Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Lição da CPAD. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lição da CPAD. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de março de 2015

Não furtarás



O oitavo mandamento traz a proibição tocante ao roubo. A expressão לֹ֣֖א תִּֿגְנֹֽ֔ב  (lo tiganeb),usualmente traduzida por não furtarás, advém do verbo גְנֹֽ֔ב (gãnab) e seus derivados. Na lição da Escola Bíblica Dominical ele é vinculado com a proteção da propriedade privada. Minha perspectiva é de que a preocupação aqui é com o sustento e a manutenção do próximo, uma vez que a Bíblia articula a ordenança em questão com o amor ao próximo (Rm 13. 9), indicando com isto que quem ama não expropria o outro dos meios de sobrevivência.

Contudo não há, na Bíblia, uma única palavra para roubo. É importante que se conheça os demais termos para roubo, ou furto, e com isto saber que não há uma única concepção de roubo. Há outras formas de roubo, tal como as cometidas pelos governantes, ou pelos que são nomeados por eles e se valem do cargo para roubar, para se apropriarem dos bens alheios, principalmente dos pobres, um quadro bem comum aqui no Brasil.

FUNDAMENTO EXEGÉTICO

O verbo גְנֹֽ֔ב (gãnab) e seus derivados é usualmente aplicado ao furto, que é a apropriação do bem alheio, sem o uso da violência executados em oculto, incluindo o arrobamento, geralmente feito á noite (Ex 22. 2) e o rapto (Ex 21. 6). O verbo é usado também de forma figurada, para descrever a ação do vento ao levar algum objeto (Jó 21. 18; 27. 20), a deserção de uma tropa (II Sm 19. 14), e enganar as pessoas, tal como feito por Absalão (II Sm 15. 6).

Para Robinson (2012), os termos Κλέπτης, ou κλέπτω são correspondentes de גְנֹֽ֔ב (gãnab), uma vez que de igual modo são empregados para a ação de furtar algo. Este ato consiste em apoderar-se de algum bem alheio sem o consentimento do dono, mas sem o uso da violência. A palavra cleptomania advém de kleptoo, e consiste na excentricidade de cultivar o hábito de cometer pequenos furtos sem motivação econômica.

Contudo o termo ληστης  aplica-se ao que usa de violência no ato de furtar. É traduzido por salteador, mas também era aplicado aos revolucionários zelotes, que empregavam o roubo e a violência como forma de promover uma revolução que possibilitasse a libertação de Israel do jugo de Roma. É notável que tais métodos eram condenados pelos rabinos.

Jesus avaliou o método destes revolucionários ao afirmar: em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no redil das ovelhas, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante; o que entra pela porta é o pastor da ovelhas (Jo 10. 1, 2 Bíblia de Jerusalém), e: todos os que vieram antes de mim, são ladrões e assaltantes; mas as ovelhas não os ouviram (Jo 10. 8 Bíblia de Jerusalém). Aqui Cristo está dizendo claramente que seu ministério difere a ação revolucionária dos zelotas e de tantos outros que o antecederam.

AS EXIGÊNCIAS DA LEI

A lei de Moisés diz claramente: não roubarás (Ex 20. 15 Bíblia de Jerusalém), aparentemente a proibição está limitada ao ato de subtrair, sem violência um bem alheio, mas alguns textos abrem outras perspectivas. Ninguém dentre vós cometerá roubo, nem usará de falsidade ou de mentira para com o seu compatriota [...] não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás, o salário do operário não ficará contigo até a manhã seguinte (Lv 19. 11, 13 Bíblia de Jerusalém).

Na mesma proporção em que o furto é associado ao engano e à falsidade, o roubo é agregado às mais variadas formas de opressão. De modo que nos escritos de sabedoria se percebe isto com maior clareza e nitidez. Tanto que os sábios afirmam: O que tem parte com o ladrão odeia a sua própria alma; ouve maldições, e não o denuncia (Pv 29. 24 ACF).

O ímpio arma ciladas no esconderijo, como o leão no seu covil; arma ciladas para roubar o pobre; rouba-o, prendendo-o na sua rede (Sl 10. 9 ACF). Aqui se vê o roubo decorrente da opressão do mais forte sobre o mais fraco. É um quadro que se perpetua por causa dos que se omitem, mas também por causa dos que se associam ao ímpio em sua empreitada e com isto perpetuam este tipo de maldade.

A estes mesmos Deus diz: Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração (Sl 62. 10 ACF). E isto porque no fim, Deus julga a causa do que é roubado. Não roubes ao pobre, porque é pobre, nem atropeles na porta o aflito; Porque o Senhor defenderá a sua causa em juízo, e aos que os roubam ele lhes tirará a vida (Pv 22. 22, 23 ACF).

Os profetas também não poupam nenhuma forma de roubo, seja resultante da opressão, seja o simples furto. Para Oseias, o SENHOR tem uma contenda com os habitantes da terra; porque na terra não há verdade, nem benignidade, nem conhecimento de Deus. Só permanecem o perjurar, o mentir, o matar, o furtar e o adulterar; fazem violência, um ato sanguinário segue imediatamente a outro (Os 4. 1, 2 ACF).

A relativização da verdade, a perda das afeições naturais, e a ausência de sólidos relacionamentos com Deus, são fatores que fomentam a escalada da violência, contra qual Deus reage convocando um julgamento, uma vez que há uma contenda com os moradores da terra.

Por fim, Isaías decreta um ai para uma classe diferente de ladrões, aqueles que se valem da legalidade para roubar. Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que prescrevem opressão. Para desviarem os pobres do seu direito, e para arrebatarem o direito dos aflitos do meu povo; para despojarem as viúvas e roubarem os órfãos! (Is 10. 1, 2 ACF).

O MANDAMENTO E O NOVO TESTAMENTO

Tanto Jesus quanto os apóstolos se referiram ao oitavo mandamento. Um exemplo é o caso do jovem rico que ao perguntar o que poderia fazer para herdar a vida eterna, teve como resposta: Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom. Se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda? (Mt 19. 17 - 19 NVI).

Jesus reafirma aqui tanto a bondade da lei, quando a validade do oitavo mandamento. Sendo que mediante o contexto Cristo associa o que Miquéias chama de benevolência, ou beneficência, na verdade hesed [חֶ֔סֶד], que também pode ser misericórdia, com o bem revelado na vontade de Deus por meio do mandamento. Jesus disse para este jovem que caso este quisesse ser perfeito, deveria vender seus bens e dar aos pobres para então ter um galardão nos céus (Mt 19. 21, 22). 

Não basta deixar de lado o furto, é preciso associar a guarda do mandamento com a prática da justiça social. De sorte que Paulo recomenda: O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com quem estiver em necessidade (Ef 4. 28 NVI). No lugar de promover revoluções à moda Robin Hood, Paulo, o apóstolo recomenda o trabalho como forma de produção e distribuição do que pode gerar sustento próprio e alheio. 

É o amor ao próximo que leva à consumação do oitavo mandamento, como disse, e muito bem Paulo, 
Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a lei. Pois estes mandamentos: "Não adulterarás", "não matarás", "não furtarás", "não cobiçarás", e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: "Ame o seu próximo como a si mesmo". O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei (Rm 13. 8 - 10 NVI). 
UMA APLICAÇÃO PARA O CONTEXTO ATUAL

Depois de Cristo e Paulo, creio que uma das mentes mais provocadoras em torno das ideias sustentadas ao longo deste estudo tenha sido o Padre Antônio Vieira.  Desde já quero explicar que minha base teológica é o Calvinismo, não concordo com o autor supra em termos de soteriologia. Mas reconheço que este jesuíta foi um fantástico pregador e que seus sermões são peças literárias de profunda beleza, e que ele sob a luz da graça comum soube captar a verdade divina. O Sermão da Sexagésima e o Sermão do Bom Ladrão são exemplos claros da percepção aguda do literato em questão.

Eu particularmente entrei em contato com o autor em apreço ainda quando me preparava para concursos, e quando cursei o ensino médio conheci o seu famoso Sermão do bom ladrão, cujas ideias pretendo expor brevemente aqui e com maior profundidade em uma postagem posterior. Mas o teor deste sermão pode ser visto no resumo que faço abaixo da referida obra, conforme se segue: 

  1. Há ladrões que são tolerados e os que não o são. 
  2. Dentre os que são tolerados estão os que assumem cargos públicos, mas não por sua capacidade e competência, mas por causa dos conchavos políticos, e pela bajulação. 
  3. Estes começam suas carreiras como ladrões ao ascenderem aos respectivos postos por meios nada legítimos, uma vez que não são capazes para tal. 
  4. A forma ilegítima de ascensão lhes dá respaldo para o exercício ilegal, o que fomenta a corrupção. 
  5. A definição de ladrão, em Vieira, não considera quem por sua miséria se vê forçado a roubar, mas os que se valendo do cargo público roubam. 
  6. Quem nomeia tais para os respectivos cargos acaba por ser cúmplice do roubo que os mesmos praticam. 
  7. À semelhança de Zaqueu que ao ser salvo se dispôs a restituir quatro vezes o que havia defraudado, tais ladrões somente seriam absolvidos se restituíssem o que haviam defraudado. 
Tenho razões de sobra para considerar tal mensagem mais do que atual. Primeiro, é mais fácil execrar o corsário, o pirata, e atualmente o que trabalha com produtos piratas, do que ver com o mesmo desprezo quem é nobre e rouba através de meios mais sutis. As observações dois, três e quatro são mais do que conhecidas de todos os leitores desta nação, e aqui posso me valer das palavras do próprio Vieira, para quem:
O que não entra pela porta, esse é ladrão e roubador (Jo 10. 1). A porta por onde legitimamente se entra se entra ao ofício é só o merecimento, e todo o que não entra pela porta, não só diz Cristo que é ladrão, senão "ladrão e ladrão". E por que é duas vezes ladrão? Uma vez porque furta o ofício, e outra vez porque há de furtar com ele. O que entra pela porta poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são. Uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno e todos pela negociação. E quem negocia, não há mister outra prova: já se sabe que não vai a perder. Agora será ladrão oculto, mas depois será ladrão descoberto, que esse é, como diz São Jerônimo a diferença de "fur a latro" [o que furta do que rouba] (Vieira, 2009, pp 191
Feitas tais considerações, gostaria de me deter na definição que Vieira faz de ladrão
Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e a vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: "não é grande a culpa de alguém que furtar para saciar a sua esfaimada alma" (Pv 6. 30). O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre, e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e predicamento distingue muito bem São Basílio Magno: "não são só ladrões, o que cortam bolsas ou espreitam o que vão se banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam povos (Vieira, 2009, p.p. 188). 
Nada pode ser mais atual do estas considerações feitas por Vieira, que além de se espantar com o esquema de roubalheira, se espantou com o silêncio dos pregadores diante de tamanhas maracutaias. Fico a imaginar qual seria a reação do mesmo diante do contrastante Brasil que manda para a cadeia ladrões que cometeram furtos visando matar a fome e até hoje estão presos e os ladrões que se valeram dos cargos comissionados, dos eletivos, e das indicações e nem de longe são tocados pelo braço da justiça. 
quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado a um carneiro, e no mesmo dia ser levado em trinfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta consideração Sidônio Apolinar: "não cessa de punir, e de fazer ao mesmo tempo, furtos" (Vieira, 2009, p.p. 189). 
A leitura destas palavras me traz à memória o momento da cassação do mandato de Fernando Collor de Mello, em que os que lideraram a cassação de seu mandato logo foram associados à casos de corrupção. A austeridade neste caso foi uma capa, para a maldade e rapina existente na vida do indivíduo. 

Ao lado do processo de conscientização, gostaria de propor que a Igreja ore pela nação, a fim de que Deus exponha esta corrupção, mas que levante outros homens corajosos a fim de que julguem estes os responsáveis pelos mensalões, petrolões, e tantos outros que espoliam o povo. No momento atual se rouba ao preservar algumas pessoas que, a despeito do comprovado envolvimento, nas operações lava jato da vida, impõe-se uma condenação fajuta aos peixes pequenos, e pior se passa a conta a ser paga para o povo, quando os verdadeiros ladrões é que deveriam restituir. Oremos para que Deus intervenha com justiça. 

Marcelo Medeiros. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Não matarás



Ao se deparar com o mandamentos não matarás, é bem provável que o leitor da Bíblia se pergunte: qual é a extensão deste mandamento, ele alcança a radicalidade do pacifismo total, ou ele possui restrições (com isto, o que estou perguntando é: matar é terminantemente proibido, ou há ocasiões em que se permite matar)? Ao que me parece a Bíblia responde inicialmente esta questão com permissão do exercício da vingança ao sangue derramado, ou a pena capital. Mas qual é a extensão desta referida punição? Estas são algumas das perguntas que com a ajuda de Deus pretendo responder brevemente neste post. 
A ORIGEM DO ASSASSINATO

A primeira consideração que um estudioso da matéria, que pretenda entender a mesma à luz das Escrituras, precisa fazer, é a de que o assassinato é uma consequência do pecado. O primeiro relato bíblico de um homicídio é o de Caim e Abel, e me arrisco a dizer que se analisados os fatos à luz do direito moderno, ele se deu por motivos fúteis. A oferta do último fora aceita, ao passo que a do primeiro não, ele se irou e premeditadamente armou uma cilada para seu irmão no campo e o matou. Ao ser chamado por Deus e inquirido a respeito do seu irmão, este respondeu que não era guarda do mesmo (Gn 4. 1 - 10). 

Sabedor de que Abel fora morto, Deus amaldiçoa Caim. A maldição consiste em que a terra que bebeu o sangue de seu irmão não mais produziria de forma abundante ao assassino. A lição que fica aqui, e retornarei à mesma na sequencia deste estudo é a de que Deus não instituiu de imediato a pena de morte, pelo contrário, ele marcou Caim de forma tal que ninguém o tocasse. Seu castigo foi viver errante pela terra fugindo da presença de Deus (Gn 4. 11 - 16). No dizer dos sábios de Israel, o homem carregado do sangue de qualquer pessoa fugirá até à cova; ninguém o detenha (Pv 28. 17 ACF). Em outras palavras, o assassino atormentado pela culpa será fugitivo até a morte, que ninguém o proteja (Pv 28. 17 NVI). 

O caso de Caim convém ser estudado por ser o texto mais claro do Antigo Testamento que informa as motivações possíveis de um assassinato. Na interpretação do apóstolo joão as motivações deste fratricida estavam no seu interior, ele odiava seu irmão e por isto o matou (I Jo 3. 12ss). Voltando ao texto inicial, é de suma importância a percepção de que o agressor foi confrontado por Deus, que o indagou nos seguintes termos: 
porque estás irritado e porque teu rosto está abatido? Se estivesses bem disposto não levantarias a cabeça, não jaz o pecado à porta como um animal acuado que te espreita; podes acaso dominá-lo? (Gn 4. 6, 7 Bíblia de Jerusalém). 
O ódio de Caim à pessoa de Abel tinha suas motivações nos desejos que aquele trazia em relação a este. a ausência de domínio abre as portas para que o assassinato ocorra, daí que mesmo na dispensação da lei Deus diga: não terás no teu coração ódio pelo teu irmão. Deves repreender teu compatriota e, assim, não terás culpa pelo teu pecado. Não te vingarás, e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo (Lv 19. 17, 18 Bíblia de Jerusalém). 

Mas ao que tudo indica o pecado possui uma progressão, tanto que Lamec, descendente de Caim entrou nos anais da história sagrada como o homem que matou duas pessoas por motivos extremamente fúteis (Gn 4. 23). Este é o motivo pelo qual deus disse na lei: O derramamento de sangue profana a terra, e só se pode fazer propiciação em favor da terra em que se derramou sangue, mediante o sangue do assassino que o derramou (Nm 35. 33 NVI). 

Aqui, gostaria de chamar a atenção do leitor para o emprego de um verbo hebraico הַרְגֵֽ (harag), ferir com intenção de matar. Serve tanto para descrever o que Caim fez com Abel, quanto o que Lamec fez com os homens que matou. Os atos deles atingiram proporções exponenciais no período que antecedeu o dilúvio, dando assim origem à pena capital. 

A PENA CAPITAL

Após o dilúvio Deus disse para Noé as seguintes palavras: 
A todo que derramar sangue, tanto homem como animal, pedirei contas; a cada um pedirei contas da vida do seu próximo. "Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado (Gn 9. 5, 6 NVI). 
O que se percebe aqui?

  1. De agora em diante a desculpa de Caim não cola mais, visto que Deus pede a cada ser humano contas pela vida do seu próximo. 
  2. Quem derramar sangue do seu próximo, terá o próprio sangue derramado, visto que o derramamento de sangue profana a terra (Nm 35. 33), e para a expiação da mesma requer que sangue seja derramado. 
  3. É na imagem que o homem traz de Deus que está a base para a dignidade humana, bem como da inviolabilidade da vida. 
Isto significa que o texto, por si só constitua base sólida para e pena capital? De forma alguma! Perceba pelo texto que a pena é um mero instrumento pelo qual Deus pede contas pela vida que foi extirpada de forma violenta e pecaminosa. Este foi, por exemplo, o caso de Joabe, general do exército de Davi, 
Quando a notícia chegou a Joabe, que havia conspirado com Adonias, ainda que não com Absalão, ele fugiu para a Tenda do Senhor e agarrou-se às pontas do altar. Foi dito ao rei Salomão que Joabe havia se refugiado na Tenda do Senhor e estava ao lado do altar. Então Salomão ordenou a Benaia, filho de Joiada: "Vá matá-lo! " Então Benaia entrou na Tenda do Senhor e disse a Joabe: "O rei lhe ordena que saia". "Não", respondeu ele, "Vou morrer aqui". Benaia relatou ao rei a resposta de Joabe. Então o rei ordenou a Benaia: "Faça o que ele diz. Mate-o e sepulte-o, e assim você retirará de mim e da minha família a culpa do sangue inocente que Joabe derramou. O Senhor fará recair sobre a cabeça dele o sangue que derramou: ele atacou dois homens mais justos e melhores do que ele, sem o conhecimento de meu pai Davi, e os matou à espada. Os dois homens eram Abner, filho de Ner, comandante do exército de Israel, e Amasa, filho de Jéter, comandante do exército de Judá (I Rs 2. 28 - 32 NVI). 
Neste texto, Joabe foi morto por ter matado (e isto em tempo de guerra civil), de forma covarde a Abner, quando este tentava fazer aliança com Davi (II Sm 3. 26). Neste caso, o assassino tem de ser morto mesmo que esteja agarrado à ponta do altar (Ex 21. 14), não bastasse isto, Joabe também tinha em sua conta a morte traiçoeira de Amasa (II Sm 20. 10).  Pode-se dizer que no caso de Joabe, foi usada a forma jurídica e a aplicação penal, mas não foi este o caso do rei Joás. 

A história deste é muito simples. Ele foi um sobrevivente de uma conspiração de Atalia para tomar o trono, mas ainda era muito novo quando começou a reinar, e assim sendo recebeu suporte de Joiada, o sumo sacerdote, mas quando o sacerdote morreu ele atendeu aos líderes do povo e com isto voltou às práticas idolátricas. Durante este período, Deus levanta o filho de Joiada como profeta para repreender ao povo, veja:
Então o Espírito de Deus apoderou-se de Zacarias, filho do sacerdote Joiada. Ele se colocou diante do povo e disse: "Isto é o que Deus diz: ‘Por que vocês desobedecem aos mandamentos do Senhor? Vocês não prosperarão. Já que abandonaram o Senhor, ele os abandonará’ ". Mas, alguns conspiraram contra ele e, por ordem do rei, apedrejaram-no até à morte no pátio do templo do Senhor. O rei Joás não levou em conta que Joiada, pai de Zacarias, tinha sido bondoso com ele, e matou o seu filho. Este, ao morrer, exclamou: "Veja isto o Senhor e faça justiça! "  (II Cr 24. 20 - 22 NVI)
A falta de pulso por parte do rei, de gratidão para com um descendente de um sacerdote que o apoiou, e a deliberação covarde já são, por si sós, causa de repugnância ao ato em si, mas o mais interessante foi o clamor do justo "Veja isto o Senhor e faça justiça! ". Segundo a Bíblia, Deus é: Aquele que pede contas do sangue derramado não esquece; ele não ignora o clamor dos oprimidos (Sl 9. 12 NVI). E foi o que aconteceu com Joás, que após uma batalha contra os arameus, ficou 
seriamente ferido. Seus oficiais conspiraram contra ele, porque ele tinha assassinado o filho do sacerdote Joiada, e o mataram em sua cama. Assim ele morreu e foi sepultado na cidade de Davi, mas não nos túmulos dos reis. Os que conspiraram contra ele foram Zabade, filho da amonita Simeate, e Jeozabade, filho da moabita Sinrite (II Cr 24. 25, 26 NVI). 
Perceba que o texto sagrado liga a morte de Joás à conspiração que este fizera contra o filho do sacerdote Joiada, ou seja, Deus mesmo aplicou, à sua maneira a pena capital. O vingador גֹּאֵ֣ל (go'el) é devidamente regulamentado em Nm 35. 19 - 28, sendo que a vingança somente poderia ser exercida em casos nos quais a intenção de matar, ou o risco presumido ficasse evidenciado, ou mediante o depoimento de duas, ou mais testemunhas. 

Mas o fato inconteste é que em alguns casos o próprio Deus se coloca como  גֹּאֵ֣ל (go'el), vingador. Isto é visto, por exemplo no caso em que Deus mesmo se levanta contra Abimeleque para vingar os setenta filhos de Gideão que ele matou. 
Fazia três anos que Abimeleque governava Israel, quando Deus enviou um espírito maligno entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém, e estes agiram traiçoeiramente contra Abimeleque. Isso aconteceu para que o crime contra os setenta filhos de Jerubaal, o derramamento do sangue deles, fosse vingado em seu irmão Abimeleque e nos cidadãos de Siquém que o ajudaram a assassinar os seus irmãos (Jz 9. 22 - 24 NVI). 
O desfecho da história em apreço foi o mais simples possível, ele morreu ferido por uma pedra lançada por uma mulher do alto de uma torre, ainda agonizante suplicou ao seu escudeiro que terminasse o trabalho, para que a honra de sua morte não fosse dada a uma mulher. Assim Deus retribuiu a maldade que Abimeleque praticara contra o seu pai, matando os seus setenta irmãos. Deus fez também os homens de Siquém pagarem por toda a sua maldade. A maldição de Jotão, filho de Jerubaal, caiu sobre eles (Jz 9. 56, 57 NVI).  

Minha conclusão a respeito da pena capital é a de que nem sempre esta é aplicada por homens, e em alguns casos os homens,por pura graça são isentos desta, este foi o caso de Davi. Creio que não cabe ao crente a defesa da pena capital, por parte do Estado, visto ser este um instrumento falho, e que em casos específicos a Bíblia fala de graça, de perdão, de absolvição, como no caso de Davi. 

NÃO MATARÁS

Ao resumir a aliança que fez com Israel, nas estepes do Sinai, Deus ordena definitivamente não matarás (לֹ֥֖א תִּֿרְצָֽ֖ח׃ [lo tirashah]), sendo que o verbo רְצָֽ֖ח׃ (rashah) é usualmente empregado para um assassinato premeditado. com isto fica claro que antes de se consumar como prática, o homicídio existe enquanto sentimento, intenção, ou predisposição. Tal fica claro na medida em que se lê o seguinte texto:
Quem ferir um homem, vindo a matá-lo, terá que ser executado. Todavia, se não o fez intencionalmente, mas Deus o permitiu, designei um lugar para onde poderá fugir. Mas se alguém tiver planejado matar outro deliberadamente, tire-o até mesmo do meu altar e mate-o (Ex 21. 12 -14)
Somente o assassinato que não fosse premeditado, seria isento da vingança. Mas ao que parece ferir, não é a única forma de se assassinar. Ao que tudo indica, falsas acusações também era um modo de matar uma pessoa inocente, daí a recomendação divina: Não se envolva em falsas acusações nem condene à morte o inocente e o justo, porque não absolverei o culpado (Ex 23. 7 NVI).  

Um exemplo prático desta prática foi o de Nabote, que por ter recusado vender sua vinha para Acabe, sofreu falsas acusações da parte de jovens vadios (I Rs 21. 1 - 13). o desfecho? Deus mesmo executou juízo contra Jezabel, Acabe, e toda a sua casa (I Rs 21. 19, 20). O mesmo se deu em relação a Jesus, que foi condenado com base no testemunho de falsas testemunhas (Mt 27. 4ss). 

O ensino do Novo Testamento ratifica o respeito á vida, mas Jesus indica que na ira e na amargura estão a raiz do homicídio (Mt 5. 21, 22), ou seja, antes de ser um problema legal, jurídico, o assassinato é psicológico, pois procede do coração humano (Mt 15. 18 - 20). Aqui observa-se aquilo que Deus disse para Caim, o teu desejo será contra ti

Em Cristo, Marcelo Medeiros. 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Santificarás o Sábado



Dos mandamentos do decálogo, nove possuem caráter normativo, e apenas um funciona como uma forma de memorial. Este é o mandamento referente ao sábado. As palavras de Deus para Moisés foram: lembra-te do dia de sábado para o santificar (Ex 20. 8 ARA). O sábado deveria de ser posto à parte. Mais ainda, ele marcaria o relacionamento de Deus com Israel. Mesmo assim, não ha indícios de que Adão, Noé, e os demais patriarcas tenham guardado o sábado. Todavia, este mandamentos tem se tornado o cavalo de batalha na relação entre crentes históricos e grupos sectários. Daí a necessidade de reflexão sobre este mandamento. 

O SÁBADO NA CRIAÇÃO
E, havendo Deus terminado no dia sétimo da sua obra, que fizera, descansou neste dia de toda a sua obra que havia feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou. Porque nele descansou de toda obra que como criador fizera (Gn 2. 2, 3 ARA). 
O texto em língua vernácula afirma que Deus descansou, e quando descansou, ao terminar toda a sua obra que havia feito. Descansou porque se sentiu cansado? De forma alguma! Aqui se pode recorrer à fala de Isaías, que diz: não sabes, não ouvistes, que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos confins da terra, nem se cansa, nem se fadiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento (Is 40. 28 ARA). 

A expressão nayekal [וַיְכַ֤ל], é flexão do verbo kalah, cujo sentido é o de completar, preparar, consumar, fazer cessar. Ao concluir a sua obra Deus descansou, mas não descansou em um mundo caído, manchado pelo pecado, mas em um cosmos ainda permeado pela ordem. Foi por este motivo que Santo Agostinho (citado com extrema propriedade pelo autor da lição), viu aqui um prelúdio do descanso final, reservado aos santos na regeneração de todas as coisas. 
Ora o sétimo dia não tem crepúsculo. Não possui ocaso, porque Vós o santificastes para  permanecer eternamente. Aquele descanso com que repousastes no sétimo dia após tantas obras excelentes e sumamente boas - as quais realizastes sem fadiga - significa-nos, pela palavra de vossa Escritura, que também nós depois de nossos trabalhos, que são bons, porque no-los concedeste, descansaremos em Vós, no sábado da vida eterna (Confissões, Livro XIII, 36. 51). 
Partindo da omissão, dos autores sagrados, da frase houve tarde e manhã, e [...]  Agostinho conjectura que o sábado da primeira criação era um símbolo do descanso final. Partindo das elucubrações deste pensador, entendo aqui que o sábado inicial tinha este caráter também, e que cessou quando o homem pecou e se alienou de Deus. 

Para Agostinho, o Deus que age e opera em nós, finalmente descansará em nós. Para este gigante da era patrística tanto o agir, quanto o descansar provinham de Deus. Assim, o descanso somente é pleno na medida em que o homem se relaciona com Deus de forma íntima e confiante, e na eternidade este relacionamento jamais cessará. 

O SÁBADO E ISRAEL NO DESERTO

Não há registro bíblico de que os patriarcas tenham guardado o sábado. Ele somente irá aparecer na vida dos israelitas em decorrência da provisão do maná no deserto. Por todos os dias da semana o povo colhia do maná somente o que lhe dava para a subsistência, ao passo que no sábado eram colhidas duas porções, a do dia, e do dia seguinte. Depois do maná, Deus o institucionaliza no Sinai. Assim, 
Ao sexto dia, colheram pão em dobro, dois gômeres para cada um; e os principais da congregação vieram e contaram a Moisés. Respondeu-lhes ele: isto é o que disse o Senhor: amanhã é repouso, o santo sábado do Senhor; o que quiserdes cozer no forno cozei-o, e o que quiserdes cozer em água, cozei-o em água, tudo o que sobrar separai para a manhã seguinte. E guardaram-no até a manhã seguinte, como Moisés ordenara; e não cheirou mal, nem deu bichos. Então disse Moisés, comei-o hoje, porquanto o sábado é do Senhor; hoje não o achareis no campo. Seis dias o colhereis, mas o sétimo é o sábado, nele não haverá (Ex 16. 22 - 26 ARA). 
Neste contexto o descanso do sábado representa a confiança na providência divina, que restringe o homem do trabalho excessivo visando acúmulo de bens (neste caso representado pelo maná, que nos demais dias não durava até o dia seguinte). Aqui se desenham as primeiras lições do Evangelho de Cristo. A providência é diária, o pão, é de cada dia, o que se acumula apodrece. A única exceção é o sábado. Na véspera deste a medida é em dobro, indicando com isto que a única justificativa para o acúmulo é a fruição sadia, conforme delineado no livro de Eclesiastes [aqui]. 

Conforme subtendido na fala de Santo Agostinho, o Deus que trabalha em nós (emprego o pronome na primeira pessoa, visto que os autores citados assim o fazem), no qual nos movemos e existimos, é o mesmo do qual Isaías fala. Fato é que desde a antiguidade não se ouviu, nem com os ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu, Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera (Is 64. 4 ARA). O mesmo Deus que ordenou o trabalho para o homem, o convida ao descanso reparador. A esta altura convém ver de perto o sábado e a lei. 

O SÁBADO E A LEI

Na lei, especificamente no decálogo, o sábado aparece enquanto instituição divina. Eis as palavras que Deus disse á Moisés do meio da tempestade:
Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas de dentro, porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou (Ex 20. 8 - 11 ARA). 
Além do descanso auto imposto, o mandamento do sábado é estendido a todas as esferas de relacionamento do judeu. Para ver mais a respeito do sentido do trabalho na Bíblia, veja este artigo aqui. Perceba que a ênfase do mandamento não está na ociosidade, mas no ócio reparador, que permite ao homem continuar sua atividade criadora por meio do trabalho, esta é a primeira questão. a segunda é que o sentido de trabalho equivale a sofrimento, lembrando da punição dada ao homem no Édem (Gn 3. 19 ss). Não se irrite caro leitor, pois a lei diz que o sábado é sinal de uma aliança entre Iahweh e seu povo, leia:
Tú pois falarás aos filhos de Israel e lhes dirás: : certamente guardareis os meus sábados; pois, é sinal entre mim e vós nas vossas gerações, para que saibais que EU SOU o senhor que vos santifica. Portanto guardarei o sábado, porque é santo para vós outros; aquele que o profanar morrerá, pois qualquer que fizer nele alguma obra será eliminado do meio do seu povo. Seis dias se trabalhará, porém o sétimo dia, é o sábado de repouso solene, santo ao Senhor, qualquer que no dia de sábado fizer alguma obra morrerá. Pelo que os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando-o por aliança perpétua  nas suas gerações. Entre mim e os filhos de Israel , é sinal é sinal para sempre, porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, e, no sétimo dia descansou, e tomou alento (Ex 31. 13 - 17 ARA). 
Neste contexto o sábado é o corolário da aliança de Deus com o seu povo na antiga dispensação, é estatuto perpétuo entre Deus e Israel, exclusivamente, não sendo imposto aos gentios sequer pela Igreja de Jerusalém, ou por Paulo em qualquer de suas cartas. Sendo mencionado nos Evangelhos em razão da controvérsia entre Jesus e os fariseus. 

O SÁBADO NO CONTEXTO DO EVANGELHO

A guarda do sábado conforme visto até aqui é o corolário de uma vida pautada na obediência aos mandamentos e na confiança na provisão divina. O problema é que a lei que foi dada para a graça foi transformada em mérito pelo homem, e os fariseus são os principais responsáveis por este mal entendido. Na verdade em razão da cobiça humana, os mandamentos se tornaram inviáveis, inviabilizando com isto o descanso sabático. 

Mais do que isto, na controvérsia entre Jesus e os fariseus, o sábado aparece como empecilho para a realização da obra do reino de Deus. O caso de uma mulher que andava encurvada pela ação de um demônio é emblemático, o mesmo se pode dizer de um homem que foi á casa de um fariseu, para lá ser curado por Jesus (Lc 13. 10 - 17; 14. 1 - 5). A lição que fica é que se a lei é distorcida, ou enfraquecida pela carne, o sábado se anula. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros. 

sábado, 31 de janeiro de 2015

Não Tomarás o Nome do Senhor em Vão



No presente post, farei uma breve abordagem do terceiro mandamento do decálogo, cuja citação segue na íntegra: Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão (Ex 20. 7 ACF). De acordo com o autor da lição, o que se pretende combater aqui é o juramento falso, uma vez que na antiguidade os contratos eram firmados mediante juramento. É isto que se pode deduzir das mais variadas passagens que se encontram no mesmo contexto deste mandamento.

Para o autor da lição os relacionamentos entre os filhos do povo de Israel deveriam ser pautados na honestidade. Tal pensamento encontra seus ecos nas palavras de Moisés, que disse: Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo; Nem jurareis falso pelo meu nome, pois profanarás o nome do teu Deus. Eu sou o Senhor (Lv 19. 11, 12 ACF).

O NOME DE DEUS

Os nomes de Deus podem ser divididos da seguinte forma: nomes genéricos, e nomes específicos. No primeiro caso figuram: אֱלֹהִ֑ים (elohim), na verdade este termo é o plural de Deus אֱלֹ (El); e עֶלְיֹֽון׃ (Elyon), cujo significado mais comum tem sido a expressão o Altíssimo (Sl 77. 10; 78. 17, 56; 82. 6;  91. 1, 9), são alguns exemplos de ocorrência desta expressão para se referir a Deus. Em algumas ocasiões אֱלֹ (El) e עֶלְיֹֽון׃ (Elyon), são combinados de forma a darem origem a uma nova expressão  לְאֵ֥לעֶלְיֹֽון׃ (El Elyon), ou Deus Altíssimo, que por sua vez ocorre quatro vezes em (Gn 14. 18 - 22).

Os nomes específicos são: אֲדֹנָ֤י (Adonai), frequentemente usado na leitura da sinagoga para substituir יֱהוִה֙ (Jeová, ou Iahweh), o impronunciável tetragrama hebraico. Em dos diálogos entre Deus e Abraão, o autor do relato descreve o patriarca se referindo a Deus pelo nome אֲדֹנָ֤י יֱהוִה֙ (Senhor Deus [Gn 15. 2  ACF]). Ao revelar o seu nome Eterno para Moisés, o Todo poderoso lhe disse: E eu apareci a Abraão, a Isaque, e a Jacó, como o Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome, o Senhor, não lhes fui perfeitamente conhecido (Ex 6. 2 ACF) . אֵ֣ל שַׁדָּ֑י (El Shaday), este foi o nome pelo qual os Deus se revelou aos patriarcas.

Mas por que falar em nomes de Deus em um estudo a respeito do juramento? Por uma razão bastante simples: o nome de Deus é santo קָדְשֹׁ֑ו (Qadosch), e santidade do seu nome jamais deve de ser profanada, seja em razão de um juramento, falso, ou de uma conduta não condizente com a condição de crentes em Cristo. No caso do judeu, por exemplo, Paulo afirmou categoricamente, que por causa do comportamento incoerente dos mesmos, o nome de Deus era blasfemado entre as nações, veja:
então você, que ensina os outros, não ensina a si mesmo? Você, que prega contra o furto, furta? Você, que diz que não se deve adulterar, adultera? Você, que detesta ídolos, rouba-lhes os templos? Você, que se orgulha na lei, desonra a Deus, desobedecendo à lei? Como está escrito: O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vocês (Rm 2. 21 - 24 NVI). 
Neste texto em particular o apóstolo das nações articula uma citação do profeta Isaías, que vale à pena ser lida em seu contexto original, e depois, articulada com o ensino de Paulo, pelo viés da Hermenêutica canônica.
E  agora o que tenho aqui? , pergunta o Senhor. Pois o meu povo foi levado por nada, e aqueles que os dominam zombam, diz o Senhor. E o dia inteiro o meu nome é constantemente blasfemado (Is 52. 5 NVI). 
Isaías profere este oráculo como alusão à libertação futura, do exílio que ainda está por vir. A causa deste? A desobediência do povo aos mandamentos da aliança. Acontece que, mesmo não sendo observado entre os judeus os pecados claramente denunciados pelos profetas, é perceptível que a fidelidade dos mesmos aos mandamentos divinos, é no mínimo parcial, e isto ao ponto de Paulo dizer: você, que se orgulha na lei, desonra a Deus, desobedecendo à lei?

O JURAMENTO FALSO

Não jurem falsamente pelo meu nome, profanando assim o nome do seu Deus (Lv 19. 12 NVI). Jurar falsamente é típico de pessoas infiéis, que não buscam a verdade. Embora digam: ‘Juro pelo nome do Senhor’, ainda assim estão jurando falsamente (Jr 5. 2 NVI). Mas a verdade ressaltada pelo profeta Jeremias, é que o templo de nada adianta, quando se quebra a lei, inclusive os que juram falsamente pelo nome do Senhor
Vocês pensam que podem roubar e matar, cometer adultério e jurar falsamente, queimar incenso a Baal e seguir outros deuses que vocês não conheceram, e depois vir e permanecer perante mim neste templo, que leva o meu nome, e dizer: Estamos seguros!, seguros para continuar com todas essas práticas repugnantes?  (Jr 7. 9, 10 NVI). 
Deus promete juízo contra os que juram enganosamente.
Eu virei a vocês trazendo juízo. Sem demora vou testemunhar contra os feiticeiros, contra os adúlteros, contra os que juram falsamente e contra aqueles que exploram os trabalhadores em seus salários, que oprimem os órfãos e as viúvas e privam os estrangeiros dos seus direitos, e não têm respeito por mim, diz o Senhor dos Exércitos  (Ml 3. 5 NVI).  
perceba que:
  1. O juramento falso é colocado em pé de igualdade com todos os demais pecados. 
  2. Tal como ocorre com os demais pecados, o falso juramento atrai a ira de Deus sobre todos quanto o praticam. 
  3. Pode produzir falsa sensação de segurança.  
No Novo Testamento, tanto Jesus quanto Tiago levantarão questão em torno do juramento. Para o Filho de Deus o juramento deveria ser evitado à todo custo
Vocês também ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não jure falsamente, mas cumpra os juramentos que você fez diante do Senhor. Mas eu lhes digo: Não jurem de forma alguma: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o estrado de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei.
E não jure pela sua cabeça, pois você não pode tornar branco ou preto nem um fio de cabelo. Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno" (Mt 5. 33 - 37 NVI). 
O nome de Deus é devidamente honrado quando a palavra é firme. Não se deve jurar por nada, visto que ninguém possui o controle do curso da vida. e toda vez que se evoca algo em juramento, se faz por algo que maior. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Lição da CPAD, para o segundo trimestre de 2014


De acordo com o editor do blog belverede as lições do segundo trimestre de Escola Bíblica Dominical irão focar os dons espirituais. O autor é o Pastor Elinaldo Renovato. Com esta lição se quebra uma cadeia de lições com temas bíblicos e inicia uma discussão de teor temático. Contudo, o estudo é de suma importância, uma vez que a despeito de sermos uma denominação pentecostal, cujo crescimento, notadamente se deu a partir da ênfase nos carismas, hoje vivenciamos uma crise paradigmática e teórica, o que nos força a estudar o assunto.
Outro excelente aspecto da lição é trazer lições que permitem a discussão de temas atuais tais como apostolado, dom de profecia e ministério profético. Acima de tudo, creio que esta lição vai abrir nossos olhos para um modelo mais orgânico de Igreja, centrado no serviço a Deus e aos homens, literalmente.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Créditos!

Por favor, respeite os direitos autorais e a propriedade intelectual (Lei nº 9.610/1998). Você pode copiar os textos para publicação/reprodução e outros, mas sempre que o fizer, façam constar no final de sua publicação, a minha autoria ou das pessoas que cito aqui.

Algumas postagens do "Paidéia" trazem imagens de fontes externas como o Google Imagens e de outros blog´s.

Se alguma for de sua autoria e não foram dados os devidos créditos, perdoe-me e me avise (blogdoprmedeiros@gmail.com) para que possa fazê-lo. E não se esqueça de, também, creditar ao meu blog as imagens que forem de minha autoria.