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quinta-feira, 15 de março de 2018

Nota de Repúdio


Não sou muito fã do discurso daquilo que chamam de a esquerda brasileira. Mas venho aqui manifestar meu repúdio ao ato covarde que ceifou a vida desta vereadora, cuja trajetória intelectual, acadêmica e política foi tragicamente interrompida. Ato contínuo convido aos meus irmãos evangélicos e demais leitores deste blog a fazerem o mesmo. 

Por favor não me venham com aquele discurso do tipo: e as mortes de policiais e cidadãos comuns? Falo e protesto contra ambas aqui neste espaço. Morte alguma pode ser naturalizada, nem a de agentes de segurança, nem a do Zezinho da comunidade, da Paulinha da zona Sul e muito menos a da vereadora. 

Daí meu total alinhamento com a nota de repúdio da OAB. Não é hora de brincar de guerra fria, de proferir discursos maniqueisantes, de mensurar qual morte é mais importante. A hora é de solidariedade, de ruptura com o discurso e com ideologias que somente servem para aprofundar ainda mais a divisão social e inviabilizar um discurso que analise os reais problemas de nossa nação.

Aqui cabem as lições do mestre Paulo Freire, cuja proposta educacional passava pelo referencial dialógico. Uma das formas para se inviabilizar a revolução era dividir para comandar, ou governar. E uma das formas para dividir é alimentar o ressentimento e a paixão e com isto inviabilizar o diálogo, sem o qual não há verdadeira democracia.

Na medida em que reflito sobre os problemas políticos que me cercam, percebo que o fervor ideológico pode ser instrumentalizado para impedir o diálogo e mascarar questões comuns. A morte de Mariella representa um tiro no discurso de representatividade da mulher, do negro e do favelado? Sim. Mas é igualmente um tiro na ascensão social de quem vem de comunidades carentes e vê na educação um meio para tal.

Mas há um elemento que não podemos deixar escapar. O motorista também morreu, e antes que matassem uma vereadora cuja trajetória foi marcada por conquistas sociais, acadêmicas e políticas, mataram uma policial negra há alguns anos atrás (na verdade duas), e três mulheres na semana passada.

Não ignoro a possibilidade de crime político, embora não pretenda especular sobre nada aqui, apenas desejo reforçar fatores sociais e históricos que promovam algo do qual nossa sociedade e forma de fazer política carecem: SOLIDARIEDADE. Ou o entendimento de que estamos no mesmíssimo barco e daí, morte alguma possa ser naturalizada. 

O momento é de solidariedade, repito, pois se faz necessária. É tempo de ensaio de uma união, onde as diferenças político partidárias sejam colocadas de lado e o bem estar de todos os nossos cidadãos, bem como os direitos destes sejam pauta da discussão. Salomão fala que na morte os homens tendem à reflexão e por este motivo podem se tornarem mais sábios. Quem sabe?

Marcelo Medeiros

domingo, 20 de novembro de 2016

Apenas um sol nublado no céu do Brasil


O dia de hoje não é mais um em meio a tantos vividos e morridos. Não, de forma alguma. Hoje possivelmente seja o sepultamento de quatro policiais mortos em operação policial na Cidade de Deus. O mais cruel é que a sociedade já se acostumou com a morte dos mesmos, mais do que isto, aprendeu a naturalizar os óbitos de policiais através de frases do tipo: eram os riscos da profissão deles. Curioso é que nenhum defensor, ou defensora dos direitos humanos esteja disposto a dizer algo similar com respeito aos marginais, que são tidos como vítimas da sociedade.

Na semana de luta de policiais civis e militares pela manutenção de seus direitos, veio a pior das demonstrações do quão desumana é o exercício das funções destes profissionais, que se dedicam a amenizar e corrigir aquilo que eles não criaram, o caos social. A recompensa pela missão hercúlea são projetos que o honestíssimo governo deste estado cria para subtrair direitos e o descaso, ou ausência de comoção diante de uma ato brutal como este.

Resta-me orar para que Deus conforte Às famílias e conceda às mesmas a necessária força para prosseguirem; que ele oriente a nossa mais que desorientada sociedade, a fim de que diante de ocorrências como estas sintam o real repúdio ao invés de racionalizarem tais tragédias. Que haja maior solidariedade e repúdio a toda ação que vise subtrair quaisquer direitos que sejam, de policiais, médicos e professores. Que a classe artística e política corem de vergonha por toda palavra, opinião e ação injuriosa para com estes heróis sociais. Que se reveja a estereotipia de que todo agente da lei é um opressor. Somente assim, teremos em cada policial que volta para sua família após uma missão, um sol que nasce no céu do Brasil.

Marcelo Medeiros.  

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Como Você Gostaria de Ser Lembrado Após a Sua Morte?




Recentemente me fizeram esta pergunta. Como Você Gostaria de Ser Lembrado Após a Sua Morte? Como uma pessoa polêmica, ou legal, educada? Minha sincera opinião é de que não posso contar com a opinião das pessoas para pautar minha conduta, antes devo me conduzir pela minha consciência.

Voltanto a pergunta Deus do céu! Como este tipo de pergunta tosca me faz sofrer. Confesso que fiquei muito embaraçado em responder. Não porque não tivesse uma resposta, mas por causa do nível cultural, filosófico e bíblico da pessoa. Busquei não ferir a mesma. (Não se engane, um dos fardos de ser uma pessoa que tenha leitura básica, e com o mínimo de senso crítico, é o risco de ser constantemente interpretado pelos outros como alguém arrogante, e com isto ferir o ego do outro). Mas aqui neste espaço me sinto livre, não para ferir, mas para expor a minha opinião, que não é nada pessoal, mas bíblico e filosófico.

Minha percepção é que a natureza dos homens, em virtude da queda, é de maneira tal que na verdade pouco se importam com que as demais pessoas realmente pensam deles. O problema se dá quando o pensamento se torna público (é o caso, por exemplo da pessoa que me fez esta pergunta). É isto que faz com que um chefe, ou qualquer pessoa que julgue ter um poder, em função da posição que ocupa, oprima deliberadamente, ou pratique injustiças com o seu subordinado, por exemplo. A única coisa que o para é a força da opinião dos demais.

Uma leitura básica nos escritos de Shoppenhauer, Pascal, Montaigne é reveladora com relação a isto. Para Pascal é o amor próprio que move os homens a construírem uma imagem pública nada condizente com aquilo que de fato são. E pior, quanto menos são, mais buscam parecer ser e ser vistos como exatamente aquilo que nem de longe o são. Pior, exigem que os demais o sejam. Em nossa sociedade isto é usualmente chamado de hipocrisia. Sua fonte: a escravidão natural dos homens em relação à opinião alheia.

Shoppenhauer tem sido meu companheiro de horas de solidão. Com ele tenho aprendido algo do qual sempre desconfiei. Quanto mais se estuda, mais estranho o ser humano tende a ser aos olhos dos demais homens. Sempre me senti um extra-terrestre, e sempre fui tachado das alcunhas mais estranhas possíveis. Coisas que nos ensinam a não dar a mínima para a opinião alheia.

Indo nas fontes da tradição católica (Padre Antônio Vieira), percebo em seu segundo sermão do Advento que aqueles que se humilham e penitenciam de seus pecados são imunizados da tirania da opinião alheia. O julgamento dos homens, diz Vieira condena Cristo, João Batista e acrescento: Estevão. Já o julgamento de Deus absolve Davi, e o ladrão da cruz. Daí que mais importante não é o que os homens pensam de mim neste vida e muito menos após minha morte, mas o que Deus pensa.

Indo as fontes bíblicas (não que Vieira não tivesse sido bíblico nas suas asseverações), percebo que o questinamento faz menos sentido ainda. Primeiro, o mundo decididamente não é justo. Homens como Jesus e Paulo foram tidos como escória deste mundo. Segundo para quem morre como ladrão da cruz e vai para o céu, pouco importa o mau conceito dos homens, o mesmo pode ser dito de alguém que é altamente conceituado, mas que ouve de Deus apartai-vos de mim, pois não vos conheço.

Não quero dizer com isto que não me preocupe em ser ético. Não! minhas decisões são tomadas com base na ação de pensar em como elas afetam outras pessoas. Mas quando se passa pela experiência de ser taxado de louco, ou passar por bullying pelo simples fato de artes, leitura, estudo, e assumir isto publicamente. Nada mais afeta tanto.

Há também aqueles casos em que ser crítico equivale a ser errado aí a opinião dos demais é mandada às favas. honestamente sempre odiei homenagens póstumas. As pessoas tem de serem reconhecidas em vida. Mas ao que parece este não é um hábito nosso. A mim serve de consolo que Deus não é injusto para se esquecer de nossas ações (Hb 6. 9). Cada vez mais desiludido com um mundo que paga aos ímpios como se fossem justos e trata os justos como se ímpios fossem, sigo com a esperança de que Deus dará a cada um segundo a suas obras.

Marcelo Medeiros. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A Morte de Eduardo Campos



Como disse, e com muita propriedade, Eliseu em seu blog, o inacreditável se confirmou, a morte de Eduardo Henrique Accioly Campos, de 49 anos, era economista, ex-governador de Pernambuco, presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSC), e candidato à presidência da República pelo mesmo partido (aqui). Os detalhes você pode conferir no link que postei. 

Meu post se presta a lamentar e deixar as condolências à família do político por tão irreparável perda. E, em tempo apontar que a privação não se resume à esfera familiar, mas a toda uma legião de fãs (admiradores do candidato) e eleitores que se veem privados de uma alternativa à viciosa polarização entre PT e PSDB. Agora resta aos mesmos Marina, e a esperança de que não se repita com ela o mesmo episódio da reprovação do registro de seu partido. 

Uma lição a ser tirada é a imprevisibilidade da vida. O homem pode até fazer planos, mas a resposta de lábios vem de Deus (Pv 16. 1, 2). À longo prazo Eduardo Campos seria um candidato forte de uma nação que quem sabe, fosse bem mais amadurecida politicamente, mas as expectativas foram duramente frustradas. Agora é pedir a Deus a graça para que ele nos dê outros eduardos, e a sabedoria para que o povo possa reconhecer Eduardos. Quanto a Marina, sucesso em sua caminhada. 

Marcelo Medeiros, com muita dor no coração. 

domingo, 20 de julho de 2014

Morre Rubem Alves



Me encantei com textos de Rubem Alves durante o período da graduação. Ao fazer a pós o encanto se tornou definitivo, afinal entre a Ciência e a Sapiência foi, e tem sido pontual na minha busca por elementos que permitam um rico diálogo entre Ciência e religião, algo que começou com um livro do escritor em apreço, O que é Religião? da coleção primeiros passos. 

A razão de ser deste post a respeito da morte de Rubem Alves não se resume à admiração confessa que tenho por este escritor (pelo menos não no sentido em que a palavra é compreendida). Confesso que sucessivas vezes me espantei com este artista e artífice das palavras e pensamentos, por ver no mesmo aquilo que queria verbalizar, mas não encontrava meios para tal. Todavia, ensinar em vida é uma oportunidade que todos os seres humanos possuem, mas que poucos se engajam em fazer. Mas na morte todos se tornam mestres. 

O óbito deste maravilhoso escritor é notícia em uma infinidade de sites na internet. Para fugir do comum, prefiro fazer menção a um texto, a ele atribuído, mas que me impactou, visto que aos meus quarenta anos me pego com a mesma sensação. O nome do texto? O tempo e as jabuticabas (aqui e aqui). Não citarei o texto na íntegra, apenas compartilharei as minhas impressões. 

Aprendi com Rubem Alves que a vida é tão orgânica quanto uma jabuticabeira. É preciso semear para colher, mas antes de colher teremos de regar, de cuidar para ver crescer, e aguardar pacientemente pelo fruto. Quando vier o fruto, o mesmo terá de ser cuidadosa e devidamente saboreado, pois tal como o tempo, ele se acaba. 

Há um momento na vida do homem, a juventude, em que se gastam energias com coisas fúteis, sem valor, é o chupar displicente das jabuticabas. Mas a maturidade vem quando uma por uma das jabuticabas são saboreadas, é quando o ser humano aprende a priorizar a doçura que a vida oferece e a largar de mão o amargo. É a lição que quero levar comigo. 

Tudo o que me resta neste momento é orar à Deus por consolação para toda esta família, que sentirá a falta deste tão ilustre componente, e agradecer a Deus por ter aprendido aos quarenta anos, com este ilustre cozinheiro do saber, que a doçura de jabuticaba e a azedume do limão precisam ser aproveitados ao máximo, e que não há tempo à perder. Rubem Alves se vai, mas a semente dele fica em minha vida.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

sábado, 4 de janeiro de 2014

A Parábola do Rico e do Lázaro




Um dos gêneros literários que encontramos nas Escrituras Sagradas é a parábola. O nome vem do grego παραβολην (parabolee), cujo sentido básico é o de comparação. É uma forma de ensinar que lança mãos às símiles. Fatos da vida cotidiana são usados por Cristo para ilustrar e transmitir ensinamentos. Fee e Sttuartt a definem como sendo uma história contada com fim de pegar (leia-se envolver), o ouvinte.

Dentro deste gênero temos uma parábola que é alvo de extremas controvérsias, a do Rico e do Lázaro. Primeiramente, Dake afirma em sua Bíblia de Estudo que o verbo haver, que aparece nas versões de Bíblias, é indicador de que a história contada por Cristo é real, do contrário, a mesma seria uma mentira, artificio do qual Cristo jamais se valeu. É fácil concordar que Cristo jamais se valeu de artifícios. Difícil é entender que a historia narrada seja uma descrição da vida futura, como querem os teólogos que seguem a linha dispensacionalista de Dake, e grande parte dos teólogos brasileiros.

O estudo deste texto é importante dentro do estudo geral da Escatologia, assunto sobre o qual falei abertamente neste espaço, aqui, aqui, e aqui. Creio que para entender o estudo anterior a este seja de vital importância tecer algumas considerações sobre este texto. Para tal necessário se faz observar o respectivo texto, e gostaria de ler o mesmo com o leitor do post. 
Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho fino e vivia no luxo todos os dias. Diante do seu portão fora deixado um mendigo chamado Lázaro, coberto de chagas; este ansiava comer o que caía da mesa do rico. Em vez disso, os cães vinham lamber as suas feridas. "Chegou o dia em que o mendigo morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. O rico também morreu e foi sepultado.
No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado. Então, chamou-o: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo na água e refresque a minha língua, porque estou sofrendo muito neste fogo’. "Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembre-se de que durante a sua vida você recebeu coisas boas, enquanto que Lázaro recebeu coisas más. Agora, porém, ele está sendo consolado aqui e você está em sofrimento. E além disso, entre vocês e nós há um grande abismo, de forma que os que desejam passar do nosso lado para o seu, ou do seu lado para o nosso, não conseguem’. "Ele respondeu: ‘Então eu lhe suplico, pai: manda Lázaro ir à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos. Deixa que ele os avise, a fim de que eles não venham também para este lugar de tormento’. "Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam’. " ‘Não, pai Abraão’, disse ele, ‘mas se alguém dentre os mortos fosse até eles, eles se arrependeriam’. "Abraão respondeu: ‘Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos’ (Lc 16. 19 - 31 NVI). 
  
I) Considerações

Face ao que lemos passo às considerações:
  1.   Os que desejam ver nesta história uma descrição natural se esquecem de que à luz do ensino geral das Escrituras a pobreza em si não é uma condição para a salvação, tal como a riqueza não é para a perdição.
  2. A fala de Abraão (Filho, lembre-se de que durante a sua vida você recebeu coisas boas, enquanto que Lázaro recebeu coisas más. Agora, porém, ele está sendo consolado aqui e você está em sofrimento), é no mínimo intrigante, visto que face a omissão de qualquer confissão de fé, ou ato de bondade por parte de Lázaro, ela colocaria o acesso à salvação como algo ligado à condição sócio econômica do individuo.
  3. Esta mesma frase, se interpretada fora do contexto geral do ensino de Cristo, pode colocar o Evangelho nos mesmo nível das religiões cármicas. A salvação é fruto exclusivamente da graça, nada tendo a ver com a condição social do indivíduo.
  4. De igual modo ninguém é condenado simplesmente pelo fato de ser rico e desfrutar em vida de tal riqueza.
  5. Ainda temos de considerar que, à luz do ensino bíblico, mesmo um rico que doe os seus bens aos pobres não tem pela simples doação a garantia de vida eterna, uma vez que Paulo mesmo afirmou: Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me vale (I Co 13. 3 NVI).
  6. A visão do mundo futuro esposada pelo autor do texto (diga-se de passagem peculiar ao Evangelista Lucas), reflete e muito a visão grega, e do judaísmo do Novo Testamento. Para ambos os grupos, o inferno, ou melhor, o αδης (hades) era uma região para onde se dirigiam todos os mortos indistintamente. Os de vida moral mais elevada iam para os Elíseos, ao passo que os de conduta perversa recebiam sua punição em um local do mesmo hades, o ταρταρω (tártaroo). A diferença é que no presente texto o Elíseos é chamado de seio de Abraão.
  7. É claro que neste, tal como ocorre em inúmeros casos, palavras gregas são empregadas para expressar conceitos judaicos, e falaremos mais a respeito disto, visto que se interpretarmos αδης no sentido judaico veremos que temos ainda menos razoes para acreditar que o texto em apreço é um texto descritivo.
  8. O pedido do rico para que Lázaro seja enviado á sua antiga casa, a fim de pregar para os seus irmãos, para que os mesmos não tivessem o mesmo fim, reflete a crença mística do judaísmo tardio de que importantes personagens do Antigo Testamento voltariam.
  9. Note que o diálogo se dá entre o rico e Abraão. Se este texto descreve uma história verídica, ou uma realidade objetiva como Dake deseja, devo crer que Abraão é um tipo de guardião, ou gerente do paraíso celeste?
Minha conclusão é de que se o texto for interpretado literalmente estabelece uma série de contradições com o ensino geral do Evangelho. O que me leva a apelar ao contexto da parábola.
II) O Contexto gramatical da parábola

Durante as aulas de hermenêutica no seminário, sucessivas vezes ouvi a frase: texto sem contexto é pretexto para heresia. O ensino implícito ao adagio mais do que popular entre os Evangélicos é o de que se quisermos estabelecer o fiel sentido de um texto, temos de analisar o seu contexto imediato. Isto fica ainda mais fácil quando a discussão se dá entre pessoas que creem na inspiração da Bíblia. Tal crença permite a conclusão mais do que obvia de que os textos não foram inseridos aleatoriamente nos contextos, mas com um proposito supremo.

O contexto em que tal história se insere é o da parábola do administrador infiel. A lição que Cristo quer passar ali é a seguinte:
usem a riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas. "Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito. Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas? E se vocês não forem dignos de confiança em relação ao que é dos outros, quem lhes dará o que é de vocês? "Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro". (Lc 16. 9 - 13 NVI). 
Simples assim. Este ensino possui ampla base e ordem nas Escrituras. Fato é que as riquezas devem ser usadas para a aquisição maior de amigos, a fim de que quando estas faltarem os amigos valham aos seus antigos ajudadores. Este é o uso da mordomia para aquisição e fortalecimento de relacionamentos autênticos.
Mas a história do administrador infiel trouxe reação negativa por parte dos fariseus, uma vez que os mesmos eram avarentos (Lc 16. 14), e Jesus reage afirmando:
Ele lhes disse: "Vocês são os que se justificam a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os corações de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus". "A Lei e os Profetas profetizaram até João. Desse tempo em diante estão sendo pregadas as boas novas do Reino de Deus, e todos tentam forçar sua entrada nele. É mais fácil o céu e a terra desaparecerem do que cair da Lei o menor traço. "Quem se divorciar de sua mulher e se casar com outra mulher estará cometendo adultério, e o homem que se casar com uma mulher divorciada do seu marido estará cometendo adultério" (Lc 16. 15 - 18 NVI). 
Gostaria de observar que:
  1. Jesus condena a hipocrisia e a avareza dos fariseus.
  2. Ao mesmo tempo em que tece severa crítica aos seus interlocutores, ele apela à autoridade da lei, o que não é novidade em seus embates com os mesmos.  
  3. Jesus afirma a sua autoridade como proclamador do Reino de Deus.
  4. A história contada por Jesus, a respeito de um rico, que se vestia de finas vestes, e um mendigo, que desejava se alimentar com as sobras do rico, é a continuação da fala que destaquei supra. Tudo leva a entender que ao mencionar a história, Jesus queria afetar aos fariseus.
Texto e contexto! Simples assim!
  1. A mensagem da lei e dos profetas tinha em seu conteúdo a justiça social, o que era ignorado pelos fariseus (Mt 23. 23).
  2. As boas novas do Reino trazem um conteúdo voltado para os pobres (Mt 11. 5).
  3. Tal como a lei, as palavras de Jesus possuem valor permanente (Mt 24. 34).
  4. Deus não levará em conta o casuísmo farisaico ao lidar com os homens no juízo.
É sob este prisma que o real sentido da história do rico e do Lázaro emerge do contexto bíblico.

II) O contexto teológico da parábola

Já foi comprovado, no presente estudo, que a história do Rico e do Lázaro foi uma resposta de Jesus aos fariseus, face à clara rejeição dos mesmos quanto ao ensino de Cristo no tocante ao uso das riquezas. Algo muito comum, da parte Jesus, é o recurso de se valer de imagens do cotidiano cultural do público para se fazer entendido. Neste caso, Cristo se vale da compreensão do judaísmo rabínico a respeito da vida após morte.

Na medida em que lemos os textos sapienciais, percebemos que a vida após morte era um mistério para o judaísmo anterior ao exílio. A palavra grega αδης (hades), foi amplamente empregada pelos tradutores da Bíblia hebraica para se referirem ao שְׁאֹ֑ול (Sheol), que por sua vez é descrito com sendo a terra de sombras e densas trevas, para a terra tenebrosa como a noite, terra de trevas e de caos, onde até mesmo a luz é trevas (Jó 10. 21, 22 NVI). Em seu grito de dor Jó concebe o שְׁאֹ֑ול como sendo um lugar onde todos se igualam, e igualmente encontram repouso, veja: 
Agora eu bem poderia estar deitado em paz e achar repouso junto aos reis e conselheiros da terra, que construíram para si lugares que agora jazem em ruínas, com governantes que possuíam ouro, que enchiam suas casas de prata. Por que não me sepultaram como criança abortada, como um bebê que nunca viu a luz do dia? Ali os ímpios já não se agitam, e ali os cansados permanecem em repouso; os prisioneiros também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do feitor de escravos. Os simples e os poderosos ali estão, e o escravo está livre de seu senhor (Jó 3. 13 - 19 NVI). 
Este pensamento tem o seu eco nos salmos onde vemos os salmistas afirmando: Quem morreu não se lembra de ti. Entre os mortos, quem te louvará? (Sl 6. 5 NVI). Ao receber livramento o Rei Ezequias entoou o seguinte louvor: pois a sepultura não pode louvar-te, a morte não pode cantar o teu louvor. Aqueles que descem à cova não podem esperar pela tua fidelidade (Is 38. 18 NVI). Ainda mais contundente é a forma com a qual se descreve o inferno neste texto:
Acaso mostras as tuas maravilhas aos mortos? Acaso os mortos se levantam e te louvam? Será que o teu amor é anunciado no túmulo, e a tua fidelidade, no Abismo da Morte? Acaso são conhecidas as tuas maravilhas na região das trevas, e os teus feitos de justiça, na terra do esquecimento? (Sl 88. 10 - 12 NVI).
Nestes textos o inferno, ou שְׁאֹ֑ול (Sheol) é descrito como:
  1. um lugar onde todos os seres humanos descansam, independente de sua condição moral,
  2. O mundo dos mortos,
  3. O abismo da morte,
  4. região de trevas e,
  5. Terra dos esquecimento, um lugar onde Deus não é louvado.
Com isto podemos afirmar, junto com Marvin Richardson Vincent e Hans Bietenhard que foi pela da visão grega e persa, que por sua vez desembocou na literatura apocalíptica que o rabinismo desenvolveu um pensamento elaborado sobre a vida no além. Fora das incursões especulativas dos textos poéticos não temos nada de concreto no Antigo Testamento a respeito da vida após a morte. É destas constatações que concluo que ao responder aos fariseus sobre a questão do emprego do dinheiro como meio para se alcançar um fim maior, que Jesus proferiu uma história nos moldes do pensamento da época.

O Novo Testamento também não é prodigo em informações a respeito da vida após a morte. Paulo fala em duas ocasiões em estar com Cristo (Fp 1. 23; II Co 4. 14 - 5. 10), e ao meu ver tal concepção, a despeito das influencias de pensamento do rabinismo, se coaduna com a cosmovisão poética e profética. Na medida em que o tempo se passou, e com a revelação progressiva, a ressurreição foi ganhando espaço no pensamento judaico (Is 26. 19; Dn 12. 2), o mundo dos mortos foi sendo visto como algo tão temporário que sequer merecia atenção.

O mesmo ocorre com Paulo quando este fala de estar com Cristo. Sua perspectiva não é a vida em um ambiente edílico e condição de uma alma, ou espirito desencarnado, mas dealguém que terá o seu corpo mortal transformado na imagem do corpo de Cristo (II Co 5. 1, 2; Fp 3. 20, 21). Enquanto tal promessa não se concretiza, ele estará com Cristo, e nem a vida, nem a morte podem interromper tal comunhão, que ele já desfruta com o Senhor (Rm 8. 35 - 39). Há que se lembrar que o alvo supremo de Paulo não é ser despido, mas revestido, e voltaremos a este assunto neste blog.

Fato, é que das duas maiores mentes reveladas no Novo Testamento, nem Paulo, e muito menos Jesus deram sobejas, ou parcas informações a respeito da vida após a morte, do paraíso, ou do inferno. Creio que boa parte de nossa cultura e pensamento a respeito destes assuntos se baseia mais em informações oriundas da cultura pagã. Jesus, ao menos ousou se dirigir aos fariseus nos termos desta cultura, mas Paulo só fez uma afirmação a respeito do paraíso, que as coisas que ele vira lá, eram ilícitas de se contar aos homens, dada a inefabilidade de tais realidades.

III) Observações exegéticas sobre a parábola

Ao fazer uma exegese do texto em si obtemos alguns elementos que nos permitem uma exegese mais apurada. Os versos iniciais contrastam o estilo de vida de dois homens socialmente díspares. De um lado temos um homem rico e do outro um pobre, na verdade um mendigo. O termo grego πτωχος (ptoochos) era usado para expressar toda forma de carência, e foi usado por Cristo, na primeira bem aventurança,  para se referir aos que possuem noção de sua pobreza e indigência espiritual. Sendo que neste último caso πτωχοι τω πνευματι (ptoochoi too pneumati), ocorre em uma forma diferente, mas retendo o mesmo sentido.

Digno de nota é a ocorrência do nome Lázaro, que em grego é λαζαρος, mas que Vincent entende como sendo uma forma abreviada do nome Eleazar, cujo sentido é Deus é meu socorro. Por mais que se tente ver aqui indícios de que tal texto não se trata de uma parábola, quando se interpreta os elementos que compõem a história, torna-se perceptível que se trata de uma peça literária, cujos elementos apontam para o contexto global do ensino de Cristo, conforme dissemos supra.

Foi aos pobres que Cristo anunciou o Evangelho. Não que isto fosse condição para a salvação, mas que na teologia bíblica geral o pobre desde cedo foi associado com o humilde, ou com o manso. Merece destaque o termo עֲנָוִ֗ ('anaw), a raiz do termo hebraico עֲנִיֶּ֛ ('ani), cujo sentido é do pobreza (Dt 15. 11). O pobre em Israel era aquele que não possuindo terra para trabalhar vivia em total estado de indigência, podendo vir a mendigar. Fato é que o pobre do contexto bíblico é bem diferente do pobre do contexto social atual (ver aqui).

No contexto geral do Evangelho de Lucas não há espaço para a crença errônea de que somente os pobres, no sentido econômico do termo, herdam o Reino de Deus. Um fato preponderante é a conversão de Zaqueu, cujo desprendimento de suas riquezas e posses é o maior sinal de sua salvação (Lc 19. 8 - 10). E uma peculiaridade neste evangelista é a colocação da historia de Zaqueu após o relato do encontro de Jesus com o jovem rico.

A partir de tais observações, sou levado a crer que os homens descritos por Cristo na parábola do Rico e de Lázaro, na verdade soa símbolos de dois perfis de pessoas. Aqueles que buscam a suficiência nos bens desta vida, e como recompensa vão para o hades, e os que buscam seu socorro exclusivamente em Deus. Cabem aqui algumas observações a respeito do paraíso, ou do céu conforme descrito na parábola (que fazem questão de que não seja uma parábola, mas uma história descritiva).

Observe, meu caro leitor que o paraíso é descrito como seio de Abraão, curioso não é? Isto talvez ocorra em função da fusão conceitual que se fez no período interbíblico entre os conceitos de Éden, paraíso e seio de Abraão, mas cabe ressaltar aqui que o encostar no seio é um ato de intimidade e proximidade extremas. Assim, Jesus coloca aquele, que aos olhos do povo e dos fariseus era visto como desprezado, o mendigo Lázaro, próximo a Abraão, ao passo que a riqueza e a tão desejada prosperidade, estão no inferno. Já observamos que no contexto gramatical da parábola, Cristo está dando uma resposta aos fariseus, que são descritos como avarentos e como pessoas que gostam de se trajar com pompa. Curiosamente, é desta forma que o rico é descrito. São fatores como este que me fazem crer que os mesmos fariseus que debochavam de Cristo, foram pegos pela história contada.

O céu não pode ser resumido a um lugar de compensação aos que sofreram nesta vida, embora a mensagem das Escrituras mostrem que os perseguidos por causa da justiça haverão de herdar o Reino de Deus e de Cristo, e que terão seus olhos enxugados de toda a lágrima (Is 35. 10; 60. 20; 65. 19; Ap 21. 4). Convém ressaltar que estas coisas somente serão possíveis pelo fato de que Deus será tudo em todos. em outras palavras, o paraíso, o céu, é a presença de Deus, coisa que a história omite.

Mais forte ainda é o pedido do rico que envie Lázaro aos seus familiares a fim de que o mesmo os advirta, para que aqueles não tenham o mesmo destino que o rico teve. E a resposta do pai Abraão (que diga-se de passagem, não viveu para conhecer Moisés, nem sua atividade como legislador), é que os parentes do rico têm Moisés e os profetas, se quiserem que os ouçam, e que em não ouvir a nenhum dos dois não ouvirão também que volte dos mortos.
  
IV) O que a parábola realmente diz
Falamos supra que nem a riqueza, nem a pobreza constituíam condições para que o homem fosse salvo, ou perdido, mas á luz do ensino do Evangelho de Cristo, a consciência, por parte do homem de sua pobreza espiritual e consequentemente de sua dependência de Deus são fatores condicionantes de acesso ao reino. Lázaro é a representação dos que dependem exclusivamente de Deus, ao passo que o rico representa o autossuficiente, que em razão de sua suficiência própria se exclui do Reino.

Diante do exposto, as riquezas da injustiça, sim toda riqueza, na verdade é injusta, e por este motivo, devem ser empregadas no alívio das dificuldades alheias. A doutrina que Cristo traz não é dele, mas tem sua fonte na própria lei e nos profetas (Dt 15. 11ss; Is 58). Os que agem em conformidade com tais preceitos são os verdadeiros filhos de Abraão (Lc 3. 8 - 11), e como tais legítimos herdeiros do Reino (Lc 13. 25 - 30). As nossas obras não nos salvam, mas evidenciam que a salvação chegou em nossa vida.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

sábado, 28 de dezembro de 2013

Estado Intermediário, um nó da Escatologia



Tenho profundas dificuldades com a Escatologia. Palavra que é a transliteração de εσχατον (eschaton), ou εσχατη (eschatee), com o termo λογος (logos [palavra, tratado, estudo]). Dentro da teologia sistemática ela vem por último, e isto por uma razão lógica, ela é a conclusão necessária de todos os demais estudos dentro do Sistema, seja ele liberal, neo ortodoxo, ou ortodoxo. Quando a teologia dogmática, no lugar de ser uma ferramenta que viabilize o acesso do crente à Bíblia, se torna uma ferramenta de defesa do grupo religioso, temos comprometimento de toda teologia bíblica, bem como da própria interpretação que o crente fará da mesma.
Uma questão pontual é a Antropologia que se perde em discussões a respeito de dicotomia e tricotomia, quando na verdade o homem é um ser constituído de espírito, alma e corpo, sendo de uma natureza indivisível (note que somente a palavra de Deus e a morte separam, respectivamente, o espírito da alma, e a alma do corpo). Isto deveria encerrar a questão, mas não, e sabe por quê? Admitir o erro é uma nobreza, logo, não é comum a todos, embora devesse ser aos teólogos.
No campo da Escatologia esta Antropologia se reflete em questões em torno do estado intermediário. Afinal, o que acontece com os santos quando estes morrer, dormem (como boa parte dos textos bíblicos dá a entender), ou vão imediatamente à presença de Deus, como um raro texto aqui, ou ali, na verdade dois, dá a entender.
Esta questão foi trazida à tona por meio de um artigo na internet onde um expoente de uma denominação histórica reafirma o ponto desta mesma e contesta a teologia do sono da alma (aqui). Mais do isto, ele associa tal pensamento aos grupos sectários tais como: Adventistas e Testemunhas de Jeová. Ao meu ver tal associação por si só já é uma falácia, visto que a associação do ramo teológico com estes grupos já traz descrédito a qualquer teólogo que queira defender tal ponto de vista. Com tal atitude nobre se defende o dogmatismo denominacional, e engessa o pensamento teológico.
Para alguns a alma dorme durante o momento da morte. Este pensamento errôneo, diga-se de passagem possui, aparentemente, é claro, amplo apoio nas Escrituras, visto que boa parte dos textos que falam da morte retrata a mesma como um sono. Daniel descreve os mortos como aqueles que dormem no pó da terra (Dn 12. 2), ao receber a notícia da morte da filha de Jairo, Jesus disse que a mesma não estava morta, mas que dormia (Mt 9. 24), do mesmo modo, ao receber a notícia da morte de Lázaro (Jo 11. 11 - 14). Paulo também se vale do termo para descrever os mortos no Senhor (I Co 15. 6, 18, 20, 51; I Ts 4. 13 - 17). Sem o mínimo de esforço podemos encontrar na maioria dos escritos do Novo Testamento afirmações deste tipo. Logo, cabe a pergunta: onde está o erro?
O erro está em que quando a Bíblia usa o verbo grego κοιμαω (koimao), três verdades estão em questão, a do estado de inconsciência dos mortos (amplamente afirmado na Bíblia), a realidade do descanso dos mesmos (Ap 14. 13), e o fato de que a ressurreição para Deus é como o despertar de um sono. Todavia quando a Bíblia afirma a suposta inconsciência dos mortos, o faz em oposição aos negócios desta vida (Ec 9. 1 - 6), ou seja, os mortos não possuem nenhuma ingerência quanto aos assuntos deste mundo, o que não quer dizer que estejam os mesmos privados de experiências espirituais.
Outra questão a ser considerada é que a perspectiva da imortalidade da alma (vital para o pensamento opositor ao acima exposta), é tardia no pensamento judaico. Textos como o Jó e Eclesiastes (Jó 14; Ec 3. 19 - 21; 9. 1 - 6; na verdade trazem perspectivas contrárias ás desenvolvidas tardiamente pelos profetas e pelos apocalipsistas (leia-se escritores apocalípticos). Isto posto consideremos a ideia de que o crente vai imediatamente para o céu após a morte.
Ela se baseia em um único texto no qual Jesus promete ao ladrão que estaria naquele mesmo momento com ele no paraíso (Lc 24. 43).  
Os justos, ao morrerem, vão logo para o céu. Há pessoas que procuram contestar o ensino claro das Escrituras sobre o estado desincorporado dos mortos. Baseiam-se elas em textos bíblicos que nada lhes oferecem para escorar sua doutrina do "sono da alma", que é, especialmente, esposada pelos sabatistas. Em Lucas 23.43, se lê: "Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso". Para que sirva aos seus planos doutrinários, eles colocam dois pontos após a palavra hoje e, assim, fica o texto: "Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso". Deste modo, o texto fica totalmente modificado. Segundo essa leitura, um dia o crente irá para a bem-aventurança eterna. Mas não se sabe quando (aqui).
Se você já leu o que escrevi acima, não precisará se esforçar muito para entender o quão desonesta é esta ideia, visto que mesmo enganados os sabatistas, ao menos fazem suas afirmações com base em maiores evidencias do que os que defendem a bem aventurança imediata do justo. Mas vamos a analisar a suposta base deste último grupo. Para tal pegaremos o diálogo entre cristo e o ladrão na íntegra.
Então ele disse: Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.
Jesus lhe respondeu: Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso
(Lc 24. 42, 43 NVI).
Eu gostaria de chamar a atenção do nobre leitor do presente post para o  fato inconteste que o ladrão não pede a Jesus para entrar no paraíso, e menos ainda para ir para o céu, mas para entrar no Reino de Cristo. O termo empregado aqui é βασιλεια σου (basileia sou [teu reino]). Não sei se o ladrão conhecia a pregação de Cristo, o contexto indica que além da pregação o ladrão sabia da inocência de Cristo e do senso do seu pecado. A despeito de tudo isto precisamos admitir a hipótese a palavra do ladrão foi uma confissão de fé no mais improvável dos momentos, visto que o proclamador do Reino estava sendo crucificado.
Uma segunda consideração a ser feita é de que a promessa de Cristo foi uma resposta ao pedido do ladrão. Logo, παραδεισω (paradeisoo) embora sendo expressão equivalente ao Éden da teologia judaica, e ao mundo dos mortos da cultura helênica (que foi incorporada ao judaísmo palestino com o nome de αδης [ades] podendo equivaler ao seio de Abraão [Lc 16. 19 - 31]). Mas no contexto em que ocorre o diálogo entre Cristo e o ladrão é empregado como sinônimo do Reino.
A Bíblia não é a Ilíada e muito menos a Odisseia. Ela não é uma obra mitológica. Mas a estrutura de pensamento grego é bem presente nos que defendem que após a morte o crente vai para o céu. Longe de mim afirmar que o crente não vai para um estado de bem-aventurança. Na verdade ele vive neste estado aqui na terra, ao menos é o que Cristo disse no sermão da Montanha (Mt 5. 3 - 12). A primeira bem-aventurança se destina aos que são cônscios de sua miséria espiritual (não seria este o caso do ladrão da cruz?), no texto chamados de pobres de espírito, e a promessa feita aos mesmos é o Reino de Deus.
É estritamente neste contexto que entendo o texto de Lc 23. 42, 43 em que Cristo diz que o ladrão estaria, e creio que esteve, com ele em seu Reino, sendo que para reino, ele emprega o termo equivalente ao Éden, ou ao paraíso. O entendimento deste lugar aqui deve se dar á luz da pregação de Cristo a respeito do reino de Deus. Assim, compreendemos que não se trata de um lugar geográfico, nem o pode ser, mas existencial, pessoal, no qual a comunhão do homem com Deus (aquela que ele tinha no jardim), é restaurada. Este sim, é o ensino presente no judaísmo anterior. Pode ser visto nos
Salmos, que mais tarde vieram a ser interpretados como provas da imortalidade da alma.
Por isso o meu coração se alegra e no íntimo exulto; mesmo o meu corpo repousará tranquilo, porque tu não me abandonarás no sepulcro, nem permitirás que o teu santo sofra decomposição. Tu me farás conhecer a vereda da vida, a alegria plena da tua presença, eterno prazer à tua direita (Sl 16. 9 - 11 NVI). 
O ponto chave aqui não é um paraíso post morten, mas a alegria da presença divina, e o salmista crê que nem a morte pode interromper a comunhão que ele tem com Deus. Este sim é o verdadeiro Éden. Esta verdade foi cantada por Oseas de Paula na canção Meu Éden de Amor (aqui).
Certa vez enquanto discutia com um renomado pastor batista, fui indagado a respeito do que acontece com o crente imediatamente após a morte. Respondi que o crente descansava, ao passo que o nobre colega disse que ele vê Deus imediatamente após morte. A opinião do mesmo venceu naquele ambiente familiar, mas o caso de Estevão me colocou uma pulga atrás da orelha. A Bíblia diz que enquanto Estevão era apedrejado, ele viu Jesus à direita do Pai, e após externar sua visão, ele orou por seus inimigos e adormeceu. O texto nos indica que uma Escatologia saudável mantém lado à lado ambos os elementos.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.
 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

E aos poucos morre a arte


De acordo com site do G1 o cantor e compositor Dominguinhos, um dos maiores músicos de expressão de nosso país morreu após seis anos de luta contra um agressivo câncer de pulmão. Embora saiba que a morte não é nem o fim de sua existência, e muito menos do seu legado artístico musical, meu coração está de luto por tamanha perda em nosso cenário cada vez mais empobrecido.
Quando criança tive a oportunidade de ver e me inspirar em músicos como Sivuca, Hermeto Pascoal, Chiquinho do Acordeão, Toquinho e Altamiro Carrilho, sendo que este foi decisivo na escolha do meu instrumento musical, a flauta. Hoje o que temos são músicos de gibi, cuja habilidade e arte é pífia. Discursos da antropologia cultural à parte, sou forçado a concordar com Adorno há uma digressão no ouvir.
Nossa pátria cada vez mais corrupta abunda com os seus a lelec lec lec lec lec lec lec, e seus camaros amarelos. Eu acredito que isto seja sintomático. Creio que seja sim o sintoma de uma desconstrução, que começou lenta, mas que avança cada vez mais. Creio que seja o prenuncio de um novo tempo, um tempo em que teremos um mundo sem arte, sem prazer estético e sem memoria por parte das pessoas, algo bem no estilo Admirável Mundo Novo.
Quando criança ouvi muita coisa ruim sim, mas os fuscões pretos daquela época voltam na versão de um outro carro e agora agonizado por dois. Como estudante de Teologia que sou, sei que a morte não é o fim, nem da pessoa e muito menos do legado que a mesma deixa. Mas quando o poeta, o musicista, o instrumentista, enfim, o artista morre e o mensaleiro fica, quem perde é a nação, e aos poucos morre a arte.

sábado, 23 de março de 2013

Santo lugar

 
 
 
Ainda estes dias vivi a experiência da "perda" de um amigo. Visitndo as páginas do facebook vejo várias pessoas exterando a saudade, por um irmão, um parente que partiu. Saudade, palavra para a qual não encontramos uma definição satisfatória. Sentimento que ainda nutro, que me assola quando me lembro da minha mãe, de minha avó, e de tantos homens cuja amizade foi crucial para mim, cujo exemplo trago comigo até hoje. Nesta hora somente a esperança abafa a saudade, então me lembro da letra da música que diz:
 
Há de ter um lugar, onde o tempo há de parar
Onde a paz se faz real, e o irreal amor não há, não
Sei que há, pois Deus o diz eu não posso duvidar
Mesmo que não possa imaginar, espero o dia... sim espero

Aleluia, aleluia, no céu eu vou morar
Aleluia, aleluia, pois Cristo vem me buscar.

Há de ter um lugar, onde lágrimas não rolarão
Fracassado os dias maus, da vida em caos
Jamais verei, pois no lugar, santo lugar
onde o inimigo ausente estará,
Face a face a Cristo verei
E muitos verão, por isso eu canto

Aleluia, aleluia, no céu eu vou morar
Aleluia, aleluia, pois Cristo vem me buscar.



São estas palavras que trazem consolo para nossa vida. Não sem razão que Paulo disse: Consolai-vos uns aos outros com estas palavras  (I Ts 4. 18).

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Morre Hugo Chavez

 
A morte de Hugo Chávez foi outra notícia surpreendente, a despeito das desonfianças de alguns conspiracionistas que já supeitavam que o "revolucionário" já estivesse muerto hace algun tiempo. Um político que mudou a cara da Venezuela, é assim que Chávez é descrito na mídia http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/03/130103_obituario_chavez_cj.shtml. A despeito de toda poêmica em torno de sua pessoa, das estatizações, da suposta "censura" imposta aos opositores, ele deixa um legado de redistribuição de renda, combate real à pobreza e polarização contra a hegemonia neo liberal, algo que de fato faz falta em nossos dias. 
Aos que compraram a imagem midiática de um Chávez ditador, precisamos lembrar que o Estado de bem estar social de países como Suécia chegaram ao auge quando o Capitalismo tinha no Socialismo Real um concorrente. Fato ainda maior é que para os pobres os direitos, outrora exclusivos dos ricos, foram ampliados. A morte de Chávez deixa uma crise, um impasse na Venezuela, e uma incerteza para todos nós. O que resta diante de tudo isto é adiquirir cada vez mais uma consciência crítica, apurar o nosso discernimento e orar por este país e pelo nosso.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.
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