus no sentido de induzir o mesmo à dúvida quanto à sua filiação. Agora eles reconhecem sua missão messiânica. A expressão grega ο χριστος (o Cristo), equivale à expressão מָשִׁ֣יחַ (mashiah), o Ungido.

Em algumas das ocasiões, estas expulsões de demônios eram chamadas de curas. Como também os atormentados dos espíritos imundos; e eram curados (Lc 6. 18 ACF). Aqui Lucas emprega um termo usualmente traduzido por cura, mas cujo sentido nos escritos clássicos é o de prestar cuidados médicos, θεραπευω (therapeuoo). Sendo que frequentemente os evangelistas a empregam no sentido de curar mesmo. Em alguns momentos Lucas reforçava com a expressão ιατο (iato), para demonstrar que a ação de Jesus não se limitava aos cuidados, mas que se efetivava em cura mesmo (Lc 9. 11).

Um caso do notável poder de Cristo sobre o demônios foi o episódio do gadareno possuído por uma legião de espíritos malignos, conforme pode ser visto nas linhas abaixo
E, quando desceu para terra, saiu-lhe ao encontro, vindo da cidade, um homem que desde muito tempo estava possesso de demônios, e não andava vestido, nem habitava em qualquer casa, mas nos sepulcros. E, quando viu a Jesus, prostrou-se diante dele, exclamando, e dizendo com grande voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes. Porque tinha ordenado ao espírito imundo que saísse daquele homem; pois já havia muito tempo que o arrebatava. E guardavamno preso, com grilhões e cadeias; mas, quebrando as prisões, era impelido pelo demônio para os desertos. E perguntou-lhe Jesus, dizendo: Qual é o teu nome? E ele disse: Legião; porque tinham entrado nele muitos demônios. E rogavam-lhe que os não mandasse para o abismo. E andava ali pastando no monte uma vara de muitos porcos; e rogaram-lhe que lhes concedesse entrar neles; e concedeu-lho. E, tendo saído os demônios do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se de um despenhadeiro no lago, e afogou-se (Lc 8. 27 - 33 ACF). 
perceba que:

  1. Os espíritos malignos privaram o homem de sua razão, ao ponto de que este sequer andava vestido, ou tinha vida social. 
  2. A primeira ação dos espíritos que possuíam aquele homem foi a de manifestar o seu temor diante de Cristo. O verbo empregado aqui é προσεπεσεν (prosepesen), que segundo Vincent é uma prostração motivada pelo senso de terror. 
  3. A primeira fala do demônio na boca deste homem é: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes. É declarado aqui que tanto Cristo quando o demônio não se coadunam, e que os espíritos malignos, por maiores males que causem aos homens, sabem que serão julgados por Cristo. 
  4. Os espíritos pedem a permissão para permanecerem naquela região, indo para a manada de porcos, e somente mediante a autoridade de Cristo são atendidos. 

Este é o poder de Cristo sobre os demônios.

O PODER DE JESUS SOBRE A NATUREZA

E aconteceu que, num daqueles dias, entrou num barco com seus discípulos, e disse-lhes: Passemos para o outro lado do lago. E partiram. E, navegando eles, adormeceu; e sobreveio uma tempestade de vento no lago, e enchiam-se de água, estando em perigo. E, chegando-se a ele, o despertaram, dizendo: Mestre, Mestre, perecemos. E ele, levantando-se, repreendeu o vento e a fúria da água; e cessaram, e fez-se bonança. E disse-lhes: Onde está a vossa fé? E eles, temendo, maravilharam-se, dizendo uns aos outros: Quem é este, que até aos ventos e à água manda, e lhe obedecem? (Lc 8. 22  - 25 ACF). 
Como explicar a tranquilidade de um homem diante da fúria de uma tempestade? Aqui cabe a observação de que o fato se dáem um Lago com o qual os discípulos de Cristo tinham profunda intimidade, visto que a maioria dos mesmos exercia a sua profissão como pescador no Lago da Galiléia. Contudo, o contraste é gritante. Jesus está dormindo enquanto os seus discípulos estão se desesperando.

Um olhar mais atento para as Sagradas Escrituras revela ao leitor um Deus que tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés (Na 1. 3b ACF). Eliú é ainda mais detalhista que Naum em seu hino de louvor às maravilhas de Deus na natureza.
Da recâmara do sul sai o tufão, e do norte o frio. Pelo sopro de Deus se dá a geada, e as largas águas se congelam. Também de umidade carrega as grossas nuvens, e esparge as nuvens com a sua luz. Então elas, segundo o seu prudente conselho, se espalham em redor, para que façam tudo quanto lhes ordena sobre a superfície do mundo na terra. Seja que por vara, ou para a sua terra, ou por misericórdia as faz vir. A isto, ó Jó, inclina os teus ouvidos; para, e considera as maravilhas de Deus (Jó 37. 9 -14 ACF). 
Os ventos, o frio, a geada, as nuvens, o relâmapago têm sua origem em Deus. Daí a intimidade de Cristo para com os mesmos. Tudo o que o Senhor quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos. Faz subir os vapores das extremidades da terra; faz os relâmpagos para a chuva; tira os ventos dos seus tesouros (Sl 135. 6, 7 ACF).  

Estes textos respondem a pergunta a respeito de Jesus: E eles, temendo, maravilharam-se, dizendo uns aos outros: Quem é este, que até aos ventos e à água manda, e lhe obedecem? Perceba que a atitude dos discípulos foi de espanto φοβω (phoboo), de onde vem o termo fobia. Mas para aquele que criou os céus e a terra nada são. 

Em Cristo.


Marcelo Medeiros. 
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