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sábado, 6 de fevereiro de 2016

O Tribunal de Cristo



Tribunal é por definição o estrado em que, nas casas em que se exerciam o julgamentoe à administração da justiça, tomavam assento os juízes e outras pessoas de distinção. Pode ser também a casa em que se julgam e decidem questões forenses e as de contencioso administrativo. A expressao tribunal de Cristo, ou βηματι του χριστου (beemati tou Christou) advém do uso que Paulo faz da mesma em dois textos. 

Ele afirma: Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo (Rm 14. 10b ACF). E, Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal (II Co 5. 10 ACF). Sendo que neste último texto a expressão grega é βηματος του χριστου (beematos tou Christou). 

É uma doutrina bíblicamente sustentável: 1) pelo fato inconteste de que Cristo de fato julgará as nações da terra, uma vez que Deus lhe concedeu todo o julgamento (Jo 5. 22); 2) Ressalta o fato de que os cristãos não serão julgados no tocante à sua salvação, mas no tocante às suas obras; 3) que este juízo será para definição de galardão, a fim de que cada um receba de Deus o seu louvor. 

O problema com relação a esta doutrina é que cada Escola de pensamento escatológico a situa em um ponto. Os pré-tribulacionistas e dispensacionalistas a situam imediatamente após o arrebatamento secreto, quando ou nas nuvens, ou nos ares os crentes serão julgados para galardão. Para pós-tribulacionistas como eu este julgamento tanto pode se situar antes do milênio, quando os crentes irão reinar quanto após o mesmo. 

Fato é que Cristo é juiz dos vivos e dos mortos, e que esta verdade é afirmada no Evangelho, quanto no kerigma primitivo. Outra verdade inconteste é que Cristãos serão julgados por suas obras, e que neste julgamento o teor das mesmas virá à tona. Este é o cerne da doutrina do tribunal de Cristo. Por último, mais do que especular o momento em que tal julgamento se dará, precisamos de um proceder que se coadune com esta verdade. 

AVALIAÇÃO DA DOUTRINA PRÉ-TRIBULACIONISTA DO TRIBUNAL DE CRISTO

Dentro da perspctiva do pré-tribulacionismo o tribunal de Cristo se distingue do juízo final do trono branco pelas seguintes razões: 

  1. No tribunal de Cristo as nações vivas serão julgadas. No juízo do Trono Branco os ímpios que estão mortos serão julgados. 
  2. O primeiro se dará antes do milênio, ao passo que o segundo após (Ap 20. 12 - 14). 
  3. O primeiro tem Cristo como juiz, enquanto o segundo tem o próprio Deus como juíz. 
  4. O primeiro se dará na terra, mas o segundo no céu. 
  5. No tribunal de Cristo apenas os justos são julgados, e no juízo do Trono Branco os ímpios também o são. 
  6. No tribunal de Cristo alguns são salvos, enquanto o juízo do Trono Branco todos são condenados. 
  7. No tribunal de Cristo alguns são destruídos (após terem sido arrebatados?), no juízo do Trono Branco todos são. 
  8. Não há uma ressurreição no tribunal de Cristo, quando no juízo do Trono Branco os ímpios ressurgem. 
  9. No tribunal de Cristo não há abertura de um livro, ao passo que no juízo do Trono Branco abrem-se os livros e o livro da vida. 
  10. Alguns vão para o inferno após o Tribunal de Cristo, quando no Julgamento final todos irão. 
Na minha perspectiva particular, textos que poderiam ser lidos de forma complementar foram distinguidos uns dos outros por detalhes que "aparentemente" contraditórios para fundamentar a diferença entre o julgamento final e o tribunal de Cristo. Jesus não situa o julgamento das nações de Mt 25. 31ss antes ou depois do milênio, nem que este se dará na terra. 

Não se pode afirmar que em tais juízos apenas os justos serão julgados, uma vez que os bodes de Mt 25. 33 não podem ser justos, tal como não o podem ser os falsos crentes de Mt 7. 21 - 23. O item seis é uma clara contradição em relação ao cinco, e o sete é totalmente incoerente com os dois anteriores. O oitavo intem contraria o texto abaixo transcrito, 
E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos. Mas os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se acabaram. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos (Ap 20. 4 - 6 ACF). 
Para que as almas dos santos que foram degolados tomem parte no juízo de Deus e de Cristo, este tem de ressuscitar. Elementar não é? Por último não há menção de que antes do milênio alguém seja condenado, o que há de fato é juízo. Estes são, em breves linhas alguns pontos nos quais particularmente divirjo do ponto de vista pré-tribulacional. 

Creio ser importante destacar as verdades centrais que os textos que falam do juízo a ser exercido por Cristo, e é esta tônica que pretendo dar à sequência deste estudo e que recomendo aos estudantes da Bíblia, bem como professores de Escola Bíblia Dominical enganjados nesta nobre tarefa. 

CRISTO COMO JUIZ
E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo; Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou. Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida (Jo 5. 22 - 24 ACF). A expressão ουδε γαρ ο πατηρ κρινει (oude gar o pater krinei), indica que em último sentido Deus exercerá o seu juízo sobre as nações e o fará por meio de Cristo.
  1. Esta verdade é afirmada repetidas vezes no kerigma primitivo. Pedro a professou na casa de Cornélio ao dizer: e nos mandou pregar ao povo, e testificar que ele é o que por Deus foi constituído juiz dos vivos e dos mortos (At 10. 42 ACF). Pedro igualmente afirma que os ímpíos que estranham o bom procedimento dos cristãos e os difamam pelo fato destes não os seguirem em seu desenfreamento haverão de dar conta ao que está preparado para julgar os vivos e os mortos, Porque por isto foi pregado o evangelho também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus em espírito  (I Pe 4. 5, 6 ACF). 
  2. No areópago Paulo afirmou que Deus tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos (At 17. 31 ACF). Em suas recomendações finais ao jovem Timóteo o apóstolo dos gentios afirmou: Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino (II Tm 4. 1 ACF). 
  3. No contexto do texto do Evangelho é afirmado: assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer (Jo 5. 21 ACF). Tanto Paulo, quanto Pedro afirmam que ele, Cristo é juiz dos vivos e dos mortos. 
  4. A expressão κρισις (krisis) de onde procede a palavra crise indica desde a opinião formada até o ato de julgar no juízo final. Neste texto se percebe que no momento em que Deus concede a κρισις ao Filho, lhe dá a prerrogativa de emitir a opinião final a respeito de todos os homens. 
  5. Deus assim o faz como o primeiro ato de seu juízo. Em outras palavras o Filho que foi julgado e condenado pelo mundo, é exaltado à posição de juiz deste mesmo kosmos que o condenou. Porque está escrito:Como eu vivo, diz o Senhor, que todo o joelho se dobrará a mim,E toda a língua confessará a Deus (Rm 14. 11 ACF).  
  6. Os cristãos não passam pela condenação, uma vez que ao ouvirem a Palavra do Filho e crerem na mesma serem isentos de toda a condenação, pois aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (II Co 5. 21 ACF). 
 Este pode ser considerado um resumo a respeito da doutrina de Cristo como juiz. Deus lhe deu a prerrogativa de julgar, e o fez com vistas à exaltação do mesmo. 

O JULGAMENTO DAS OBRAS DOS CRENTES
 Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo. Porque está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, que todo o joelho se dobrará a mim,E toda a língua confessará a Deus. De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. Assim que não nos julguemos mais uns aos outros; antes seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão (Rm 14. 9 - 13 ACF). 
Pois que muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes. Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal (II Co 5. 9, 10 ACF). 
Estes textos demandam breves considerações:

  1. Conforme dito acima: a prerrogativa de exercer o juízo é de Cristo, uma vez que somente ele o Pai sondam o conhecem o que há no coração e somente a eles cabe a retribuiação de acordo com a obra de cada um (Jr 17.10; Mt 16. 27).  
  2. Não é prerrogativa humana desprezar seu irmão, ou agir para com este como o fariseu agiu para com o publicano. O Padre Antônio Vieira acertadamente fala do juízo humano e do quanto este é falho ao ver que Cristo e João Batista são condenados neste, enquanto Barrabás é absolvido. 
  3. O juízo de Cristo é uma prestação de contas, tal como se observa nas parábolas dos servo fiel e dos talentos (Mt 24. 44 - 51; 25. 14 - 30), dentre os itens da prestação de contas estão as nossas palavras. Toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo (Mt 12. 36 ACF). 
  4. O juízo de Cristo é individual e demanda mudança na atitude dos crentes uns para com os outros, de modo que o julgamento hipócrita e temerário seja suspenso e uma atitude mais serviçal seja assumida. 
Me despeço rogando a Deus que este post tenha servido se grande ajuda aos que se dedicam à nobre causa do ensino. Em Cristo, Marcelo Medeiros. 


sábado, 9 de agosto de 2014

A Verdadeira Fé Não Faz Acepção de Pessoas



Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas (Tg 2. 1 ACF). O termo acepção, pode ser definido como a interpretação e significados que se confere a uma palavra, ou coisa, e no sentido pessoal, a preferência pessoal decorrente da classe social, qualidade, ou títulos que a mesma possua. Este sentimento não é nada compatível com a fé em Cristo, que de acordo com Tiago se fez pobre, a fim de fazer com que os pobres deste mundo se tornem ricos na fé (II Co 8. 9; Tg 2. 5). 

A despeito da incompatibilidade entre a acepção de pessoas e a fé em Cristo, fato é que não é em vão que o texto se faz presente nas Escrituras. É de significativa importância que a recomendação venha após a fala a respeito da geração pela palavra, e ao apelo à prática da mesma (Tg 1. 16 - 25). De igual importância é o fato de que imediatamente após as recomendações contra a discriminação de pessoas venha a afirmação de que a fé sem obras é morta. Creio que um entendimento maior do assunto será possível mediante uma breve exegese. 

UMA EXEGESE DO TEXTO

Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas (Tg 2. 1 ACF). 

O termo grego προσωποληψιαις (prosoopoleepsiais), cujo sentido é o de receber à face, ou em razão da aparência, é associado a εχετε (echete), usualmente empregado para expressar algum tipo de prática. Daí que o texto em apreço possa ser entendido da seguinte forma: não deve ser um hábito do crente exercer a sua vida piedosa e, ao mesmo tempo praticar a acepção de pessoas. 

Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado (Tg 2. 2, 3 NVI). 

No texto, tal como traduzido em idioma vernacular a impressão que se tem é a de que o homem traga um único anel, coisa que era comum aos homens da época. Daí que a distinção entre pobre e rico seja visualizada aqui somente por meio da comparação entre o anel e as vestes imundas do mendicante. Mas na verdade do termo χρυσοδακτυλιος (chrysodaktylios), indica um homem com anéis de ouro, ao invés de apenas um, coisa comum naquele tempo. Aqui, as jóias, junto com as vestiemtnas são indicadores de riqueza e opulência. 

Outro termo que merece devida consideração é επιβλεψητε (epiblepseete), que em nossas bíblias é traduzido por atentar, prestar atenção, mas que na verdade indica consideração, ou respeito. A mensagem inicial de Tiago é de não se deve considerar, ou respeitar alguém tomando como parâmetro as vestes ou a ornamentação da pessoa. 

não estarão fazendo discriminação, fazendo julgamentos com critérios errados? (Tg 2. 4 NVI). 

O termo διεκριθητε (diekrithee) vem do verbo διακρινομαι (diakrinomai), e indica um tipo de divisão interna a respeito de um assunto, ou melhor a mais flagrante incompatibilidade com a fé professada, uma vez que Cristo se fez pobre para enriquecer o pobres na fé. Já κριται διαλογισμων πονηρων (kritai dialogismoon poneeroon), em que equivale κριται a juízes, διαλογισμων à raciocínios, e πονηρων a mau. Daí a possibilidade da seguinte tradução: juízes de raciocínios ruins, ou juízes tomados de maus pensamentos.

O fato é que a discriminação é uma forma de julgamento a partir de critérios nada corretos e louváveis, daí a necessidade de constante racionalização, uma vez que mesmo sendo preconceituoso, ser humano algum está preparado para ser visto, ou ver a si mesmo, como tal. A teologia da prosperidade, ou a teologia moral de causa e efeito são duas formas de racionalização do problema aqui destacado. Um exemplo deste tipo de pensamento pode ser visto nos amigos de Jó, hoje representados nos que entendem que toda tragédia tem sua explicação em algum tipo de desobediência, ou pecado.

Ouçam, meus amados irmãos: não escolheu Deus os que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que ele prometeu aos que o amam? (Tg 2. 5 NVI). 

A primeira questão necessária a ser colocada e esclarecida aqui é que a riqueza, de forma alguma constitui-se como impedimento ao Reino de Deus. O problema do jovem rico, por exemplo não era sua riqueza, mas a sua auto suficiência exemplificada na figura do camelo (Lc 18. 25). Mais curioso, é que quando perguntado a respeito da observância aos mandamentos, o jovem responde: Todas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade (Lc 18. 21 ACF), este é o ponto em que se revela a auto suficiência do jovem, achar que cumpre a lei, e que pode fazer algo para herdar a vida eterna. 

Zaqueu já é um exemplo de rico que vai na direção contrária à do jovem piedoso. Ele não tem a mínima pretensão com relação a Jesus, é este quem para debaixo do pé de um figueira brava e convida o coletor de impostos a que o receba em casa. O que reforça ainda mais que a raiz do problema é a auto suficiência. 

Logo, a pobreza, ou indigência da qual a Bíblia fala, ao afirmar que os pobres são chamados para o Reino de Deus e de Cristo (Mt 5. 3; 11. 5), é na verdade um sentimento de profunda dependência de Deus. πτωχον (ptoochon) é um termo que expressa o pedinte, aquele que depende de outros para sua subsistência (aqui). O pobre em Israel era aquele que não possuindo terra para trabalhar vivia em total estado de indigência, podendo vir a mendigar. Fato é que o pobre do contexto bíblico é bem diferente do pobre do contexto social atual. 

Chamamos de pobre quem não possui bens, posses, ou pelos parcos recursos não pode prover sua subsistência. Mas o pobre da Bíblia é literalmente o indigente. Um termo grego que se alinha com este é πτωχοι (ptoochói).  Ele igualmente indica os que não podem se sustentar e dependem de ajuda alheia (aqui). É a esta figura que Tiago se refere neste texto. Ele se difere do homem com poucas posses, o ταπεινος [tapeinos], do qual o irmão do Senhor fala (aqui). 

O senso de dependência faz com que o πτωχοι (ptoochói) seja o escolhido por Deus a fim de vir a ser herdeiro do Reino e rico na fé em Cristo. Isto faz com que todas as margens possíveis para a prática da discriminação sejam lançadas por terra. Sob esta ótica evangélica, que a questão da pobreza e da riqueza precisam de serem vistas. 

A ACEPÇÃO DE PESSOAS NA BÍBLIA 

Na medida em que se aprofunda na leitura do texto maior se torna a percepção de que Tiago está referendando seu ensino tanto a lei, quanto à sabedoria judaica. Isto se torna claro na medida em que o irmão do Senhor afirma: Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis. Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores (Tg 2. 8, 9 ACF). O que leva à pergunta: de qual parte da lei Tiago está falando?
"Não cometam injustiça num julgamento; não favoreçam os pobres, nem procurem agradar os grandes, mas julguem o seu próximo com justiça. "Não espalhem calúnias entre o seu povo. "Não se levantem contra a vida do seu próximo. Eu sou o Senhor. "Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as conseqüências de um pecado. "Não procurem vingança, nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor (Lv 19. 15 - 18 NVI). 
Em termos legais, a acepção de pessoas consiste em favorecer ao pobre, pela simples fato de o mesmo ser pobre, ou na tentativa de agradar o grande. Uma recomendação: não sejam parciais no julgamento! Atendam tanto o pequeno como o grande. Não se deixem intimidar por ninguém, pois o veredicto pertence a Deus. Tragam-me os casos mais difíceis e eu os ouvirei (Dt 1. 17). Quem disser ao ímpio: "Você é justo", será amaldiçoado pelos povos e sofrerá a indignação das nações. Mas os que condenam o culpado terão vida agradável; receberão grandes bênçãos (Pv 23. 24, 25)

Agir com acepção de pessoas consiste em não permitir que a condição pessoal altere a percepção particular a respeito desta, ou daquela pessoa, e pior, uma injustiça seja feita. O texto supra traz uma realidade sem precedentes: o mandamento de amar ao próximo é aglutinado à recomendação de  não se fazer acepção de pessoas. O verdadeiro praticante da Palavra não age de tal forma.
Se vocês de fato obedecerem à lei real encontrada na Escritura que diz: "Ame o seu próximo como a si mesmo", estarão agindo corretamente. Mas se tratarem os outros com favoritismo, estarão cometendo pecado e serão condenados pela Lei como transgressores. Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente. pois aquele que disse: "Não adulterarás", também disse: "Não matarás". Se você não comete adultério, mas comete assassinato, torna-se transgressor da Lei. Falem e ajam como quem vai ser julgado pela lei da liberdade; porque será exercido juízo sem misericórdia sobre quem não foi misericordioso. A misericórdia triunfa sobre o juízo! (Tg 2. 8 - 13 NVI). 
O que se lê aqui?

  1. Que a acepção de pessoas é uma flagrante contradição com a lei, que determina que se ame ao próximo como a si mesmo.  
  2. Que os que praticam a acepção de pessoas, (e diga-se de passagem na sociedade atual poucos são os que não julgam tomando a aparência como critério);  cometem pecado. 
  3. A expressão ελεγχομενοι (elegchoomenoi), na verdade indica convencimento de culpa, ou seja os que fazem acepção de pessoas tornam-se culpados perante a lei. 
  4. O pecado da acepção de pessoas é tão grava quanto o adultério e o homicídio (que são mencionados aqui à título de exemplo, e com vistas ao reforço da mensagem). 
  5. O comportamento cristão precisa refletir a mensagem do Evangelho em sua pureza e inteireza. Se Deus escolheu os pobres deste mundo (II Co 8. 9), não há motivo para discriminação do mesmo em contexto eclesiástico. 
  6. A acepção de pessoas é uma prática que destoa da misericórdia, mais especificamente da prática (ποιησαντι [poieesanti]). 
  7. O termo ποιησαντι tem estrita relação com o mesmo que Tiago emprega para a prática da Palavra de Deus ποιηται (poieetai). 
  8. Praticar a palavra é viver uma vida em que o julgamento se exerce não pela aparência, mas de acordo com a reta justiça (Jo 7. 24), e em que o discernimento se dá orientado pelo Espírito de Deus, visto que cristãos, em tese, possuem a mente de Cristo (I Co 2. 14, 15). 
À título de aplicação prática,o que se pode dizer? O momento atual pode ser avaliado da seguinte forma: tem sido comum que a acepção condenada por Deus, via carta de Tiago seja uma prática cada vez mais constante, por parte da sociedade e da Igreja também (falo sem me referir à denominação alguma especificamente). 

Como ministro chamado à ministrar, percebo que não basta uma roupa normal, limpa. Cada vez mais pregadores se mostram extravagantes, e por quê? Porque a geração atual o é! É como se a roupa, ao invés dos sinais, da vida, do sofrimento, fossem as credenciais atuais, e de fato o são. Encerro orando para que estas palavras não tão agradáveis, que marcam o fim deste post sejam fonte de inspiração para que tais práticas sejam, no mínimo criticadas e repensadas. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Julgar a si mesmo, antes de julgar aos outros


Não se deve esquecer a seguinte regra: o inconsciente de uma pessoa se projeta sobre outra pessoa, isto é, aquilo que alguém não vê em si mesmo, passa a censurar no outro. Este princípio tem uma validade geral tão impressionante que seria bom se todos, antes de criticar os outros, se sentassem e ponderassem cuidadosamente se a carapuça que querem enfiar na cabeça do outro não é aquela que se ajusta perfeitamente a eles. Carl Jung (aqui)
Para mim este é um assunto mais do que batido. A Bíblia em hipótese alguma proíbe o julgamento. Não, de forma alguma! Afinal, Jesus mesmo disse: Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos (Jo 7. 24 NVI). Assim, quando Jesus disse: não julgueis, ele não estava proibindo o juízo em si, mas o juízo temerário, aquele em que, via de regra, o problema pessoal é ignorado e apenas o do outro é visto (Mt 7. 3, 4). Paulo aprofundou ainda mais a questão quando disse: Portanto, você, que julga, os outros é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em que julga, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas (Rm 2. 1 NVI). O apostolo não poderia ter sido mais feliz em sua síntese do ensino de Cristo, visto que este é o sentido básico dos versos deste texto.
Na medida em que se segue na leitura do texto em que Jesus condena o juízo temerário, é possível a percepção de que o juízo criterioso é mais do que necessário para que se faça a distinção entre os que podem, ou não ouvir as verdades que temos para falar (Mt 7. 6), entre falsos e verdadeiros profetas (Mt 7. 14 - 20).

Aqui cabe a lembrança de que o verbo julgar em grego e em português possuem a mesma peculiaridade. O verbo grego κρινεω (kryneoo) também pode ser traduzido como ponderação (At 4. 19; I Co 10. 15; 11. 13). O problema com relação ao juízo e à critica consiste no fato de que quanto menos percebemos nossas limitações, mais tendemos a ser severos em nosso julgamento, e neste aspecto sou forçado a considerar o autor da frase, caso seja mesmo Jung, um iluminado em face da percepção.

Na Bíblia o exame pessoal é frequentemente estimulado, uma vez que Paulo disse: Examine-se o homem a si mesmo (I Co 11. 28a NVI), e Examinem-se para ver se vocês estão na fé; provem-se a si mesmos. Não percebem que Cristo Jesus está em vocês? A não ser que tenham sido reprovados! (II Co 13. 5 NVI). O problema é que nosso coração frequentemente nos engana (Jr 17. 9, 10) e neste caso temos de orar ao Senhor como Davi o fez dizendo: Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo que te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno (Sl 139. 23, 24 NVI).

Que Deus renove em nós o senso de nossa pecaminosidade, de nossa dependência da graça, a fim de que usemos da misericórdia exigida, para com os que, como nós, precisam da misericórdia. Antes de Cristo dizer não julgueis, ele ensinou aos seus discípulos a orarem: perdoa as nossas dívidas, assim como temos perdoados aos nossos devedores. E ele mesmo encerra dizendo: Pois se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas (Mt 6. 14, 15 NVI). 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros
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