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sábado, 2 de janeiro de 2016

Escatologia o Estudo das Últimas Coisas


Escatologia é um ramo da Teologia Sistemática cujo material é constituído pela interpretação da profecia bíblica, apocalíptica e das demais matérias da Sistemática [aqui leia-se Sistemática como Dogmática]. O que pretendo dizer aqui é que descreio de uma Escatologia saudável, que não reúna e equilibre estes elementos. Sem os tais o que se tem é uma interminável especulação a respeito de eventos futuros que se resumem a tentativas de ver em clérigos romanos a besta, ou de acomodar evantos às passagens da Bíblia. 

De acordo com a revista do primeiro trimestre do corrente ano das Casas Publicadoras das Assembleias de Deus, o estudo da escatologia traz ao coração dos salvos a esperança de um dia estarem para sempre com o SenhorJesus Cristo. A título de consideração inicial posso afirmar que a Esperança é a matéria por excelência da Escatologia. 

A presente introdução já deu o tom do corrente post. Qual? 1) Definir o que é Escatologia. 2) Esclarecer as fontes bíblicas e teológicas da mesma. 3) Ressaltar o elemento da Esperança contido na mesma. Não é tarefa fácil, visto que o ser humano tem um profundo interesse no futuro e os estudos escatológicos tem sido profundamentes influenciados por este caráter especulativo. Feitas as colocações convido o leitor a aventura no estudo da escatologia. 

O QUE É ESCATOLOGIA?

A pergunta a respeito da natureza da Escatologia bíblia imediatamente nos remete ao que não é escatologia. E a resposta a esta primeira indagação remete ao leitor bíblico às seguintes questões:
  1. Não é a entrega a especulações a respeito do futuro, uma vez que o próprio Cristo disse aos seus discípulos: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder (At 1. 7 ACF). 
  2. Não consiste em intermináveis tentativas de marcações de datas para a Vinda de Cristo, uma vez que o mesmo disse: Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai (Mt 24. 36 ACF). 
  3. A afirmação de Jesus acima, não é uma negação de sua autoridade e divindade, mas o indicador de um padrão, uma vez que o próprio Deus quando faz anunciados aos seus profetas não trabalha com datas. 
  4. Não é a acomodação de eventos atuais às profecias bíblicas [algo que ocorre principalmente no caso dos programas de implantação de chips e eventos catastróficos como a derrubadas das torres gêmeas, do World Trade Center, ao atentado terrorista ocorrido na França ano passado, ou ao desastre ambiental de Mariana MG (ver aqui)]. 
  5. Não consiste na acomodação de textos bíblicos às ideias pré concebidas no campo da dogmática [este é o caso do pré-tribulacionismo, posição teimosamente defendida pelos líderes evangélicos no Brasil, mas incosistente do ponto de vista bíblico, conforme será demonstrado mais afrente]. 
  6. Não pode ser confundida com a série Deixados para Trás de Tim LaHaye, cujo teor é puramente especulativo e contém elementos mais lendários e mitologicos do que bíblicos. Os filmes são interessantes, mas poderiam ser colocados numa categoria inferior a Inimigo de Estado, Controle Absoluto, Vingador do Futuro, O Pagamento e tantos outros que se entregam a especulações a respeito de temas como o Fim do Mundo, Crise política, ambos presente na Escatologia atual. 
  7. Aqui observa-se que a Escatologia não é algo delimitado ao povo evangélico. Franquias cenematográficas como o Exterminador do Futuro possuem seu viés escatológico, o mesmo se pode dizer de obras como o livro e o filme feito com base no mesmo A Máquina do Tempo de H. G. Wells. 
Uma vez percebidas as verdades acima convém perguntar: o que de fato é a escatologia?
  1. Etimologicamente falando é a junção dos termos gregos εσχατη (eschatee) com λογος, o primeiro tem a ver com último, o segundo com estudo, tratado, saber. 
  2. Escatologia seria assim o saber a respeito das últimas coisas. Mas o que precisamente poderiam ser estas últimas coisas?
  3. Biblicamente falando as últimas coisas são os evantos que transcorrem entre a ascensão de Cristo e o seu retorno. Com este sentido o termo εσχατων των ημερων [eschaton ton heemeron, ou últimos dias] é empregado em Hb 1. 1, 2. 
  4. De igual modo o termo εσχατων των χρονων [eschaton ton chronon] é empregadopara se referir aos eventos pertinentes ao primeiro advento de Cristo, que culminou com sua morte e ressurreição e sucessivamente com a redenção dos crentes (I Pe 1. 20). 
  5. O mesmo se pode dizer de termos como συντελεια του αιωνος [synteleia ton aioonos], cujo emprego pode ser feito em alusão a eventos futuros (Mt 13. 49; 28. 20), como para os que ocorreram no momento histórico em que Cristo morreu (Hb 9. 26). 
  6. Perceba a partir deste último texto bíblico que a consumação dos séculos, na mentalidade do autor da Carta aos Hebreus é o momento em que o mesmo está vivendo. 
  7. Algo similar ocorre na mente de Pedro quando este associa o derramamento do Espírito no Pentecostes com a profecia de Joel (Jl 2. 28 - 31) e acrescenta a expressão εσχατων των ημερων [eschaton ton heemeron, ou últimos dias]. Os eventos ligados a morte, ressurreição e ascenção de Cristo inauguram a era Final. 
  8. Conforme sugerido acima, em relação à expressão συντελεια του αιωνος, εσχατων των ημερων pode ser empregado para eventos futuros, coforme visto nos textos que fazem alusão à apostasia (I Tm 4. 1), à corrupção generalizada (II Tm 3. 1ss), e ao descrédito com relação à Vinda de Cristo (II Pe 3. 3). 
  9. Gordon Fee e Douglas Stuartt afirmam que o Novo Testamento é um documento eminentemente escatológico, visto que seus contemporâenos acreditavam que a qualquer momento o Reino de Deus irromperria na Era presente
  10. Conclui-se assim que a escatologia não se limita a eventos futuros, antes abrange eventos pertinentes ao momento em que os discípulos, e demais membros da comunidade primitiva viveram. O ensino de Cristo, bem como sua pregação são eminentemente escatológicos [ver aqui]
Este é o momento em que se pode passar para as fontes bíblicas da Escatologia. 

FONTES BÍBLICAS DA ESCATOLOGIA

Falar a respeito das fontes bíblicas da Escatologia, demanda, por parte de quem se propõe a realizar tal feito, séria consideração a respeito das profecias bíblicas e da apocalíptica. Em geral estes dois movimentos são confundidos no imaginário cristão. A prova cabal de similar confusão é o fato de Daniel ser tido, ou considerado como profeta, quando na verdade ele é um חָזֹ֖ון (hazon) visionário. 

Biblicamente falando o movimento profético é um movimento que tem seu começo na monarquia. Não se trata um movimento literário desde o início, tanto que Elias, Eliseu, Aías de Silo e tantos outros não deixaram escritos. É a partir do ministério de Isaías, e Jeremias que o movimento assume forma literária, mediante ordem divina de que os oráculos sejam escritos. 

Disse-me também o SENHOR: Toma um grande rolo, e escreve nele com caneta de homem: Apressando-se ao despojo, apressurou-se à presa (Is 8. 1 ACF). A ordem visa a perpetuação das palavras oraculares para o dia do final: Vai, pois, agora, escreve isto numa tábua perante eles e registra-o num livro; para que fique até ao último dia, para sempre e perpetuamente (Is 30. 8 ACF). 

Deus ordenou a Jeremias que escrevesse a profecia a fim de que quando esta se cumprisse, o cumprimento fosse testemunho de que Deus havia mandado o profeta falar tantos os oráculos de juízo quanto os de consolação, é o que concluo deste texto abaixo:
Assim diz o Senhor Deus de Israel: Escreve num livro todas as palavras que te tenho falado. Porque eis que vêm dias, diz o Senhor, em que farei voltar do cativeiro o meu povo Israel, e de Judá, diz o Senhor; e tornarei a trazê-los à terra que dei a seus pais, e a possuirão (Jr 30. 2, 3 ACF). 
O profeta é um homem que começa o seu oráculo com a expressão veio a palavra do Senhor (Is 38. 4; 39. 5; Jr 2. 1; 30. 1; 32. 26; 33. 23). Já o apocalipsista é um homem de visão. Daniel é um claro exemplo. Discordo de que este último seja uma produção do período interbíblico, quando, de acordo com a maioria dos eruditos se desenvolveu a apocalítica, mas seu estilo é eminetemente assim, devido ao emprego de visões simbólicas (Dn 7; 8), do uso histórico das profecias (Dn 9. 1ss) e das visões frequentes. Tais detalhes podem ser aferidos neste breve estudo que fiz.

Do profetismo a escatologia dogmática herdou:

  1. As profecias que dizem respeito a Jesus Cristo, tanto em seu primeiro advento, quanto no seu segundo. Na verdade ambos sestão profundamente misturados, conforme se pode ver nos seguintes textos (Gn 49. 9 - 12; II Sm 7. 12 ss; Mq 5. 2). 
  2. O primeiro texto mistura cenas de nascimento de um descendente de Judá com as de execução de um juízo e o estabelecimento de uma paz sem fim. 
  3. Esta percepção messiânica permanece mesmo no ministério profético de João Batista, para quem a Vinda do Messias tem como objetivo único a execução de um juízo sobre os que não se arrependem e não ouvem a pregação de Batista e do Messias (Mt 3. 10 - 12). 
  4. Foi Cristo quem fez a distinção entre o período da salvação e o do juízo (Mt 11. 5ss; 16. 27). 
  5. As profecias pertinentes a Israel. Isaías, Jeremias, e Miquéias, por exemplo descrevem um quadro cujo cumprimento não é pleno. Nestas o Monte de Sião será um referencial de ensino e sabedoria para todas as nações da terra e os povos para lá correrão (Is 2. 2 - 4). 
  6. Em razão do conhecimento do Senhor, não se fará mal nem dano algum no santo monte do Senhor (Is 11. 9). 
  7. Isaías chega a descrever o seguinte quadro: E a lua se envergonhará, e o sol se confundirá quando o Senhor dos Exércitos reinar no monte Sião e em Jerusalém, e perante os seus anciãos gloriosamente (Is 24. 23 ACF). 
  8. Um quadro similar a este será retratado por João em sua descrição da Cidade Santa. E ali não haverá mais noite, e não necessitarão de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina; e reinarão para todo o sempre (Ap 22. 5 ACF). 
  9. Este mesmo monte é um local em que as estruturas dos céus serão abaladas e a morte aniquilada para sempre (Is 25. 6 - 9). 
  10. Estas profecias formam o cerne de duas categorias apocalípticas e escatológicas: a do Milênio e a do Estado Eterno e servem como exemplo da influência do profetismo na formação do pensamento escatológico. 
  11. Há também as profecias condizentes aos gentios. Elas indicam que o plano de Deus não se restringe exclusivamente aos filhos de Israel, antes abrangem as gentes, ou as demais nações (Gn 12. 3; 18. 18; 22. 18). 
  12. A lei do senhor emanará de Sião, para todos os povos (Is 2. 3). 
  13. Por mim mesmo tenho jurado, já saiu da minha boca a palavra de justiça, e não tornará atrás; que diante de mim se dobrará todo o joelho, e por mim jurará toda a língua (Is 45. 23 ACF). 
  14. Naquele tempo chamarão a Jerusalém o trono do Senhor, e todas as nações se ajuntarão a ela, em nome do Senhor, em Jerusalém; e nunca mais andarão segundo o propósito do seu coração maligno (Jr 3. 17 ACF). 
  15. Há também as profecias bíblicas pertinentes à Igreja. Elas decorrem de uma compreensão de que os gentios estão incluídos na etapa da salvação e que tal como os judeus fazem parte das promessas feitas a Abraão, Isaque e Jacó.
  16. Tais profecias são mais perceptíveis mediante leitura apurada da Carta aos Efésios. Nesta Paulo demonstra como judeus e cristãos foram inidos em um único povo (Ef 2. 11 - 18; 3. 4 - 6). 
Da apocalíptica judaica a Escatologia herdou: 
  1. As imagens cataclísmicas dos evantos finais tais como: a destruição da terra, da natureza, das potências do céu, etc...
  2. Uma visão simbólica e teleológica da história (Dn 2; 7; 8). O advento dos reinos mundiais é descrito por meio da ascenção de bestas, ou de ujma estátua constituída de vários metais em que a mesma é destruída (Dn 2). 
  3. Quadros eminentes da volta do Senhor. São aquelas imagens em que no lugar da restauração da monarquia judaica o próprio Deus é descrito Aquele que vem para Reinar (Dn 7. 13, 14). 
  4. Ele é Aquele que Vem com as nuvens do céu [símbolo de glória]. Esta imagem será constante no Novo Testamento para descrever a Vinda de Cristo (Dn 7. 13; Mt 16. 27; 24. 30; 26. 64). 
Feitas as considerações supra passemos às conclusões sa dogmática na Escatologia. 

RESULTADOS NA DOGMÁTICA E NA ESPERANÇA



No tocante à dogmática pode-se dizer que: 

  1. A Escatologia é a consumação da Teontologia [doutrina do Ser de Deus], visto que a mesma descreve a Glorificação final de Deus em tudo e em todas as coisas (Ap 4. 8, 11; 19. 6, 7). 
  2. É igualmente a consumação da Antropologia, visto que nesta os homens são descritos cumprindo o eterno propósito para o qual foram criados, a saber: o de glorificar a Deus por meio de suas palavras e obras. De uma forma, ou de outra, na condição de salvos ou na de perdidos os homens redenrão glórias a Deus, visto que Deus mesmo jurou toda língua confessará e todo o joelho se dobrará (Is 45. 23; Rm 14. 11; Fp 2. 10, 11). 
  3. A Escatologia é a consumação da Hamartialogia, visto que proclama a aniquilação de toda forma de mal, conforme se pode ver na letra da música de Nelson Cavaquinho [Juízo final], neste dia do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente. Conforme se vê nas observações supra, as profecias afirmam categoricamente: não se fará mal nem dano algum no santo monte do Senhor (Is 11. 9). 
  4. Na Soteriologia se verá a conclusão da obra definitiva de Cristo. No passado cada crente foi salvo da ira de Deus ao ser justificado em e com sua graça (Rm 5. 1 - 11). No presente o crente experimenta libertação do poder do pecado mediante a aplicação da graça na vida diária. Este processo é denominado de santificação (Rm 6. 14 - 22). No futuro não estaremos mais sob risco de pecar, uma vez que seremos salvos do poder do pecado. O nome deste processo é glorificação (Rm 8. 29, 30), cuja consumação definitiva se dará na Vinda de Cristo. 
  5. Cristologicamente falando o próprio Jesus deu a entender que sua encarnação não revelava tudo a respeito de sua natureza (Is 53. 1; Jo 12. 38), daí o fato de que Ele mesmo tenha falado em um dia em que o Filho do Homem haveria de se revelar (Lc 17. 30). O autor aos Hebreus afirma: Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos (Hb 2. 9 ACF). 
  6. A Eclesiologia tem sua resolução na Escatologia, visto que nesta se descreve a união final entre Cristo e sua Igreja (Jo 14. 3; I Ts 4. 17). 
  7. A Esperança Cristã é a Glória de Deus (Rm 5. 2; 8. 18) a manifestação de Nosso Grande Deus e Salvador Jesus Cristo (Tt 2. 13, 14), uma herança incorruptível (I Pe 1. 4, 5), novos céus e nova Terra (II Pe 3. 13) etc...
CONCLUSÃO

Em tempos tão marcados pelo materialismo e pelo hedonismo a função da esperança é fazer com que o crente olhe para além do tempo presente, para além daquilo que se vê, e recobre sua identidade a se comporte neste presente tempo como se não estivesse mais sob este aéon. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Elias no monte da Transfiguração


Temos visto ao longo desta série de estudos que Elias foi um importante servo de Deus cuja missão consistiu basicamente em proclamar a que o verdadeiro Deus era o Deus de Israel. Há muitos crentes que acham tais estudos supérfluos, e afirmam que o que importa de fato é Cristo e o Novo Testamento. E se analisarmos bem, veremos que não estão, de todo errados, mas, com tal forma de pensar mostram que não entendem plenamente o Novo Testamento, uma vez que a revelação nele contida. Há uma interdependência entre as Escrituras do Antigo e do Novo pacto, e com o estudo de hoje apontaremos este elemento.
Retornando a Elias, precisamos falar que Deus escolheu a nação de Israel, para que eles fossem guardiões das revelações e das Escrituras, que por meio desta guarda, o Messias seria manifesto e o mundo estaria preparado para o receber. Neste processo ocupam fundamental papel a lei e os profetas. À lei coube o papel de ser um pedagogo (παιδαγωγον), naquele tempo, um escravo, ou tutor cuja função era a de conduzir os meninos aos seus respectivos mestres. É neste sentido que Paulo afirma que a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé (Gl 3. 24 NVI).
Esta função do tutor, ou pedagogo (παιδαγωγον), fica clara quando apelamos ao sentido hebraico da palavra lei. O termo תֹּורָ֑ה (torah), tem o sentido básico de ensino, instrução, lei. No monte da transfiguração, a lei, ou תֹּורָ֑ה (torah), foi representada por Moisés, ao passo que os profetas (nebiuin - נְבִאִ֖ים) o foram por Elias. Ambos são de vital importância pois apontam para Cristo. É exclusivamente sob esta perspectiva que a leitura dos textos que abordam a transfiguração tem de ser feita.

O contexto da Transfiguração

Em todos os Evangelhos sinóticos podemos perceber que os ensinos de Cristo recebem um arranjo diferente. Não quero com isto afirmar que eles foram inventados, de forma alguma, ante creio que os relatos dos fatos ali registrados são fidedignos. Mas quando olhamos para o contexto que envolve a narrativa da transfiguração, percebemos que a disposição de fatos que antecedem o evento é a mesma. A unica exceção é o relato de Lucas no tocante ao sinal que os fariseus pedem ao Senhor.
  1. Os saduceus pedem um sinal dos céus (Mt 16. 1 - 4; Mc 8. 10; Lc 12. 54), e Jesus nega. Para o mestre é inconcebível que alguém que sabe ler os sinais do dia não saiba ler os sinais dos tempos (semain ton Kairon - σημεια των καιρων). Por sinais dos tempos (σημεια των καιρων), enteda-se os milagres que acompanham o ministério de Cristo. Eles idicam que o tempo está cumprido. Se olharmos para este mesmo texto no contexto do Evangelho de Marcos perceberemos que alguns sinais são colocados após a negativa de Jesus em manifestar sinais diante dos fariseus.
  2. Após negar sinais aos fariseus e aos saduceus Jesus realiza sinais à vista dos seus discípulos e caminha para as cercanias de Cesaréia de Felipe. Ali ele indaga aos seus discipulos a respeito da visão, da percepção que o povo tinha de sua vida e ministério. A resposta de acordo com Mateus é: Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas (Mt 16. 14 NVI). O relato de Marcos difere do de Mateus, por preservar apenas a figura de João Batista, o precursor do Messias e a de Elias (Mc 8. 28).  Lucas segue a mesma formatação de Marcos. Nas palavras deste evangelista, os discípulos deram a seguinte resposta a Jesus: dizem que és João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, que és um dos profetas do passado que ressuscitou (Lc 9. 19 NVI). Ao perguntar para os seus discípulos a respeito da percepção que estes tinham da identidade do Filho do homem, ele teve a seguinte resposta de Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16. 16 NVI). A mesma confissão pode ser vista nos demais evangelistas (Mc 8. 27; Lc 9. 18). Jesus promete a Pedro que sobre esta percepção edificará a sua Igreja e que nem mesmo a morte poderá triunfar sobre a mesma.
  3. Então Jesus disse: É necessário que o Filho do homem sofra muitas coisas e seja rejeitado pelos líderes religiosos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da lei, seja morto e ressuscite no terceiro dia (Lc 9. 22). Esta afirmação não foi entendida por Pedro, que se pôs a censurar Jesus. No contexto de Mateus e de Marcos, Jesus repreende a Pedro por meio das segintes palavras: Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens (Mt 16. 23 NVI).
  4. Em Lucas, Jesus aparece imediatamente fazendo a seguinte afirmação: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me (Lc 9. 23 NVI). Em outras palavras: Não estou aqui para poupar a minha vida, e quem quiser se preservar de sofrer não serve para ser o meu seguidor. SE QUISERMOS ENTENDER A TRANSFIGURAÇÃO, PRECISAMOS ENTENDER O SENTIDO DESTAS PALAVRAS.
  5. O discurso de Cristo encerra-se com três promessas, a de sua vinda, a da justa retribuição no momento da vinda de Cristo, e a de que alguns dos que ali estavam não veriam a morte antes de verem o Reino de Deus (Mt 16. 27, 28; Mc 8. 38; 9. 1; Lc 9. 26, 27).
Reiteramos que este contexto é de suma importância para que possamos entender o relato da transfiguração.
 
O relato da transfiguração
 
Após os fatos outrora narrados, Jesus sobe ao monte na companhia de três dos seus discípulos: Pedro, Tiago e João. Estes são os mesmos discípulos que os Evangelhos descrevem de forma inequívoca como sendo parte do círculo íntimo de Cristo. Eles estiveram com Cristo em seu momento de dor no Getsêmane (Mt 26. 37), por exemplo. No relato de lucas é acrescentado que a motivação de Cristo para subir ao monte com estes mesmos discípulos foi a de orar (Lc 9. 28). Para Mateus Jesus simplesmente se transfigurou (μετεμορφωθη) na presença dos discípulos. O termo em apreço vem do grego μεταμορφω (metamorfoo), do qual vem a nossa palavra Metamorfose. Esta é empregada por Mateus e por Marcos e no contexto teológico geral do Novo Testamento esta palavra denota a exposição do que há na essência do indivíduo. Em um conceito oposto ao empregado por Paulo para a expressão aparência (scheema - σχημα), que também pode ser moda, forma, maneira.
Lucas acrescenta que a transfiguração ocorreu no momento em que Cristo orava. και εγενετο εν τω προσευχεσθαι αυτον το ειδος του προσωπου αυτου ετερον, ou seja: Enquanto orava, a aparência de seu rosto se transformou (Lc 9. 29 NVI). Lucas evita empregar o termo μετεμορφωθη, por ser a palavra usada pelos gregos para descrever as transformações que os deuses da época faziam para visitar o nosso mundo. Nestas os deuses se manifestavam em figuras menores em dignidade, ao passo que com Jesus ocorreu o contrário, Ele revelou sua forma excelente. Daí a preferência deste evangelista pelos termos εγενετο (egeneto) e ετερον (heteron), que indicam que ele assumiu uma forma diferente da que tinha. Em outras palavras, o rosto de Jesus se tornou outro, e isto ocorreu durante o período da oração.
Lucas prossegue narrando que dois homens começaram a conversar com Jesus. Eram Moisés e Elias. E o tema da conversa era sobre a partida de Jesus, que estava para se cumprir em Jerusalém (Lc 9. 30, 31 NVI). Mateus e Marcos apenas afirmam que Moisés e Elias estavam conversando com Jesus, ao passo que Lucas afirma que o tema da conversa eram fatos referentes ao sofrimento de Cristo. Quando olhamos para a vida de Elias e para o contexto no qual o mesmo se encontra inserido perebemos o quanto a mesma tinha relação com a de Cristo. Falaremos mais na seção abaixo.

Elias no contexto do relato da transfiguração

Quando olhamos para o contexto da transfiguração percebemos que ao perguntar aos seus discípulos a respeito da percepção que o povo tinha da pessoa de Jesus, o mesmo recebeu como resposta uma comparação com Elias e com outros profetas. Lucas e Marcos omitem da lista apenas Jeremias. O que se pode perceber desta enquete é que à vista do povo Jesus era um profeta (prophetoon - προφητων). A abundância de sinais em seu ministério talvez tenha levado o povo a compará-lo com Elias e a pregação de arrependimento à João Batista.
Mas Pedro teve uma percepção que apenas o Pai pode produzir, a certeza de que Jesus era χριστος ο υιος του θεου του ζωντος (Cristos hious tou Theou zoontos), o Cristo, Filho do Deus Vivo (Mt 16. 16). O termo χριστος (Cristo) equivale ao termo hebraico ־מְשִׁ֥יחַ  (Ha Mashia), indicando que as perspectivas bíblicas a respeito do Messias estavam se cumprindo na pessoa de Cristo. Esta percepção de Pedro, que lhe foi dada pelo próprio Deus, uma vez que apenas este pode revelar quem é o Filho, abriu o caminho para que se entendesse que Cristo era muito superior aos profetas.
Se Elias foi um porta voz de Deus em um momento de grave turbulência espiritual, Jesus foi a própria palavra encarnada. A visão de Elias e de Moisés falando dos sofrimentos de Cristo no Monte da Transfiguração aponta para a verdade de que os sofrimentos de Cristo foram preditos pela lei e pelos profetas. Infelizmente, somente após a ressurreição, os apóstolos vieram a entender tais palavras.
Os discípulos então perguntam a respeito das profecias referentes a uma nova vinda de Elias, ao que Jesus responde que este já tinha vindo, e que haviam feito de tudo com ele, e da mesma forma fariam com o Filho do homem. Aqui se faz necessário explicar que em nenhum momento se está falando de reencarnação, ou algo parecido. Primeiro, a antropologia bíblica é diferente da assumida pelos idealizadores da doutrina espírita. Segundo, o foco em todo o texto é a identidade de Jesus e os sofrimentos que ele terá de passar para concretizar a primeira etapa de sua obra. Ao ser perguntado se era Elias, o próprio João disse que não (Jo 1.23 - 27), dando a entender que sei papel se resumia a ser um precursor de Jesus. Quando Cristo afirma que ele, João, é o Elias que havia de vir (Mt 11. 14; 17. 10 - 12), o fez tendo em vista afirmar que nele estavam sendo cumpridas todas as expectativas criadas pelos profetas. Este é o foco do texto. Por último, nada no texto sugere a doutrina da reencarnação.

Conclusões

O texto da transfiguração foi inspirado pelo Espírito Santo aos três evangelistas sinóticos, a fim de que entendêssemos que os sofrimentos de Cristo foram vividos por Elias e Moisés, e desta forma a vida dos mesmos apontou para a de Cristo. Nada no texto, ou contexto sugere a doutrina da encarnação. A lei e os profetas profetizam a respeito de Cristo, quando este veio, a referência passou a ser o Filho amado. Que possamos ouvir a sua voz.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Zacarias e o Reinando Messiânico


 


 
Zacarias ( זְכַרְיָ֖ה), cujo nome significa  Deus se lembra, é, ao lado de Ageu e Malaquias, um dos profetas pós exílicos, a palavra do Senhor דְבַר־ יְהוָ֗ה (YHWH dabar) se manifestou ao profeta em 520 a. C. Ele é chamado de profeta נָּבִ֖יא (heb nabî), duas vezes no primeiro capítulo (Zc 1. 1, 7), e seus oráculos iniciais são datados, o que permite extrema precisão. Estas informações são de suma importância uma vez que o livro em apreço é alvo de disputas a primeira quanto ao estilo, a segunda, quanto à autoria dos capítulos da segunda metade (9 - 14).
Apesar do texto dizer claramente a palavra do Senhor veio ao profeta Zacarias, o que mais vemos em seus escritos são visões (Zc 1. 7 - 6. 8), e a julgar pela unidade do texto foram recebidas em apenas uma noite. Outro fator é o anjo sucessivamente interpretando estas mesmas visões (Zc 1. 9, 13, 14, 19; 2. 3; 4. 1, 4, 5; 5. 5, 10). O diálogo entre seres angelicais não é característico da literatura profética, mas da apocalíptica, conforme podemos ver nos livros de Daniel e do Apocalipse. Em ambos as mensagens de Deus são manifestas por meio de visões enigmáticas e interpretadas por anjos.
A julgar pelo número de visões, e pela ocorrência do verbo ver תִרְא֔וּ (roeh e suas variantes) no livro, podemos arriscar que este seja mais um vidente. Mas Zacarias é chamado de profeta, e o texto diz que a palavra do Senhor veio a ele. Assim, não seria nenhum absurdo propor que as visões de seu livro sejam de caráter didático, uma forma de aguçar a atenção e a curiosidade do ouvinte e com isso introduzir a mensagem.
Mas e os problemas de autoria da segunda parte do livro? Temos de assumir que de fato existam tais problemas. Algumas partes do livro parecem ser de autoria pré exílica. Exemplo de tais observações podem ser vistos na menção de um rei em Gaza (Zc 9. 5), ou as alusões à Assíria e ao Egito como potenciais ameaças ao povo de Deus. Neste ponto temos de considerar as alusões apocalípticas encontradas no livro, assim as referências ao suposto rei de Gaza, e às nações inimigas seriem simbólicas.
Mais marcante ainda são as referências aos pastores (Zc 11. 4 - 17), onde os pastores expulsos seriam Simão, Lisímaco e Menelau. Aceita esta teoria, os oráculos desta perte seriam do período dos Macabeus, conforme podemos ver (II Mc 4). Aqui temos um caso idêntico ao de Daniel, livro que na Bíblia hebraica figura entre os escritos, não entre os profetas. Mas precisamos lembrar que ainda que Zacarias não esteja entre os apocalípticos, pelas razões acima abordadas, ele é, ao lado de Daniel, um precursor deste estilo.
Quanto à autoria da segunda parte do livro, concordamos com Dillard e Longman III, quando estes estudiosos assumem a autoria única do livro. Primeiro, nenhuma das propostas feitas até o momento é consistente. Isto porque a mensagem é a mesma em ambas as partes. Exemplo:
  1. A importância de Jerusalém é visível em ambas as partes (Zc 1. 12 - 16; 2. 1 - 13; 9. 8 - 10; 12. 1 - 13; 14. 1 - 21). Estes oráculos serão fundamentais na constituição do Apocalipse de João, que colocará a sede do Reino do Messias em Jerusalém (Ap 20. 1 - 6), e chamará o Estado Eterno de Jerusalém celestial (Ap 21 - 22).
  2. A purificação da cidade santa (Zc 3. 1 - 9; 5. 1 - 11; 10. 9; 12. 10; 13. 1, 2; 14. 20, 21). Os temas da purificação do sacerdócio, e da fonte, por exemplo, apontam para uma dependência em relação ao profeta Ezequiel (Ez 44. 15 - 23; [6. 6; 36. 25]).
  3. O lugar dos gentios no Reino de Deus (Zc 2. 11; 8. 20 - 23; 9. 7 - 10; 14. 16 - 19). As nações se unirão ao Senhor, e estarão subordinadas ao povo santo. Os judeus serão referencial da presença de Deus entre os povos.
  4. A Reunião dos exilados (Zc 2. 6; 10. 9, 10).
Ainda que o texto fosse de diferentes autores, temos uma fantástica unidade no todo do livro.
A respeito das profecias messiânicas, o que podemos dizer é que:
  1. Josué é um tipo de Cristo. Primeiro, seu nome, tal como o de Jesus, significa o Senhor é a Salvação. em uma das menções a este sacerdote, Deus promete trazer o seu servo, o Renovo. Há igualmente uma menção à vinda de uma pedra, e que a iniquidade da terra será removida em um único dia. Ouçam bem, sumo sacerdote Josué e seus companheiros sentados diante de você, homens que prefiguram coisas que virão: Vou trazer o meu servo, o Renovo. Vejam a pedra que coloquei na frente de Josué! Ela tem sete pares de olhos, e eu gravarei nela uma inscrição, declara o Senhor dos Exércitos, e removerei o pecado desta terra num único dia (Zc 3. 8, 9 NVI).
  2. Ele profetiza um feito, que de acordo com o Evangelistas cumpriu-se quando Cristo entrou em Jerusalém (Zc 9. 9; Mt 21. 1 - 11). Alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte, Jerusalém! Eis que o seu rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta (Zc 9. 9 NVI).
  3. Nos Salmos, Deus, o próprio יְ֭הוָה (YHWH), é descrito como sendo o Rei de Israel, ou o rei da Glória מֶ֣לֶךְ הַכָּבֹֽוד (malak kabod). Aqui, o rei é alguem humilde, pobre, e justo, que vem montado em jumentinho. Este é Jesus Cristo.
  4. Note que embora fale de algo que os intérpretes do Novo Testamento julgaram ser a traição, e concordo com eles, Zacarias atrela a vinda do Messias humilde com sua vitória sobre todas as demais nações (Zc 9.10 - 17).
  5. Se acharem melhor assim, paguem-me; se não, não me paguem. Então eles me pagaram trinta moedas de prata. E o Senhor me disse: "Lance isto ao oleiro", o ótimo preço pelo qual me avaliaram! Por isso tomei as trinta moedas de prata e as atirei no templo do Senhor para o oleiro (Zc 11. 12, 13 NVI). Mais uma vez os escritores do Novo Testamento interpretaram o texto de forma cristológica. Na percepção dos Evangelistas, o texto aborda o preço cobrado pela traição de Cristo (Mt 26. 15), o ato desesperado de Judas em devolver o dinheiro (Mt 27. 9, 10), e o destino que deram ao comprarem um campo de um oleiro. O mais curioso é que mateus liga a profecia ao profeta Jeremias, e de fato há uma menção de semelhante ato em Jeremias,  mas ela é claramente uma citação de Zacarias.
  6. De igual modo, a noite da traição, veja como Zacarias a descreve. espada, desperta-te contra o meu pastor, e contra o homem que é o meu companheiro, diz o SENHOR dos Exércitos. Fere ao pastor, e espalhar-se-ão as ovelhas; mas volverei a minha mão sobre os pequenos (Zc 13. 7 ARCF). Jesus disse aos seus discípulos na noite da traição: todos vós esta noite vos escandalizareis em mim; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão (Mt 26. 31 ARCF).
  7. Tal como ocorre no Apocalipse, o Reino Messiânico se dará após uma sangrenta batalha entre Deus e os adversários do seu povo (Zc 14. 1 - 7). Somente após esta batalha, o reino do Senhor será instaurado.
 
As marcas do Reinno Messiânico são:
 
Deus habitará novamente no meio do seu povo (Zc 8. 2, 3).
A cidade será povoada de velhos e crianças (Zc 8. 4, 5).
Deus chamará o seu povo de todas as nações (Zc 8. 6 - 9).
A miséria dos dias posteriores ao exílio, não será mais vista (Zc 8. 10 - 12).
Diversas nações virão para Jerusalém a fim de buscar ao Senhor (Zc 8. 21 - 23).
 
O reino deste mundo pertence a Deus, e a Cristo (Sl 24. 1, 2, 7 - 10), que estejamos nas condições requeridas por ele para fazermos parte do seu Reino.
 
Pr Marcelo Medeiros, em Cristo Jesus.
 
 
 
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