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sexta-feira, 27 de junho de 2014

A multiforme sabedoria de Deus


Deus é sábio. Jó o descreve nas seguintes palavras: Ele é sábio de coração, e forte em poder; quem se endureceu contra ele, e teve paz? (Jó 9. 4 ACF). Ana em seu cântico repreende os altivos nas seguintes palavras: não multipliqueis palavras de altivez, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o Senhor é o Deus de conhecimento, e por ele são as obras pesadas na balança (I Sm 2. 3 ACF).

Ele mesmo ordena as coisas de uma forma tal que ninguém possa ensinar nada a Ele. Não sem razão que Jó indaga aos seus amigos: Porventura a Deus se ensinaria ciência, a ele que julga os excelsos? (Jó 21. 22 ACF). E Isaías questione: Quem guiou o Espírito do Senhor, ou como seu conselheiro o ensinou? Com quem tomou ele conselho, que lhe desse entendimento, e lhe ensinasse o caminho do juízo, e lhe ensinasse conhecimento, e lhe mostrasse o caminho do entendimento? (IS 40. 13, 14 ACF).

Neste estudo pretendo demonstrar como a sabedoria de Deus se manifesta na distribuição de dons espirituais. Pedro afirma: Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus (I Pe 4. 10 ACF). A sabedoria de Deus é evidenciada na multiplicidade de dons que ele dá á sua Igreja, no propósito dos mesmos (o serviço), e no aperfeiçoamento que este serviço produz.

I) A MULTIFORME SABEDORIA DE DEUS

Deus demonstra sua sabedoria multiforme na variedade de dons. Paulo afirma que há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo (I Co 12. 4 ACF). A diversidade de dons se justifica a partir da metáfora do corpo. Veja:
Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação,  Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé (Rm 12. 4 – 6 ACF).

As lições do texto são:

  1. Um corpo precisa ter diferentes membros a fim de realizar as mais variadas funções. De igual modo a Igreja, se nesta não se manifestam os mais variados dons, ela se torna uniforma, no lugar de multiforme.
  2. O corpo é disposto de tal forma a que toda autossuficiência seja suplantada pela mútua dependência. Logo, não há quem possa olhar para si mesmo e se julgar mais importante do que ninguém, uma que todos dependem uns dos outros.
  3. A graça se manifesta por meio da distribuição dos mais variados dons no corpo de Cristo. Já abordei neste espaço como isto se dá (aqui). 



 do que foi dito destaco: 
E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós. Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários; E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra. Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela;
Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros (I Co 12. 21 - 25 ACF). 
  1. O dom espiritual aponta para a mutua necessidade que os crentes possuem uns dos, e em relação aos outros.
  2. Mesmo os crentes mais insignificantes podem e devem de serem honrados.
  3. Deus distribui os dons de uma forma tal que aqueles que aos olhos da comunidade são os menos honrados, e mais, carecem da mesma, sejam mais honrados.
  4. O dom estabelece a lógica da graça, a saber: nada é por mérito, mas pode favor divino.
  5. O dom manifesta o cuidado mútuo dos crentes.
Esta é a multiforme sabedoria de Deus revelado no seu corpo que é a igreja. 

II) O CRENTE COMO DISPENSEIRO DA GRAÇA DE DEUS

Me agrada e muito a tradução que Nova Versão Internacional faz do texto de I Pe 4. 10. A primeira parte do texto diz: Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros. Tal fragmento de texto por si só já nos diz que os dons de Deus são colocados á disposição do povo de Deus visando o serviço, que neste texto equivale á diakonia (διακονιαν). 

Na Carta aos Efésios, Paulo declara haver recebido por meio da graça de Deus a capacitação para ser ministro do Evangelho. Deste me tornei ministro pelo dom da graça de Deus, a mim concedida pela operação de seu poder (Ef 3. 7 ACF). O termo ministro aqui é a tradução de διακονος (diakonos), de onde vem a palavra diácono, que nada mais é do que um serviçal. 

A condição para o ministério (διακονιαν) é o dom da graça de Deus (δωρεαν της χαριτος [dorean tee charistos]). Sem a graça de Deus nem servos podemos ser, esta é a verdade. Esta graça, por sua vez evidencia o poder de Deus em nossas vidas. A expressão operação de seu poder, visa traduzir a expressão ενεργειαν της δυναμεως αυτου (energeian tees dynameoos auton), sendo que ενεργειαν tanto pode ser eficácia quanto operosidade, indicando com isto que o poder de Deus é dinâmico, eficaz. A graça manifesta a eficácia do poder divino. 

Como exercer este ministério de forma dinâmica, eficaz? Simples: como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.Outro termo de suma importância é οικονομους (oykonomoys), donde provavelmente venha a palavra ecônomo, uma vez que economia, certamente de venha de οικονομιαν (oikonimian). O οικονομους é um dispenseiro, o termo é empregado em (I Co 4. 1, 2; Tt 1. 7; I Pe 4. 10). Deus deu dons à sua Igreja a fim de que cada crente o exerça colocando o mesmo a serviço uns dos outros. Esta é a condição para que os mesmos sejam bons dispenseiros. 

A fim de que cada crente se porte como bom οικονομους é vital que os demais ministros que Cristo constituiu se portem como agentes na preparação dos demais crentes para a obra do ministério, conforme afirmado neste espaço (aqui). 

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

sábado, 10 de maio de 2014

O ministério do Apostolo


O termo ministério na carta aos Efésios é literalmente serviço, diaconia. É neste sentido que os próprios apóstolos, os que foram chamados por Cristo entendiam a sua vida ministerial, e assim se referiam às suas atividades e funções, e creio que este sendo pessoal que os apóstolos tinham precisa ser resgatado em nossos dias, dada a febre apostólica que se vive em nossos dias.
Ao se consultar a respeito da continuidade deste ministério, é possível que o leitor tenha de lidar com as respostas mais dispares, desde o posicionamento pela extinção do referido ministério (aqui), até um posicionamento mais equilibrado como o de Stott, que defende a permanência de apóstolos para os dias atuais (este é o caso, por exemplo de plantadores de Igrejas), desde que se entenda que os mesmos não são equiparados em autoridade aos apóstolos que testemunharam a vida, morte e ressurreição de Cristo (aqui). São estes os fatores que forçam ao estudante da Palavra de Deus a considerar o tema proposto.
 
I) APÓSTOLO, O SIGNIFICADO
 
Creio ser de grande utilidade o estudo a respeito do sentido da palavra apóstolo. O termo grego αποστολος (apostolous), significa basicamente alguém que é enviado, por exemplo, um mensageiro. É com este sentido que o próprio Cristo afirma: Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou (Jo 13. 16 ACF). O termo enviado aqui é literalmente αποστολος (apostolous). É com este sentido que Epafrodito é chamado de αποστολον (apostolon), afinal, este fora enviado pelos Filipenses (Fp 2. 25) para suprir as necessidades de Paulo em sua prisão (aqui).
Necessário se faz com que se considere também os embaixadores enviados de Deus, sendo que neste caso ocorre associação entre estes e os profetas da antiga dispensação. Por isso diz também a sabedoria de Deus: Profetas e apóstolos lhes mandarei; e eles matarão uns, e perseguirão outros (Lc 11. 49 ACF).
Aos apóstolos e profetas foi revelado pelo Espírito[...], que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho (Ef 3. 5, 6 ACF). Neste sentido o apostolo é apresentado como alguém que é portador, ou depositário de uma revelação especial, e neste sentido não há mais apóstolos mesmo. Alguns colaboradores com Paulo na implantação de Igrejas também são chamados assim (II Co 8. 23).
Por último, na Bíblia, o apóstolo é alguém que foi comissionado diretamente por Cristo, como é o caso dos doze mais conhecidos, mas que pelo eu se pode ver pelo relato de Atos, outros poderiam, caso tivessem preenchidos os quesitos, necessários, preencher a vaga deixada por Judas, o Iscariotes (At 1. 26). Eles foram chamados de apóstolos primeiramente por Cristo (Mt 10. 2; Lc 6. 13), e por haverem recebido da fonte original, e mais, terem sido testemunhas oculares dos ensinos e milagres de Cristo, a palavra dos mesmos se reveste de autoridade impar (Jd v. 17).
 
II) O APÓSTOLO HOJE
 
Para falar do ministério do apostolo hoje, é preciso que se atente, e bem para as palavras de Jonh Stott, que diz:
Entendemos que já não há apóstolos na igreja. Pode haver ministérios apostólicos, como os que realizam missões, os plantadores de Igreja, os líderes. Estas pessoas exercem ministério apostólico, mas não podemos chamá-las de apóstolos. Ninguém na igreja atual tem uma autoridade comparada a de Paulo, Pedro ou qualquer dos apóstolos de Jesus
Cristo. Eles tinham uma autoridade única para ensinar em nome de Jesus e ninguém tem essa autoridade hoje. Então, se não há apóstolos na igreja contemporânea, como podemos nos submeter aos ensinamentos dos apóstolos? Seus ensinamentos chegaram até nós pela Bíblia (aqui). 
 
Pelo que se pode ver nas palavras de Stott,
  1. Existe uma séria distinção entre ministério apostólico e apostolo mesmo. Afinal, os primeiros foram chamados por Cristo, ao passo que alguns entendem que houve linha de sucessão apostólica.
  2. Os ministros apostólicos são implantadores de Igreja, mas não possuem o mesmo status que os apóstolos de Cristo, do período bíblico possuíam.
É isto que se precisa ter em mente. O ponto nevrálgico desta questão é a Ascenção de modelos eclesiásticos em que a figura do pastor, a fim de se cercar o maior prestigio possível, tem lançado mas de tais títulos. Mas a verdade é que apóstolos mesmo somente Cristo e os seus discípulos. Os verdadeiros apóstolos entenderem seus respectivos ministérios como  uma diaconia, a diaconia da palavra e da oração  (προσευχη και τη διακονια του λογου). Tem sido este o foco e a visão dos atuais apóstolos?
 
Em Cristo, Marcelo Medeiros.
 

sábado, 3 de maio de 2014

Dons de elocução


Após a abordagem do conceito de dons (aqui), do proposito dos mesmos (aqui), bem como da divisão dos dons alistados em I Co 12. 8 - 11, necessário se faz com que se concentre nos dons de elocução. O termo é definido da seguinte forma: maneira pela qual nos exprimimos (aqui), sendo esta então uma forma de exprimir as ideias por meio de palavras. São dons de elocução: Variedades de línguas, Interpretação de Línguas, Profecia.
Por meio de tais dons aquilo que Deus revela é expresso para toda a Igreja. A Bíblia é clara em recomendar que se busque o dom de profetizar, uma vez que o que profetiza exorta toda a Igreja, ao passo que o que fala em línguas edifica a si somente. Mas ainda assim, não de pode, nem se deve proibir o falar em línguas.

I) O DOM DA PROFECIA

O conceito lexical de profecia abrange desde o ensinamento, ou exortação moral divinamente inspirado, e falado por algum profeta; a anunciação e a interpretação dos propósitos divinos, até a simples predição de eventos futuros. A profecia bíblica, via de regra se concentra mais nos elementos de ensino, exortação, repreensão, do que na predição de eventos futuros, ao menos esta é a ideia de Gordon Fee e Douglas Stuartt. A seguir faço algumas considerações a respeito da profecia, para então falar do dom de profecia.

i) A profecia no Antigo Testamento

Um exemplo clássico é que Abraão, Isaque, Jacó e José são chamados de profetas (Gn 20. 7; Sl 105. 13 - 15), e destes apenas Jacó e José proferem oráculos de caráter preditivos. O mesmo pode ser dito em relação a Moisés, que passa a maior parte do tempo julgando e instruindo o povo, somente no quinto livro que ele pronuncia alguns oráculos proféticos de caráter preditivo.
Em toda a atuação de Elias, somente no tocante a morte de Jezabel que ele pronuncia um oráculo preditivo, mas sua atuação é de anuncio dos juízos de Deus sobre Israel. O mesmo se dá com os profetas literários. Se eles vivessem vaticinando o futuro, a mensagem dos mesmos não teria a mínima relevância para os seus contemporâneos.
São os profetas escritores que trazem uma profecia diferenciada. Junto da inspiração, vem o selo de autoridade divina para com as palavras dos mesmos de sorte que elas ganham status de palavra de Deus. De igual modo eles vindicam sobre si que estão falando em nome do Senhor, e sob a inspiração do Espírito do Senhor (Is 1. 2; 61. 1, 2; Mq 1. 2; 3. 8). A palavra destes profetas, via de regra, não é  bem aceita em seu tempo, somente depois, de muito tempo, como no caso de Jeremias e Amós, os mesmos foram aceitos como profetas do Senhor (Dn 9. 2; At 15. 15, 16).
Aqui é mais do que justo a menção ao comentário do autor da revista, para quem a igreja deve de ser conduzida pela orientação das Sagradas Escrituras, ao invés de o ser por supostos profetas, visto que não poucos lideres não tomam uma única atitude sem antes consultar um profeta. O que posso afirmar é que nas Escrituras este hábito foi cultivado pelo povo, no período dos juízes, e pelos reis no período monárquico, sendo que em ambas as ocasiões, não havia Escritura, ou texto acessível para o povo se orientar.
Inicialmente tais profetas eram chamados de videntes (ra'ah [רֹאֶ֑ה]). É o caso de Samuel, por exemplo no contexto em que Saul, vai consultá-lo a respeito da jumenta de seu pai, que se perdera (I Sm 9. 9, 11, 18). O texto da a entender que a função do profeta se assemelha a de um adivinho. E a importância desta percepção se deve ao fato de que na atualidade o profeta é visto da mesma forma. Todos querem um profeta que lhes diga o seu futuro, e de preferencia que confirme os desejos do seu coração (Jr 42 - 43).
Voltando ao texto e ao contexto de Samuel, necessário se faz notar que o mesmo não conformou sua vida e ministério ao costume do povo, antes anunciou para Saul, qual era a vontade de Deus para sua vida. Com isto este, que foi ao mesmo tempo vidente e o último juiz de Israel, deixou um maravilhoso legado para os aspirantes a profeta da atualidade.

ii) O profeta no Novo Testamento e o dom de profecia

Jesus afirmou: todos os profetas e a lei profetizaram até João (Mt 11. 13 ACF), dando a entender com isto que a profecia com status de escritura durou somente até João Batista (Lc 16. 16). No Novo Testamento, os sucessores dos profetas são os apóstolos. Logo, a profecia não possui mais o status de escritura, de norma divina, etc...
Os únicos profetas do período apostólico primitivo são as filhas de Felipe (At 21. 9), e ainda assim, é dito não que elas eram profetisas, mas que profetizavam. Neste mesmo texto Lucas registra a chegada de um profeta (προφητης), por nome de Ágabo, que previu a prisão de Paulo em Jerusalém (At 21. 10 - 18). O que faz Paulo, contrariando seu próprio conselho à igreja de Tessalônica (I Ts 5. 20, 21),  ignora a profecia e sobe para Jerusalém, sofrendo todos os males que Ágabo dissera que ele haveria de sofrer. Desobediência gratuita, não! Ele afirmara, independente de profecia: agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer,
Senão o que o Espírito Santo de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações
(At 20. 22, 23 ACF). Isto indica claramente que a palavra apostólica, ao invés da profética, era a norma nos tempos do Novo Testamento.
E o dom de profecia? Foi dado a Igreja não para normatizar a conduta da mesma, mas para edificar, consolar a exortar (I Co 14. 3). Mas está sujeita ao exame pessoal uma vez que a recomendação é: Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem (I Ts 5. 20, 21 ACF). O verbo traduzido, por provar, ou examinar aqui é δοκιμαζω (dokimazoo), cujo sentido é o de por, ou colocar á prova. Além de conformada com a sadia doutrina das escrituras sagradas, uma verdadeira profecia tem de edificar, exortar, e consolar, mas jamais nortear a vida pessoal e os rumos da congregação.

II) VARIEDADES E INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUAS

A habilidade para falar em outras línguas é descrita como um sinal (semeia [σημεια]), que segue os que creem (Mc 16. 17, 18 [aqui]), e como evidencia da descida do Espírito Santo, na descida do Espirito Santo no pentecoste. De acordo com o registro de Lucas,
E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem (At 2. 3, 4 ACF). 
Esta língua não é produto de um caso êxtase, uma vez que os que as ouviam, entendiam os apóstolos falando das grandezas de Deus em sua língua nativa (At 2. 4 - 11). O termo αποφθεγγεσθαι(apophtheggesthai), indica a fala em tom alto e claro, e é empregada na LXX como equivalente para profetizar (Dt 32. 2; I Cr 25. 1; Ez 13. 19; Zc 10. 2). Para todos os efeitos os ouvintes da língua aqui entendem claramente o que está sendo falado. Não há neste relato uma confusão, quanto á mensagem que os apóstolos estão transmitindo.
Outro fator a ser considerado é que a expressão que nossas Bíblias traduzem como língua em At 2. 6 no grego é διαλεκτω (dialektoo), indicando com isto que os discípulos que haviam recebido da parte de Deus a capacidade de falar em outros idiomas e de falar nas variações destes mesmos, afinal, διαλεκτω é a palavra da qual se origina nosso termo dialeto, cujo sentido é o de uma variedade regional (ou social, ou etária) de uma língua. Uma exegese deste texto já deixa claro que as línguas não são para causar confusão, mas para anunciar as grandezas de Deus.
Experiências de derramamento de poder tais como esta se repetem em Samaria (At 8. 15 - 17), na casa de Cornélio (At 10. 43 - 47), e em Éfeso (At 19. 6). Exceto Samaria, em todos se diz que falaram em outras línguas (λαλουντων γλωσσαις), sendo que na casa de Cornélio, ao mesmo tempo em que falavam em línguas, magnificavam a Deus (At 10. 46), ao passo que no pentecostes e em Éfeso, profetizavam (At 19. 6).
Há no pentecostalismo a ideia de que as línguas são evidência do Batismo com o Espírito Santo. Em Batismo na Plenitude do Espírito Jonh Stott afirma que o dom do Espírito é a salvação, indicando com isto que ele se posiciona a favor do conceito tradicional, que entende o Batismo com o Espírito, como sendo a conversão.
O problema com este entendimento é que no caso de Cornélio, por exemplo, Pedro e os demais que estavam com ele tomaram as línguas como evidência de que o dom do Espírito Santo (dorea ton hagios pneumatos [δωρεα του αγιου πνευματος]), havia sido derramado sobre os  gentios. O impasse em torno da questão permanece. Foi, ao que parece, na Igreja de Corinto que Paulo precisou normatizar a questão das línguas, a fim de que as mesmas não fossem confundidas com o êxtase, ou transe estático em que entravam os adeptos de outras religiões.  
O que importa é que o infiel, ao chegar em nossas assembleias veja as manifestações de línguas acompanhadas da interpretação, a fim de que não sejamos julgados como loucos, mas que ele ouça Deus falando por nosso meio, e tenha os segredos do seu coração manifesto, e glorifique a Deus e reconheça que o Senhor está naquele lugar.
De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis. Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos?
Mas, se todos profetizarem, e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. E, portanto, os segredos do seu coração ficam manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós.
Que fareis pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus.
E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados (I Co 14. 22- 31). 
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Atenção alunos da Escola Dominical!

 

Em razão da riqueza de detalhes da temática da revista de Escola Bíblica Dominical sobre dons de revelação, venho comunicar aos leitores e demais seguidores deste blog que não escreverei apenas um estudo sobre a revelação, mas uma série de Estudos sobre o tema. Isto farei, visando colocar ao alcance dos irmãos e demais amigos e leitores o maior número possível de Estudos e informações sobre o assunto. Desde já manifesto aos amados que conto com as vossas orações.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.

sábado, 12 de abril de 2014

O propósito dos dons espirituais



No ultimo post sobre o assunto coloquei que dom é uma dádiva, que dentro da Teologia cristã não cabe a compreensão de dom como potencial inato, e que os dons de Deus abrangem tanto o chamado para a salvação quanto a capacitação do salvo para a obra de Deus.  Tanto χαρισμα quanto χαρισματα podem significar uma benção que Deus concede aos pecadores, quanto as ferramentas dadas aos salvos em Cristo para a realização da  obra do ministério (aqui). Hoje proponho, com base na revista da Escola Bíblica Dominical, das Casas Publicadoras das Assembleias de Deus, uma reflexão sobre o proposito dos mesmos, inclusive a salvação.

OS DONS ESPIRITUAIS

Wayne Grüden propõe em sua Teologia Sistemática a existência de vinte e dois dons, embora nem todos sejam espirituais, afetam a vida cristã.  Estes são os dons:

  1. palavra da Sabedoria
  2. palavra do conhecimento
  3. fé
  4. discernimento de espíritos
  5. interpretação de línguas (I Co 12. 8 - 10)
  6. apostolo
  7. profeta
  8. mestre
  9. milagres
  10. variedades de curas
  11. socorros
  12. administração
  13. línguas (I Co 12. 8 - 10, 28)
  14. Evangelista
  15. Pastor - mestre (Ef 4. 11)
  16. serviço
  17. encorajamento
  18. contribuição
  19. liderança
  20. misericórdia (Rm 12. 6 - 8)
  21. Casamento
  22. celibato (I Co 7. 7).
Estes são os dons segundo a perspectiva de Grüden, ao que poderíamos incluir a salvação que sucessivas vezes é chamada de dom de Deus (Jo 4. 10; Rm 6. 23; Ef 2. 8 - 10), o que elevaria a lista para vinte e três. Mas o que importa diante de tudo isto não é a quantidade, mas o propósito dos mesmos. Considerando o sentido de dom, enquanto dadiva graciosa, posso afirmar que o sentido primário dos mesmos consiste em revelar a graça de Deus. Paulo afirma que a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo (Ef 4. 7 ACF).
Escrevendo aos irmãos de Corinto o mesmo diz: pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo (I Co 15. 10 ACF). É comum que se pense em produtividade a partir da ação humana, mas no Reino de Deus, o crente produz á partir da ação do próprio Deus na vida dele. Seguem abaixo alguns desdobramentos desta conclusão.

CONSIDERAÇOES NEGATIVAS A RESPEITO DOS DONS NA LIÇÃO DA EBD

Se o dom é dádiva, se é fruto da graça de Deus, não cabe a Igreja alguma criar uma elite espiritual. Um outro problema pertinente à Igreja de Corinto era o partidarismo, que conforme já foi falado neste espaço, não era de natureza doutrinaria apenas, mas personalista (aqui e aqui). Dons não são dados á Igreja visando a promoção pessoal de quem os possui. Com esta verdade em mente o apostolo Paulo argui os crentes de Corinto da seguinte forma: quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? (I Co 4. 7 ACF).
Aqui é necessário recorrer mais uma vez ás palavras de Brennan Manning, para quem a graça anula a adulação por pregadores e evangelistas famosos, afinal, se alguém supostamente possui algo, não é seu, mas é dadiva da graça. Foi esta verdade que Paulo colocou para os crentes de Corinto em forma de pergunta retorica. A lição que fica, é que os dons não indicam espiritualidade, uma vez que mesmo admitindo que a igreja de Corinto era plena nos dons de Deus (I Co 1. 7), ele se refere aos crentes da mesma como carnais (I Co 3. 1).
Dom não é indicador de maturidade espiritual. Note o que Paulo diz: E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo (I Co 3. 1). Também não é sinal de superioridade espiritual, pelo contrário! No corpo não frases do tipo: ninguém é insubstituível! E em casos de dúvida, leia:
E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós. Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários; E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra. Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela;
Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros (I Co 12. 21 - 25 ACF). 
  1. O dom espiritual aponta para a mutua necessidade que os crentes possuem uns dos, e em relação aos outros.
  2. Mesmo os crentes mais insignificantes podem e devem de serem honrados.
  3. Deus distribui os dons de uma forma tal que aqueles que aos olhos da comunidade são os menos honrados, e mais, carecem da mesma, sejam mais honrados.
  4. O dom estabelece a lógica da graça, a saber: nada é por mérito, mas pode favor divino.
  5. O dom manifesta o cuidado mútuo dos crentes.
Isto posto, passemos às considerações positivas a respeito do propósito dos dons espirituais na lição de Escola Bíblica Dominical.
 
CONSIDERAÇOES POSITIVAS A RESPEITO DOS DONS NA LIÇÃO DA EBD
 
Após uma abordagem negativa a respeito do proposito dos dons, o autor imediatamente passa para uma abordagem positiva, ao afirmar o proposito dos dons como instrumento de edificação. É o que Paulo dá a entender quando afirma: Que fareis pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação (I Co 14. 26ACF). O único propósito dos dons na vida da Igreja é a edificação.
A verdade é que Cristo mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo (Ef 4. 11, 12 ACF). Aqui é afirmado que a finalidade dos dons é a edificação do corpo de Cristo, e como s dá esta edificação? Por meio da obra do ministério que os santos exercem. Mas para que os santos estejam preparados para tal, necessário se faz com que os apóstolos, profetas, evangelistas e pastores mestres preparem os santos para a obra do ministério, conforme se lê no texto.
Para uma maior compreensão a respeito do que vem a ser a edificação, proponho uma reflexão a respeito das imagens que Paulo usa a imagem do edifício. Veja:
Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito (Ef 2. 19 - 22 ACF). 
Pedro vai empregar esta mesma imagem, ao afirmar: Vòs também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais /agradáveis a Deus por Jesus Cristo (I Pd 2. 5 ACF).  O propósito da edificação é a concretização da união dos povos que Deus resgatou em um único povo (Ef 2. 11 - 14). É neste ambiente comunitário que Deus habita.
Sim, pois, o proposito da edificação é que a comunidade dos fiéis seja o Templo do Senhor. É neste sentido que a Bíblia afirma: Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (I Co 3. 16 ACF), e: vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo (II Co 6. 16 ACF).
Aqui se torna evidente uma outra finalidade dos dons, a de manifestar a presença de Deus no meio dos fieis.
Mas, se todos profetizarem, e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. E, portanto, os segredos do seu coração ficam manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a   Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós (I Co 14. 24, 25 ACF). 

Este é o proposito dos dons espirituais.  

sexta-feira, 4 de abril de 2014

E deu dons aos homens

Neste trimestre, os alunos das Escolas Bíblicas Dominicais, cujas denominações utilizam as lições bíblicas da Casa Publicadora das Assembleias de Deus, estarão estudando a temática dos dons espirituais (servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário [para mais, ver aqui]). É um assunto de grande utilidade e de extrema importância, visto que aos que possuem identidade pentecostal, é comum a crença de que os dons poderosos manifestados no primeiro século de nossa era, são uma realidade para os nossos dias. Em nossa língua a palavra dom, ou dons, vem carregada de significados que muitas das vezes não coadunam com o sentido em que os autores bíblicos a empregaram. Ao lado deste fator linguístico é possível se observar ainda a emergência de teorias que descartam cada vez mais a palavra dom em favor de habilidades adquiridas. Daí a necessidade cada vez maior de um estudo sobre o assunto, visando esclarecer o mesmo ainda mais. Convido o leitor a estudar e a refletir sobre os dons de Deus, o significado da palavra no contexto atual e no bíblico.

DOM, O SENTIDO LEXICAL, VERNACULAR, E BÍBLICO

Aqui colocarei ao leitor algumas definições do vocábulo dom e farei comparações do mesmo com a Teologia Bíblica, sempre no intuito de fornecer elementos que permitam uma maior compreensão do que as Escrituras colocam o que tange à matéria em apreço. Uma consulta ao dicionário Michaelis coloca o estudioso do tema diante das seguintes definições do termo:
  1. Dádiva, presente. 
  2. Merecimento, mérito. 
  3. Dote natural; talento, prenda, aptidão, faculdade, capacidade, habilidade especial para.
  4. Bem que se goza, considerado como uma concessão da Providência. 
  5. Teol Bem espiritual proporcionado por Deus; graça, mercê (aqui).
O primeiro termo vai ser o mais empregado na Bíblia, uma vez que nas Escrituras tudo é dadiva de Deus, até o comer e o beber. Salomão chegou à seguinte conclusão:
Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida; E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus (Ec 3. 12, 13 ARCF). 
Ele também afirmou:
Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo do sol, todos os dias de vida que Deus lhe deu, porque esta é a sua porção. E a todo o homem, a quem Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus (Ec 5. 18, 19 ARCF).  
O segundo termo usualmente relacionado à questão do dom, é o mérito, e creio que é exatamente neste sentido que o uso do termo é combatido academicamente. A questão é que em termos bíblicos o vocábulo dom termina por excluir toda forma de merecimento. Não cabe o homem se gloriar daquilo que ele recebeu. A pergunta de Paulo aos crentes de Corinto é bem emblemática neste sentido: quem torna você diferente de qualquer outra pessoa? O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu, por que se orgulha, como se assim não fosse? (I Co 4. 7 NVI). Ter riquezas, carisma, habilidades, não faz uma pessoa digna de elogios, até porque nos seres humanos tais qualidades não são inatas, mas graças temporais.
A terceira definição entende o dom, como sendo a qualidade que torna uma pessoa apta a fazer determinada coisa, a compreendê-la; competência. Neste sentido, dom é sinônimo de aptidão, faculdade, habilidade; inteligência, talento, valor (aqui). Aqui tem de se considerar as observações supra. Ainda que se levem em conta habilidades naturais, estas são vistas nas Escrituras como dons que Deus graciosamente concede aos seus, não cabendo aqui mérito humano.
O quarto entendimento, que atribui ao termo a definição de bem que se goza, considerado como uma concessão da Providência, é interessante, uma vez que a definição lexical para Providencia é: A suprema sabedoria atribuída a Deus, com que ele governa todas as coisas (aqui), ou, a ação pela qual Deus conserva e governa o mundo que criou, dirigindo todos os seres ao fim que se propôs; podendo ser também a disposição antecipada de meios apropriados para se conseguir um fim, evitar um mal ou remediar uma necessidade. Aprofundarei ainda mais este tema na lição a respeito do proposito dos dons espirituais. Mas sempre que se faz referencia aos dons como carismas, esta vem associada ao governo que Cristo exerce em sua Igreja.
Por último, a salvação (Ef 2. 8, 9), a justificação (Rm 5. 15 - 18), a nova natureza (Tg 1. 17, 18), e os bens do Espírito (At 2. 38, 39); são definidos como dons nas Escrituras. Por meio dos mesmos Deus atinge um determinado fim. No caso da salvação, o de fazer do homem um ser criado para as boas obras (Ef 2. 10). Por meio da justificação, ele reconcilia o homem consigo (Rm 5. 8 - 10), ao dispor de uma nova natureza para os seus, Ele habilita o seu povo para vencer as tentações e colocar a palavra de Deus em prática (Tg 1. 12 - 16; 22 - 25). O dom do Espírito Santo é dado ao homem com vistas ao arrependimento para a remissão de pecados, bem como a capacitação do mesmo para o testemunho cristão (At 1. 8).

DOM, O SENTIDO EXEGÉTICO DO TERMO

Os escritores bíblicos empregaram de diversas palavras para se referirem aos dons. Convido ao amigo a ver algumas no presente post. Comecemos pela palavra charisma (χαρισμα), que pode ser traduzida como dom gratuito, como aqui: Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor (Rm 6. 23 ACF). Uma variação  de χαρισμα, pode ser vista no termo χαρισματα (charismata), sendo possível o entendimento do termo como as potencialidades concedidas pela graça de Deus com vistas à edificação mútua. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé (Rm 12. 6 ACF).
Neste sentido, observa Vincent tanto χαρισμα quanto χαρισματα podem significar uma benção que Deus concede aos pecadores. Isto pode ser percebido na clássica afirmação de Paulo, de que os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento (Rm 11. 29 ACF). Mas se percebe mais ainda neste texto:
Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos. E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação (Rm 5. 15, 16 ACF). 
De igual modo, este mesmo termo é empregado com respeito a um dom extraordinário do Espirito Santo visando à capacitação especial do indivíduo. Daí o conselho de Paulo ao seu filho na fé: Não desprezes o dom [χαρισματος] que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério (I Tm 4. 14 ACF).
Outros termos gregos de suma importância são, respectivamente δοσις (dósis) e δωρημα (dooreema), sendo praticamente sinônimas, visto que significam respectivamente dádiva e dom. No primeiro caso, o termo é restrito a uma ocorrência de uso paulino(Fp 4. 15), e em Tiago (Tg 1. 17). Já δωρημα (dooreema) ocorre, por exemplo na expressão δωρεα εν χαριτι (dorean en chariti [dom pela graça]), reforçando sentido do quanto a justiça de Deus que é imputada ao homem pela fé. Mas João emprega a expressão δωρεαν του θεου, para se referir ao dom de Deus, neste caso, a vida eterna, representada pela água (Jo 4. 10). Neste sentido a salvação é dom de Deus (Ef 2. 8). Mas a capacitação para o ministério tabem pode ser conceituada por δωρεαν, é o que vemos Paulo fazer ao falar do dom da graça de Deus (δωρεαν της χαριτος του θεου), que se faz ver em sua vida mediante a operação do poder de Deus.
E DEU DONS AOS HOMENS
Tu subiste ao alto, levaste cativo o cativeiro, recebeste dons para os homens, e até para os rebeldes, para que o Senhor Deus habitasse entre eles (Sl 68. 18 ACF).
De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (I Co 1. 7 ACF).
 Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes. Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo (I Co 12. 1 - 4 ACF).
Do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder (Ef 3. 7 ACF).  
Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo (Ef 4. 7 ACF).  
Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus (I Pe 4. 10).  
De forma indistinta e indiscriminada, Deus deu dons aos homens. O texto enfatiza e até para os rebeldes, para que o Senhor Deus habitasse entre eles. Isto se concretiza na igreja de Corinto, uma vez que na mesma a graça é evidenciada na forma com que vemos presente na Igreja uma variedade de dons, com imaturidade espiritual, e fortes pecados, mas o dom, ou dons, estavam presentes na vida da Igreja.
A despeito da ausência de percepção quanto ao caráter do Evangelho e consequentemente, para com os dons espirituais. Paulo reconhece que a presença dos mesmos é evidencia da presença do Espírito na comunidade. É por meio da graça de Deus que os crente exercem o serviço na comunidade e o papel do dom é decisivo quanto a este serviço.
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Lição da CPAD, para o segundo trimestre de 2014


De acordo com o editor do blog belverede as lições do segundo trimestre de Escola Bíblica Dominical irão focar os dons espirituais. O autor é o Pastor Elinaldo Renovato. Com esta lição se quebra uma cadeia de lições com temas bíblicos e inicia uma discussão de teor temático. Contudo, o estudo é de suma importância, uma vez que a despeito de sermos uma denominação pentecostal, cujo crescimento, notadamente se deu a partir da ênfase nos carismas, hoje vivenciamos uma crise paradigmática e teórica, o que nos força a estudar o assunto.
Outro excelente aspecto da lição é trazer lições que permitem a discussão de temas atuais tais como apostolado, dom de profecia e ministério profético. Acima de tudo, creio que esta lição vai abrir nossos olhos para um modelo mais orgânico de Igreja, centrado no serviço a Deus e aos homens, literalmente.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.
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