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sábado, 12 de maio de 2018

ÉTICA CRISTÃ E DOAÇÃO DE ÓRGÃOS



A Bíblia é produto de uma cultura pré científica. Como cristão creio que Deus se revela e deixa na mesma os princípios para a formação de uma cosmovisão que me permite a formação de uma ética. Logo, mesmo não vendo na Bíblia exemplos de doação de órgãos, posso ver na mesma os princípios que norteiam a minha conduta face a esta nova realidade. 

O princípio cristão apresenta Deus como autor, doador e mantenedor da vida. Esta lhe pertence. Daí que o modo como conduzimos nossa vida pessoal e de como nossas ações interferem positiva, ou negativamente na vida alheia, tem de ser considerada no campo da ética e da hamartialogia (sendo esta última bem mais complexa do que aquela). 

É em Deus e em Jesus Cristo que são encontrados os maiores fundamentos para a doação pessoal. Não se trata somente de doação de recursos, mas de tempo, da pessoa e da própria vida. Nos tempos apostólicos, tal entrega dava-se por meio da pregação do Evangelho. Todavia a compreensão daqueles tempos veio a abarcar bens. O senso de diaconia (leia-se serviço), ampliou tal conceito para a dedicação da vida. 

Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos (I Jo 3. 16 ACF). A palavra para vida aqui é a mesma palavra para alma (psiqué - ψυχην). 
Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Porque apenas alguém morrerá por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém ouse morrer. Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm 5. 6 - 8 ACF). 
Em outras palavras o Cristo que doou a sua vida por nós é nosso modelo de doação pessoal. Esta mesma doação pode ser vista em Paulo quando este afirma:
Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade quiséramos comunicar-vos, não somente o evangelho de Deus, mas ainda as nossas próprias almas; porquanto nos éreis muito queridos. Porque bem vos lembrais, irmãos, do nosso trabalho e fadiga; pois, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, vos pregamos o evangelho de Deus. Vós e Deus sois testemunhas de quão santa, e justa, e irrepreensivelmente nos houvemos para convosco, os que crestes. Assim como bem sabeis de que modo vos exortávamos e consolávamos e testemunhávamos, a cada um de vós, como o pai a seus filhos; Para que vos conduzísseis dignamente para com Deus, que vos chama para o seu reino e glória. Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes (I Ts 2. 8 - 13 ACF). 
Ao invés de reivindicar seus direitos de ser sustentado, Paulo preferiu comunicar o Evangelho, e se preciso fosse a própria vida aos crentes de Tessalônica. Ora, se o princípio de dar é Bíblico e os órgãos podem ser incluídos neste, onde está o dilema ético, para que se possa iniciar uma discussão filosófica? 

Segundo Mário Sérgio Cortella dilemas éticos se estabelecem quando o dever conflita com o querer, ou um destes, ou ambos conflitam com o poder. Em termos práticos, o indivíduo quer ser doador de órgãos, mas não pode (seja por uma doença, ou pela idade biológica), ou quer e pode, mas sente que não deve (sejam por questões religiosas e pessoais). É sob tais circunstâncias que se estabelece um embaraço à ação de cunho ético. 

Um outro caso concreto que pode exemplificar ainda melhor a questão do dilema ético que se estabelece no tocante à doação de órgãos pde ser visto em um episódio da série "Sob pressão", em que o motorista de uma van é espancado até a morte pelo pai de um adolescente que foi supostamente atropelado por este motorista. Discussões à parte, sobre a autoria do criem. ou não, fato é que para que o jovem fosse salvo seria necessária uma doação. E aí se estabelece o conflito. 

A morte cerebral do marido foi constatada e mulher do motorista viu-se diante do dilema ético de doar, ou não o coração do seu marido ao filho do agressor do mesmo. Para tal ela teve de ser altruísta para poder perdoar o agressor de seu marido, e doar o órgão do marido clinicamente morto ao jovem. É aí que reside de fato o dilema ético. 

Há uma considerável quantidade de relatos em que pessoas clinicamente mortas se restabelecem. Familiares se apegam a estes relatos para manter acesa a esperança de que a pessoa retorne ao convívio familiar. Diante da constatação médica de falência cerebral, o que fazer, agarrar-se a esperança de um milagre, ou assinar os papéis da doação de órgãos?

Mas uma produção A ILHA pode ser discutida aqui. Este narra a história de uma empresa que produz clones, para que seus órgãos sejam doados. Aqui mais uma vez o dilema se estabelece. seres humanos são clonados para a doação de órgãos. Aqui o que tem de ser uma ação altruísta se torna uma indústria, e mais uma vez o conflito ético se estabelece. Queremos viver para sempre, para que tal se concretize, podemos encomendar clones, que ao final nos sirvam para doação de órgãos? Este é o dilema ético. 

Duas falas de Cristo são vitais para a reflexão. 
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas (Mt 22. 37 - 40 ACF). 
Perceba que em Paulo  também ocorre a percepção de que a lei depende do mandamento do amor ao próximo. 
Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor (Rm 13. 9, 10 ACF). 
A palavra para cumprimento aqui tem a ver com plenitude. Visto que plerooma (πληρωμα) tem o sentido de plenitude. Com isto quer se dizer que sem o amor, a lei não se realiza. Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo (Gl 5. 14 ACF). Mas há uma outra expressão que Cristo emprega para resumir a lei e os profetas: tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas (Mt 7. 12 ACF). 

Este texto é a exegese do amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Ele não quer dizer que devo ter amor próprio para só então amar aos demais seres humanos. O amarás ao teu próximo tem sim, uma relação com o amor que tenho por mim, mas não é como o senso comum a entende. O que o texto quer dizer e aplicamos à presente discussão ÉTICA, é que devo tratar os demais como espero ser tratado caso me veja na situação, ou no lugar dele

Foi desta forma que o bom samaritano agiiu, e é assim que cada um de nós é compelido a agir. Em se tratando de doação de órgãos, precisamos nos colocar no lugar de um jovem, que tem toda uma vida pela frente, mas enfrenta uma falência renal, ou uma hepatite decorrente de uma transfusão de sangue, ou uma pancreatite, e fazer o que está ao nosso alcance. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Não podendo comprar é legitmo roubar?


Li recentemente uma matéria em que a senadora Ana Rita (PT-ES), afirma que s furtos não devem ser vistos como um problema criminal, mas social, uma vez que muitos dos casos são motivados pela equação entre os estímulos da propaganda, a incitação ao alto consumo e a dificuldade da pessoa em lidar com sua inadequação financeira (aqui). Mais uma vez os líderes, os intelectuais de plantão se demonstram ótimos na analise do problema, mas inadequados em prover uma solução para o mesmo. Sei que não sou parâmetro, e sei do relativismo de nossa sociedade. Mas tenho dificuldades com tal ideia. Sou de uma época em que batalhava-se pelo que se quisesse ter, e se não pudesse ter paciência. Mas o assunto não se esgota aí. A proposta foi recebida com suspeita pelo público, e queira o leitor, ou não, quem a interpretasse como o reflexo de uma política de protecionismo à marginalidade. Temo pelo possa vir adiante. Descriminalização de crimes e criminalização de direitos, como o da liberdade de expressão? Confuso!
Contudo, ao ver a situação sob o prisma intelectual, vislumbro uma hipótese significativa para a interpretação e reflexão sobre o fato. Este tipo de ação trágica se explica. É o estado querendo resolver aquilo que se resolve exclusivamente a partir do foro intimo do individuo. É por causa dos valores que o sujeito traz consigo que ele supera a dificuldade financeira e a excessiva exposição dos estímulos da propaganda. O que faz um homem ser ético?! Isto é um dilema, parece que desde os dias de Sócrates e Platão, até os dias atuais. O que é ética? Fico com o Cortella, que diz ser a ética um conjunto de valores que orientam a conduta do individuo (o texto na íntegra pode ser acessado aqui). Neste mesmo textos, os antiéticos e os aéticos, o autor afirma que mesmo bandido tem ética, porque eles tem um conjunto de princípios que os permitem julgar.
É neste ponto que a questão recai sobre a educação, e quando falo em educação, não falo da especializada, mas do fenômeno que ocorre quando seres humanos transmitem saberes, valores e conhecimentos uns aos outros na dinâmica das relações sociais. É o que ocorre na família, na Igreja, na sala de aula, no recreio, no bobs, mac donalds, cinema, na sala de estar, no quarto, na área, nos estádios, etc.... Para julgar o papel da educação na formação de valores que irão constituir a ética do sujeito, ou o tecido ético social, há de se ir para além das salas de aula. Necessário se faz com que se capte os valores que a sociedade transmite aos indivíduos. Desde a Grécia antiga, a busca pela felicidade foi de suma importância no desenvolvimento dos valores que constituem a ética. Mas os gregos antigos entendiam que a felicidade estava na vida bem ordenada. Na proposta platônica esta se dava a partir da justiça, da prudência, ou sabedoria, fortaleza, ou valor, e temperança. Sei que existem muitas outras visões a respeito do assunto, mas não posso me deter nas mesmas neste post.
O que quero afirmar aqui é que na minha leitura, percebo que a busca da felicidade de alguma forma se subordina à busca do sumo bem. Na concepção aristotélica existem varias formas de bens e eles variam tanto quanto os seres, mas mesmo neste pensador se percebe a busca pelo bem supremo, que por sua vez norteia outras formas de bem. Creio ser isto o que falta em nossos dias. E não é para menos, visto que a cultura atual é a de massificação. Com a cultura de massa a individuação perde o seu espaço, na verdade, ser individuo hoje é uma verdadeira via crucis. Daí que a alternativa viável para grande parte das massas seja o enquadramento neste, ou naquele papel. Ou o homem consumista, ou o trabalhador eternamente frustrado, ou o playboy, ou o adolescente que comete furtos.
Algum setor de nossa sociedade tem de começar com este processo de desconstrução, e o mais indicado seria a Igreja. Disse seria porque na verdade a própria Igreja tem sido engolida neste processo e como tal se tornado mais um produto atraente do mercado, mas ainda assim, é de lá que vem algumas vozes da resistência. E defender a moderação em uma sociedade hedonista, que em consequência de tal hedonismo incentiva demasiadamente o consumo e caminha para minimização dos delitos; é um trabalho hercúleo. Na verdade, é um trabalho para homens regenerados, que assumem seu papel como sal e luz e com o seu comportamento evitam a degeneração de nossa sociedade.
 
Marcelo Medeiros.
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