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quarta-feira, 11 de abril de 2018

Faltam dez dias para este evento


E O INFERNO NUNCA SAI DA MODA

Uma olhada em nossa Cultura mostra como o tema é atual. Perceba:
Filmes como Amor Além da Vida, e A Odisseia, fazem menções de descidas ao inferno (catabase). O que dizer do Nosso Lar (baseado no romance espírita de mesmo nome, escrito sob mediunidade, por Chico Xavier)?
A novela A Viagem ainda é uma dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira. As emoções fortes ficam por conta dos casos de obsessão (quando o espírito do revoltoso Alexandre começa a perseguir seus inimigos em vida). Mas quanto mais Alexandre persegue seus inimigos mais ele se aprofunda em seu inferno pessoal (representado por um pântano em que as pessoas menos evoluídas se encontram).
Tais elementos comprovam que o inferno permanece no imaginário popular por meio das mais diversas formas de arte, da literatura, música e dramaturgia. E Vale à pena falar sobre o assunto.

Marcelo Medeiros.

O Inferno no Pentateuco



Gênesis 37:35 E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém, recusou ser consolado, e disse: Na verdade, com choro hei de descer para meu filho até o Seol. Assim o chorou seu pai.
Gênesis 42:36 Então Jacó, seu pai, disse-lhes: Tendes-me desfilhado; José já não existe, e não existe Simeão, e haveis de levar Benjamim! Todas estas coisas vieram sobre mim.
Gênesis 42:38 Ele porém disse: Não descerá meu filho convosco; porquanto o seu irmão é morto, e só ele ficou. Se lhe suceder algum desastre pelo caminho em que fordes, fareis descer minhas cãs com tristeza ao Seol.
Gênesis 44:29 se também me tirardes a este, e lhe acontecer algum desastre, fareis descer as minhas cãs com tristeza ao Seol.
Gênesis 44:31 acontecerá que, vendo ele que o menino ali não está, morrerá; e teus servos farão descer as cãs de teu servo, nosso pai com tristeza ao Seol.


Estes são algons dos versos de Genesis que falam a respeito da morte. Perceba que nada é dito a respeito do destino dos mortos. Tudo o que se pode inferir destes textos é que os que permanecem vivos seguirão o mesmo destino de quem morre.

Em todos estes textos a palavra "Seol" é traduzida por sepultura na versão Almeida Revista e Atualizada, é mantida como "Xeol" na Biblia de Jerusalém, e morada dos mortos na TEB.
Perceba também que em um dos textos Jacó se refere ao filho (que julgava estar morto), como *alguém que não existe mais*. Tal indica a ausência de uma crença na vida após a morte.
A expectativa de Jacó não era um encontro com José no Paraíso, ou em um mundo em que não houvesse mais morte, mas de ir para a morada dos mortos.
A ocorrência da expressão *descer as cãs (....) com tristeza ao Seol* merece consideração. Ela indica que as ultimas experiências da vida do homem indicam se ele foi feliz, ou não.
Para este seminário interessa explorar como C. S. Lewis lidou com este problema. Em pelo menos duas obras dele ele o disseca. Estas são: "Lendo os Salmos" e "Ética para Viver Melhor".
Lewis considera um erro o entendimento de que a crença na imortalidade seja o cerne da religião. Ele percebe Deus cortejando o homem, estabelecendo pactos, provando a obediência do povo, para só depois deste processo começar a falar sobre imortalidade, paraísos e coisas do tipo.
Daí a importância de uma profunda reflexão sobre a escatologia e a tanatologia sobre a ótica deste tão importante autor e apologeta. Aguardo você dia 21 de abril, seja no espaço físico, seja no ambiente virtual. A aula será transmitida via live no Facebook em grupo fechado para os inscritos até vinte de Abril. 
Marcelo Medeiros.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O Ecumenismo em que Creio


O presente artigo é um desdobramento das considerações feitas neste post aqui. A razão de ser do mesmo é a constante confusão conceitual entre termos como Ecumenismo e sincretismo religioso. Alister McGrath aponta em sua apologética que significativa parte do erro dos apologetas é entrar numa discussão com uma proposta intelectual e ignorar as questões emocionais que envolvem as querelas. Mas o que isto tem a ver com Ecumenismo mesmo? Por que faço estas perguntas?

O motivo é bem simples.Ao debater nas redes sociais a questão do Kleber Lucas ter ido a um terreiro de candomblé, o nome ECUMENISMO vem continuamente à boca dos interlocutores. Pior, sempre com um sentido distinto daquele que lhe é conferido pelas Ciências da Religião, ou pela análise etimológica da palavra em si. Confundem este com sincretismo religioso (este sim a mistura de Religiões de matriz deferentes em uma única). Mas de onde vem tal percepção distorcida?

Confesso que em muitos dos supostos debates me senti frustrado com a tentativa de explicar ao interlocutor as diferenças entre os termos acima mencionados. E mesmo depois de muita explicação, de gasto muito latim e verbete perceber que as pessoas preferem permanecer com o erro, a rever seus respectivos conceitos. E o pior, sem a mínima base bibliográfica. O que me leva a pergunta pela raiz do problema.

Simples. Qual criança ou adulto da década de setenta nunca esteve em contado com/as escatologias do terror (aqui e aqui). Quem no Brasil nunca ouviu a ideia de que o plano do Anticristo é produzir uma unificação das religiões ao redor do planeta, e infelizmente sempre se chamou isto de Ecumenismo. Daí que toda que se fala a palavra seu real sentido é ignorado.

A expressão Ecumenismo vem do grego οικουμενη (oikoymenen), que aparece na versão grega do Sl 24. 1 sendo traduzida por mundo em nossas versões. O mesmo sentido lhe é dado em Mt 24. 14; Lc 21. 26; Rm 10. 18; Hb 1 . 6. Os concílios católicos recebem este nome por serem concílios mundiais. Na verdade a mesma palavra designa o mundo grego e romano conhecido da época, unificado por uma única cultura, mas diverso em escolas de pensamento e em religiões de mistérios, mas tendo na língua grega um dos fatores que viabilizavam a comunicação e a troca de ideias. É pouco mas espero que tenha servido para dirimir as dúvidas.

Em finais do século dezenove, e meados dos século vinte, o catolicismo muda sua forma de entender sua missão no mundo e as Igrejas históricas seguem esta mesma tendência. O gatilho foram os anos de guerras e desentendimento teológico e filosófico. No lugar de esforços visando o convencimento o Catolicismo e o Protestantismo histórico se voltam para o serviço diaconal ao mundo. ISTO É ECUMENISMO.

O diálogo religioso é um termo que merece uma outra postagem aqui neste espaço. Mas tanto no catolicismo quanto no Anglicanismo e no protestantismo a ênfase recai sobre a fala e o compartilhamento de ideias desprovido de tentativas de convencimento. OU seja ninguém mais tem de fazer parte de uma única religião mundial, para somar esforços, o necessário é compartilhar o desejo de fazer algo pelo próximo.

Sigo uma teologia em que é plenamente possível que um kardecista, um umbandista, candomblecista, católico, budista e hinduísta, partilhem do mesmo desejo que tenho de trabalhar pelo bem estar do outro. NENHUMA ESCATOLOGIA BÍBLICA DEFENDE, OU LEGITIMA UM ENGESSAMENTO FACE ÀS NECESSIDADES DO OUTRO. NA VERDADE, TODA E QUALQUER ESCATOLOGIA ENGESSANTE TEM DE SER DESCARTADA. Creio que esta percepção ecoa nas palavras de Paulo, para quem:
Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os; No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho (Rm 2. 13 - 16 ACF). 
Partindo do ponto de que exista uma lei moral comum e que os mais diversos homens podem responder positivamente a esta lei nada me impede de somar esforços com os mesmos na prática do bem comum. Se você, leitor, entende que é pouco, veja quantos estrangeiros (gente que nada tinha a ver com povo de Israel), agiram de forma melhor do que o povo eleito. Raabe, Rute, Ebed-Meleque e outros, são exemplos que culminam no samaritano da parábola do Senhor em Lucas. 

Que Deus nos conceda o discernimento necessário para distinguir ECUMENISMO de SINCRETISMO, assunto este que terá sua devida consideração neste espaço. Que ELE nos dê a sabedoria para o desenvolvimento de uma escatologia integral mais afinada com a esperança cristã e com uma práxis social. E que desenvolvamos um ecumenismo de serviço baseado na IMAGO DEI, e na lei moral. 

Marcelo Medeiros. 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

A Vinda de Jesus em Glória



Um grande acerto da CPAD foi o lançamento de uma lição de Escola Bíblia co abordagem voltada para a Escatologia. Um grave erro é a persistência na posição prétribulacionista, inclusive em detrimento do que os textos de fato afirmam, e os exemplos serão alistados um a um abaixo. Contudo, o estudo a respeito é extremamente gratificante, afinal, por meio deste a noiva do Cordeiro é reiterada de seu compromisso com o Noivo. 

CRÍTICA AO COMENTÁRIO DA LIÇÃO

Seguem abaixo as críticas ao comentário da lição:

  1. O comentarista toma Cl 3. 4 como base para afirmar a distinção entre segunda vinda e arrebatamento. Todavia tal distinção não encontra no texto que afirma claramente: "Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória" (Cl 3. 4 ACF). 
  2. Tanto a manifestação de Cristo quanto amanifestação dos santos á chamada de φανερωσις (phanerosis), que por sua vez advém de φανερóω cujo sentido é o de tornar aparente, manifesto conhecido. 
  3. O problema é que conforme se verá neste estudo, φανερωσις é um dos termos correspondentes de parousia. 
  4. O autor usa Jo 14. 2, 3 para afirmar que Jesus voltará com os santos, quanto em parte alguma do texto isto é afirmado. Para dirimir dúvidas leia: "Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também".
  5. Leu? Se Você leu, percebeu que o texto fala que Jesus virá para levar os santos para si. Admitir que  este mesmo fala da Vinda em Glória, e particulamente admito, equivale a crer que a Vinda de Jesus e o Arrebatamento da Igreja se darão em uma única fase. 
  6. A respeito do cortejo que acompanhará o Rei, creio, e o faço com base nas Escrituras que, os anjos e tão somente estes farão parte da comitiva em apreço. Os santos estarão na terra e nesta ocasião se dará o encontro dos mesmos com o Senhor nos ares. 
  7. Seguido ao referido encontro o cortejo de Cristo avança para a terra. 
  8. As profecias do Antigo Testamento descrevem o Senhor vindo e pisando com seus pés no Monte das Oliveiras. As decrições do Novo Testamento e particularmente de João são mais discretas. Ap 19. 12 - 19 descrevem Jesus pisando como vencedor no campo de batalha. 
  9. Nos Evangelhos é notável impotência dos demônios com relação à pessoa de Jesus. Uma legião de demônios chega a suplicar a Cristo para não serem enviados ao abismo (Lc 8. 31). Mas no Apocalipse eles serão irremediavlemente lançados no abismo (Ap 20. 1). E isto já é por si só sufuciente. 
Na sequência deste estudo serão vistas as promessas pertinentes à Vinda de Jesus em Glória, e ao modo como a mesma se dará, bem como o propósito desta. 

PROMESSAS PERTINENTES À VINDA DE CRISTO
Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras (Mt 16. 27 ACF). 
Este texto fala a respeito da Vinda do Filho do homem (Porque o Filho do homem virá), do modo como este virá (virá na glória de seu Pai), e do propósito da mesma (e então dará a cada um segundo as suas obras). 
E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?  Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais. Eis que ele está no interior da casa; não acrediteis. Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem. E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, E não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem (Mt 24. 3, 26, 27, 37 - 39 ACF). 

  1. Os discípulos fazem três perguntas ao Senhor: 1) quando serão essas coisas, 2) que sinal haverá da tua vinda 3) e do fim do mundo? Cristo não diz quando serão as coisas, mas lhes diz a respeito dos sinais. 
  2. Os disípulos devem rejeitar todo pretenso messias, uma vez que o regresso de Cristo será algo tão visível quanto o relâmpago. 
  3. Mesmo o descrédito e indiferença para com a Vinda de Cristo devem ser vistos como claro sinal para a mesma. 
Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também (Jo 14. 2, 3 ACF).
Este texto fala da necessidade temporária de separação entre Cristo e seus discípulos. Por meio da cruz ele abriu o caminho do homem a Deus (Hb 10. 19 - 23). Em sua assunção ele preparou o nova habitação dos cristãos, e agora virá outra vez a fim de se reunir com todo o seu povo.
Os quais lhes disseram: Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir (At 1. 11 ACF). 
 A indagação dos anjos quanto a atitude dos discípulos, ao verem Jesus indo para o céu, se dá em razão de que o retorno de Cristo demanda rápida resposta dos discípulos. Retornado ao contexto é possível verificar que: 
E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. E, estando com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que junto deles se puseram dois homens vestidos de branco (At 1. 9, 10 ACF). 
A nuvem que recebeu a Cristo e que o ocultou à vista de seus discípulos, será a mesma que o revelará ao mundo. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória (Mt 24. 30 ACF). 

A mesma percepção a respeito da Vinda é vista em Daniel que relata: Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído (Dn 7. 13, 14 ACF). 

Estas nuvens apontam para o poderio e juízo de Deus. Conforme se vê neste texto poético:
Nuvens e escuridão estão ao redor dele; justiça e juízo são a base do seu trono. Um fogo vai adiante dele, e abrasa os seus inimigos em redor. Os seus relâmpagos iluminam o mundo; a terra viu e tremeu. Os montes derretem como cera na presença do Senhor, na presença do Senhor de toda a terra (Sl 97. 2 - 5 ACF). 
De igual modo, Cristo virá com os seus anjos.  Perguntado no sinédrio a respeito de sua identidade messiânica Jesus resposndeu: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu (Mt 24. 64 ACF). Por último, é dito que ele vem para julgar todas as obras.
Sempre devemos, irmãos, dar graças a Deus por vós, como é justo, porque a vossa fé cresce muitíssimo e o amor de cada um de vós aumenta de uns para com os outros, De maneira que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa paciência e fé, e em todas as vossas perseguições e aflições que suportais; Prova clara do justo juízo de Deus, para que sejais havidos por dignos do reino de Deus, pelo qual também padeceis; Se de fato é justo diante de Deus que dê em paga tribulação aos que vos atribulam, E a vós, que sois atribulados, descanso conosco, quando se manifestar o Senhor Jesus desde o céu com os anjos do seu poder, Com labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo; Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, longe da face do Senhor e da glória do seu poder, Quando vier para ser glorificado nos seus santos, e para se fazer admirável naquele dia em todos os que crêem (porquanto o nosso testemunho foi crido entre vós) (II Ts 1. 3 - 10 ACF). 
Deste texto pode-se inferir que:

  1. A Vinda de Cristo é motivação para que o crente suporte a tribulação uma vez que na mesma este receberá alívio. 
  2. Os ímpios que perseguem ao povo de Deus serão devidamente julgados. 
  3. Será dado aos mesmos o justo castigo por sua impenitência, o de padecer longe da face do Senhor. Cristo será glorificado nos seus santos, o que significa que estes partilharão da mesma glória d'aquele. 

Agora, necessário se faz rever os nomes pertinentes à Vinda de Jesus.

NOMES PARA A VINDA DE JESUS

A vinda de Cristo é mencionada pelo seguintes termos: 

  1. Tempos de refrigérioArrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor (At 3. 19 ACF). A expressao para tempos de refrigério - καιροι αναψυξεως (kairoi anapsyxeoos) - indica um tempo de revigoração, análogo ao termo usando em At 3. 21 para a restauração de todas as coisas. 
  2. Tempos da restauração de tudo. Em analogia com Rm 8. 21, αποκαταστασεως (apokatastaseoos) indica a restauração da saúde, sendo que neste caso o que está em jogo é a saúde do Kosmos. O qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio (At 3. 21 ACF). 
  3. Aparição de Jesus Cristo. Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo (I Pe 1. 7 ACF). Seja revelação, aparição, ou manifestação, o termo αποκαλυψει (apocalipsei) se aplica tanto aqui quanto aqui: esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (I Co 1. 7 ACF). 
  4. Epiphaneia (επιφανειαν). É a manifestação, ou aparição, empregado tanto para a manifestação de Cristo em seu primeiro advento (II Tm 1. 10), quanto para seu segundo advento. E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda (II Ts 2. 8 ACF). Neste texto em particular επιφανειαν é articulado com παρουσιας (parousia), sendo esta a expressão para a Vinda e aquela para o esplendor decorrente da mesma. 
  5. Que guardes este mandamento sem mácula e repreensão, até à aparição de nosso Senhor Jesus Cristo (I Tm 6. 14 ACF). Neste texto επιφανειαν equivale à aparição. O mesmo se pode dizer de (II Tm 4. 1, 8) em que o termo é traduzido por Vinda. 
  6. Παρουσιας (parousias). É um termo que descreve a visita do imperador em uma das cidades pertencentes ao Império. Pode indicar a presença física de uma pessoa tal como o apóstolo (II Co 10. 10), ou para a vinda de Cristo e consequente destruição do estado judaico e imperio romano (Mt 24. 3, 27, 37 - 30 vide supra). 
  7. Παρουσιας também é um momento em que os santos receberão recompensas de sua respectiva fidelidade e os ímpios o jugamento (I Ts 2. 19; II Ts 2. 8). 
  8. Em geral a vinda de Cristo ( ITs 2. 19; 3. 13; 4. 15; 5. 23). É conforme visto a palavra chave da Carta aos Tessalonicenses. Não indica um evento secreto, uma vez que o termo era empregado para visita do imperador. 



Estes são os termos pertinentes à vinda de Cristo. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

As Bodas do Cordeiro



Bodas do Cordeiro é um termo apocalíptico cujo significado é o de uma celebração da união definitiva entre Cristo e sua Igreja. A dificuldade se encontra em precisar quando tal festa se dará, se nos ares imediatamente após o arrebatamento e o tribunal de Cristo, ou se antes do milênio, ou mesmo após este.

O fato é que bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E disse-me: Estas são as verdadeiras palavras de Deus (Ap 19. 9 ACF). Esta á uma das últimas das bem-aventuranças do apocalipse. Neste post procurarei fazer um traçado bíblico desta doutrina. Que Deus abençoe a mim e aos leitores nesta empreitada.

AS BODAS NO NOVO TESTAMENTO
Então Jesus, tomando a palavra, tornou a falar-lhes em parábolas, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um certo rei que celebrou as bodas de seu filho; E enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas, e estes não quiseram vir. Depois, enviou outros servos, dizendo: Dizei aos convidados: Eis que tenho o meu jantar preparado, os meus bois e cevados já mortos, e tudo já pronto; vinde às bodas. Eles, porém, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, outro para o seu negócio; E os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram. E o rei, tendo notícia disto, encolerizou-se e, enviando os seus exércitos, destruiu aqueles homicidas, e incendiou a sua cidade. Então diz aos servos: As bodas, na verdade, estão preparadas, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, às saídas dos caminhos, e convidai para as bodas a todos os que encontrardes. E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de convidados. E o rei, entrando para ver os convidados, viu ali um homem que não estava trajado com veste de núpcias. E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo veste nupcial? E ele emudeceu. Disse, então, o rei aos servos: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes (Mt 22. 1 - 13 ACF). 
A respeito deste texto pode-se fazer as seguintes observações:
  1. A parábola em apreço é um ensino a respeito do Reino de Deus, particularmente de como ele se manifesta e como os homens o recebem. 
  2. O Reino se manifesta por meio da união de Cristo com seu povo, este ´o significado das bodas do filho do Rei. 
  3. Deus preparou a festa, e enviou os seus servos, os profetas, a convidarem o povo a participar das bodas. 
  4. O povo reage com descaso ao convite e com maltrato aos servos que são enviados a participarem. 
  5. A reação do Rei lembra a invasão romana em Jerusalém, uma vez que descreve cuidadosamente o que ocorreu por volta do ano 70 da corrente era. 
  6. Face à recusa, o convite é estendido aos desvalidos, ou maltrapilhos, como Brennan Manning preferia chamar. 
  7. A despeito do caráter gracioso do convite, a exigência de uma veste nupcial é mais do notória, o homem que não se veste de forma apropriada é lançado nas trevas exteriores, ou σκοτος το εξωτερον (skotos toon exoteron). 
Outro texto que merece a consideração é o da parábola das dez virgens. 
Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. E cinco delas eram prudentes, e cinco loucas. As loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo. Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com as suas lâmpadas. E, tardando o esposo, tosquenejaram todas, e adormeceram. Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro. Então todas aquelas virgens se levantaram, e prepararam as suas lâmpadas. E as loucas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam. Mas as prudentes responderam, dizendo: Não seja caso que nos falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai-o para vós. E, tendo elas ido comprá-lo, chegou o esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta. E depois chegaram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos. E ele, respondendo, disse: Em verdade vos digo que vos não conheço. Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir (Mt 25. 1 - 13 ACF). 
Alguns elementos que não podem ser ignorados e são de suma importância neste estudo e seguem abaixo.

  1. É um texto que tem de ser lido à luz do contexto do sermão escatológico de Cristo. Assim sendo, este é seguimento da parábola do mordomo prudente (Mt 24. 44 - 51), e como este visa chamar os discípulos à vigilância. 
  2.  A lição desta parábola está na seguinte fala: Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir (Mt 25. 13 ACF). Curiosamente a parábola do mordomo fiel é inciada com estas palavras: Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor. Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa (Mt 25. 42, 43 ACF). 
  3. Na parábola das dez virgens Jesus emprega a imagem do cortejo nupcial, em que o noivo vai de sua casa até a casa da noiva (para a buscar) e regressa trazendo a noiva consigo, até sua casa onde serão celebradas as bodas. De algum modo as virgens representam o cortejo nupcial. 
  4. Em razão do atraso do noivo e da falta de preparo das virgens néscias (que estão sem azeite reserva), estas perdem o momento do cortejo e sao excluídas das bodas. 
Como último texto convém que se veja Ap 19. 6 - 9
E ouvi como que a voz de uma grande multidão, e como que a voz de muitas águas, e como que a voz de grandes trovões, que dizia: Aleluia! pois já o Senhor Deus Todo-Poderoso reina. Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E disse-me: Estas são as verdadeiras palavras de Deus (ACF). 
O quadro descrito no Apocalipse as bodas do Cordeiro coincidem com a instauração definitiva do Reino de Deus e com o convite feito às nações da terra para que as mesmas se alegrem com a concretização deste mesmo reino. As bodas estão prontas porque a esposa finalmente se aprontou e está vestida com a justiça dos santos. Aqui, bem como nos demais textos a Igreja é a noiva e, ao mesmo tempo convidada. Feitas as observações convém que se veja o papel de Cristo e da Igreja neste enlace.

CRISTO COMO NOIVO
E disse-lhes Jesus: Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão (Mt 9. 15 ACF). 
Este texto é parte de uma resposta que Cristo dá aos fariseus a respeito da questão do jejum. Este foi durante os tempos bíblicos um sinal de humilhação e arrependimento, visto que os profetas mesmos diziam: Santificai um jejum, convocai uma assembléia solene, congregai os anciãos, e todos os moradores desta terra, na casa do Senhor vosso Deus, e clamai ao Senhor (Jl 1. 14 ACF), ou:
Ainda assim, agora mesmo diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto. E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal. Quem sabe se não se voltará e se arrependerá, e deixará após si uma bênção, em oferta de alimentos e libação para o Senhor vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, santificai um jejum, convocai uma assembléia solene (Jl 2. 12 - 15 ACF). 
Mas nos dias dos fariseus tal prática estava banalizada e havia se tornado um rito exterior. Jesus lehes responde que o momento é de celebração de uma boda, e tal como numa festa, não cabia a prática do jejum na presença de Cristo. Todavia quando este estivesse ausente eles jejuariam. Cristo é o noivo, ou o marido, isto foi afirmado por João o Batista, por exemplo.
Aquele que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo. Assim, pois, já este meu gozo está cumprido (Jo 3. 29 ACF). 
Indagado a respeito do crescimento do Messias João, o Batista responde que tal como ocorre em uma festa em que os amigos do noivo se alegram quando este se casa João se alegra na mesma medida em que Cristo se une com sua noiva e o Reino se faz cada vez mais próximo. Mas e a noiva?

A IGREJA COMO NOIVA
Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo (II Co 11. 2 ACF). 
Alguns textos acima abordam a dimensão da Igreja como noiva. Na verdade o casamento é uma das imagens que representam a união da Igreja com Cristo. Neste texto em particular Paulo se compara a um genitor dos irmãos e como tal, ele espera cumprir sua missão de apresentar a mesma Igreja como uma virgem pura para Cristo. 

A respeito do casamento como imagem da união entre Cristo e a Igreja há um texto ainda mais singular, aos crentes de Éfeso o apóstolo diz:
Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível (Ef 5. 25 - 27 ACF). 
percebas que:

  1. O amor de Cristo por sua Igreja é a base do relacionamento do amor que tem de haver entre marido e mulher. 
  2. Uma mulher nos tempos bíblicos passava a fazer parte da família do marido. Daí a importância do dote, não como valor de compra, ou instrumento de objetificação da mulher, mas de indenização à família que perdia um componente. Da mesma forma Cristo pagou preço elevado por sua Igreja (Tt 2. 13, 14; I Pe 1. 18 - 20). 
  3. Cristo santifica e purifica sua Igreja por meio de sua palavra, a fim de que esta seja apresentada a si mesmo, como noiva sem defeito e gloriosa. 
CONCLUSÃO

Uma conclusão inicial à luz do que foi dito até aqui é que as Bodas do Cordeiro são o marco da união definitiva entre Cristo e sua Igreja. Ela já se faz no momento presente, mas será algo concreto e definitivo após a Segunda Vinda e o Arrebatamento. Que Deus em Cristo abençoe a todo o seu povo. 

Marcelo Medeiros. 


sábado, 2 de janeiro de 2016

Escatologia o Estudo das Últimas Coisas


Escatologia é um ramo da Teologia Sistemática cujo material é constituído pela interpretação da profecia bíblica, apocalíptica e das demais matérias da Sistemática [aqui leia-se Sistemática como Dogmática]. O que pretendo dizer aqui é que descreio de uma Escatologia saudável, que não reúna e equilibre estes elementos. Sem os tais o que se tem é uma interminável especulação a respeito de eventos futuros que se resumem a tentativas de ver em clérigos romanos a besta, ou de acomodar evantos às passagens da Bíblia. 

De acordo com a revista do primeiro trimestre do corrente ano das Casas Publicadoras das Assembleias de Deus, o estudo da escatologia traz ao coração dos salvos a esperança de um dia estarem para sempre com o SenhorJesus Cristo. A título de consideração inicial posso afirmar que a Esperança é a matéria por excelência da Escatologia. 

A presente introdução já deu o tom do corrente post. Qual? 1) Definir o que é Escatologia. 2) Esclarecer as fontes bíblicas e teológicas da mesma. 3) Ressaltar o elemento da Esperança contido na mesma. Não é tarefa fácil, visto que o ser humano tem um profundo interesse no futuro e os estudos escatológicos tem sido profundamentes influenciados por este caráter especulativo. Feitas as colocações convido o leitor a aventura no estudo da escatologia. 

O QUE É ESCATOLOGIA?

A pergunta a respeito da natureza da Escatologia bíblia imediatamente nos remete ao que não é escatologia. E a resposta a esta primeira indagação remete ao leitor bíblico às seguintes questões:
  1. Não é a entrega a especulações a respeito do futuro, uma vez que o próprio Cristo disse aos seus discípulos: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder (At 1. 7 ACF). 
  2. Não consiste em intermináveis tentativas de marcações de datas para a Vinda de Cristo, uma vez que o mesmo disse: Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai (Mt 24. 36 ACF). 
  3. A afirmação de Jesus acima, não é uma negação de sua autoridade e divindade, mas o indicador de um padrão, uma vez que o próprio Deus quando faz anunciados aos seus profetas não trabalha com datas. 
  4. Não é a acomodação de eventos atuais às profecias bíblicas [algo que ocorre principalmente no caso dos programas de implantação de chips e eventos catastróficos como a derrubadas das torres gêmeas, do World Trade Center, ao atentado terrorista ocorrido na França ano passado, ou ao desastre ambiental de Mariana MG (ver aqui)]. 
  5. Não consiste na acomodação de textos bíblicos às ideias pré concebidas no campo da dogmática [este é o caso do pré-tribulacionismo, posição teimosamente defendida pelos líderes evangélicos no Brasil, mas incosistente do ponto de vista bíblico, conforme será demonstrado mais afrente]. 
  6. Não pode ser confundida com a série Deixados para Trás de Tim LaHaye, cujo teor é puramente especulativo e contém elementos mais lendários e mitologicos do que bíblicos. Os filmes são interessantes, mas poderiam ser colocados numa categoria inferior a Inimigo de Estado, Controle Absoluto, Vingador do Futuro, O Pagamento e tantos outros que se entregam a especulações a respeito de temas como o Fim do Mundo, Crise política, ambos presente na Escatologia atual. 
  7. Aqui observa-se que a Escatologia não é algo delimitado ao povo evangélico. Franquias cenematográficas como o Exterminador do Futuro possuem seu viés escatológico, o mesmo se pode dizer de obras como o livro e o filme feito com base no mesmo A Máquina do Tempo de H. G. Wells. 
Uma vez percebidas as verdades acima convém perguntar: o que de fato é a escatologia?
  1. Etimologicamente falando é a junção dos termos gregos εσχατη (eschatee) com λογος, o primeiro tem a ver com último, o segundo com estudo, tratado, saber. 
  2. Escatologia seria assim o saber a respeito das últimas coisas. Mas o que precisamente poderiam ser estas últimas coisas?
  3. Biblicamente falando as últimas coisas são os evantos que transcorrem entre a ascensão de Cristo e o seu retorno. Com este sentido o termo εσχατων των ημερων [eschaton ton heemeron, ou últimos dias] é empregado em Hb 1. 1, 2. 
  4. De igual modo o termo εσχατων των χρονων [eschaton ton chronon] é empregadopara se referir aos eventos pertinentes ao primeiro advento de Cristo, que culminou com sua morte e ressurreição e sucessivamente com a redenção dos crentes (I Pe 1. 20). 
  5. O mesmo se pode dizer de termos como συντελεια του αιωνος [synteleia ton aioonos], cujo emprego pode ser feito em alusão a eventos futuros (Mt 13. 49; 28. 20), como para os que ocorreram no momento histórico em que Cristo morreu (Hb 9. 26). 
  6. Perceba a partir deste último texto bíblico que a consumação dos séculos, na mentalidade do autor da Carta aos Hebreus é o momento em que o mesmo está vivendo. 
  7. Algo similar ocorre na mente de Pedro quando este associa o derramamento do Espírito no Pentecostes com a profecia de Joel (Jl 2. 28 - 31) e acrescenta a expressão εσχατων των ημερων [eschaton ton heemeron, ou últimos dias]. Os eventos ligados a morte, ressurreição e ascenção de Cristo inauguram a era Final. 
  8. Conforme sugerido acima, em relação à expressão συντελεια του αιωνοςεσχατων των ημερων pode ser empregado para eventos futuros, coforme visto nos textos que fazem alusão à apostasia (I Tm 4. 1), à corrupção generalizada (II Tm 3. 1ss), e ao descrédito com relação à Vinda de Cristo (II Pe 3. 3). 
  9. Gordon Fee e Douglas Stuartt afirmam que o Novo Testamento é um documento eminentemente escatológico, visto que seus contemporâenos acreditavam que a qualquer momento o Reino de Deus irromperria na Era presente
  10. Conclui-se assim que a escatologia não se limita a eventos futuros, antes abrange eventos pertinentes ao momento em que os discípulos, e demais membros da comunidade primitiva viveram. O ensino de Cristo, bem como sua pregação são eminentemente escatológicos [ver aqui]
Este é o momento em que se pode passar para as fontes bíblicas da Escatologia. 

FONTES BÍBLICAS DA ESCATOLOGIA

Falar a respeito das fontes bíblicas da Escatologia, demanda, por parte de quem se propõe a realizar tal feito, séria consideração a respeito das profecias bíblicas e da apocalíptica. Em geral estes dois movimentos são confundidos no imaginário cristão. A prova cabal de similar confusão é o fato de Daniel ser tido, ou considerado como profeta, quando na verdade ele é um חָזֹ֖ון (hazon) visionário. 

Biblicamente falando o movimento profético é um movimento que tem seu começo na monarquia. Não se trata um movimento literário desde o início, tanto que Elias, Eliseu, Aías de Silo e tantos outros não deixaram escritos. É a partir do ministério de Isaías, e Jeremias que o movimento assume forma literária, mediante ordem divina de que os oráculos sejam escritos. 

Disse-me também o SENHOR: Toma um grande rolo, e escreve nele com caneta de homem: Apressando-se ao despojo, apressurou-se à presa (Is 8. 1 ACF). A ordem visa a perpetuação das palavras oraculares para o dia do final: Vai, pois, agora, escreve isto numa tábua perante eles e registra-o num livro; para que fique até ao último dia, para sempre e perpetuamente (Is 30. 8 ACF). 

Deus ordenou a Jeremias que escrevesse a profecia a fim de que quando esta se cumprisse, o cumprimento fosse testemunho de que Deus havia mandado o profeta falar tantos os oráculos de juízo quanto os de consolação, é o que concluo deste texto abaixo:
Assim diz o Senhor Deus de Israel: Escreve num livro todas as palavras que te tenho falado. Porque eis que vêm dias, diz o Senhor, em que farei voltar do cativeiro o meu povo Israel, e de Judá, diz o Senhor; e tornarei a trazê-los à terra que dei a seus pais, e a possuirão (Jr 30. 2, 3 ACF). 
O profeta é um homem que começa o seu oráculo com a expressão veio a palavra do Senhor (Is 38. 4; 39. 5; Jr 2. 1; 30. 1; 32. 26; 33. 23). Já o apocalipsista é um homem de visão. Daniel é um claro exemplo. Discordo de que este último seja uma produção do período interbíblico, quando, de acordo com a maioria dos eruditos se desenvolveu a apocalítica, mas seu estilo é eminetemente assim, devido ao emprego de visões simbólicas (Dn 7; 8), do uso histórico das profecias (Dn 9. 1ss) e das visões frequentes. Tais detalhes podem ser aferidos neste breve estudo que fiz.

Do profetismo a escatologia dogmática herdou:

  1. As profecias que dizem respeito a Jesus Cristo, tanto em seu primeiro advento, quanto no seu segundo. Na verdade ambos sestão profundamente misturados, conforme se pode ver nos seguintes textos (Gn 49. 9 - 12; II Sm 7. 12 ss; Mq 5. 2). 
  2. O primeiro texto mistura cenas de nascimento de um descendente de Judá com as de execução de um juízo e o estabelecimento de uma paz sem fim. 
  3. Esta percepção messiânica permanece mesmo no ministério profético de João Batista, para quem a Vinda do Messias tem como objetivo único a execução de um juízo sobre os que não se arrependem e não ouvem a pregação de Batista e do Messias (Mt 3. 10 - 12). 
  4. Foi Cristo quem fez a distinção entre o período da salvação e o do juízo (Mt 11. 5ss; 16. 27). 
  5. As profecias pertinentes a Israel. Isaías, Jeremias, e Miquéias, por exemplo descrevem um quadro cujo cumprimento não é pleno. Nestas o Monte de Sião será um referencial de ensino e sabedoria para todas as nações da terra e os povos para lá correrão (Is 2. 2 - 4). 
  6. Em razão do conhecimento do Senhor, não se fará mal nem dano algum no santo monte do Senhor (Is 11. 9). 
  7. Isaías chega a descrever o seguinte quadro: E a lua se envergonhará, e o sol se confundirá quando o Senhor dos Exércitos reinar no monte Sião e em Jerusalém, e perante os seus anciãos gloriosamente (Is 24. 23 ACF). 
  8. Um quadro similar a este será retratado por João em sua descrição da Cidade Santa. E ali não haverá mais noite, e não necessitarão de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina; e reinarão para todo o sempre (Ap 22. 5 ACF). 
  9. Este mesmo monte é um local em que as estruturas dos céus serão abaladas e a morte aniquilada para sempre (Is 25. 6 - 9). 
  10. Estas profecias formam o cerne de duas categorias apocalípticas e escatológicas: a do Milênio e a do Estado Eterno e servem como exemplo da influência do profetismo na formação do pensamento escatológico. 
  11. Há também as profecias condizentes aos gentios. Elas indicam que o plano de Deus não se restringe exclusivamente aos filhos de Israel, antes abrangem as gentes, ou as demais nações (Gn 12. 3; 18. 18; 22. 18). 
  12. A lei do senhor emanará de Sião, para todos os povos (Is 2. 3). 
  13. Por mim mesmo tenho jurado, já saiu da minha boca a palavra de justiça, e não tornará atrás; que diante de mim se dobrará todo o joelho, e por mim jurará toda a língua (Is 45. 23 ACF). 
  14. Naquele tempo chamarão a Jerusalém o trono do Senhor, e todas as nações se ajuntarão a ela, em nome do Senhor, em Jerusalém; e nunca mais andarão segundo o propósito do seu coração maligno (Jr 3. 17 ACF). 
  15. Há também as profecias bíblicas pertinentes à Igreja. Elas decorrem de uma compreensão de que os gentios estão incluídos na etapa da salvação e que tal como os judeus fazem parte das promessas feitas a Abraão, Isaque e Jacó.
  16. Tais profecias são mais perceptíveis mediante leitura apurada da Carta aos Efésios. Nesta Paulo demonstra como judeus e cristãos foram inidos em um único povo (Ef 2. 11 - 18; 3. 4 - 6). 
Da apocalíptica judaica a Escatologia herdou: 
  1. As imagens cataclísmicas dos evantos finais tais como: a destruição da terra, da natureza, das potências do céu, etc...
  2. Uma visão simbólica e teleológica da história (Dn 2; 7; 8). O advento dos reinos mundiais é descrito por meio da ascenção de bestas, ou de ujma estátua constituída de vários metais em que a mesma é destruída (Dn 2). 
  3. Quadros eminentes da volta do Senhor. São aquelas imagens em que no lugar da restauração da monarquia judaica o próprio Deus é descrito Aquele que vem para Reinar (Dn 7. 13, 14). 
  4. Ele é Aquele que Vem com as nuvens do céu [símbolo de glória]. Esta imagem será constante no Novo Testamento para descrever a Vinda de Cristo (Dn 7. 13; Mt 16. 27; 24. 30; 26. 64). 
Feitas as considerações supra passemos às conclusões sa dogmática na Escatologia. 

RESULTADOS NA DOGMÁTICA E NA ESPERANÇA



No tocante à dogmática pode-se dizer que: 

  1. A Escatologia é a consumação da Teontologia [doutrina do Ser de Deus], visto que a mesma descreve a Glorificação final de Deus em tudo e em todas as coisas (Ap 4. 8, 11; 19. 6, 7). 
  2. É igualmente a consumação da Antropologia, visto que nesta os homens são descritos cumprindo o eterno propósito para o qual foram criados, a saber: o de glorificar a Deus por meio de suas palavras e obras. De uma forma, ou de outra, na condição de salvos ou na de perdidos os homens redenrão glórias a Deus, visto que Deus mesmo jurou toda língua confessará e todo o joelho se dobrará (Is 45. 23; Rm 14. 11; Fp 2. 10, 11). 
  3. A Escatologia é a consumação da Hamartialogia, visto que proclama a aniquilação de toda forma de mal, conforme se pode ver na letra da música de Nelson Cavaquinho [Juízo final], neste dia do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente. Conforme se vê nas observações supra, as profecias afirmam categoricamente: não se fará mal nem dano algum no santo monte do Senhor (Is 11. 9). 
  4. Na Soteriologia se verá a conclusão da obra definitiva de Cristo. No passado cada crente foi salvo da ira de Deus ao ser justificado em e com sua graça (Rm 5. 1 - 11). No presente o crente experimenta libertação do poder do pecado mediante a aplicação da graça na vida diária. Este processo é denominado de santificação (Rm 6. 14 - 22). No futuro não estaremos mais sob risco de pecar, uma vez que seremos salvos do poder do pecado. O nome deste processo é glorificação (Rm 8. 29, 30), cuja consumação definitiva se dará na Vinda de Cristo. 
  5. Cristologicamente falando o próprio Jesus deu a entender que sua encarnação não revelava tudo a respeito de sua natureza (Is 53. 1; Jo 12. 38), daí o fato de que Ele mesmo tenha falado em um dia em que o Filho do Homem haveria de se revelar (Lc 17. 30). O autor aos Hebreus afirma: Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos (Hb 2. 9 ACF). 
  6. A Eclesiologia tem sua resolução na Escatologia, visto que nesta se descreve a união final entre Cristo e sua Igreja (Jo 14. 3; I Ts 4. 17). 
  7. A Esperança Cristã é a Glória de Deus (Rm 5. 2; 8. 18) a manifestação de Nosso Grande Deus e Salvador Jesus Cristo (Tt 2. 13, 14), uma herança incorruptível (I Pe 1. 4, 5), novos céus e nova Terra (II Pe 3. 13) etc...
CONCLUSÃO

Em tempos tão marcados pelo materialismo e pelo hedonismo a função da esperança é fazer com que o crente olhe para além do tempo presente, para além daquilo que se vê, e recobre sua identidade a se comporte neste presente tempo como se não estivesse mais sob este aéon. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros. 

sábado, 11 de outubro de 2014

Daniel, nosso contemporâneo



Em razão da pressa, bem como da necessidade de estar conciliando demandas familiares e acadêmicas, publicarei este estudo da forma mais resumida possível. Um grande problema que vejo com relação ao estudo do livro de Daniel, se dá em relação aos frequentes abusos exegéticos que este livro sofre. Sempre que alguma agitação ocorre no cenário mundial as pessoas tendem a interpretar as visões do livro como sendo referência a algum evento atual. Isto ocorreu em meados de 2001 em decorrência da queda das torres gêmeas do World Trade Center, e está ocorrendo neste exato momento em decorrência da propagação do ebola. Tal fato demanda um estudo sério do livro de Daniel. 

AUTORIA 

Há controvérsias a respeito de quando o livro de Daniel tenha sido escrito. fazer esta definição é de suma importância para a definição da autoria. Os autores críticos, partindo do pressuposto de que qualquer vaticínio a respeito do futuro seja inviável coloca o livro no sec. II a. C. Embora a teoria crítica tenha, do ponto de vista exegético os seus aspectos positivos, discordo quanto a este pressuposto. 

Do ponto de vista Hermenêutico, vejo que os fatos desenvolvidos durante a dinastia dos Selêucidas, e registrados no livro deuterocanônico de Macabeus, são bem mais robustos enquanto explicação para as visões registradas no livro em apreço, particularmente nos capítulos 2, 7, 8, e 11. É justamente aí que me afino com esta exegese. Mas discordo com o pressuposto de quem é inviável a predição do futuro. 

Do ponto de vista humano ele é sim, mas do prisma divino não, uma vez que para Deus não há nada impossível (Lc 1. 37; 18. 27). A profecia bíblica parte de um pressuposto de que Deus conhece o futuro e revela este futuro aos seus. Este pressuposto se encontra no livro em apreço. Daniel afirma a respeito de Deus: Seja bendito o nome de Deus de eternidade a eternidade, porque dele são a sabedoria e a força; E ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; ele dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos entendidos. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz (Dn 2. 20 - 22 ACF). 

Em outras palavras a Bíblia é o registro da revelação de Deus ao homem, sendo que este mesmo Deus conhece o futuro e usa os sonhos, ou visões noturnas como instrumento de comunicação de sua vontade, vedando o segredo dos mesmos aos descrentes, e ampliando o conhecimento aos fieis. Com isto fica claro que nem as artes mágicas, nem os encantamentos das nações são o suficiente para desvendar os mistérios do futuro [aqui e aqui]. 

Ao solapar este pressuposto a teoria crítica coloca em xeque a pressuposição revelacional das Escrituras, e mais o faz a partir de um fundamento questionável. É mais do que certo que não é comum ver pessoas fazendo previsões do futuro e acertando de forma inquestionável e infalível, mas isto não quer dizer que seja impossível um Deus que revela o futuro. Na verdade, não está no plano das possibilidades humanas determinar o que é, ou não possível. 

E é justamente por este motivo a minha predileção da autoria de Daniel. Afirmar que o livro seja produto de pseudonímia não seria problema algum caso o ônus desta afirmativa não fosse o solapar dos pressuposto que afirma um Deus agindo na história em favor do seu povo, e revelando esta mesma história aos seus profetas. 

Atribuir a autoria a um autor que usou de pseudonímia, que viveu durante a ocorrência dos fatos registrados em forma de visão solapa também a interpretação crítica de que o livro é um escrito em tempos de perseguição e aflição, uma vez que a consolação aqui proposta se baseia em uma mentira. Sim a posição crítica coloca o livro como mera obra de ficção. Conforme dito supra, tenha razões para não aceitar tal pressuposto. 

O CONTEXTO HISTÓRICO

Do ponto de vista crítico as histórias do livro de Daniel se desenrolam durante a era dos Selêucidas, no período dos Macabeus. Já expus supra o meu problema com o prisma crítico, mas tenho de expor aqui a argumentação dos mesmos. Um dos maiores argumentos dos mesmo em prol de uma data mais próxima são as incoerências históricas. 

Há pouco tempo nada se sabia de Belsazar, e como lidar com a ausência de menção à pessoa de Nabônido, filho de Nabucodonozor. Hoje se sabe que aquele tenha sido o provável rei que passou pelo problema da loucura narrada no capítulo quatro do livro. Hoje se sabe que Nabônido teve um filho por nome Bel-Saar-Usur, cujo nome pode ser transliterado da seguinte forma: que Bel proteja o rei. 

O significado deste nome associado ao registro de que em uma festa este rei levou os vasos da casa do Senhor para que fossem profanados dá um novo sentido ao livro, e um colorido à narrativa. A festa se torna um palco para o duelo entre Bel e Jeová, sendo este o vitorioso do embate, uma vez que o rei sacrílego é julgado durante o banquete. 

Todavia o problema de Dário ainda se apresenta como insolúvel. Várias hipóteses foram levantadas com a finalidade de solucionar a ausência de menção a um rei vassalo da Média no trono da Babilônia. A mais aceita é a de Shea. Esta hipótese foi publicada no Brasil e difundida por meio de um livro da melhoramentos intitulado E a Bíblia Tinha Razão. De acordo com a mesma Dario é ninguém menos do que Gubaru da crônica de Nabônides (que exerceu a co regência com Cambises-Ciro). A suposição ainda que não conclusiva, do contrário não seria suposição, tem sido mantida como explicação viável. 

Os reformado são unânimes em afirmar que não há necessidade de dúvidas quanto as informações prestadas no livro em apreço, e que a história de Daniel se dá em meados de 605 a. C. e segue com o desaparecimento da supremacia babilônica em 539 a. C. 

ESTILO

A narrativa e as visões de Daniel não se parecem em nada com o estilo literário dos profetas. Os profetas falam: Assim diz o Senhor (II Rs 3. 16, 17; 4. 43; 9. 6, 12; I Cr 21. 10; II Cr 34. 23), ou veio a mim a palavra do Senhor dizendo (Jr 1. 4, 11, 13; 2. 1; 13. 8; 16. 1; 18. 5; 24. 4; Ez 11. 14). Daniel, ao contrário do profeta comum, é um visionário, o que o aproxima bastante do estilo dos apocalipsista. 

Há muito a ser dito a respeito deste gênero literário, mas para fins de melhor compreensão preciso manter o meu foco no principal. A principal diferença entre a profecia e a apocalíptica está no uso de profecias antigas como meio de desvendamento do futuro e no emprego de visões e simbolismos para a transmissão da mensagem. O apocalipse é um estilo literário típico de tempos de perseguição. Fato é que mesmo dentro do contexto babilônico as condições de Daniel e de seus amigos nem sempre são descritas como sendo favoráveis (Dn 2; 3). 

Para todos os efeitos a mensagem por meio de visões (Dn 2. 19, 31; 7. 2; 8. 1, 2; 10. 1, 7, 8) e as constantes explicações (Dn 8. 15 - 17; 9. 23, 24; 10. 14, 16) a respeito do teor das mesmas são marcas distintivas do estilo literário conhecido como Apocalipse. Ao que parece o livro emprega חָזֹ֖ון  (hazon) nas seguintes passagens (Dn 1. 17; 8. 1, 2, 13, 17, 26; 9. 21, 24; 10. 16). Nestes o sentido é o de visão mental, sonho, revelação, ou mesmo o de uma figura mental quando alguém está acordado. 

O termo חֶזְוָ֥א (hezev) é usado para expressar um sinal, ou visão. Já מַּרְאָ֔ה (maranh) expressa uma visão tal como a que se tem diante de um metal polido, como no caso do bronze (Dn 10. 7, 8, 16), podendo ser aplicada o sonho de Faraó (Gn 46. 2), ou às visões que Deus dava aos profetas da antiga dispensação (Nm 12. 6). 

A mensagem de Daniel é bem simples: o povo aguarda a restauração do Reino, mas o que virá após o cativeiro não é nada bom, e a visão das setenta semanas deixa isto bem claro. Israel terá que viver sob a dominação estrangeira por um bom tempo, e o Messias em quem depositam suas esperanças será morto, o santuário será invadido e haverá guerra até o fim (Dn 9. 26). Creio que foi com este sentido que Cristo se apropriou das mensagens proféticas descritas no livro em apreço. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros. 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Jesus e o jogo do bicho aff


Esta tabela demonstra até que ponto se pode ir nas ideias conspiracionistas escatologicamente esquizofrenizadas. Assim como o personagem de Miguel de Cervantes enlouqueceu de tanto ler livros da cavalaria, tem gente enlouquecendo de tanto fazer conta.  Ao leitor peço apenas que observe o caráter aleatório da conta, afinal, por que o nove, ao invés de outro número? Depois vem o mais manjado, os pastores tentam esconder esta verdade do povo, nada mais gnóstico, não é?

Já escrevi neste espaço a respeito do terror e da especulação que tem dominado a escatologia (aqui). Nesta paranóia não faltam anticristos, e eles vão desde Hitler, Sadam Husseim, João Paulo II e após a morte dele, até o príncipe Willian se transformarem em candidatos a Anti Cristo. Agora surge um brilhante matemático com uma formula mais espetacular, afirmando que o nome de Jesus é a marca da Besta. Que Deus nos acuda de mais essa.


Marcelo Medeiros, em Cristo. 

sábado, 4 de janeiro de 2014

A Parábola do Rico e do Lázaro




Um dos gêneros literários que encontramos nas Escrituras Sagradas é a parábola. O nome vem do grego παραβολην (parabolee), cujo sentido básico é o de comparação. É uma forma de ensinar que lança mãos às símiles. Fatos da vida cotidiana são usados por Cristo para ilustrar e transmitir ensinamentos. Fee e Sttuartt a definem como sendo uma história contada com fim de pegar (leia-se envolver), o ouvinte.

Dentro deste gênero temos uma parábola que é alvo de extremas controvérsias, a do Rico e do Lázaro. Primeiramente, Dake afirma em sua Bíblia de Estudo que o verbo haver, que aparece nas versões de Bíblias, é indicador de que a história contada por Cristo é real, do contrário, a mesma seria uma mentira, artificio do qual Cristo jamais se valeu. É fácil concordar que Cristo jamais se valeu de artifícios. Difícil é entender que a historia narrada seja uma descrição da vida futura, como querem os teólogos que seguem a linha dispensacionalista de Dake, e grande parte dos teólogos brasileiros.

O estudo deste texto é importante dentro do estudo geral da Escatologia, assunto sobre o qual falei abertamente neste espaço, aqui, aqui, e aqui. Creio que para entender o estudo anterior a este seja de vital importância tecer algumas considerações sobre este texto. Para tal necessário se faz observar o respectivo texto, e gostaria de ler o mesmo com o leitor do post. 
Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho fino e vivia no luxo todos os dias. Diante do seu portão fora deixado um mendigo chamado Lázaro, coberto de chagas; este ansiava comer o que caía da mesa do rico. Em vez disso, os cães vinham lamber as suas feridas. "Chegou o dia em que o mendigo morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. O rico também morreu e foi sepultado.
No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado. Então, chamou-o: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo na água e refresque a minha língua, porque estou sofrendo muito neste fogo’. "Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembre-se de que durante a sua vida você recebeu coisas boas, enquanto que Lázaro recebeu coisas más. Agora, porém, ele está sendo consolado aqui e você está em sofrimento. E além disso, entre vocês e nós há um grande abismo, de forma que os que desejam passar do nosso lado para o seu, ou do seu lado para o nosso, não conseguem’. "Ele respondeu: ‘Então eu lhe suplico, pai: manda Lázaro ir à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos. Deixa que ele os avise, a fim de que eles não venham também para este lugar de tormento’. "Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam’. " ‘Não, pai Abraão’, disse ele, ‘mas se alguém dentre os mortos fosse até eles, eles se arrependeriam’. "Abraão respondeu: ‘Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos’ (Lc 16. 19 - 31 NVI). 
  
I) Considerações

Face ao que lemos passo às considerações:
  1.   Os que desejam ver nesta história uma descrição natural se esquecem de que à luz do ensino geral das Escrituras a pobreza em si não é uma condição para a salvação, tal como a riqueza não é para a perdição.
  2. A fala de Abraão (Filho, lembre-se de que durante a sua vida você recebeu coisas boas, enquanto que Lázaro recebeu coisas más. Agora, porém, ele está sendo consolado aqui e você está em sofrimento), é no mínimo intrigante, visto que face a omissão de qualquer confissão de fé, ou ato de bondade por parte de Lázaro, ela colocaria o acesso à salvação como algo ligado à condição sócio econômica do individuo.
  3. Esta mesma frase, se interpretada fora do contexto geral do ensino de Cristo, pode colocar o Evangelho nos mesmo nível das religiões cármicas. A salvação é fruto exclusivamente da graça, nada tendo a ver com a condição social do indivíduo.
  4. De igual modo ninguém é condenado simplesmente pelo fato de ser rico e desfrutar em vida de tal riqueza.
  5. Ainda temos de considerar que, à luz do ensino bíblico, mesmo um rico que doe os seus bens aos pobres não tem pela simples doação a garantia de vida eterna, uma vez que Paulo mesmo afirmou: Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me vale (I Co 13. 3 NVI).
  6. A visão do mundo futuro esposada pelo autor do texto (diga-se de passagem peculiar ao Evangelista Lucas), reflete e muito a visão grega, e do judaísmo do Novo Testamento. Para ambos os grupos, o inferno, ou melhor, o αδης (hades) era uma região para onde se dirigiam todos os mortos indistintamente. Os de vida moral mais elevada iam para os Elíseos, ao passo que os de conduta perversa recebiam sua punição em um local do mesmo hades, o ταρταρω (tártaroo). A diferença é que no presente texto o Elíseos é chamado de seio de Abraão.
  7. É claro que neste, tal como ocorre em inúmeros casos, palavras gregas são empregadas para expressar conceitos judaicos, e falaremos mais a respeito disto, visto que se interpretarmos αδης no sentido judaico veremos que temos ainda menos razoes para acreditar que o texto em apreço é um texto descritivo.
  8. O pedido do rico para que Lázaro seja enviado á sua antiga casa, a fim de pregar para os seus irmãos, para que os mesmos não tivessem o mesmo fim, reflete a crença mística do judaísmo tardio de que importantes personagens do Antigo Testamento voltariam.
  9. Note que o diálogo se dá entre o rico e Abraão. Se este texto descreve uma história verídica, ou uma realidade objetiva como Dake deseja, devo crer que Abraão é um tipo de guardião, ou gerente do paraíso celeste?
Minha conclusão é de que se o texto for interpretado literalmente estabelece uma série de contradições com o ensino geral do Evangelho. O que me leva a apelar ao contexto da parábola.
II) O Contexto gramatical da parábola

Durante as aulas de hermenêutica no seminário, sucessivas vezes ouvi a frase: texto sem contexto é pretexto para heresia. O ensino implícito ao adagio mais do que popular entre os Evangélicos é o de que se quisermos estabelecer o fiel sentido de um texto, temos de analisar o seu contexto imediato. Isto fica ainda mais fácil quando a discussão se dá entre pessoas que creem na inspiração da Bíblia. Tal crença permite a conclusão mais do que obvia de que os textos não foram inseridos aleatoriamente nos contextos, mas com um proposito supremo.

O contexto em que tal história se insere é o da parábola do administrador infiel. A lição que Cristo quer passar ali é a seguinte:
usem a riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas. "Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito. Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas? E se vocês não forem dignos de confiança em relação ao que é dos outros, quem lhes dará o que é de vocês? "Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro". (Lc 16. 9 - 13 NVI). 
Simples assim. Este ensino possui ampla base e ordem nas Escrituras. Fato é que as riquezas devem ser usadas para a aquisição maior de amigos, a fim de que quando estas faltarem os amigos valham aos seus antigos ajudadores. Este é o uso da mordomia para aquisição e fortalecimento de relacionamentos autênticos.
Mas a história do administrador infiel trouxe reação negativa por parte dos fariseus, uma vez que os mesmos eram avarentos (Lc 16. 14), e Jesus reage afirmando:
Ele lhes disse: "Vocês são os que se justificam a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os corações de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus". "A Lei e os Profetas profetizaram até João. Desse tempo em diante estão sendo pregadas as boas novas do Reino de Deus, e todos tentam forçar sua entrada nele. É mais fácil o céu e a terra desaparecerem do que cair da Lei o menor traço. "Quem se divorciar de sua mulher e se casar com outra mulher estará cometendo adultério, e o homem que se casar com uma mulher divorciada do seu marido estará cometendo adultério" (Lc 16. 15 - 18 NVI). 
Gostaria de observar que:
  1. Jesus condena a hipocrisia e a avareza dos fariseus.
  2. Ao mesmo tempo em que tece severa crítica aos seus interlocutores, ele apela à autoridade da lei, o que não é novidade em seus embates com os mesmos.  
  3. Jesus afirma a sua autoridade como proclamador do Reino de Deus.
  4. A história contada por Jesus, a respeito de um rico, que se vestia de finas vestes, e um mendigo, que desejava se alimentar com as sobras do rico, é a continuação da fala que destaquei supra. Tudo leva a entender que ao mencionar a história, Jesus queria afetar aos fariseus.
Texto e contexto! Simples assim!
  1. A mensagem da lei e dos profetas tinha em seu conteúdo a justiça social, o que era ignorado pelos fariseus (Mt 23. 23).
  2. As boas novas do Reino trazem um conteúdo voltado para os pobres (Mt 11. 5).
  3. Tal como a lei, as palavras de Jesus possuem valor permanente (Mt 24. 34).
  4. Deus não levará em conta o casuísmo farisaico ao lidar com os homens no juízo.
É sob este prisma que o real sentido da história do rico e do Lázaro emerge do contexto bíblico.

II) O contexto teológico da parábola

Já foi comprovado, no presente estudo, que a história do Rico e do Lázaro foi uma resposta de Jesus aos fariseus, face à clara rejeição dos mesmos quanto ao ensino de Cristo no tocante ao uso das riquezas. Algo muito comum, da parte Jesus, é o recurso de se valer de imagens do cotidiano cultural do público para se fazer entendido. Neste caso, Cristo se vale da compreensão do judaísmo rabínico a respeito da vida após morte.

Na medida em que lemos os textos sapienciais, percebemos que a vida após morte era um mistério para o judaísmo anterior ao exílio. A palavra grega αδης (hades), foi amplamente empregada pelos tradutores da Bíblia hebraica para se referirem ao שְׁאֹ֑ול (Sheol), que por sua vez é descrito com sendo a terra de sombras e densas trevas, para a terra tenebrosa como a noite, terra de trevas e de caos, onde até mesmo a luz é trevas (Jó 10. 21, 22 NVI). Em seu grito de dor Jó concebe o שְׁאֹ֑ול como sendo um lugar onde todos se igualam, e igualmente encontram repouso, veja: 
Agora eu bem poderia estar deitado em paz e achar repouso junto aos reis e conselheiros da terra, que construíram para si lugares que agora jazem em ruínas, com governantes que possuíam ouro, que enchiam suas casas de prata. Por que não me sepultaram como criança abortada, como um bebê que nunca viu a luz do dia? Ali os ímpios já não se agitam, e ali os cansados permanecem em repouso; os prisioneiros também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do feitor de escravos. Os simples e os poderosos ali estão, e o escravo está livre de seu senhor (Jó 3. 13 - 19 NVI). 
Este pensamento tem o seu eco nos salmos onde vemos os salmistas afirmando: Quem morreu não se lembra de ti. Entre os mortos, quem te louvará? (Sl 6. 5 NVI). Ao receber livramento o Rei Ezequias entoou o seguinte louvor: pois a sepultura não pode louvar-te, a morte não pode cantar o teu louvor. Aqueles que descem à cova não podem esperar pela tua fidelidade (Is 38. 18 NVI). Ainda mais contundente é a forma com a qual se descreve o inferno neste texto:
Acaso mostras as tuas maravilhas aos mortos? Acaso os mortos se levantam e te louvam? Será que o teu amor é anunciado no túmulo, e a tua fidelidade, no Abismo da Morte? Acaso são conhecidas as tuas maravilhas na região das trevas, e os teus feitos de justiça, na terra do esquecimento? (Sl 88. 10 - 12 NVI).
Nestes textos o inferno, ou שְׁאֹ֑ול (Sheol) é descrito como:
  1. um lugar onde todos os seres humanos descansam, independente de sua condição moral,
  2. O mundo dos mortos,
  3. O abismo da morte,
  4. região de trevas e,
  5. Terra dos esquecimento, um lugar onde Deus não é louvado.
Com isto podemos afirmar, junto com Marvin Richardson Vincent e Hans Bietenhard que foi pela da visão grega e persa, que por sua vez desembocou na literatura apocalíptica que o rabinismo desenvolveu um pensamento elaborado sobre a vida no além. Fora das incursões especulativas dos textos poéticos não temos nada de concreto no Antigo Testamento a respeito da vida após a morte. É destas constatações que concluo que ao responder aos fariseus sobre a questão do emprego do dinheiro como meio para se alcançar um fim maior, que Jesus proferiu uma história nos moldes do pensamento da época.

O Novo Testamento também não é prodigo em informações a respeito da vida após a morte. Paulo fala em duas ocasiões em estar com Cristo (Fp 1. 23; II Co 4. 14 - 5. 10), e ao meu ver tal concepção, a despeito das influencias de pensamento do rabinismo, se coaduna com a cosmovisão poética e profética. Na medida em que o tempo se passou, e com a revelação progressiva, a ressurreição foi ganhando espaço no pensamento judaico (Is 26. 19; Dn 12. 2), o mundo dos mortos foi sendo visto como algo tão temporário que sequer merecia atenção.

O mesmo ocorre com Paulo quando este fala de estar com Cristo. Sua perspectiva não é a vida em um ambiente edílico e condição de uma alma, ou espirito desencarnado, mas dealguém que terá o seu corpo mortal transformado na imagem do corpo de Cristo (II Co 5. 1, 2; Fp 3. 20, 21). Enquanto tal promessa não se concretiza, ele estará com Cristo, e nem a vida, nem a morte podem interromper tal comunhão, que ele já desfruta com o Senhor (Rm 8. 35 - 39). Há que se lembrar que o alvo supremo de Paulo não é ser despido, mas revestido, e voltaremos a este assunto neste blog.

Fato, é que das duas maiores mentes reveladas no Novo Testamento, nem Paulo, e muito menos Jesus deram sobejas, ou parcas informações a respeito da vida após a morte, do paraíso, ou do inferno. Creio que boa parte de nossa cultura e pensamento a respeito destes assuntos se baseia mais em informações oriundas da cultura pagã. Jesus, ao menos ousou se dirigir aos fariseus nos termos desta cultura, mas Paulo só fez uma afirmação a respeito do paraíso, que as coisas que ele vira lá, eram ilícitas de se contar aos homens, dada a inefabilidade de tais realidades.

III) Observações exegéticas sobre a parábola

Ao fazer uma exegese do texto em si obtemos alguns elementos que nos permitem uma exegese mais apurada. Os versos iniciais contrastam o estilo de vida de dois homens socialmente díspares. De um lado temos um homem rico e do outro um pobre, na verdade um mendigo. O termo grego πτωχος (ptoochos) era usado para expressar toda forma de carência, e foi usado por Cristo, na primeira bem aventurança,  para se referir aos que possuem noção de sua pobreza e indigência espiritual. Sendo que neste último caso πτωχοι τω πνευματι (ptoochoi too pneumati), ocorre em uma forma diferente, mas retendo o mesmo sentido.

Digno de nota é a ocorrência do nome Lázaro, que em grego é λαζαρος, mas que Vincent entende como sendo uma forma abreviada do nome Eleazar, cujo sentido é Deus é meu socorro. Por mais que se tente ver aqui indícios de que tal texto não se trata de uma parábola, quando se interpreta os elementos que compõem a história, torna-se perceptível que se trata de uma peça literária, cujos elementos apontam para o contexto global do ensino de Cristo, conforme dissemos supra.

Foi aos pobres que Cristo anunciou o Evangelho. Não que isto fosse condição para a salvação, mas que na teologia bíblica geral o pobre desde cedo foi associado com o humilde, ou com o manso. Merece destaque o termo עֲנָוִ֗ ('anaw), a raiz do termo hebraico עֲנִיֶּ֛ ('ani), cujo sentido é do pobreza (Dt 15. 11). O pobre em Israel era aquele que não possuindo terra para trabalhar vivia em total estado de indigência, podendo vir a mendigar. Fato é que o pobre do contexto bíblico é bem diferente do pobre do contexto social atual (ver aqui).

No contexto geral do Evangelho de Lucas não há espaço para a crença errônea de que somente os pobres, no sentido econômico do termo, herdam o Reino de Deus. Um fato preponderante é a conversão de Zaqueu, cujo desprendimento de suas riquezas e posses é o maior sinal de sua salvação (Lc 19. 8 - 10). E uma peculiaridade neste evangelista é a colocação da historia de Zaqueu após o relato do encontro de Jesus com o jovem rico.

A partir de tais observações, sou levado a crer que os homens descritos por Cristo na parábola do Rico e de Lázaro, na verdade soa símbolos de dois perfis de pessoas. Aqueles que buscam a suficiência nos bens desta vida, e como recompensa vão para o hades, e os que buscam seu socorro exclusivamente em Deus. Cabem aqui algumas observações a respeito do paraíso, ou do céu conforme descrito na parábola (que fazem questão de que não seja uma parábola, mas uma história descritiva).

Observe, meu caro leitor que o paraíso é descrito como seio de Abraão, curioso não é? Isto talvez ocorra em função da fusão conceitual que se fez no período interbíblico entre os conceitos de Éden, paraíso e seio de Abraão, mas cabe ressaltar aqui que o encostar no seio é um ato de intimidade e proximidade extremas. Assim, Jesus coloca aquele, que aos olhos do povo e dos fariseus era visto como desprezado, o mendigo Lázaro, próximo a Abraão, ao passo que a riqueza e a tão desejada prosperidade, estão no inferno. Já observamos que no contexto gramatical da parábola, Cristo está dando uma resposta aos fariseus, que são descritos como avarentos e como pessoas que gostam de se trajar com pompa. Curiosamente, é desta forma que o rico é descrito. São fatores como este que me fazem crer que os mesmos fariseus que debochavam de Cristo, foram pegos pela história contada.

O céu não pode ser resumido a um lugar de compensação aos que sofreram nesta vida, embora a mensagem das Escrituras mostrem que os perseguidos por causa da justiça haverão de herdar o Reino de Deus e de Cristo, e que terão seus olhos enxugados de toda a lágrima (Is 35. 10; 60. 20; 65. 19; Ap 21. 4). Convém ressaltar que estas coisas somente serão possíveis pelo fato de que Deus será tudo em todos. em outras palavras, o paraíso, o céu, é a presença de Deus, coisa que a história omite.

Mais forte ainda é o pedido do rico que envie Lázaro aos seus familiares a fim de que o mesmo os advirta, para que aqueles não tenham o mesmo destino que o rico teve. E a resposta do pai Abraão (que diga-se de passagem, não viveu para conhecer Moisés, nem sua atividade como legislador), é que os parentes do rico têm Moisés e os profetas, se quiserem que os ouçam, e que em não ouvir a nenhum dos dois não ouvirão também que volte dos mortos.
  
IV) O que a parábola realmente diz
Falamos supra que nem a riqueza, nem a pobreza constituíam condições para que o homem fosse salvo, ou perdido, mas á luz do ensino do Evangelho de Cristo, a consciência, por parte do homem de sua pobreza espiritual e consequentemente de sua dependência de Deus são fatores condicionantes de acesso ao reino. Lázaro é a representação dos que dependem exclusivamente de Deus, ao passo que o rico representa o autossuficiente, que em razão de sua suficiência própria se exclui do Reino.

Diante do exposto, as riquezas da injustiça, sim toda riqueza, na verdade é injusta, e por este motivo, devem ser empregadas no alívio das dificuldades alheias. A doutrina que Cristo traz não é dele, mas tem sua fonte na própria lei e nos profetas (Dt 15. 11ss; Is 58). Os que agem em conformidade com tais preceitos são os verdadeiros filhos de Abraão (Lc 3. 8 - 11), e como tais legítimos herdeiros do Reino (Lc 13. 25 - 30). As nossas obras não nos salvam, mas evidenciam que a salvação chegou em nossa vida.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros
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