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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Lição da EBD n° 6: O exemplo Pessoal na Educação dos Filhos



O título desta lição sugere que a educação não se restringe á inculcação de normas, mas que a mesma se dá primordialmente quando nossas atitudes e palavras se tornam paradigma na vida das pessoas. Não é sem razão que a confissão de fé do judaísmo começa com o שְׁמַ֖ע יִשְׂרָאֵ֑ל (shemá Ishra'el), ouve ó Israel, visto que aquele que não ouve não pode ensinar, mas o texto avança para Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças (Dt 6. 5 ARCF), indicando com isto que a única possibilidade de sucesso em nossa educação familiar é a de que esta tenha por base o amor que temos a Deus, do contrário nossos filhos não crerão. Mais do que um manual de regras, nossos filhos precisam ver em nós exemplos vivos da fé em Cristo.

I) O Conceito de Educação

Educação é algo que sempre ocorre quando seres humanos, em convivência uns com os outros, resolvem compartilhar conhecimentos e práticas uns com os outros. Em seu clássico Pedagogia do Oprimido o grande mestre e educador Paulo Freire propôs que ninguém educa ninguém, mas que os homens educam uns aos outros midiatizados pelo mundo. Em outras palavras cada um possui uma percepção de mundo e a educação de fato ocorre quando o ser humano compartilha com o outro a sua percepção. ISTO É EDUCAR.

Em nosso léxicos educação se define como: ação de desenvolver as faculdades psíquicas, intelectuais e morais. Mas em função de que se educa e se desenvolve as potencialidades (categoria aristotélica)humanas? Uma segunda definição do dicionário nos ajudaria nisto. Educação também é: conhecimento e prática dos hábitos sociais. Aqui percebemos que o homem, na verdade é educado a fim de atender as demandas de uma sociedade, ou, de um determinado tempo. Foi assim com a educação grega, com a romana, e com a judaica. Nesta última a preocupação suprema era com a guarda da lei em um mundo totalmente oposto à moral revelada na lei.

Educamos com nossas palavras, com a transmissão de culturas, de ensino, de hábitos, e educamos silenciosamente, quando o fazemos por meio do nosso exemplo. Aqui nos deparamos com uma palavra que precisa sim de uma cuidadosa definição. Em toda a Escritura, o texto que me vem à memória a respeito de educação por meio do exemplo é a recomendação de Paulo à Timóteo: sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza (I Tm 4. 12 ARCF). Neste caso não está se falando de educação no lar, mas da educação eclesiástica. A fim de melhor explorar o tema convém abordar a respeito da força do exemplo na educação, mas o que é exemplo.

II) A Força do Exemplo na Educação

Exemplo é mesmo que: aquilo que pode ser imitado, fato de que se tira ensinamento ou proveito, citação de um autor, a qual se menciona para fundamentar uma regra, ou uma opinião, modelo, provérbio, ditado, rifão, anexim. As definições do dicionário colocam dois tipos de exemplos: o pessoal, e o literário. E no caso deste último, mesmo os provérbios podem ser exemplo. Embora o autor da lição tenha elaborado semelhante tema apelando para o exemplo pessoal, na verdade, o exemplo que vemos no livro de Provérbios é mais neste estilo.

O fato mais do que obvio é que nos formamos e nos constituímos como seres humanos de caráter, ou não, à partir do exemplo dos outros. Trazemos algo conosco daquele pai lutador e aguerrido, ou daquela mãe esforçada, aquele professor. Na verdade não há educação plena, não forem os exemplos que as pessoas deixam para nós.

Uma questão pontual para o autor de provérbios é: com quem convivemos, a fim de nos deixarmos influenciar por esta pessoa? Esta questão aparece já no primeiro capitulo quando o autor afirma:
Meus filhos se os pecadores quiserem te seduzir, não consintas! Se disserem: "vem conosco, façamos emboscadas mortais, gratuitamente prendamos o inocente; nós os tragaremos vivos como o Xeol, inteiros como os que baixam a cova! Obteremos riquezas magnificas, encheremos nossa casa com despojos. Reparte tua sorte conosco, e todos teremos uma bolsa comum!".
Meu filho, não os acompanhes em seu caminho, afasta os teus passos dos teus trilhos; porque os pés deles correm para o mal, apressam-se em derramar sangue, é em vão, porém, que estendem a rede, sob os olhos do que tem asas. Suas insidias serão mortais para eles, atentam contra si próprios! Tal é a sorte do homem ávido de rapina, ela tira a vida daqueles em que ela habita (Pv 1. 10 - 19 Bíblia de Jerusalém).
Outra questão central para os sábios judeus é o homem que sabe filtrar um bom conselho, ou melhor, não segue o conselho dos ímpios. Isto porque somente pedimos conselhos a quem exerce algum tipo de influência sobre nós. Daí a fala do Salmista: Feliz o homem que não vai ao conselho [ לְעֵצָ֣הdos ímpios (Sl 1. 1 Bíblia de Jerusalém).

A força do exemplo pode ser vista de forma negativa. O homem casado que se envolve com prostitutas e ao fim de sua vida tem suas posses expoliadas (Pv 5. 3 - 10); o jovem solteiro que se deixa enlaçar por uma mulher sedutora, porem casada (Pv 6. 23 - 7. 21); o estulto, ou a pessoa que não ama o conhecimento (Pv 1. 7; 9. 7, 8; 12. 1; 15. 12); são formas de exemplo negativo. Salmos didáticos também trazem este mesmo tipo de exemplo (Sl 78).

A grande dificuldade que se tem com o exemplo na atualidade se dá em razão de que de a modernidade nos colocou em uma condição ambivalente. Do mesmo modo que não podemos viver sem as modernas tecnologias, por alguma razão, no lugar de a tecnologia nos dar tempo para nos dedicarmos mais ao lazer e à família, cada vez mais temos o nosso tempo saqueado. No período da Revolução Industrial, pais trabalhavam cerca de dezesseis horas diárias. Desde este período o convívio de pais com crianças diminuiu. A escola pública de certa forma amenizou a situação ao propor uma educação que possibilitasse a inserção das crianças em uma sociedade dominada pela ciência. Mas a educação proposta pela escola não é a mesma da casa. Valores são, ou deveriam de serem, inculcados em casa. O que quero falar aqui é que a educação escolar, é compromissada com a agenda de governo, ou com os ideais dos professores. Logo, não pode responder pela formação de valores cristãos, isto cabe aos pais. Mas nosso tempo é favorável a este tipo de educação? Difícil pergunta esta!
III) A atual conjuntura
Na década de oitenta as punições físicas foram vigorosamente contestadas por autoridades de diversas áreas científicas. A ausência de punição provocou a crise de autoridade que vemos, que por sua vez foi reforçada por situações sociais e econômicas concretas que retiraram os pais de suas casas e mais, fizeram com que a educação dos filhos fosse confiada às mídias, aos colegas. Me lembro que quando criança aprendi a ver o pai, a mãe, a vizinha amiga da mamãe, e a tia (nome com o qual chamávamos as professoras, e ainda que tal forma de nos referir às mesmas fosse vicioso, tal indicava que a escola era uma extensão da autoridade do lar), como autoridades às  quais tínhamos de obedecer. A pós modernidade, ou modernidade como Rubém Amorese gosta de se referir ao tempo presente, trouxe consigo evoluções preciosas, mas danos profundos.

Não sou favorável que se chame o professor de tio, e a professora de tia, mas sou inteiramente a favor de que se considere o mesmo como autoridade. Afinal, como disse o grande mestre Paulo Freire em sua Pedagogia da Autonomia, não há liberdade sem autoridade. Creio que quando esta entra em crise, aquela se vê seriamente ameaçada. Não creio em um conceito de liberdade tal como visto no primeiro tópico do dicionário Michaelis, em que a mesma é definida como sendo: Estado de pessoa livre e isenta de restrição externa ou coação física ou moral. Isto porque as leis e regras sociais, tão necessárias à convivência, são de inicio, uma forma de coerção externa. Quando o individuo adquire autonomia elas são internalizadas, e curiosamente ele passa a ver tais regras como se as mesmas fossem parte dele, mas primeiro existiram como algo que lhes era estranho e até inadmissível.

A liberdade também é conceituada pelo Michaelis como sendo o poder de exercer livremente a sua vontade. G. K. Chesterton (escritor inglês com dois livros traduzidos e publicados no Brasil, e autor de Ortodoxia), afirma que todo ato de exercício da vontade é um ato de restrição. Em outras palavras ao fazermos nossa escolha pela balada, inevitavelmente estamos nos restringindo ao estudo e ao desenvolvimento de nossas potencialidades.

Esta questão está sendo melhor percebida agora pelos sexólogos, que tanto gritaram pela liberdade sexual, e agora depois do imenso estrago perceberam que o que chamavam de liberdade era na verdade uma nova forma de escravidão. Se antes as meninas sofriam pelo peso de se manterem virgens agora se enganam, ou fingem serem felizes por terem cada vez mais cedo a primeira das inúmeras experiências sexuais.

Mário Sérgio Cortella nos chama a atenção para um incrível fenômeno. Somos a primeira geração em que pais acordam mais tarde do que os filhos. Estes acordam aproximadamente uma hora antes dos pais, preparam seu próprio café e vão de van para a escola. Neste processo todo o único adulto, que possivelmente lhes servirá de referência de autoridade é o (a) professor (a).

Contudo, o mesmo filósofo pontua que ao chegar na escola, uma criança terá assistido, no mínimo oito mil horas de televisão. Em outras palavras, sua percepção e conhecimento de mundo não estará subordinada ao que lhe é transmitido na escola. Seus valores, seus modelos, seus paradigmas, todos serão moldados pelas mídias (incluindo agora a própria internet). Como estabelecer autoridade em um tempo tão ambivalente como este? Eu proponho a volta ao caminho antigo. E qual é o caminho antigo, simples, a sabedoria do velho Salomão.

IV) A educação pelo exemplo

Quem poupa a vara odeia o seu filho, aquele que o ama aplica a disciplina (Pv 13. 24 Bíblia de Jerusalém). Corrige o teu filho enquanto há esperança, mas não te arrebates até matá-lo (Pv 19. 18 Bíblia de Jerusalém). Em nosso idioma a palavra disciplina tem o seguinte significado: Ensino, instrução e educação, ainda que o Michaelis aponte que o uso de disciplina com este sentido seja obsoleto. No idioma hebraico existem duas palavras principais מוּסָֽר (mushar) e יַסֵּ֣ר (yasar), elas aparecem respectivamente nos textos acima. Em ambos os casos são usadas como sinônimas, sendo que a primeira pode ser traduzida tanto como castigo, quando como instrução, e em Provérbios vemos amplo uso de מוּסָֽר (mushar) como ensino (Pv 1. 3, 7, 8; 4. 1, 13; 8. 33), ao passo que a última tem uma conotação quase exclusiva de castigo.

O termo grego usualmente empregado para este tipo de educação é παιδειας (paidéia), o autor de Hebreus o emprega como equivalente de מוּסָֽר (mushar) na citação que faz do texto de Salomão (Pv 3. 11). Na verdade a julgar pela forma com que este texto aparece no Antigo Testamento Poliglota, podemos supor sim, que ao menos em alguns textos os tradutores da LXX usaram o termo παιδειας (paidéia) ora como equivalente para מוּסָֽר (mushar) ora para traduzir יַסֵּ֣ר (yasar). O filho castigado traz descanso ao pai (Pv 29. 17). O que podemos extrair de todo este contorcionismo exegético que fizemos até agora?

Primeiro a Bíblia manda sim impor a disciplina aos filhos e meus parabéns aos pais que o fazem sem usar a palmada, ou o beliscão, mas ainda, meus parabéns aos pais que não se deixam levar pelo desequilíbrio enquanto estão disciplinando fisicamente seus filhos. Mas o fato é que a Bíblia manda impor sim a disciplina, ou melhor os limites aos nossos filhos. Afinal, a idiotice está ligada ao coração do jovem, mas a vara da disciplina dela o livrará (Pv 22. 15 Bíblia de Jerusalém).  Não afastes do jovem a disciplina! se lhe bates com a vara, não morrerá. Quanto a ti deves bater-lhe com a vara para salvar-lhe a vida do Xeol (Pv 23. 13, 14 Bíblia de Jerusalém). E mais: a vara e a repreensão dão sabedoria, mas o jovem deixado a si mesmo envergonha sua mãe (Pv 29. 15 Bíblia de Jerusalém).

Segundo a disciplina que a Bíblia impõe tem no amor a sua maior motivação. Quem poupa a vara odeia o seu filho, aquele que o ama aplica a disciplina (Pv 13. 24 Bíblia de Jerusalém). Quando não queremos gastar nem a nós, e menos ainda o nosso tempo instruindo nosso filho, na verdade o odiamos. E o produto do nosso ódio são crianças sem limites, tais como as que vemos hoje. Crise de autoridade, já dizia Rubém Amorese, é crise de amor.

Por último, a disciplina bíblica não se resume, nem se reduz à instrução sem penalidades, ou ao uso exclusivo de sanções. Ambas estão juntas e é desta forma que funcionam. Que Deus nos dê mãos de sua graça e sabedoria para que possamos usar a disciplina e por meio da mesma forma uma geração temente a Deus.

Pr Marcelo Medeiros

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Cuidado com Aquilo que Falamos

Uma pesquisa bíblica a respeito do assunto língua pode produzir a seguinte conclusão: aquele que não peca no falar é realmente homem perfeito, capaz de refrear todo o corpo (Tg 3. 2 Bíblia de Jerusalém) . Salomão afirma: nas muitas palavras não falta ofensa, quem retém os lábios é prudente (Pv 10. 19 Bíblia de Jerusalém). Estes textos demandam sim que tenhamos cuidado com aquilo que falamos, afinal, Jesus disse: toda palavra sem fundamento que os homens disserem, darão contas no dia do Julgamento. Pois, por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado (Mt 12. 36, 37). Neste estudo pretendo abordar a necessidade de cuidado com a língua, bem como os cuidados que devemos ter com a língua.

I) A necessidade de cuidados com a língua
 
Por quais motivos precisamos ter tantos cuidados com o nosso falar? As Escrituras prontamente respondem: nas muitas palavras não falta ofensa, quem retém os lábios é prudente (Pv 10. 19 Bíblia de Jerusalém). A palavra hebraica para ofensa, é פָּ֑שַׁע (pescha), a mesma palavra para transgressão, mal, maldade. Tanto que a Almeida Revista e Corrigida fiel traduz פָּ֑שַׁע (pescha) como pecado literalmente. Este mesmo termo é traduzido pela Bíblia de Jerusalém como falsidade neste texto: Na falsidade dos lábios há armadilha funesta, mas o justo escapa da penúria (Pv 12. 13). A versão Almeida Revista e Corrigida Fiel, traduz este mesmo texto assim: O ímpio se enlaça na transgressão dos lábios, mas o justo sairá da angústia (Pv 12. 13).
O mais importante é que esta palavra é usualmente empregada para a transgressão da lei, tanto que na maioria dos casos em que a LXX traduz פָּ֑שַׁע, o faz por meio do termo ανομια (anomia). O ensino do Novo Testamento é de que:
os que vivem segundo a carne desejam as coisas da carne, e os que vivem segundo o Espírito, as coisas que são do Espírito. De fato, o desejo da carne é morte, ao passo que o desejo do Espírito é vida e paz, uma vez que o desejo carne é inimigo de Deus, pois ele não se submete à lei de Deus, e nem o pode, pois os que estão na carne não podem agradar a Deus (Rm 8. 5 - 8 Bíblia De Jerusalém).
O que fica explicito neste ensino é a verdade de que os problemas oriundos do falar são reflexo de nossa natureza pecaminosa. Em outras palavras pecamos com a língua porque em nosso ser somos essencialmente pecadores. Em um sentido estrito, podemos afirmar que a maioria dos males advindos da língua se dão em razão daquilo que o dono da língua é. Isto pode ser visto em alguns provérbios bíblicos.
Os lábios do insensato provocam querela, sua boca provoca golpes. A boca do insensato, é a sua ruína, e seus lábios armadilha para a sua vida (Pv 18. 6, 7 Bíblia de Jerusalém).  Por sua vez: Nos lábios do prudente há a sabedoria, [...] mas a boca do estulto é perigo iminente (Pv 10. 14, 15 Bíblia de Jerusalém). Seguindo a trilha do pensamento do velho Salomão, percebemos o quanto esta verdade está impressa na mente dos sábios de Israel, ainda que nem tanto formulada, mas latente, de modo que o mesmo afirma: a boca do justo é prata escolhida, o coração dos ímpios vale pouco. Os lábios do justo apascentam a muitos, os estultos morrem por falta de juízo (Pv 10. 20, 21 Bíblia de Jerusalém).
Além das razoes expostas, necessitamos de cuidado com a língua, visto que o que falamos inevitavelmente nos trará consequências. Do fruto da sua boca o homem sacia-se do que é bom, e cada qual receberá a recompensa por suas obras (Pv 12. 14 Bíblia de Jerusalém). E mais: pelo fruto da sua boca o homem se nutre do bem, mas a vida dos traidores é apenas violência (Pv 13. 2 Bíblia de Jerusalém). De modo que: quem vigia a própria boca guarda a sua vida, mas se perde quem escancara os lábios (Pv 13. 3 Bíblia de Jerusalém). Para todos os efeitos, quem guarda a boca e a língua, guarda-se da angústia (Pv 21. 23 Bíblia de Jerusalém).

II) Cuidados a serem tomados

Expressão usualmente definida como: atenção, aplicação a alguma coisa, cuidado, precaução, cautela, diligência, desvelo. Estas são qualidades exigidas quando se usa a língua. E isto se pode verificar tanto na literatura canônica quando na deuterocanônica (segundo cânon). Considerando que o tema de nosso trimestre é a sabedoria de Deus para uma vida vitoriosa, gostaria de propor ao leitor a leitura de um texto de autoria de um sábio do período interbíblico, Jesus Ben Sirac
Não joeires a todos os ventos, nem te metas em qualquer trilha (assim faz o pecador de palavra dúplice). Sê firme em teu sentimento e seja uma a tua palavra. Sê pronto para escutar, mas lento para dar a resposta. Se sabes algo responde ao teu próximo; se não põe a tua mão sobre a boca. Honra e confusão acompanham o loquaz, e a língua do homem é a sua ruina. Não te faças chamar de caluniador, não armes uma emboscada com a tua língua; porque se para o ladrão existe a vergonha, para o fingido existe uma sentença pior (Eclo 5. 9 - 14 Bíblia de Jerusalém).
Dentre os cuidados recomendados pelo pregador destacamos os seguintes:
  1. A palavra do homem, ou da mulher tem de ser uma só. Afinal, este é o sentido de seja o vosso "sim", sim, e o vosso "não", não. O que passa disso vem do maligno (Mt 5. 37 Bíblia de Jerusalém).
  2. A fim de evitar ao máximo a transgressão por meio do falar, o homem tem de ser mais inclinado à arte do ouvir do que à arte do falar. Que cada um esteja pronto para ouvir, mas lento para falar e lento para encolerizar-se (Tg 1. 19 Bíblia de Jerusalém).
  3. A pessoa que muito fala corre o risco de se ver de uma hora para outra em uma situação de desgraça. Quando acerta com relação ao que fala, tal pessoa é elogiada, mas quando erra pode vir a ser execrada. Daí a recomendação de Sirácida: faze paras as tuas palavras balança e peso; para a tua boca porta e ferrolho. Vela para não dares passo em falso com a língua, cairias diante daquele que te espreita (Eclo 28. 29, 30 Bíblia de Jerusalém).
  4. No dia em que a verdade é descoberta, o caluniador sofrerá vergonha. Língua distinta não combina com o estúpido, menos ainda, com o notável língua mentirosa (Pv 17. 7 Bíblia de Jerusalém). Na Almeida, versa: Não convém ao tolo a fala excelente; quanto menos ao príncipe, o lábio mentiroso. Nosso falar tem de revelar aquilo que somos em nossa essência. Aqui cabe destacar o verbete יֶ֑תֶר (yether), cujo sentido é o de superioridade, sobressalente, nobre, distinto, etc...
As recomendações de Ben Sirac encontram eco na totalidade das Escrituras Sagradas, e por este motivo tem de ser observadas por nós. No ensino de Provérbios a língua e consequência do que somos. O ímpio possui palavras tão suaves como a manteiga, mas no interior há guerra (Sl 55. 21), suas palavras são malicia e engano (Sl 36. 1 - 3). Daí que Davi, em dado momento de sua vida tenha proposto calar-se na presença do ímpio (Sl 39. 1). Que Deus nos dê este discernimento.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.

 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Sabedoria de Deus para uma vida vitoriosa



A nossa próxima lição de Escola Bíblica Dominical tem por título: A sabedoria de Deus para uma vida vitoriosa, como subtítulo, traz a atualidade de Provérbios e Eclesiastes. Diante das informações básicas contidas na capa, o leitor pode indagar: em que sentido um texto escrito há mais de dois mil e quinhentos anos pode ser atual? Pode a sabedoria de um povo do período pré-científico ajudar homens do período moderno, afinal, estamos em um era de alto desenvolvimento científico e tecnológico, experimentamos bens de consumo, que aqueles povos jamais sonhariam? Creio firmemente que uma resposta no mínimo satisfatória englobaria uma abordagem das seguintes questões:
1) O caráter perene da Palavra de Deus enquanto escrito inspirado.
2) A necessária distinção entre ciência e sabedoria.
3) O necessário reconhecimento de que o fato de vivermos em um período permeado pela ciência e pela técnica não nos torna mais sábios do que os povos antigos.
4) O desenvolvimento cientifico não torna a nossa vida melhor do que a daqueles povos.
5) Nem a fruição de bens de consumo nos torna mais felizes e satisfeitos.
Por incrível que pareça é justamente nestes pontos que reside a mensagem dos dois livros que estaremos estudando no trimestre que vem.
 
I ) O caráter perene da Palavra de Deus enquanto escrito inspirado
 
Esta não é uma afirmação de cunho científico, a base da mesma é a própria Bíblia, que diz a respeito de si própria: Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra (II Tm 3. 16, 17 NVI). Por meio deste texto, observamos a inspiração do texto, e a finalidade do mesmo fazer com que  o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.
Ao olharmos para Provérbios e Eclesiastes, é justamente isto que vemos, instruções para que o homem venha a trilhar o caminho da justiça, ao menos este é um dos objetivos que o autor do livro apresenta para a coletânea dos provérbios, dar, ao leitor, a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade (Pv 1. 3 ARCF). Mas somente quando Deus dá a sabedoria, que a justiça é acessível aos homens (Pv 2. 1 - 9).
Provérbios é um escrito que constantemente reivindica autoridade por meio da expressão: ouve. Assim no primeiro capitulo observa-se: Escuta, meu filho a disciplina do teu pai, não desprezes a instrução de tua mãe (Pv 1. 8 Bíblia de Jerusalém). Um dos motivos para o ouvir é a qualidade da sabedoria que o autor vindica para si. Escutai, filhos, a instrução do pai, ficai atentos para conhecerdes a inteligência; eu vos dou boa doutrina, não abandoneis minha instrução (Pv 4. 1, 2 Bíblia de Jerusalém).
Mais do ouvir, o autor apela para que se preste atenção. Meu filho, presta atenção à minha sabedoria, dá ouvidos ao meu entendimento (Pv 5. 1 Bíblia de Jerusalém). O ouvir aqui possui uma dimensão superior ao mero escutar, ou à mera percepção sensorial. Ouvir, é atender, obedecer, sendo este o real sentido da expressão hebraica שְׁמַ֖ע (shemai). Mas ao que tudo indica, o ouvir é uma característica exclusiva dos sábios. Afinal, o texto mesmo diz: O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento, e o entendido adquirirá sábios conselhos (Pv 1. 5 ARCF). Mas quem é o sábio? É justamente aqui que se torna necessária a distinção entre sabedoria e ciência.
 
II) A necessária distinção entre ciência e sabedoria
 
De acordo com o Aurelio on line, a ciência é: . Conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos. (Toda ciência, para definir-se como tal, deve necessariamente recortar, no real, seu objeto próprio, assim como definir as bases de uma metodologia específica: ciências físicas e naturais, [por exemplo, a historia, tem como objeto a ação humana no tempo, a Geografia, as relações do homem com o espaço terrestre, etc..].) Conjunto de conhecimentos humanos a respeito da natureza, da sociedade e do pensamento, adquiridos através do desvendamento das leis objetivas que regem os fenômenos e sua explicação.
No livro O que é Religião, Rubem Alves afirma que a ciência é um tipo de conhecimento pragmático que surgiu como resposta às demandas de um período histórico específico. De acordo com o filósofo Francis Bacon, o objetivo da empreitada cientifica é ode tornar a vida humana mais fácil. Como? Mediante a explicação dos fenômenos naturais e o consequente domínio da natureza. No entanto, as invenções e o desenrolar da historia nos mostram que tornar a vida mais fácil é bem diferente de torna-la melhor, e creio ser justamente aí que entra a sabedoria.
Retornando ao vulgo pai dos burros, agora na versão on line, encontro a seguinte definição de sabedoria: aplicação inteligente (aqui leia-se hábil) dos conhecimentos, conduta orientada de acordo com o conhecimento daquilo que é verdadeiro e justo. Grande circunspeção e prudência; juízo, bom senso, razão, retidão. Discernimento adquirido pelas experiências de uma longa vida, e é justamente neste ponto do nosso estudo que se faz necessário reconhecer que o fato de vivermos em um período permeado pela ciência e pela técnica não nos torna mais sábios do que os povos antigos.
 
III) O necessário reconhecimento de que o fato de vivermos em um período permeado pela ciência e pela técnica não nos torna mais sábios do que os povos antigos

Aqui é preciso esclarecer que temos sim mais ciência, ou melhor maior produção cientifica, isto é fato! A Bíblia nada fala de química, física, biologia, astronomia, por exemplo; e a grande é que as poucas incursões que os autores dos salmos fazem na área em nada se pode comparar com as elucubrações dos cientistas modernos. Caio Prado Junior afirma que nem as especulações dos filósofos pré-socráticos  pode ser equiparada ao trabalho de um cientista moderno, visto que aqueles buscavam apenas responder como seria possível ao homem, que imerso em uma realidade tão diversa, conhecer a mesma.
Também precisamos reconhecer que a ciência produziu um modus vivendis, sem o qual a nossa sobrevivência seria impossível, ou no mínimo demasiadamente complicada. Eu, por exemplo, não consigo mais me imaginar sem um celular que me permita comunicar com minha mulher na hora em que pretendo. Não me imagino mais escrevendo à mão em folhas de papel computador. Mas isto significa que somos mais sábios? De forma alguma!
A sabedoria não está no quanto produzimos de ciência, ou de bens de consumo, mas em como aproveitamos e aplicamos nossa produção intelectual à nossa existência real e concreta. Como observa Peter Kreuff, a despeito do progresso que temos, existe muito descontentamento em nossa literatura, usamos carros, e com estes abrimos mãos do prazer de uma caminhada para economizar tempo que não usamos para nada, além de mata-lo.
É com esta sabedoria que Eclesiastes se preocupa. A vida de nada adianta, se o homem não frui dela o seu melhor, e fruir o melhor da vida nada mais é do que aproveitar os dons que Deus nos concedeu a fim de viver. O sentido de dom aqui é o de dadiva. As dádivas vão desde o vinho, até o prazer da companhia do cônjuge (Ec 9. 7 - 9), bem como o tempo de vida que temos, e que pode ser aproveitado para que haja investimento (Ec 9. 10).

IV) O desenvolvimento cientifico não torna a nossa vida melhor do que a daqueles povos

Não basta viver em uma sociedade moldada pela ciência. Esta pode ser utilizada tanto para cura, quando para destruição em massa. O iluminismo trouxe uma onde imensa de otimismo em relação á ciência moderna, mas as duas guerras do século XX jogaram este otimismo por terra. Trocamos sofrimentos antigos por novas formas de sofrimento, e tudo, porque seja na Jerusalém do século IX a. C. , seja na América, ou no Brasil do século XXI d. C, a verdade é que a vida é vaidade, fugaz, passageira, frágil, e absurda.
Mesmo dispondo tamanho desenvolvimento, corremos o sério risco de aproveitarmos a vida bem menos do que os antigos a aproveitaram. A arte do bem viver demanda sabedoria acima de qualquer coisa. Se não dispomos da habilidade necessária para aplicar as descobertas da ciência moderna, de nada adianta. Um ponto no qual esta questão se mostra nevrálgica, é a questão do mundo do trabalho.
Nas Escrituras, este é apontado como sendo a fonte de sustento do homem (Gn 3. 19; Sl 104. 23; 128. 1, 2). A perspectiva de Provérbios, a respeito da atividade laborativa é positiva. Em todo trabalho há proveito, mas ficar só em palavras leva à pobreza (Pv 14. 23 ARCF). E isto, ao ponto de acreditar que todo o seu trabalho terá uma recompensa. Viste o homem diligente na sua obra? Perante reis será posto; não permanecerá entre os de posição inferior (Pv 22. 29 ARCF). Mas a perspectiva do pregador não é das melhores. Para este o trabalho é um castigo que Deus dá ao pecador, é algo odioso, enfadonho e nada gratificante. A gratificação do mesmo está não no labor em si, mas nos resultados que este traz (Ec 2. 16 - 26).
Neste ponto a fala do pregador me lembra a de Mário Sérgio Cortella, para quem o trabalho é fundamental, mas não essencial. Em filosofia, essência, tem a ver com o ser, o que nos leva concluir, que por mais digno que seja o trabalho, o ser humano não se define a partir do mesmo. O trabalho é digno não por si mesmo, mas pelo que ele traz para nós. Reconhecimento, sustento. Mas o pregador, percebe que nem sempre o reconhecimento vem (Ec 9. 11), e que o apetite nunca cessa (Ec 6. 7). Daí, a saída que o pregador propõe, é esta: que o homem se alegre no seu trabalho, e desfrute do mesmo.
Então louvei eu a alegria, porquanto para o homem nada há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se; porque isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da sua vida que Deus lhe dá debaixo do sol (Ec 8. 15 ARCF). Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol (Ec 9. 9 ARCF). Mas como aplicar esta sabedoria nos dias atuais?
Primeiro, precisamos entender que o trabalho é fundamental, visto que sem o mesmo não sustentamos e muito menos acessamos os bens de consumo dos quais necessitamos para a nossa subsistência. O trabalho não é essencial visto que ele não nos melhora enquanto pessoa. Terceiro, o trabalho foi feito para que desfrutássemos do prazer, mas se o apetite não for moderado, ele estabelece um circulo vicioso em que vamos trabalhado, e nos esgotando cada vez, produzindo perda de vitalidade e transformando a nossa vida em um verdadeiro buraco negro. Por último, a alegria do viver está nas coisas mais básicas da vida, mesmo as mais corriqueiras. Mas esta é apenas uma reflexão inicial.
Creio que o nosso modo de produção também precisa mudar. A ciência, repito, foi formulada para que o homem vencesse o temor da natureza e uma vez explicando-a por categorias racionais, este viesse a trabalhar em seu favor, e com isto a vida se tornasse mais fácil. Oscar Wilde percebeu que tal promessa não se cumpriu e mais, em livro que tem por título: A Alma do homem sob o Espírito do Socialismo, propôs que as maquinas fossem escravas do homem, para que este viesse a desenvolver a sua máxima potencialidade. ISTO É SABEDORIA, A APLICAÇÃO HÁBIL DOS RECURSOS PARA UMA VIDA MELHOR.

V) A simples fruição de bens de consumo não nos torna mais felizes e satisfeitos

Pode ser que fruir bens de consumo nos torne mais tediosos, do que alegres, satisfeitos e gratos em relação à vida. Este tédio pode ser visto no romance as Cidades e as Serras, de Eça de Queirós. Neste o personagem Jacinto que vive no contexto da cidade, e por este motivo possui acesso aos bens de consumo, demonstra grande tedio face à rotina, ao passo que Zé Fernandes, que vem do campo, tudo é maravilhoso, inclusive o tédio que Jacinto demonstra diante da vida.
Em uma palestra intitulada Nós não nascemos prontos, Mario Sérgio Cortella afirma que está faltando espanto. Andamos de avião, em uma velocidade extraordinária, viajamos para partes do mundo, antes inacessíveis, e, a despeito de tudo isto, estamos em meio a uma geração que reage de forma, no mínimo apática a isto tudo. E o pior ainda está por vir, a apatia é a regra de conduta social em nossa sociedade. Demonstrar felicidade em viajar de avião é brega.
Chesterton observa que a vitalidade tem a ver com a repetição constante. Uma criança demonstra a energia vital dela em repetir a mesma brincadeira, o mesmo filme. O autor chega a brincar dizendo que talvez Deus seja como uma criança, o que não é absurdo se observarmos que ele não sofre a ação do tempo, por viver na eternidade. Isto explica o ciclo constante que ele imprimiu na natureza e que o pregador tão bem fala (Ec 1. 4 - 11).
Para o pregador tanto a adolescência quanto a juventude são vaidade, daí que o melhor de nossa vida tenha de ser devidamente desfrutado. Como? Vivendo o prazer em sua plenitude (Ec 11. 7 - 9) e lembrando-se, ainda nos dias da mocidade, que há um criador (Ec 12. 1 - 8). Mas em que a lembrança do criador nos proporciona uma vida mais feliz.
Primeiro, esta é a constatação do pregador. Em um mudo em que tudo é vaidade, e que a justiça tem de ser equilibrada com a consciência de que não há homem justo que faça o bem e nunca peque (Ec 7. 14 - 20), a melhor vida é a que conciliar o entendimento de que Deus é a fonte máxima do prazer, da alegria, da satisfação (Ec 2. 26), sabendo que a busca pelo prazer tem de ser conciliada com a busca por Deus, a fonte suprema do mesmo.
É justamente quando o foco é retirado do criador, ou do Absoluto, que tudo o que poderia contribuir para uma vida de espanto e fascinação diante da beleza da criação se transforma em tédio. À semelhança do personagem Jacinto, das Cidades e as Serras, explicamos tudo, tudo mesmo. Mas caímos no erro de achar que somente o contexto em que vivemos é a realização da civilização, quando a verdade não é esta.
A necessidade de tudo explicar nos retirou a nossa humildade, a consciência clara de nossa ignorância, e a sensação de espanto, e com a mesma, a alegria de viver. Minha oração sincera é que este trimestre de estudo, e os posts que aqui serão publicados em decorrência do mesmo, sejam vacina contra estes males, afinal, esta é a sabedoria de Provérbios e Eclesiastes.

Pr Marcelo Medeiros.
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