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sábado, 9 de agosto de 2014

A Verdadeira Fé Não Faz Acepção de Pessoas



Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas (Tg 2. 1 ACF). O termo acepção, pode ser definido como a interpretação e significados que se confere a uma palavra, ou coisa, e no sentido pessoal, a preferência pessoal decorrente da classe social, qualidade, ou títulos que a mesma possua. Este sentimento não é nada compatível com a fé em Cristo, que de acordo com Tiago se fez pobre, a fim de fazer com que os pobres deste mundo se tornem ricos na fé (II Co 8. 9; Tg 2. 5). 

A despeito da incompatibilidade entre a acepção de pessoas e a fé em Cristo, fato é que não é em vão que o texto se faz presente nas Escrituras. É de significativa importância que a recomendação venha após a fala a respeito da geração pela palavra, e ao apelo à prática da mesma (Tg 1. 16 - 25). De igual importância é o fato de que imediatamente após as recomendações contra a discriminação de pessoas venha a afirmação de que a fé sem obras é morta. Creio que um entendimento maior do assunto será possível mediante uma breve exegese. 

UMA EXEGESE DO TEXTO

Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas (Tg 2. 1 ACF). 

O termo grego προσωποληψιαις (prosoopoleepsiais), cujo sentido é o de receber à face, ou em razão da aparência, é associado a εχετε (echete), usualmente empregado para expressar algum tipo de prática. Daí que o texto em apreço possa ser entendido da seguinte forma: não deve ser um hábito do crente exercer a sua vida piedosa e, ao mesmo tempo praticar a acepção de pessoas. 

Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado (Tg 2. 2, 3 NVI). 

No texto, tal como traduzido em idioma vernacular a impressão que se tem é a de que o homem traga um único anel, coisa que era comum aos homens da época. Daí que a distinção entre pobre e rico seja visualizada aqui somente por meio da comparação entre o anel e as vestes imundas do mendicante. Mas na verdade do termo χρυσοδακτυλιος (chrysodaktylios), indica um homem com anéis de ouro, ao invés de apenas um, coisa comum naquele tempo. Aqui, as jóias, junto com as vestiemtnas são indicadores de riqueza e opulência. 

Outro termo que merece devida consideração é επιβλεψητε (epiblepseete), que em nossas bíblias é traduzido por atentar, prestar atenção, mas que na verdade indica consideração, ou respeito. A mensagem inicial de Tiago é de não se deve considerar, ou respeitar alguém tomando como parâmetro as vestes ou a ornamentação da pessoa. 

não estarão fazendo discriminação, fazendo julgamentos com critérios errados? (Tg 2. 4 NVI). 

O termo διεκριθητε (diekrithee) vem do verbo διακρινομαι (diakrinomai), e indica um tipo de divisão interna a respeito de um assunto, ou melhor a mais flagrante incompatibilidade com a fé professada, uma vez que Cristo se fez pobre para enriquecer o pobres na fé. Já κριται διαλογισμων πονηρων (kritai dialogismoon poneeroon), em que equivale κριται a juízes, διαλογισμων à raciocínios, e πονηρων a mau. Daí a possibilidade da seguinte tradução: juízes de raciocínios ruins, ou juízes tomados de maus pensamentos.

O fato é que a discriminação é uma forma de julgamento a partir de critérios nada corretos e louváveis, daí a necessidade de constante racionalização, uma vez que mesmo sendo preconceituoso, ser humano algum está preparado para ser visto, ou ver a si mesmo, como tal. A teologia da prosperidade, ou a teologia moral de causa e efeito são duas formas de racionalização do problema aqui destacado. Um exemplo deste tipo de pensamento pode ser visto nos amigos de Jó, hoje representados nos que entendem que toda tragédia tem sua explicação em algum tipo de desobediência, ou pecado.

Ouçam, meus amados irmãos: não escolheu Deus os que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que ele prometeu aos que o amam? (Tg 2. 5 NVI). 

A primeira questão necessária a ser colocada e esclarecida aqui é que a riqueza, de forma alguma constitui-se como impedimento ao Reino de Deus. O problema do jovem rico, por exemplo não era sua riqueza, mas a sua auto suficiência exemplificada na figura do camelo (Lc 18. 25). Mais curioso, é que quando perguntado a respeito da observância aos mandamentos, o jovem responde: Todas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade (Lc 18. 21 ACF), este é o ponto em que se revela a auto suficiência do jovem, achar que cumpre a lei, e que pode fazer algo para herdar a vida eterna. 

Zaqueu já é um exemplo de rico que vai na direção contrária à do jovem piedoso. Ele não tem a mínima pretensão com relação a Jesus, é este quem para debaixo do pé de um figueira brava e convida o coletor de impostos a que o receba em casa. O que reforça ainda mais que a raiz do problema é a auto suficiência. 

Logo, a pobreza, ou indigência da qual a Bíblia fala, ao afirmar que os pobres são chamados para o Reino de Deus e de Cristo (Mt 5. 3; 11. 5), é na verdade um sentimento de profunda dependência de Deus. πτωχον (ptoochon) é um termo que expressa o pedinte, aquele que depende de outros para sua subsistência (aqui). O pobre em Israel era aquele que não possuindo terra para trabalhar vivia em total estado de indigência, podendo vir a mendigar. Fato é que o pobre do contexto bíblico é bem diferente do pobre do contexto social atual. 

Chamamos de pobre quem não possui bens, posses, ou pelos parcos recursos não pode prover sua subsistência. Mas o pobre da Bíblia é literalmente o indigente. Um termo grego que se alinha com este é πτωχοι (ptoochói).  Ele igualmente indica os que não podem se sustentar e dependem de ajuda alheia (aqui). É a esta figura que Tiago se refere neste texto. Ele se difere do homem com poucas posses, o ταπεινος [tapeinos], do qual o irmão do Senhor fala (aqui). 

O senso de dependência faz com que o πτωχοι (ptoochói) seja o escolhido por Deus a fim de vir a ser herdeiro do Reino e rico na fé em Cristo. Isto faz com que todas as margens possíveis para a prática da discriminação sejam lançadas por terra. Sob esta ótica evangélica, que a questão da pobreza e da riqueza precisam de serem vistas. 

A ACEPÇÃO DE PESSOAS NA BÍBLIA 

Na medida em que se aprofunda na leitura do texto maior se torna a percepção de que Tiago está referendando seu ensino tanto a lei, quanto à sabedoria judaica. Isto se torna claro na medida em que o irmão do Senhor afirma: Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis. Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores (Tg 2. 8, 9 ACF). O que leva à pergunta: de qual parte da lei Tiago está falando?
"Não cometam injustiça num julgamento; não favoreçam os pobres, nem procurem agradar os grandes, mas julguem o seu próximo com justiça. "Não espalhem calúnias entre o seu povo. "Não se levantem contra a vida do seu próximo. Eu sou o Senhor. "Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as conseqüências de um pecado. "Não procurem vingança, nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor (Lv 19. 15 - 18 NVI). 
Em termos legais, a acepção de pessoas consiste em favorecer ao pobre, pela simples fato de o mesmo ser pobre, ou na tentativa de agradar o grande. Uma recomendação: não sejam parciais no julgamento! Atendam tanto o pequeno como o grande. Não se deixem intimidar por ninguém, pois o veredicto pertence a Deus. Tragam-me os casos mais difíceis e eu os ouvirei (Dt 1. 17). Quem disser ao ímpio: "Você é justo", será amaldiçoado pelos povos e sofrerá a indignação das nações. Mas os que condenam o culpado terão vida agradável; receberão grandes bênçãos (Pv 23. 24, 25)

Agir com acepção de pessoas consiste em não permitir que a condição pessoal altere a percepção particular a respeito desta, ou daquela pessoa, e pior, uma injustiça seja feita. O texto supra traz uma realidade sem precedentes: o mandamento de amar ao próximo é aglutinado à recomendação de  não se fazer acepção de pessoas. O verdadeiro praticante da Palavra não age de tal forma.
Se vocês de fato obedecerem à lei real encontrada na Escritura que diz: "Ame o seu próximo como a si mesmo", estarão agindo corretamente. Mas se tratarem os outros com favoritismo, estarão cometendo pecado e serão condenados pela Lei como transgressores. Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente. pois aquele que disse: "Não adulterarás", também disse: "Não matarás". Se você não comete adultério, mas comete assassinato, torna-se transgressor da Lei. Falem e ajam como quem vai ser julgado pela lei da liberdade; porque será exercido juízo sem misericórdia sobre quem não foi misericordioso. A misericórdia triunfa sobre o juízo! (Tg 2. 8 - 13 NVI). 
O que se lê aqui?

  1. Que a acepção de pessoas é uma flagrante contradição com a lei, que determina que se ame ao próximo como a si mesmo.  
  2. Que os que praticam a acepção de pessoas, (e diga-se de passagem na sociedade atual poucos são os que não julgam tomando a aparência como critério);  cometem pecado. 
  3. A expressão ελεγχομενοι (elegchoomenoi), na verdade indica convencimento de culpa, ou seja os que fazem acepção de pessoas tornam-se culpados perante a lei. 
  4. O pecado da acepção de pessoas é tão grava quanto o adultério e o homicídio (que são mencionados aqui à título de exemplo, e com vistas ao reforço da mensagem). 
  5. O comportamento cristão precisa refletir a mensagem do Evangelho em sua pureza e inteireza. Se Deus escolheu os pobres deste mundo (II Co 8. 9), não há motivo para discriminação do mesmo em contexto eclesiástico. 
  6. A acepção de pessoas é uma prática que destoa da misericórdia, mais especificamente da prática (ποιησαντι [poieesanti]). 
  7. O termo ποιησαντι tem estrita relação com o mesmo que Tiago emprega para a prática da Palavra de Deus ποιηται (poieetai). 
  8. Praticar a palavra é viver uma vida em que o julgamento se exerce não pela aparência, mas de acordo com a reta justiça (Jo 7. 24), e em que o discernimento se dá orientado pelo Espírito de Deus, visto que cristãos, em tese, possuem a mente de Cristo (I Co 2. 14, 15). 
À título de aplicação prática,o que se pode dizer? O momento atual pode ser avaliado da seguinte forma: tem sido comum que a acepção condenada por Deus, via carta de Tiago seja uma prática cada vez mais constante, por parte da sociedade e da Igreja também (falo sem me referir à denominação alguma especificamente). 

Como ministro chamado à ministrar, percebo que não basta uma roupa normal, limpa. Cada vez mais pregadores se mostram extravagantes, e por quê? Porque a geração atual o é! É como se a roupa, ao invés dos sinais, da vida, do sofrimento, fossem as credenciais atuais, e de fato o são. Encerro orando para que estas palavras não tão agradáveis, que marcam o fim deste post sejam fonte de inspiração para que tais práticas sejam, no mínimo criticadas e repensadas. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Gerados pela Palavra da Verdade



Tiago inicia sua carta saudando os destinatários, irmãos da diáspora, segue falando do valor da provação na constituição do caráter cristão, da sabedoria que procede do alto (aqui), e agora convida o crente de origem humilde a gloriar-se em sua condição espiritual, e ao irmão rico a exultar no reconhecimento de sua condição humana. 

Em seguida Tiago fala do valor de ser aprovado na tentação, e de evitar as tentações que seduzem o crente ao mal, tentações estas cuja origem reside na concupiscência, e que tem como fator positivo o fato de tornar o crente mais compreensivo com a fraqueza alheia e mais amoroso (aqui) e então expõe o fato de que Deus ao invés de tentar o crente induzindo o mesmo ao mal, gera os mesmos de novo pela Palavra da Verdade. 

Somente os que são gerados pela palavra da verdade podem resistir às provações, bem como o apelo da concupiscência e colocar a mesma em prática vivenciando a verdadeira religião. 

A REALIDADE DO RICO E DO POBRE NO EVANGELHO
Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação,

E o rico em seu abatimento; porque ele passará como a flor da erva.
Porque sai o sol com ardor, e a erva seca, e a sua flor cai, e a formosa aparência do seu aspecto perece; assim se murchará também o rico em seus caminhos (Tg 1. 9 - 11 NVI). 
Tiago recomenda que o homem humilde (ταπεινος [tapeinos]), se glorie na sua condição. O termo em apreço e empregado na LXX, para designar pessoas pobres e sem posses. Uma outra palavra, que descreve bem o indigente é o termo πτωχος (ptoochos) era usado para expressar toda forma de carência. Em termos concretos, que não possui poder, influência, bens, posses, não tem do que se orgulhar, exceto em Deus, caso o conheça. 


O verbo é oriundo da palavra καυχαομαι (kaukaomai), cujo sentido é o de demonstrar uma alegria orgulhosa e exultante. Ao estudar a evolução do pensamento de Paulo, é possível observar que no pensamento deste crente algum poderia gloriar-se a respeito de um possível desempenho no cumprimento da lei (Rm 3. 27), mas o crente se gloria na esperança da glória de Deus (Rm 5. 2), nas tribulações (Rm 5. 3), em Deus e em Cristo (I Co 1. 30, 31), nas fraquezas (II Co 12. 9, 10), e na cruz de Cristo (Gl 6. 14). 

No texto em apreço o convite é feito a fim de que, a despeito das posses que o crente possua, ele se glorie em sua exultação. O termo para exultação aqui é υψει (hupsei), e refere-se ao atual estado de exaltação que o crente desfruta em razão de sua relação com Cristo. Em um estudo posterior falarei do processo de identificação de Cristo com a humanidade, bem como da plenitude do mesmo, em razão do esvaziamento de Cristo, ao ponto de o mesmo se identificar não com o que era nobre, mas com o que de mais vil houve neste mudo. 

Nem riqueza, nem pobreza constituem razão para que o crente se glorie diante de Deus, isto é fato, mas Tiago recomenda ao que tendo tudo para se exaltar, que se abata, e ao que tem tudo para andar abatido, que se exalte em decorrência de seu relacionamento com Cristo. Assim, ao pobre cabe lembrar que o fato de estar unido à Cristo, lhe é motivo de glória, ao passo que ao rico, cabe a lembrança de sua condição humana.

A expressão ταπεινωσει (tepeinoosei), que a Almeida corrigida fiel traduz por abatimento, e a Nova Versão Internacional como condição humilde, é empregada na LXX, para traduzir o hebraico שִׁפְלֵ (shepel), que por sua vez é traduzido por baixeza na ACF, e por humilhação na NVI. No contexto da carta de Tiago, o irmão do Senhor recorre à fragilidade da natureza humana a fim de lembrar os ricos que estes precisam estar cada vez mais humilhados na presença do Senhor.

Não se trata da visão simplória de quem se diz pouco instruído, de baixa condição social, morador de comunidade, mas que se gloria de ser usado por Deus. Uma jumenta foi usada por Deus, reis ímpios foram instrumentos de juízo e disciplina para Israel, e um rei ímpio (Ciro) foi o instrumento de libertação do povo. Ser instrumento de Deus não é título de glória para ninguém. O mesmo se pode dizer de ser rico, neste caso, necessário se faz a lembrança de que
Uma voz diz: Clama; e alguém disse: Que hei de clamar? Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo. Seca-se a erva, e cai a flor, soprando nela o Espírito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente (Is 40. 6 - 8 ACF). 
Pedro cita esta mesma palavra articulando com a regeneração
Pois vocês foram regenerados, não de uma semente perecível, mas imperecível, por meio da palavra de Deus, viva e permanente. Pois, "toda a humanidade é como a relva, e toda a sua glória, como a flor da relva; a relva murcha e cai a sua flor, mas a palavra do Senhor permanece para sempre". Essa é a palavra que lhes foi anunciada (I Pe 1. 23 - 25 NVI). 
Articulando a fala de Pedro com a de Tiago, e ao mesmo tempo empregando a de Paulo, reafirmo com o apóstolo dos gentios que: De nada vale ser circuncidado ou não. O que importa é ser uma nova criação (Gl 6. 15 NVI). Parafraseando, de nada vale a condição social do homem, mas sim se ele foi, ou não, gerado pela Palavra de Verdade.

GERADOS PELA PALAVRA DA VERDADE
Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas (Tg 1. 17, 18 ACF). 
O mais curioso, é que quando leio o texto de Isaías, citado por Pedro, percebo um contraste entre a Glória de Deus e a condição humana, visto que o profeta afirma: a glória do Senhor se manifestará, e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do Senhor o disse (Is 40. 5 NVI), para então dizer: Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo, e Na verdade o povo é erva (Is 40. 6, 7 NVI). Ao citar a LXX, Pedro permite uma comparação entre a glória humana e a glória de Deus, veja: toda a humanidade é como a relva, e toda a sua glória, como a flor da relva; a relva murcha e cai a sua flor, mas a palavra do Senhor permanece para sempre (I Pe 1. 24, 25 NVI). 

Mais estarrecedora do que a incrível articulação feita por Pedro, é o fato de que o mesmo encerra sua carta dizendo que Deus em sua graça chamou todo cristão para o usufruto de uma glória eterna, e que ele mesmo confirma, firma, fortalece e estabelece o crente para que tal projeto se concretize (I Pe 5. 10), mesmo participando da glória, esta pertence ao único Deus (I Pe 5. 11). 

Retornando ao texto de Tiago, este introduz o tema da geração pela Palavra da verdade, imediatamente após dissertar a respeito da tentação a que todos os seres humanos estão sujeitos em decorrência de sua concupiscência. Se Paulo diz: eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem (Rm 7. 18 ACF), e: inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser  (Rm 8. 7 ACF);  Tiago afirma: cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte (Tg 1. 14, 15 ACF). 

Conforme visto em estudo anterior, ainda que não tente ao homem, no sentido de induzir o mesmo ao mal, Deus, controla as tentações (I Co 10. 13). Se de um lado o homem possui uma natureza que o predispõe ao mal, por outro lhe concede ser gerado de novo pela palavra da verdade. Esta regeneração é:

  1. Um dom perfeito, uma excelente dádiva, um presente, e tal como a experiência do nascimento vem completa. 
  2. Não decorre dos esforço humano, mas vem do Pai da luzes. 
  3. Decorre da vontade de Deus, jamais da vontade humana (Jo 1. 12, 13). 
  4. A palavra é o instrumento por meio do qual o crente é gerado de novo (I Pe 1. 22, 23). 
  5. O propósito deste ato, é que o crente seja uma nova criatura e com isto antecipe a restauração do Reino divino no restante da natureza. 
  6. É por meio da nova geração que o crente se habilita a colocar em prática a palavra de Deus. 


Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A multiforme sabedoria de Deus


Deus é sábio. Jó o descreve nas seguintes palavras: Ele é sábio de coração, e forte em poder; quem se endureceu contra ele, e teve paz? (Jó 9. 4 ACF). Ana em seu cântico repreende os altivos nas seguintes palavras: não multipliqueis palavras de altivez, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o Senhor é o Deus de conhecimento, e por ele são as obras pesadas na balança (I Sm 2. 3 ACF).

Ele mesmo ordena as coisas de uma forma tal que ninguém possa ensinar nada a Ele. Não sem razão que Jó indaga aos seus amigos: Porventura a Deus se ensinaria ciência, a ele que julga os excelsos? (Jó 21. 22 ACF). E Isaías questione: Quem guiou o Espírito do Senhor, ou como seu conselheiro o ensinou? Com quem tomou ele conselho, que lhe desse entendimento, e lhe ensinasse o caminho do juízo, e lhe ensinasse conhecimento, e lhe mostrasse o caminho do entendimento? (IS 40. 13, 14 ACF).

Neste estudo pretendo demonstrar como a sabedoria de Deus se manifesta na distribuição de dons espirituais. Pedro afirma: Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus (I Pe 4. 10 ACF). A sabedoria de Deus é evidenciada na multiplicidade de dons que ele dá á sua Igreja, no propósito dos mesmos (o serviço), e no aperfeiçoamento que este serviço produz.

I) A MULTIFORME SABEDORIA DE DEUS

Deus demonstra sua sabedoria multiforme na variedade de dons. Paulo afirma que há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo (I Co 12. 4 ACF). A diversidade de dons se justifica a partir da metáfora do corpo. Veja:
Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação,  Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé (Rm 12. 4 – 6 ACF).

As lições do texto são:

  1. Um corpo precisa ter diferentes membros a fim de realizar as mais variadas funções. De igual modo a Igreja, se nesta não se manifestam os mais variados dons, ela se torna uniforma, no lugar de multiforme.
  2. O corpo é disposto de tal forma a que toda autossuficiência seja suplantada pela mútua dependência. Logo, não há quem possa olhar para si mesmo e se julgar mais importante do que ninguém, uma que todos dependem uns dos outros.
  3. A graça se manifesta por meio da distribuição dos mais variados dons no corpo de Cristo. Já abordei neste espaço como isto se dá (aqui). 



 do que foi dito destaco: 
E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós. Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários; E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra. Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela;
Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros (I Co 12. 21 - 25 ACF). 
  1. O dom espiritual aponta para a mutua necessidade que os crentes possuem uns dos, e em relação aos outros.
  2. Mesmo os crentes mais insignificantes podem e devem de serem honrados.
  3. Deus distribui os dons de uma forma tal que aqueles que aos olhos da comunidade são os menos honrados, e mais, carecem da mesma, sejam mais honrados.
  4. O dom estabelece a lógica da graça, a saber: nada é por mérito, mas pode favor divino.
  5. O dom manifesta o cuidado mútuo dos crentes.
Esta é a multiforme sabedoria de Deus revelado no seu corpo que é a igreja. 

II) O CRENTE COMO DISPENSEIRO DA GRAÇA DE DEUS

Me agrada e muito a tradução que Nova Versão Internacional faz do texto de I Pe 4. 10. A primeira parte do texto diz: Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros. Tal fragmento de texto por si só já nos diz que os dons de Deus são colocados á disposição do povo de Deus visando o serviço, que neste texto equivale á diakonia (διακονιαν). 

Na Carta aos Efésios, Paulo declara haver recebido por meio da graça de Deus a capacitação para ser ministro do Evangelho. Deste me tornei ministro pelo dom da graça de Deus, a mim concedida pela operação de seu poder (Ef 3. 7 ACF). O termo ministro aqui é a tradução de διακονος (diakonos), de onde vem a palavra diácono, que nada mais é do que um serviçal. 

A condição para o ministério (διακονιαν) é o dom da graça de Deus (δωρεαν της χαριτος [dorean tee charistos]). Sem a graça de Deus nem servos podemos ser, esta é a verdade. Esta graça, por sua vez evidencia o poder de Deus em nossas vidas. A expressão operação de seu poder, visa traduzir a expressão ενεργειαν της δυναμεως αυτου (energeian tees dynameoos auton), sendo que ενεργειαν tanto pode ser eficácia quanto operosidade, indicando com isto que o poder de Deus é dinâmico, eficaz. A graça manifesta a eficácia do poder divino. 

Como exercer este ministério de forma dinâmica, eficaz? Simples: como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.Outro termo de suma importância é οικονομους (oykonomoys), donde provavelmente venha a palavra ecônomo, uma vez que economia, certamente de venha de οικονομιαν (oikonimian). O οικονομους é um dispenseiro, o termo é empregado em (I Co 4. 1, 2; Tt 1. 7; I Pe 4. 10). Deus deu dons à sua Igreja a fim de que cada crente o exerça colocando o mesmo a serviço uns dos outros. Esta é a condição para que os mesmos sejam bons dispenseiros. 

A fim de que cada crente se porte como bom οικονομους é vital que os demais ministros que Cristo constituiu se portem como agentes na preparação dos demais crentes para a obra do ministério, conforme afirmado neste espaço (aqui). 

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O ministério de Presbítero, Bispo e Ancião



A Igreja do Senhor começou com a liderança dos doze apóstolos nomeados diretamente por Cristo (At 1. 14 - 22). Mas em pouco tempo sentiu a necessidade de eleger ministros encarregados da distribuição diária dos bens que eram depositados aos pés dos apóstolos com vistas à repartição e o bem comum.
Avançado na leitura dos Atos dos Apóstolos, é possível a percepção de que tempos após a eleição dos diáconos, foi igualmente necessária a eleição dos presbíteros. E, havendo-lhes, por comum consentimento, eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido (At 14. 23 ACF).
Ao contrário de algumas hipóteses teológicas modernas, o relato de Lucas demonstra que bem cedo ocorreu a eleição de presbíteros na Igreja primitiva. No contexto supra, a eleição dos mesmos se dá em clima de forte perseguição dos judeus contra a fé cristã, e em meio ao trabalho de exortação apostólica à perseverança na fé, daí a necessidade estudo a respeito do ministério do presbítero.

I) O QUE É UM PRESBÍTERO

O termo grego πρεσβυτερους (presbyteroys) é usualmente empregado para indicar:
  1. Os membros do sinédrio judeu. Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos (πρεσβυτερων), e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia (Mt 16. 21 ACF). Ver também (At 4.5, 8, 23).
  2. Os anciãos de uma determinada cidade. E, quando ouviu falar de Jesus, enviou-lhe uns anciãos [πρεσβυτερους] dos judeus, rogando-lhe que viesse curar o seu servo (Lc 7. 3 ACF).
  3. Os vinte e quatro anciãos de Apocalipse.
  4. Os anciãos nomeados pelas Igrejas com vistas ao governo da mesma e à administração da Palavra de Deus (I Tm 5. 17, 18). O que eles com efeito fizeram, enviando-o aos anciãos [πρεσβυτερους] por mão de Barnabé e de Saulo (At 11. 30 ACF).
No primeiro caso, o presbítero é um membro do sinédrio que tinha, dentre outras funções, o poder de deliberação a respeito a respeito de determinados assuntos. Jesus foi julgado por um presbitério, de natureza política e religiosa, como no caso de Israel.
O segundo caso provavelmente trate de um ancião que fazia parte do conselho deliberativo de uma aldeia judia, e que foi nomeado pelo centurião romano a fim de interceder a Cristo, pela cura do servo da autoridade. No último caso membros da Igreja que são dotados de experiência, e como tais ajudam nas deliberações eclesiásticas.
Mas o sentido geral do termo é o de ancião, que independente da esfera em que atua é chamado para dar a sua contribuição para o meio, seja religioso, secular, politico. A visão que as sociedades de cultura oral tinham em relação ao ancião, era outra, para não dizer que antagônica em relação à atual. Naqueles tempo o velho era visto não como obsoleto, mas como um tesouro de conhecimento e de sabedoria. Em ambiente cristão é recomendado que se dê ao ancião um tratamento respeitoso. NÃO repreendas asperamente o ancião, mas admoesta-o como a pai; aos moços como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães, às moças, como a irmãs, em toda a pureza (I Tm 5. 1, 2 ACF). O termo ancião aqui é πρεσβυτερω (presbyteroo) e não creio que neste caso Paulo esteja falando de obreiros. As mulheres idosas são referidas no texto original como πρεσβυτερας (presbyteras).
Pedro, de igual modo recomendou tratamento respeitoso aos anciãos, embora não creia que neste caso sejam presbíteros. Para todos os efeitos, o apostolo pede: Semelhantemente vós jovens, sede sujeitos aos anciãos (I Pe 5. 5 ACF). Neste caso a sujeição é um exercício de humildade, que também tem de ser exercida pelos mais velhos, pois Deus resiste ao soberbo.
É mais do certo que as coisas evoluem, mas o pior tipo de arrogância é aquela que toma o sujeito de uma forma tal que o impede de ouvir a opinião de terceiros, de modo que ele veja exclusivamente a si mesmo como certo. Jovens dotados de informação são os mais tentados a este tipo de situação, principalmente os que são nativos digitais. Mas o conselho da Palavra é humildade, e só.

II) E O BISPO?

Bispo é um termo caro em nosso país, e isto, se dá pelo fato inconteste de que a nossa cultura é moldada pela matriz cultural católica. Daí a compreensão dicionarizada de que o bispo seja um prelado que tem a seu cargo a direção de uma diocese. Mas no sentido bíblico o termo επισκοπον (episkppon) denota alguém que exerce a função de supervisão, embora haja acordo em afirmar que επισκοπονπρεσβυτερους sejam sinônimos. O texto que narra a espedida de Paulo de Éfeso é claro a este respeito. 
Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue (At 20. 28 ACF). Este texto expõe com clareza a ideia que Paulo tinha dos Bispos. Estes são pastores que o Espírito Santo constituiu sobre o rebanho com a finalidade de apascentar o mesmo. Este vigiar inclui a supervisão sobre o rebanho, a fim de que o mesmo não venha a ser enredado por falsos mestres. 
Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós (At 20. 29 - 31 ACF). 
Uma leitura atenta da carta de Paulo à Timóteo, revela que a principal preocupação de Paulo é com o falso ensino, cujas raízes podem ser encontradas na especulação humana, no desvio da fé, na cauterização da mente de alguns, na perda da pureza cristã (II Tm 1. 4 - 6), na ação dos demônios (I Tm 4. 1 - 5), na vaidade e na arrogância (nem sempre intelectuais), e na falsa percepção de que a piedade possa ser fonte de lucro (I Tm 6. 3 - 10). 
O papel do bispo não consiste em ser um artista, alguém que está ali para ser ovacionado pela multidão, mas sim em ser um guardião contra os lobos que possam vir a devorar o rebanho. E neste mister, não são poucos os que além de falharem em sua missão ainda expõem o rebanho a ação dos falsos mestres ao permitirem que estes tenham acesso aos púlpitos (aqui, e aqui). Resultado, nossos púlpitos, estão se transformando em picadeiros. 
Bispo é um pastor que recebeu do Espírito Santo a incumbência de zelar pelo rebanho de Deus. Temo que a influência católica tenha feito grande estrago no que tange a simples compreensão bíblica do encargo de bispo. O reverendo Augustus Nicodemus Lopes escreveu um artigo intitulado a alma católica dos evangélicos no Brasil, em que ele fala da distorção brasileira em torno de cargos. 
Na Igreja Católica, o sistema papal impõe a autoridade de um único homem sobre todo o povo. A distinção entre clérigos (padres, bispos, cardeais e o papa) e leigos (o povo comum) coloca os sacerdotes católicos em um nível acima das pessoas normais, como se fossem revestidos de uma autoridade, um carisma, uma espiritualidade inacessível, que provoca a admiração e o espanto da gente comum, infundindo respeito e veneração. Há um gosto na alma brasileira por bispos, catedrais, pompas, rituais. Só assim consigo entender a aceitação generalizada por parte dos próprios evangélicos de bispos e apóstolos auto-nomeados, mesmo após Lutero ter rasgado a bula papal que o excomungava e queimá-la na fogueira. A doutrina reformada do sacerdócio universal dos crentes e a abolição da distinção entre clérigos e leigos ainda não permearam a cosmovisão dos evangélicos no Brasil, com poucas exceções (aqui).
Se houver séria intenção de resgatar o conceito reformado de sacerdócio universal dos crentes creio que necessário se faz atentar paras as observações supra.  Em Cristo. 

Pr Marcelo Medeiros. 

sábado, 26 de abril de 2014

Dons de poder


Os dons são dadivas por meio das quais Deus manifesta a sua graça na Igreja, é importante que este conceito seja mantido, a fim de que distorções sejam evitadas. No Evangelho não há espaços para a logica do mérito (aqui), logo, mesmo os dons de poder são meios pelos quais Deus evidencia seu poder com vistas à glorificação do seu nome, somente.
Uma importante questão levantada pelo autor da lição na introdução da mesma, pode ser colocada nestes termos: se na igreja do primeiro século foram verificados tantos sinais, por quais motivos nos tempos atuais tais sinais não são vistos com a mesma abundancia com que se podiam ver nos primeiros tempos?
uma resposta significativa para este questionamento é que vem da teologia de fundo cessacionista, a saber, que os milagres são característicos da era apostólica, e passado o tempo dos apóstolos, eles cessaram. O problema deste tipo de pensamento é que ele se baseia em algo que a Bíblia não fala, seja de forma implícita, seja de forma explícita.
Em outras palavras, em texto algum da Bíblia se lê qualquer afirmação a respeito do desaparecimento dos dons espirituais após o encerramento da era apostólica. Mas nos dias atuais é possível a constatação de que estes sinais estão se tornando cada vez mais escassos. Por quais motivos? Esta é uma pergunta que precisa ser respondida.

I) OS MILAGRES NO QUADRO GERAL DA BÍBLIA SAGRADA

O consenso do ponto de vista teológico é o de que milagres são meios de evidenciar a verdade em um período da revelação. Por exemplo, ao enviar Moisés ao Egito com vistas a libertar o povo, Deus concedeu sinais a Moisés a fim de que o mesmo se tornasse digno de crédito aos olhos do povo (Ex 4. 8, 9 [aqui e aqui]). Sendo que neste ultimo link ainda se pode observar que um dos propósitos divinos com os milagres é a divulgação da nome do Senhor. Isto se comprova por meio de duas ocasiões em que Deus mesmo afirma que está endurecendo o coração do Faraó a fim de que seu nome seja glorificado na terra.
Porque eu já poderia ter estendido a mão, ferindo você e o seu povo com uma praga que teria eliminado você da terra. Mas eu o mantive de pé exatamente com este propósito: mostrar-lhe o meu poder e fazer que o meu nome seja proclamado em toda a terra (Ex 9. 15, 16 NVI). 
e,
Diga aos israelitas que mudem o rumo e acampem perto de Pi-Hairote, entre Migdol e o mar. Acampem à beira-mar, defronte de Baal-Zefom. O faraó pensará que os israelitas estão vagando confusos, cercados pelo deserto. Então endurecerei o coração do faraó, e ele os perseguirá. Todavia, eu serei glorificado por meio do faraó e de todo o seu exército; e os egípcios saberão que eu sou o Senhor (Ex 14. 2 - 4 NVI).  
Ainda que de inicio os sinais sejam uma forma para que se confirme que a chamada de Moisés realmente procede Deus, na verdade, eles são uma demonstração de que na verdade, os sinais são o cartão de apresentação de Deus. Isto fica claro no transcorrer da revelação divina, uma vez que os salmistas não titubeiam em afirmar que Deus realizou em pleno Egito sinais e maravilhas, contra o faraó e todos os seus conselheiros (Sl 135. 9 NVI), e que Ele mostrou os seus prodígios no Egito, as suas maravilhas na região de Zoã (Sl 78. 43 NVI).
Dentro do quadro do Evangelho é possível a percepção de algumas verdades a respeito dos milagres. Para tal, partirei de um texto controverso, que é o de Marcos, digo controverso, por não constar na maior parte dos manuscritos, mas que creio ser verídico.
E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porãoas mãos sobre os enfermos, e os curarão. Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus. E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém (Mc 16. 15 - 20 ACF). 
Neste texto é possível observar:
  1. Uma ênfase na pregação, uma vez que a ordem de Cristo é que se pregue o Evangelho a toda a criatura.  
  2. Uma preocupação, por parte de Cristo com a salvação, com o destino final das criaturas as quais o Evangelho é ofertado.
  3. A promessa de sinais seguindo os que creem no Evangelho. Estes mesmos sinais são os sinais da presença do Reino de Deus entre os ouvintes (Mt 11. 5ss).
  4. Após ordenar a pregação do Evangelho, Jesus é recebido á direita de Deus, indicando com isto sua posição de autoridade (Sl 110. 1, 2; At 1. 10, 11; 7. 58).
  5. Os discípulos cumprem imediatamente a palavra de Cristo e saem pregando o Evangelho.
  6. Em resposta à obediência dos discípulos, o senhor coopera com os mesmos. Aqui aparece um termo similar ao verbete συνεργον (synergon), palavra que dá origem ao vocábulo sinergia, que se pode entender como sendo o concurso de diversos órgãos na realização de uma função  indica alguém que ajuda outro em suas funções.
  7. No texto aparecem, respectivamente as palavras σημεια (semeia) e σημειων (semeion), palavras que são empregadas na Bíblia como equivalente do hebraico הָאֹ֣ת (hoth) e suas variantes o significado do mesmo é marco, um símbolo, e que na teologia bíblica são milagres que visam comprovar a mensagem de Deus para o seu povo.
  8. Ao longo do Novo Testamento os termos  σημεια (semeia) e σημειων (semeion), são associados a outro termo, τερασ (teras), cujo sentido é o de uma obra prodigiosa, e que tem no hebraico מֹופְתַ֖ (môpheth) seu correspondente.
A conclusão imediata é de que os sinais são o meio pelo qual Deus coopera com os seus mensageiros na tarefa da pregação do Evangelho, confirmando com isto a mensagem que os mesmos estão proferindo. Ao longo do Novo Testamento é possível sim ver a vindicação de sinais e prodígios como marcas de um ministério apostólico autentico. É o que Paulo, por exemplo, faz ao afirmar: Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas (II Co 12. 12 ACF).
Mas é um erro o entendimento de que os sinais são restritos à presença apostólica, uma vez que escrevendo aos irmãos da Galácia, Paulo pergunta: Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, o faz pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? (Gl 3. 5 ACF). Tanto a presença do Espírito quanto a realização de maravilhas é creditada ao Senhor, ao invés de ser aos apóstolos.
Deste breve estudo, e dos demais indicados supra, a conclusão que emerge é a de que os milagres visam:
  1. Exaltar a Deus acima dos demais deuses das nações, e não é sem razão que coloco aqui esta como a primordial das razoes, uma vez que esta é a principal e possui ampla fundamentação bíblica.
  2. Confirmar uma determinada revelação.
  3. Despertar a fé das pessoas às quais determinadas revelações são conferidas, embora isto nem sempre funcione.
  4. No novo testamento, os milagres e sinais visam conferir crédito á mensagem pregada. Assim, onde estiver a palavra, em tese, os milagres estarão também.
Mas convém observar que nem sempre os milagres se manifestam como forma de credibilizar a verdade. Isaías foi autorizado a dar um sinal para Ezequias como forma de confirmar a mensagem profética a respeito de sua cura (Is 37. 7, 8), algo que não se vê na maioria absoluta dos profetas. E o próprio Cristo decidiu, livremente, não fazer sinais em determinados momentos.
 
II) O CONCEITO DE PODER
Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus (I Co 1. 18 ACF).
Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus (I Co 1. 24 ACF).
E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus (I Co 2. 4, 5 ACF). 
Para Paulo a própria pregação e o próprio Evangelho, por si sós, são o poder de Deus em ação em prol da salvação do homem. Em todos estes textos o termo que mais aparece é o grego δυναμει (dinamei) e variantes. O termo indica, entre outros, feitos poderosos, milagres (Mt 7. 22; 11. 20, 21, 23; 13. 54, 58; 14. 2; At 2. 22; I Co 12. 10).
Os sinais e maravilhas do Espírito de Deus acompanham a pregação do Evangelho, embora seja respeitada a livre e soberana ação de Deus. O que se quer dizer com isto? Sendo um proposito divino operar um milagre, não há teologia que possa engessar tal disposição divina. Ainda que se alegue a ausência de sinais em Corinto, por exemplo, a própria pregação do Evangelho, em meio às mais cruéis adversidades é, por si só, um dos maiores milagres. É exclusivamente a partir desta ótica que entendo o pensamento de pascal, para quem a sobrevivência da fé era um milagre. É sob estes aspectos que tecerei breves considerações sobre os dons de poder.
 
III) DONS DE PODER
 
São dons de poder: fé, operação de maravilhas, e dons de curas. Não se tratam de privilégios concedidos a alguns, mas de dadivas da graça de Deus, que manifestam o agir do mesmo em meio á pregação do Evangelho, visando a glória do próprio Deus. É o caso, por exemplo da fé que Paulo visualizou em um jovem e por meio da mesma afirmou o poder de Cristo, para lhe dar a saúde (At 14. 9). Cristo tributou esta fé tanto ao centurião romano que teve o seu servo curado (Mt 8. 10, 13), e na mulher siro fenícia que buscava a cura de sua filha (Mt 15. 28). Esta mesma fé esteve presente na vida de Abraão 
(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência.
E não enfraquecendo na fé, nào atentou para o seu próprio corpo já amortecido, pois era já de quase cem anos, nem tampouco para o amortecimento do ventre de Sara.
E não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus, E estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer
(Rm 4. 17 - 21 ACF). 
Como esta fé não pode ser encontrada na natureza humana, a definição mais própria do que venha a ser o dom da fé, é a habilidade de crer em Deus, ou em suas promessas, sem nenhuma dúvida humana, descrença e raciocínio. Esta fé, se manifestou nos dias apostólicos na pessoa de Estevão, que a Bíblia define como homem cheio de fé e do Espírito Santo. O termo para cheio de fé é πληρη πιστεως (plere pisteos), cujo sentido é o mesmo de pleno (no sentido de plenitude), de fé e do Espírito Santo.
Os dons de curas, χαρισματα ιαματων (charismata iamatoon), indicam, na verdade a capacidade de curas especificas por parte de determinadas pessoas no tocante a enfermidades específicas. Este dom se manifestou em Pedro, que em duas ocasiões diferentes ministrou curas sobre a vida de pessoas que possuíam enfermidades que comprometiam a capacidade física de andar (At 3. 11, 16; 9. 33, 34), e isto ocorre de uma forma tal que o povo que vivenciou tais experiências passou a fazer uma prática, ao meu ver espúria, a de colocar enfermos para que ao passar a sombra de Pedro, os mesmos fossem curados (At 5. 15, 16).
De igual modo, maravilhas são vistas nos ministério de Paulo, e isto ao ponto do mesmo afirmar: Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras; Pelo poder dos sinais e prodígios, e pela virtude do Espírito de Deus; de maneira que desde Jerusalém, e arredores, até ao Ilírico, tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo (Rm 15. 18, 19 ACF).
Um breve exemplo da presença do dom de operação de maravilhas (ενεργηματα δυναμεων [energmata dinameon]) na vida do apostolo em questão pode ser visto nos sinais que ele, pelo poder de Deus, operou na Ilha Malta, por ocasião de um naufrágio, quando o mesmo chegou a ser mordido por uma víbora (At 28. 5, 6). Contudo, no entendimento do apostolo em questão, as maravilhas não se esgotam aí, mas compreendem a obediência, por parte dos ouvintes, na pregação do Evangelho. É neste contexto que as maravilhas e os prodígios são considerados. 
Encerro afirmando que creio nos dons como uma realidade presente e atual, a despeito do caráter soberano com que os mesmos se manifestam, afinal, um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer (I Co 12. 11 ACF), mas cabe a cada um de nós buscar sim, tais dons, a fim de que em nossa era, a graça de Deus se manifeste de forma visível e Cristo seja glorificado por meio do seu corpo, que é a igreja.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Os dez mandamentos do Senhor


Após sucessivas experiências do povo com Deus, o Senhor estabelece uma aliança, um pacto, um acordo com o povo de Israel. Lemos no texto bíblico que Em Mara o Senhor lhes deu leis e ordenanças, e os colocou à prova, dizendo-lhes: Se vocês derem atenção ao Senhor, ao seu Deus e fizerem o que ele aprova, se derem ouvidos aos seus mandamentos e obedecerem a todos os seus decretos, não trarei sobre vocês nenhuma das doenças que eu trouxe sobre os egípcios, pois eu sou o Senhor que os cura (Ex 15. 25, 26 NVI). Se avançarmos na leitura do texto de Êxodo na íntegra, veremos a ocorrência de mandamentos e mais mandamentos que Deus vai entregando ao povo a fim de que o mesmo sob orientação de sua palavra desfrute o bem do Senhor. Neste estudo pretendo fazer uma breve exegese do texto em que se baseia a lição da Escola Bíblica Dominical, visando uma maior compreensão do que sejam mandamentos no sentido judaico do termo, bem como o contexto em que os mesmos foram entregues. Pretendo ainda explorar o sentido de cada mandamento e as implicações do mesmo no relacionamento do crente com a lei.
 
I) O fundamento hermenêutico e exegético
 
No texto bíblico supra observamos a ocorrência de três termos: 1) חֹ֥ק (Hoq), que pode ser ordenança, limite, decreto, estatuto; 2) מִשְׁפָּ֖ט (mispath), o sentido aqui pode ser o de ordenança, mas também o de julgamento; 3) מִצְוֹתָ֔יו (mitsvat, ou mitsvain), usualmente empregado para mandamentos. O termo pode significar uma orientação , tal como as que Deus deu a Abraão. É neste sentido que se afirma: Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado [מִצְוֹתַ֖י], os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis (Gn 26. 5 ARCF). O mesmo se aplica em relação à recusa do povo em atender as orientações do Senhor quando á coleta do maná, e a reserva do mesmo para o dia de sábado (Ex 16. 28).
De fundamental importância para o nosso estudo é a compreensão de que os mandamentos não são dados visando serem um fardo para o povo de Israel. O Senhor mesmo o diz: Quem dera que eles tivessem tal coração que me temessem, e guardassem todos os meus mandamentos todos os dias, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos para sempre (Dt 5. 29 ARCF). Aqui fica implícito que a razão de ser do mandamento: o bem do povo como da posteridade do mesmo, mas o argumento não se esgota aqui. Não bastasse o bem do povo Deus ainda diz:
Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem tampouco está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, para que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires.
Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, e a morte e o mal; Porquanto te ordeno hoje que ames ao Senhor teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o Senhor teu Deus te abençoe na terra a qual entras a possuir
(Dt 30. 11 - 16 ARCF). 
O texto em apreço nos coloca diante do fato de que não existe nos mandamentos divinos uma única ordenança que se constitua como um jugo para o homem. Por meio do preceito Deus coloca a sua vontade de forma acessível ao povo. O texto nos coloca diante de um dilema, uma vez que por meio de uma leitura parcial temos aprendido a crer, de forma errônea que a lei se constituía um fardo pesado para o povo, quando este texto nos coloca diante de uma outra realidade, a de que o mandamento nem é difícil, e nem pesado.
Este pensamento não é compatível, por exemplo, com as declarações de Davi, que afirma: Eu me apressarei e não hesitarei em obedecer aos teus mandamentos (Sl 119. 60 NVI).  Eu amo os teus mandamentos mais do que o ouro, mais do que o ouro puro (Sl 119. 127 NVI), e: Dirige-me pelo caminho dos teus mandamentos, pois nele encontro satisfação (Sl 119. 35 NVI). Estas declarações não são compatíveis com o judaísmo rabínico posterior, que desenvolveu o conceito de justiça do direito. Não Davi sabe que é pobre e necessitado (Sl 40. 17; 86. 1). A palavra pobre do hebraico עָנִ֖י (ani), assim como o grego πτωχοι (ptochós), indica o homem totalmente confiante em Deus, logo, dependente do favor divino, que sabe que precisa contar com a graça do mesmo.
Se há algo que tem me tomado inteiramente em teologia é a compreensão de que a lei de Deus somente pode ser obedecida por corações voltados para Deus, e que o amam inteiramente. Não foi sem razão que antes de pedir ao povo que guardasse seus mandamentos, o Senhor lhes ordenou que o amassem de todo o coração (Dt 6. 5), indicando com isto que tudo o que precisavam para obedecer aos mandamentos e leis era um coração circuncidado.
Davi percebe isto como ninguém, e com os olhos em sua total pobreza ele clama a Deus: Ensina-me o teu caminho, Senhor, para que eu ande na tua verdade; dá-me um coração inteiramente fiel, para que eu tema o teu nome (Sl 88. 11 NVI). Ele sabe que para andar na verdade de Deus, ele precisa ser ensinado pelo próprio. Mais do que isto, seu coração precisa ser renovado para que possa amar a Deus e temer o seu nome. Isto é consciência da dependência de Deus, que é o fundamento da doutrina da graça ainda no Antigo Testamento.
O problema no qual a lei vai se esbarrar é o coração humano, que se mostra mau e predisposto a não fazer aquilo que Deus de fato quer. Paulo vai expressar esta verdade nos seguintes termos:
Quem vive segundo a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja; [...] a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à lei de Deus, nem pode fazê-lo (Rm 8. 5 - 7 NVI). 
Esta é a verdadeira razão da impotência humana no que tange à guarda da lei, visto que não exista ser humana que não possa afirmar como Paulo: nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo (Rm 7. 18, 19 NVI). Mas na medida em que o homem recebe um novo coração e com este o Espírito de Deus em sua vida ele é capacitado por Deus para a obediência dos mandamentos (Ez 36. 26 - 31).
Aqui há de se compreender que a obediência da lei se estende ao cristão pelo fato de a mesma ser eterna e de Jesus ter afirmado que não veio para revogar a mesma, mas para a levar à plenitude. Com isto, o mesmo Cristo afirmou que nem um til, ou iota (י), as menores letras do alfabeto hebraico perderiam a sua validade. Mas ele também deixou claro que o cumprimento da lei se estende para além da relação legalista dos escribas e fariseus. O cumprimento da lei, por parte do crente demanda a superação de todo justiça aparente, sendo possível somente para homens que sabem que dependem da graça do Senhor, para que este os conceda um coração puro e disposto a obedecer em tudo (Mt 5. 3, 9, 17 - 20). Contudo, esta obediência não se trata de desempenho no cumprimento da mesmo visando a nossa salvação. A lei não salva ninguém.
Uma última leitura exegética da lei, de extrema importância para a nossa compreensão a respeito do relacionamento entre o crente e lei, é o contexto aliancista. Com isto queremos dizer que a despeito do caráter eterno da lei, ela foi dada em meio a uma aliança que Deus estabeleceu com Israel. Ouçam, ó Israel, os decretos e as ordenanças que hoje lhes estou anunciando. Aprendam-nos e tenham o cuidado de cumpri-los. O Senhor, o nosso Deus, fez conosco uma aliança em Horebe (Dt 5. 1, 2 NVI). Estritamente sob este aspecto o crente está desobrigado da lei, no sentido de que esta não mais é a base da aliança que Deus fez conosco em Cristo (Jr 31. 31 - 35).
 
II) Os dez mandamentos
 
A lei não se resume aos dez mandamentos. Sabe-se que estes são, na verdade, um resumo da lei, que na verdade é um código de seiscentos e dezoito leis, estatutos e ordenanças. Assim o decálogo é de caráter didático, visando a memorização, por parte do povo, dos princípios básicos que norteiam a conduta do povo eleito. Assim, temos princípios de conduta do homem para com Deus, e para com o seu próximo. Não foi sem razão que a tradição rabínica resumiu os dez mandamentos em dois (e neste aspecto, Cristo consentiu com eles), a saber:
Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: Ame o seu próximo como a si mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22. 37 - 40 NVI).
Note que Cristo diz que estes são os maiores mandamentos, e depois afirma que toda lei e os profetas dependem destes mandamentos. Paulo vai além explicando que: estes mandamentos: "Não adulterarás", "não matarás", "não furtarás", "não cobiçarás", e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: "Ame o seu próximo como a si mesmo". O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei (Rm 13. 9, 10 NVI). No tocante a este texto, gosto da tradução da Bíblia de Jerusalém que diz: aquele que ama cumpriu plenamente a lei, visto que traduz melhor a expressão grega πληρωμα ουν νομου (pleroma oin nomon). Assim, vamos aos dez mandamentos.
Convém considerar que antes de ordenar o que o povo poderia, ou não fazer, Deus arroga para si o direito exclusivo sobre Israel. Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te tirou do Egito, da terra da escravidão (Ex 20. 2 NVI). Como redentor do povo, ele tem direitos exclusivos sobre o mesmo, assim a adoração ao Senhor tem de ser restrita. Daí a ordem: Não terás outros deuses além de mim (Ex 20. 13 NVI). O segundo mandamento não é uma restrição á fabricação de imagem. Este é um ponto que os católicos percebem e exploram muito bem. O próprio Deus restringiu imagens dele, mas autorizou que se confeccionasse imagens de querubins. Indicando com isto que a essência do mandamento é que não se adore a nenhuma imagem, conforme entendemos da segunda edição da lei em que lemos:
No dia em que o Senhor lhes falou do meio do fogo em Horebe, vocês não viram forma alguma. Portanto, tenham muito cuidado, para que não se corrompam e não façam para si um ídolo, uma imagem de qualquer forma semelhante a homem ou mulher, ou a qualquer animal da terra ou a qualquer ave que voa no céu, ou a qualquer criatura que se move rente ao chão ou a qualquer peixe que vive nas águas debaixo da terra. E para que, ao erguerem os olhos ao céu e virem o sol, a lua e as estrelas, todos os corpos celestes, vocês não se desviem e se prostrem diante deles, e prestem culto àquilo que o Senhor, o seu Deus, distribuiu a todos os povos debaixo do céu (Dt 4. 15 - 19 NVI). 
Esta é base do segundo mandamento. Os evangélicos podem admirar uma escultura, e a arte em geral, podem ter consigo uma foto de uma pessoa querida, mas jamais poderão se prostrar diante de quaisquer destas formas de representação sem que com isto se comprometa a identidade evangélica e a integridade espiritual, visto que um mandamento está sendo violado. O terceiro envolve a questão da profanação com o nome de Deus na medida em que se vale do nome do mesmo em juramentos, com vistas a dar credibilidade à nossa palavra.  Não tomarás em vão o nome do Senhor teu Deus, pois o Senhor não deixará impune quem tomar o seu nome em vão (Ex 20. 7 NVI).
O quarto mandamento é na verdade um memorial, afinal no lugar do famoso  não (heb. לֹֽא [lo]), vemos o verbo זָכֹ֛ור֩ (zakar), que aqui constitui-se como apelo à lembrança. A ideia de um dia separado para descanso, vai além da ausência de atividade laborativa, engloba a total confiança em Deus e o espaço para reflexão de que na verdade todas as coisas procedem dele. Ele é o criador e o mantenedor da vida.
A honra de pai e de mãe, do hebraico כַּבֵּ֥ד (kebed), vai bem além da obediência reverente, bem como do pudor, e da distinção para com os mesmos. Honrar aqui é manter, sustentar os mesmos em sua velhice, afinal naqueles idos tempos não havia previdência social. Assim, na velhice quando não mais podiam arar a terra, poderiam e deveriam ser amparados por seus filhos.
Os demais mandamentos implicam na honra que temos para com o próximo e tem no amor a motivação para a guarda dos mesmos. A lei passou por sucessivos resumos ao longo da progressão da revelação no Antigo e no Novo Testamento. No deuteronômio, guardar a lei é sinônimo de amar a Deus sobre todas as coisas (Dt 6. 5 - 12). Nos salmos a guarda da lei pode se sintetizada desta forma:
Quem poderá subir o monte do Senhor? Quem poderá entrar no seu Santo Lugar? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, que não recorre aos ídolos nem jura por deuses falsos. Ele receberá bênçãos do Senhor, e Deus, o seu Salvador lhe fará justiça (Sl 24. 3 - 5 NVI).  
ser limpo de mãos, puro de coração, não se entregar á vaidade, isto é guardar a lei, na íntegra. Mas este texto trabalha a justiça a partir da ótica de relacionamento entre o homem e Deus. Miquéias, profeta que exerceu sua atividade no Reino norte, já traz a justiça de uma perspectiva que considera Deus e os homens. Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus (Mq 6. 8 NVI). Em ambos os casos a demanda fica por conta de um coração puro.
 
CONCLUSÃO
 
Paulo desenvolveu um pensamento de que a justiça de Deus prenunciada pela lei e pelos profetas foi cumprida em Cristo nos corações dos que ao recebem. Embora nossa justiça não seja oriunda da lei, a mesma ainda permanece como parâmetro, ou como evidência de que fomos realmente salvos.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Cuidado com Aquilo que Falamos

Uma pesquisa bíblica a respeito do assunto língua pode produzir a seguinte conclusão: aquele que não peca no falar é realmente homem perfeito, capaz de refrear todo o corpo (Tg 3. 2 Bíblia de Jerusalém) . Salomão afirma: nas muitas palavras não falta ofensa, quem retém os lábios é prudente (Pv 10. 19 Bíblia de Jerusalém). Estes textos demandam sim que tenhamos cuidado com aquilo que falamos, afinal, Jesus disse: toda palavra sem fundamento que os homens disserem, darão contas no dia do Julgamento. Pois, por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado (Mt 12. 36, 37). Neste estudo pretendo abordar a necessidade de cuidado com a língua, bem como os cuidados que devemos ter com a língua.

I) A necessidade de cuidados com a língua
 
Por quais motivos precisamos ter tantos cuidados com o nosso falar? As Escrituras prontamente respondem: nas muitas palavras não falta ofensa, quem retém os lábios é prudente (Pv 10. 19 Bíblia de Jerusalém). A palavra hebraica para ofensa, é פָּ֑שַׁע (pescha), a mesma palavra para transgressão, mal, maldade. Tanto que a Almeida Revista e Corrigida fiel traduz פָּ֑שַׁע (pescha) como pecado literalmente. Este mesmo termo é traduzido pela Bíblia de Jerusalém como falsidade neste texto: Na falsidade dos lábios há armadilha funesta, mas o justo escapa da penúria (Pv 12. 13). A versão Almeida Revista e Corrigida Fiel, traduz este mesmo texto assim: O ímpio se enlaça na transgressão dos lábios, mas o justo sairá da angústia (Pv 12. 13).
O mais importante é que esta palavra é usualmente empregada para a transgressão da lei, tanto que na maioria dos casos em que a LXX traduz פָּ֑שַׁע, o faz por meio do termo ανομια (anomia). O ensino do Novo Testamento é de que:
os que vivem segundo a carne desejam as coisas da carne, e os que vivem segundo o Espírito, as coisas que são do Espírito. De fato, o desejo da carne é morte, ao passo que o desejo do Espírito é vida e paz, uma vez que o desejo carne é inimigo de Deus, pois ele não se submete à lei de Deus, e nem o pode, pois os que estão na carne não podem agradar a Deus (Rm 8. 5 - 8 Bíblia De Jerusalém).
O que fica explicito neste ensino é a verdade de que os problemas oriundos do falar são reflexo de nossa natureza pecaminosa. Em outras palavras pecamos com a língua porque em nosso ser somos essencialmente pecadores. Em um sentido estrito, podemos afirmar que a maioria dos males advindos da língua se dão em razão daquilo que o dono da língua é. Isto pode ser visto em alguns provérbios bíblicos.
Os lábios do insensato provocam querela, sua boca provoca golpes. A boca do insensato, é a sua ruína, e seus lábios armadilha para a sua vida (Pv 18. 6, 7 Bíblia de Jerusalém).  Por sua vez: Nos lábios do prudente há a sabedoria, [...] mas a boca do estulto é perigo iminente (Pv 10. 14, 15 Bíblia de Jerusalém). Seguindo a trilha do pensamento do velho Salomão, percebemos o quanto esta verdade está impressa na mente dos sábios de Israel, ainda que nem tanto formulada, mas latente, de modo que o mesmo afirma: a boca do justo é prata escolhida, o coração dos ímpios vale pouco. Os lábios do justo apascentam a muitos, os estultos morrem por falta de juízo (Pv 10. 20, 21 Bíblia de Jerusalém).
Além das razoes expostas, necessitamos de cuidado com a língua, visto que o que falamos inevitavelmente nos trará consequências. Do fruto da sua boca o homem sacia-se do que é bom, e cada qual receberá a recompensa por suas obras (Pv 12. 14 Bíblia de Jerusalém). E mais: pelo fruto da sua boca o homem se nutre do bem, mas a vida dos traidores é apenas violência (Pv 13. 2 Bíblia de Jerusalém). De modo que: quem vigia a própria boca guarda a sua vida, mas se perde quem escancara os lábios (Pv 13. 3 Bíblia de Jerusalém). Para todos os efeitos, quem guarda a boca e a língua, guarda-se da angústia (Pv 21. 23 Bíblia de Jerusalém).

II) Cuidados a serem tomados

Expressão usualmente definida como: atenção, aplicação a alguma coisa, cuidado, precaução, cautela, diligência, desvelo. Estas são qualidades exigidas quando se usa a língua. E isto se pode verificar tanto na literatura canônica quando na deuterocanônica (segundo cânon). Considerando que o tema de nosso trimestre é a sabedoria de Deus para uma vida vitoriosa, gostaria de propor ao leitor a leitura de um texto de autoria de um sábio do período interbíblico, Jesus Ben Sirac
Não joeires a todos os ventos, nem te metas em qualquer trilha (assim faz o pecador de palavra dúplice). Sê firme em teu sentimento e seja uma a tua palavra. Sê pronto para escutar, mas lento para dar a resposta. Se sabes algo responde ao teu próximo; se não põe a tua mão sobre a boca. Honra e confusão acompanham o loquaz, e a língua do homem é a sua ruina. Não te faças chamar de caluniador, não armes uma emboscada com a tua língua; porque se para o ladrão existe a vergonha, para o fingido existe uma sentença pior (Eclo 5. 9 - 14 Bíblia de Jerusalém).
Dentre os cuidados recomendados pelo pregador destacamos os seguintes:
  1. A palavra do homem, ou da mulher tem de ser uma só. Afinal, este é o sentido de seja o vosso "sim", sim, e o vosso "não", não. O que passa disso vem do maligno (Mt 5. 37 Bíblia de Jerusalém).
  2. A fim de evitar ao máximo a transgressão por meio do falar, o homem tem de ser mais inclinado à arte do ouvir do que à arte do falar. Que cada um esteja pronto para ouvir, mas lento para falar e lento para encolerizar-se (Tg 1. 19 Bíblia de Jerusalém).
  3. A pessoa que muito fala corre o risco de se ver de uma hora para outra em uma situação de desgraça. Quando acerta com relação ao que fala, tal pessoa é elogiada, mas quando erra pode vir a ser execrada. Daí a recomendação de Sirácida: faze paras as tuas palavras balança e peso; para a tua boca porta e ferrolho. Vela para não dares passo em falso com a língua, cairias diante daquele que te espreita (Eclo 28. 29, 30 Bíblia de Jerusalém).
  4. No dia em que a verdade é descoberta, o caluniador sofrerá vergonha. Língua distinta não combina com o estúpido, menos ainda, com o notável língua mentirosa (Pv 17. 7 Bíblia de Jerusalém). Na Almeida, versa: Não convém ao tolo a fala excelente; quanto menos ao príncipe, o lábio mentiroso. Nosso falar tem de revelar aquilo que somos em nossa essência. Aqui cabe destacar o verbete יֶ֑תֶר (yether), cujo sentido é o de superioridade, sobressalente, nobre, distinto, etc...
As recomendações de Ben Sirac encontram eco na totalidade das Escrituras Sagradas, e por este motivo tem de ser observadas por nós. No ensino de Provérbios a língua e consequência do que somos. O ímpio possui palavras tão suaves como a manteiga, mas no interior há guerra (Sl 55. 21), suas palavras são malicia e engano (Sl 36. 1 - 3). Daí que Davi, em dado momento de sua vida tenha proposto calar-se na presença do ímpio (Sl 39. 1). Que Deus nos dê este discernimento.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.

 
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