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domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Deus que intervém na História - estudo incompleto




Os léxicos, via de regra, definem a História como sendo o ramo da ciência que se ocupa de registrar cronologicamente, apreciar e explicar os fatos do passado da humanidade em geral, e das diversas nações, países e localidades em particular. Em razão da ciência moderna ser feita a partir de pressupostos naturalistas toda e qualquer intervenção sobrenatural é excluída. Daí que enquanto disciplina acadêmica a história não leve em consideração a ação de Deus, algo que não pode ser quantificado, mensurado, ou observado em um telescópio. 



Mas conforme afirmado aqui, um dos pressupostos do Livro de Daniel é a intervenção de Deus na História da humanidade [aqui e aqui] e não há nada em definitivo que comprove a inviabilidade da mediação de Deus com os homens no curso histórico (embora hajam teólogos que no lugar de propor uma história sob o prisma da mediação divina, propõem uma metahistória). Meu percurso no presente estudo se dará da seguinte forma: falarei a respeito do Deus e depois de sua intervenção na história. 



O CONTEXTO



O contexto do presente estudo se dá na Babilônia, terra em que se desenvolveu a ciência da oniromancia. Tal se deu pela compreensão cultural e histórica de que os sonhos eram uma forma de comunicação entre Deus e os homens [aqui], fato este comprovado pelo relato das Escrituras (Gn 20. 3; 41. 25, 28). No auge do seu reinado Nabucodonozor teve um sonho com uma estátua composta de uma gama de metais (ouro, prata, bronze, o que talvez tivesse dado à imagem nada comum, um tom bizarro), e em razão deste teve seu espírito perturbado. 



Usando de artimanha (talvez pelo medo de ser engando com quaisquer artimanhas) o rei em apreço propõe um desafio aos sábios, mas não conta o teor, ou o conteúdo do sonho. O maior problema é que diante da impotência dos sábios em revelar o conteúdo e o sentido das visões noturnas que perturbavam o rei, este os ameaçou com a morte (Dn 2. 12, 13). 



Uma observação a ser feita é a de que este relato sucede ao relato da fidelidade de Daniel e seus amigos, em que os mesmos testados quanto ao compromisso com a lei, e imediatamente honrados por Deus, visto que o texto diz: entre todos os jovens não houve outros que se comparassem a Daniel, Ananias, Misael e Azarias [...] em todas as questões de sabedoria e discernimento sobre as quais os consultava, o rei os achava dez vezes superiores a todos os magos e adivinhos do seu reino inteiro (Dn 1. 19, 20 Bíblia de Jerusalém). 



Aqui há que se observar que a suposta capacidade de interpretação dos sonhos não é algo inerente aos jovens em apreço, mas uma graça divina, visto que o texto afirma: a estes quatro jovens Deus concedeu a ciência e a instrução nos domínios da literatura e da sabedoria. Além disto, Daniel era capaz de interpretar qualquer sonho, ou visão (Dn 1. 17 Bíblia de Jerusalém). Creio que os personagens envolvidos na trama do livro sabiam este caráter de Deus, tanto que diante do decreto do rei (que ameaçava a vida dos mesmos), puderam orar a buscar misericórdia. Isto nos leva ao Deus que intervém. 



O DEUS QUE INTERVÉM



Quem é Deus no livro de Daniel, mais precisamente no texto com o qual eu, você professor de Escola Bíblica e demais estudantes estamos,lidando? Esta é a primeira pergunta que precisa ser feita. O Deus que intervém é um Deus dadivoso. Segundo as observações feitas acima, Deus já havia dado aos jovens sabedoria, erudição e arte de interpretar sonho em ambiente especializado (Dn 1. 17, 19, 20). Pois é Iahweh quem dá a sabedoria; da sua boca procedem o contentamento e a inteligencia. Ele guarda para os retos a sensatez, é escudo para os que andam na integridade (Pv 2. 6, 7 Bíblia de Jerusalém).



Ele é misericordioso. Foi esta convicção que auxiliou a Daniel e seus companheiros na evocação do compromisso de interpretar o sonho do rei, uma vez que sua misericórdia já havia sido demonstrada quando Daniel e seus amigos foram testados e rejeitaram as iguarias do rei, e Deus como resposta fez com que eles se tornassem mais sábios que os babilônios. 



Deus é sábio. Sim, sua sabedoria é profunda, seu poder é imenso. Quem tentou resistir-lhe e saiu ileso? (Jó 9. 4 NVI). O próprio Deus perguntou para Jó: Quem é que tem sabedoria para avaliar as nuvens? Quem é capaz de despejar os cântaros de água dos céus? (Jó 38. 37 NVI). A sabedoria de Deus revela sua majestade na condução do curso da história.


O Deus que intervém é o mesmo Deus que revela o que há de acontecer. Sim, tal como ocorre com Daniel, é perceptível, da parte de José, a ideia de que quem está á frente dos acontecimentos é Deus, e como soberano, em um ato de graça revelou ao Faraó os acontecimentos futuros. O sonho de Faraó é um só; o que Deus há de fazer, mostrou-o a Faraó (Gn 45. 25 ACF). E mais uma vez ele diz:o que Deus há de fazer, mostrou-o a Faraó (Gn 41. 28 ACF). Na percepção de José o sonho foi repetido duas vezes a Faraó, é porque esta coisa é determinada por Deus, e Deus se apressa em fazê-la (Gn 41. 32 ACF).

Marcelo Medeiros

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Deus e a existência do mal



Um dos grandes problemas levantados no debate a respeito da existência de Deus é a realidade do mal. Como pode um deus bondoso e todo poderoso tolerar o mal. Parte do problema tem sido respondido com a afirmação de que é o mal, a tragédia que faz com a que humanidade seja de fato mais humana. 

Ainda assim, parece haver pessoas que não se contentam com o fato de terem de passar por eventos trágicos, o que ocasiona frases como esta da imagem acima. Ao visualizar em uma comunidade de debate no facebook, pensei imediatamente em um homem como Jó. Em um momento este é descrito vivendo em um estado de ventura e de repente ele perde todos os seus bens, posses, o respeito social, e mesmo o direito de reclamar. 

Em boa parte do seu livro Jó aparece chamando Deus para um julgamento, ele chega a afirmar, que se Deus comparecesse para um debate, lhe exporia a sua causa, mas quando este lha aparece em meio de uma tormenta e lhe faz perguntas, atente bem, perguntas, ele, Jó, emudece. Minha conclusão, é de que a frase da imagem é a prova inconteste de que a melhor imagem para descrever a humanidade é a que a compara com crianças birrentas. 

Do conforto de sua casa, escritório, apartamento, etc, qualquer um fala do relâmpago, do trovão e de uma tormenta, mas estar diante da grandeza destes fenômenos é algo que faz qualquer indivíduo sensato se borrar de medo, imagine um encontro com Deus, quem poderia argumentar o que quer que fosse diante dele? Jó emudeceu e constatou que Deus tudo pode e que nenhum dos seus planos podem ser frustrados, de quebra a certeza de que quaisquer conjecturas são como o pensamento de um animal irracional. 

Há um outro homem em quem eu penso quando me vejo diante de tais colocações. Jesus de Nazaré. Ele, mais do que ninguém, se identificou com os sofredores, com os pobres, injustiçados, e em sua resignação diante da morte de cruz ele derrotou e venceu o mal, quando ainda no Getsêmane orou a Deus dizendo, todavia, não se faça a minha, mas a sua vontade. A ressurreição de Cristo é a maior expressão da vitória de Cristo sobre o mal e a abertura de possibilidade da vitória de cada cristão em particular. 

Não é do meu feitio, confesso, mas peço a Deus a sabedoria de Davi, que disse: emudeci, por quando o fizeste (Sl 39. 9 ACF), pois do contrário terei de dizer como Jó: falei do que não entendia, por isto me abomino e me arrpendo no pó e na cinza (Jó 42. 3, 6). 

Marcelo Medeiros

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Deus é gay? Claro que não!



Fui surpreendido pela postagem de um amigo em uma rede social que me interpelava a respeito da colocação de Frei Beto a respeito do comportamento de Jesus diante da condição homossexual. Para mim, este é uma questão bem simples, uma vez que não existem registros canônicos a respeito da relação do mestre, ou mesmo dos apóstolos com tais grupos. Mas Frei Beto faz incursões ousadas, e parcialmente acertadas a respeito da misericórdia de Deus para com os pecadores, o problema ao meu ver é com a conclusão que o mesmo tira,chegando ao ponto de propor uma leitura do Evangelho pela ótica gay.

Mesmo reconhecendo a minha insignificância epistemológica face a intelectualidade de Frei Beto, confesso que não pude resistir à tentação de fazer algumas provocações. Se o Evangelho, conforme propõe nosso ícone é produto de uma variante de leituras, sendo a de Marcos aramaica, a de Mateus judaica, a de João gnóstica, e a de Lucas grega, como explicar que de uma variante de leituras surja um Jesus receptivo para com os gentios, compassivo para com os pecadores, e plenamente capaz de transitar entre todas as classes sociais, incluindo fariseus e publicanos?

Desde já pretendo deixar claro que não ignoro que os evangelistas organizaram o seu material a partir de fontes diferentes, e destinavam suas publicações a públicos distintos, mas o Jesus refletido nestas produções é o mesmo. Para se comprovar basta ver a famosa crítica que ele fez aos fariseus quando estes o censuraram por comer com publicanos e prostitutas. Nos três evangelhos sinóticos este incidente aparece ligado ao perdão dos pecados e à cura do paralítico, à purificação de um leproso (elemento excluído d convívio social na sociedade judaica, mas que Jesus não exitou em tocar para que este fosse curado), a questão que os fariseus suscitam sobre as relações de Jesus, e a resposta do mesmo. 

Em todos os Evangelhos vemos a seguinte resposta de Cristo: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu nào vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento (Mt 9. 12, 13 ACF). Ou, os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento (Mc 2. 17 ACF). O que os evangelistas fizeram nada tinha a ver com a produção de um evangelho pessoal, eles apenas organizaram os resultados de forma a gerar uma leitura que atingisse o público. É assim que ao fazer o relato do fato para o público judeu, Mateus empregue uma citação dos profeta e Marcos, que escreve para os romanos omita. 

Uma segunda provocação está na analogia que Cristo faz de si mesmo com os médicos, e do seu público com doentes. Os pecadores são doentes e precisam de médico. Algo que o homem moderno em geral e consequentemente os gays recusam admitir. A questão que talvez o inclusivistas não percebam é o Cristo que acolhe os pecadores manda os mesmos abandonarem seus respectivos pecados. Sim, o Jesus que não condenou a prostituta, ou adúltera, foi o mesmo que disse à ela: vai e não peques mais (Jo 8. 11). E agora José, como fica?

Marcelo Medeiros. 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Sabedoria de Deus para uma vida vitoriosa



A nossa próxima lição de Escola Bíblica Dominical tem por título: A sabedoria de Deus para uma vida vitoriosa, como subtítulo, traz a atualidade de Provérbios e Eclesiastes. Diante das informações básicas contidas na capa, o leitor pode indagar: em que sentido um texto escrito há mais de dois mil e quinhentos anos pode ser atual? Pode a sabedoria de um povo do período pré-científico ajudar homens do período moderno, afinal, estamos em um era de alto desenvolvimento científico e tecnológico, experimentamos bens de consumo, que aqueles povos jamais sonhariam? Creio firmemente que uma resposta no mínimo satisfatória englobaria uma abordagem das seguintes questões:
1) O caráter perene da Palavra de Deus enquanto escrito inspirado.
2) A necessária distinção entre ciência e sabedoria.
3) O necessário reconhecimento de que o fato de vivermos em um período permeado pela ciência e pela técnica não nos torna mais sábios do que os povos antigos.
4) O desenvolvimento cientifico não torna a nossa vida melhor do que a daqueles povos.
5) Nem a fruição de bens de consumo nos torna mais felizes e satisfeitos.
Por incrível que pareça é justamente nestes pontos que reside a mensagem dos dois livros que estaremos estudando no trimestre que vem.
 
I ) O caráter perene da Palavra de Deus enquanto escrito inspirado
 
Esta não é uma afirmação de cunho científico, a base da mesma é a própria Bíblia, que diz a respeito de si própria: Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra (II Tm 3. 16, 17 NVI). Por meio deste texto, observamos a inspiração do texto, e a finalidade do mesmo fazer com que  o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.
Ao olharmos para Provérbios e Eclesiastes, é justamente isto que vemos, instruções para que o homem venha a trilhar o caminho da justiça, ao menos este é um dos objetivos que o autor do livro apresenta para a coletânea dos provérbios, dar, ao leitor, a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade (Pv 1. 3 ARCF). Mas somente quando Deus dá a sabedoria, que a justiça é acessível aos homens (Pv 2. 1 - 9).
Provérbios é um escrito que constantemente reivindica autoridade por meio da expressão: ouve. Assim no primeiro capitulo observa-se: Escuta, meu filho a disciplina do teu pai, não desprezes a instrução de tua mãe (Pv 1. 8 Bíblia de Jerusalém). Um dos motivos para o ouvir é a qualidade da sabedoria que o autor vindica para si. Escutai, filhos, a instrução do pai, ficai atentos para conhecerdes a inteligência; eu vos dou boa doutrina, não abandoneis minha instrução (Pv 4. 1, 2 Bíblia de Jerusalém).
Mais do ouvir, o autor apela para que se preste atenção. Meu filho, presta atenção à minha sabedoria, dá ouvidos ao meu entendimento (Pv 5. 1 Bíblia de Jerusalém). O ouvir aqui possui uma dimensão superior ao mero escutar, ou à mera percepção sensorial. Ouvir, é atender, obedecer, sendo este o real sentido da expressão hebraica שְׁמַ֖ע (shemai). Mas ao que tudo indica, o ouvir é uma característica exclusiva dos sábios. Afinal, o texto mesmo diz: O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento, e o entendido adquirirá sábios conselhos (Pv 1. 5 ARCF). Mas quem é o sábio? É justamente aqui que se torna necessária a distinção entre sabedoria e ciência.
 
II) A necessária distinção entre ciência e sabedoria
 
De acordo com o Aurelio on line, a ciência é: . Conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos. (Toda ciência, para definir-se como tal, deve necessariamente recortar, no real, seu objeto próprio, assim como definir as bases de uma metodologia específica: ciências físicas e naturais, [por exemplo, a historia, tem como objeto a ação humana no tempo, a Geografia, as relações do homem com o espaço terrestre, etc..].) Conjunto de conhecimentos humanos a respeito da natureza, da sociedade e do pensamento, adquiridos através do desvendamento das leis objetivas que regem os fenômenos e sua explicação.
No livro O que é Religião, Rubem Alves afirma que a ciência é um tipo de conhecimento pragmático que surgiu como resposta às demandas de um período histórico específico. De acordo com o filósofo Francis Bacon, o objetivo da empreitada cientifica é ode tornar a vida humana mais fácil. Como? Mediante a explicação dos fenômenos naturais e o consequente domínio da natureza. No entanto, as invenções e o desenrolar da historia nos mostram que tornar a vida mais fácil é bem diferente de torna-la melhor, e creio ser justamente aí que entra a sabedoria.
Retornando ao vulgo pai dos burros, agora na versão on line, encontro a seguinte definição de sabedoria: aplicação inteligente (aqui leia-se hábil) dos conhecimentos, conduta orientada de acordo com o conhecimento daquilo que é verdadeiro e justo. Grande circunspeção e prudência; juízo, bom senso, razão, retidão. Discernimento adquirido pelas experiências de uma longa vida, e é justamente neste ponto do nosso estudo que se faz necessário reconhecer que o fato de vivermos em um período permeado pela ciência e pela técnica não nos torna mais sábios do que os povos antigos.
 
III) O necessário reconhecimento de que o fato de vivermos em um período permeado pela ciência e pela técnica não nos torna mais sábios do que os povos antigos

Aqui é preciso esclarecer que temos sim mais ciência, ou melhor maior produção cientifica, isto é fato! A Bíblia nada fala de química, física, biologia, astronomia, por exemplo; e a grande é que as poucas incursões que os autores dos salmos fazem na área em nada se pode comparar com as elucubrações dos cientistas modernos. Caio Prado Junior afirma que nem as especulações dos filósofos pré-socráticos  pode ser equiparada ao trabalho de um cientista moderno, visto que aqueles buscavam apenas responder como seria possível ao homem, que imerso em uma realidade tão diversa, conhecer a mesma.
Também precisamos reconhecer que a ciência produziu um modus vivendis, sem o qual a nossa sobrevivência seria impossível, ou no mínimo demasiadamente complicada. Eu, por exemplo, não consigo mais me imaginar sem um celular que me permita comunicar com minha mulher na hora em que pretendo. Não me imagino mais escrevendo à mão em folhas de papel computador. Mas isto significa que somos mais sábios? De forma alguma!
A sabedoria não está no quanto produzimos de ciência, ou de bens de consumo, mas em como aproveitamos e aplicamos nossa produção intelectual à nossa existência real e concreta. Como observa Peter Kreuff, a despeito do progresso que temos, existe muito descontentamento em nossa literatura, usamos carros, e com estes abrimos mãos do prazer de uma caminhada para economizar tempo que não usamos para nada, além de mata-lo.
É com esta sabedoria que Eclesiastes se preocupa. A vida de nada adianta, se o homem não frui dela o seu melhor, e fruir o melhor da vida nada mais é do que aproveitar os dons que Deus nos concedeu a fim de viver. O sentido de dom aqui é o de dadiva. As dádivas vão desde o vinho, até o prazer da companhia do cônjuge (Ec 9. 7 - 9), bem como o tempo de vida que temos, e que pode ser aproveitado para que haja investimento (Ec 9. 10).

IV) O desenvolvimento cientifico não torna a nossa vida melhor do que a daqueles povos

Não basta viver em uma sociedade moldada pela ciência. Esta pode ser utilizada tanto para cura, quando para destruição em massa. O iluminismo trouxe uma onde imensa de otimismo em relação á ciência moderna, mas as duas guerras do século XX jogaram este otimismo por terra. Trocamos sofrimentos antigos por novas formas de sofrimento, e tudo, porque seja na Jerusalém do século IX a. C. , seja na América, ou no Brasil do século XXI d. C, a verdade é que a vida é vaidade, fugaz, passageira, frágil, e absurda.
Mesmo dispondo tamanho desenvolvimento, corremos o sério risco de aproveitarmos a vida bem menos do que os antigos a aproveitaram. A arte do bem viver demanda sabedoria acima de qualquer coisa. Se não dispomos da habilidade necessária para aplicar as descobertas da ciência moderna, de nada adianta. Um ponto no qual esta questão se mostra nevrálgica, é a questão do mundo do trabalho.
Nas Escrituras, este é apontado como sendo a fonte de sustento do homem (Gn 3. 19; Sl 104. 23; 128. 1, 2). A perspectiva de Provérbios, a respeito da atividade laborativa é positiva. Em todo trabalho há proveito, mas ficar só em palavras leva à pobreza (Pv 14. 23 ARCF). E isto, ao ponto de acreditar que todo o seu trabalho terá uma recompensa. Viste o homem diligente na sua obra? Perante reis será posto; não permanecerá entre os de posição inferior (Pv 22. 29 ARCF). Mas a perspectiva do pregador não é das melhores. Para este o trabalho é um castigo que Deus dá ao pecador, é algo odioso, enfadonho e nada gratificante. A gratificação do mesmo está não no labor em si, mas nos resultados que este traz (Ec 2. 16 - 26).
Neste ponto a fala do pregador me lembra a de Mário Sérgio Cortella, para quem o trabalho é fundamental, mas não essencial. Em filosofia, essência, tem a ver com o ser, o que nos leva concluir, que por mais digno que seja o trabalho, o ser humano não se define a partir do mesmo. O trabalho é digno não por si mesmo, mas pelo que ele traz para nós. Reconhecimento, sustento. Mas o pregador, percebe que nem sempre o reconhecimento vem (Ec 9. 11), e que o apetite nunca cessa (Ec 6. 7). Daí, a saída que o pregador propõe, é esta: que o homem se alegre no seu trabalho, e desfrute do mesmo.
Então louvei eu a alegria, porquanto para o homem nada há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se; porque isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da sua vida que Deus lhe dá debaixo do sol (Ec 8. 15 ARCF). Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol (Ec 9. 9 ARCF). Mas como aplicar esta sabedoria nos dias atuais?
Primeiro, precisamos entender que o trabalho é fundamental, visto que sem o mesmo não sustentamos e muito menos acessamos os bens de consumo dos quais necessitamos para a nossa subsistência. O trabalho não é essencial visto que ele não nos melhora enquanto pessoa. Terceiro, o trabalho foi feito para que desfrutássemos do prazer, mas se o apetite não for moderado, ele estabelece um circulo vicioso em que vamos trabalhado, e nos esgotando cada vez, produzindo perda de vitalidade e transformando a nossa vida em um verdadeiro buraco negro. Por último, a alegria do viver está nas coisas mais básicas da vida, mesmo as mais corriqueiras. Mas esta é apenas uma reflexão inicial.
Creio que o nosso modo de produção também precisa mudar. A ciência, repito, foi formulada para que o homem vencesse o temor da natureza e uma vez explicando-a por categorias racionais, este viesse a trabalhar em seu favor, e com isto a vida se tornasse mais fácil. Oscar Wilde percebeu que tal promessa não se cumpriu e mais, em livro que tem por título: A Alma do homem sob o Espírito do Socialismo, propôs que as maquinas fossem escravas do homem, para que este viesse a desenvolver a sua máxima potencialidade. ISTO É SABEDORIA, A APLICAÇÃO HÁBIL DOS RECURSOS PARA UMA VIDA MELHOR.

V) A simples fruição de bens de consumo não nos torna mais felizes e satisfeitos

Pode ser que fruir bens de consumo nos torne mais tediosos, do que alegres, satisfeitos e gratos em relação à vida. Este tédio pode ser visto no romance as Cidades e as Serras, de Eça de Queirós. Neste o personagem Jacinto que vive no contexto da cidade, e por este motivo possui acesso aos bens de consumo, demonstra grande tedio face à rotina, ao passo que Zé Fernandes, que vem do campo, tudo é maravilhoso, inclusive o tédio que Jacinto demonstra diante da vida.
Em uma palestra intitulada Nós não nascemos prontos, Mario Sérgio Cortella afirma que está faltando espanto. Andamos de avião, em uma velocidade extraordinária, viajamos para partes do mundo, antes inacessíveis, e, a despeito de tudo isto, estamos em meio a uma geração que reage de forma, no mínimo apática a isto tudo. E o pior ainda está por vir, a apatia é a regra de conduta social em nossa sociedade. Demonstrar felicidade em viajar de avião é brega.
Chesterton observa que a vitalidade tem a ver com a repetição constante. Uma criança demonstra a energia vital dela em repetir a mesma brincadeira, o mesmo filme. O autor chega a brincar dizendo que talvez Deus seja como uma criança, o que não é absurdo se observarmos que ele não sofre a ação do tempo, por viver na eternidade. Isto explica o ciclo constante que ele imprimiu na natureza e que o pregador tão bem fala (Ec 1. 4 - 11).
Para o pregador tanto a adolescência quanto a juventude são vaidade, daí que o melhor de nossa vida tenha de ser devidamente desfrutado. Como? Vivendo o prazer em sua plenitude (Ec 11. 7 - 9) e lembrando-se, ainda nos dias da mocidade, que há um criador (Ec 12. 1 - 8). Mas em que a lembrança do criador nos proporciona uma vida mais feliz.
Primeiro, esta é a constatação do pregador. Em um mudo em que tudo é vaidade, e que a justiça tem de ser equilibrada com a consciência de que não há homem justo que faça o bem e nunca peque (Ec 7. 14 - 20), a melhor vida é a que conciliar o entendimento de que Deus é a fonte máxima do prazer, da alegria, da satisfação (Ec 2. 26), sabendo que a busca pelo prazer tem de ser conciliada com a busca por Deus, a fonte suprema do mesmo.
É justamente quando o foco é retirado do criador, ou do Absoluto, que tudo o que poderia contribuir para uma vida de espanto e fascinação diante da beleza da criação se transforma em tédio. À semelhança do personagem Jacinto, das Cidades e as Serras, explicamos tudo, tudo mesmo. Mas caímos no erro de achar que somente o contexto em que vivemos é a realização da civilização, quando a verdade não é esta.
A necessidade de tudo explicar nos retirou a nossa humildade, a consciência clara de nossa ignorância, e a sensação de espanto, e com a mesma, a alegria de viver. Minha oração sincera é que este trimestre de estudo, e os posts que aqui serão publicados em decorrência do mesmo, sejam vacina contra estes males, afinal, esta é a sabedoria de Provérbios e Eclesiastes.

Pr Marcelo Medeiros.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Esboço para uma Cristologia de Filipenses








Em nossos estudos a respeito da carta aos Filipenses pontuamos a ocorrência das palavras alegria e dos derivados da mesma, indicando com isto que seja esta a palavra chave da mesma. O mais curioso de tudo é que ao pesquisar na versão de Bíblia que trago em meu celular a palavra Cristo Jesus (χριστω ιησου) pude identificar por cerca de umas treze vezes a ocorrência desta (Fp 1. 1, 6, 8, 26; 2. 5, 21; 3. 3, 8, 12, 14; 4. 7, 19, 21). Ao passo que quando pesquisamos Jesus Cristo (ιησου χριστου), percebemos seis ocorrências (Fp 1. 2, 11, 19; 2. 11; 3. 20; 4. 23).

Quando procuramos somente pelo nome Cristo (χριστου), encontramos quinze ocorrências (Fp 1. 10, 13, 15, 17, 18, 21, 23, 26, 27; 2. 26, 30; 3. 7, 9, 10, 18). O que podemos concluir é que Cristo é o assunto supremo desta, que à exceção de Filemom, e Colossenses, talvez seja a menor das cartas de Paulo. Nela se estabelecem questões pontuais em Cristologia, cujo ponto mais alto é o hino cristão primitivo. Vejamos o que se diz a respeito de Cristo na carta em apreço.

1) Jesus Cristo é Senhor

Em três ocasiões (Fp 1. 2; 3. 20; 4. 23) Paulo se refere a κυριου ιησου χριστου (kyriou Iesou Christou), indicando com isto que Jesus é Senhor (κυριου). Neste caso, a expressão em apreço nada tem a ver com um simples pronome de tratamento, mas com o nome que a versão grega da Bíblia judaica emprega para se referir ao nome eterno de Deus, Iahweh. Quando a afirmação do senhorio de Cristo não se dá de forma imediata, a mesma ocorre de modo implícito. É o que ocorre quando no começo da carta Paulo se identifica como δουλοι ιησου χριστου (douloy Iesuoi Christoy), servo de Cristo Jesus (Fp 1. 1).

O termo δουλοι indica um escravo, e todo escravo tem um Senhor (κυριου), que no caso do apostolo, é Cristo Jesus. Em todo o Novo Testamento o Senhorio de Cristo é amplamente afirmado pelos apóstolos. Ao mesmo tempo em que reconhecemos em Jesus o nosso Salvador, vemos a Ele como o nosso Senhor, a cujo senhorio nos rendemos.

 

2) Jesus é Salvador

 

O nome de Jesus, tal como ocorre com qualquer nome na cultura judaica foi dado em função da missão específica que ele mesmo teria de realizar. José foi orientado pelo anjo a colocar no bebê que fora gerado pelo Espirito Santo o nome de Jesus (Mt 1. 18 - 23). A justificativa apresentada estava na missão daquele que fora gerado no ventre de Maria, salvar o povo dos seus pecados. O nome ιησου indiretamente aponta para a obra e missão de Cristo, tanto que ele mesmo se identificou com a missão e disse que o Filho do homem veio para buscar e salvar o que se havia perdido (Lc 19. 10).

Em Filipenses Paulo chama Jesus de σωτηρα (sooteera), ou SALVADOR, cuja obra foi começada por ele mesmo (Fp 1. 6), e será aperfeiçoada até o dia em que seremos transformados e neste processo nossos corpos serão conformados à forma do corpo glorioso que Ele tem  (Fp 3. 20, 21). Este dia da redenção é chamado de ημερας ιησου χριστου (hemeras Iesou Christou), dia de Cristo Jesus (Fp 1. 6), ou simplesmente ημεραν χριστου (hemeran Christou), dia de Cristo (Fp 2. 16).

3) Jesus é o Messias

O nome Cristo (χριστου) é a variante do termo Hebraico Há mashiah (מָשִׁ֣יחַ), cujo sentido é o de Ungido. Não é pouca a polêmica em torno da auto identidade de Jesus nos Evangelhos. Alguns teólogos tem afirmado que ele não compreendia a si mesmo como o Messias, mas o fato é que frequentemente os Evangelhos se referem a Ele como sendo o Cristo, Filho do Deus Vivo (ο χριστος ο υιος του θεου του ζωντος). Foi por este nome que Pedro o chamou quando este perguntou aos discípulos o que achavam que ele era (Mt 16. 16). Mesmo os demônios possuíam consciência clara disto (Lc 4. 41).

Marta, irmã de Lázaro confessou: Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo (Jo 11. 27 NVI). O Evangelho de João foi escrito com a finalidade de que os leitores do mesmo cressem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tivessem vida em seu nome (Jo 20. 30).

O autor de Hebreus aplica o texto dos salmos em relação à pessoa de Cristo. Ele diz: Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros, ungindo-te com óleo de alegria (Hb 1. 9 NVI). Jesus foi ungido por Deus com uma unção que o faz superior aos profetas, aos anjos, aos patriarcas, ao próprio Moises.

4) Jesus é  modelo supremo

Escrevendo aos irmãos de Filipo, Paulo pede que eles tenham o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus (Fp 2. 5). O contexto aqui é o mesmo em que o apóstolo pede à comunidade que sejam unidos, que tratem uns aos outros como se superiores a si mesmos, e que busquem não os seus próprios interesses, mas o que é de outrem (Fp 2. 1 - 4).  É em Cristo que Paulo vai buscar este exemplo de desprendimento. O texto segue dizendo que Cristo sendo Deus não se prendeu á sua divindade. Mas que assumiu a forma de servo, e como tal foi obediente até a morte, e morte de cruz.
A morte que Cristo padeceu não era dele, mas nossa. Foi por meio de sua morte que Deus provou o seu amor para com os pecadores (Jo 3. 14 - 17; Rm 5. 8; I Jo 4. 8 - 10), por meio desta ato a cruz se torna o símbolo supremo da fé cristã. A mensagem do Evangelho é a mensagem da cruz (I Co 1. 17, 18), e a vida do crente tem de ser centrada na cruz. Viver de tal forma é dar a vida pelos irmãos (I Jo 3. 16).

5) Jesus é Deus

O termo empregado por Paulo não recebe uma perfeita tradução em nossas versões de Bíblias. Em nossa versão está escrito que subsistindo em forma de Deus, não usurpou ser semelhante a Deus. Mas a melhor versão para este texto é a Nova Versão Internacional, que traduz o texto da seguinte forma:
embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se (Fp 2. 6 NVI).

Isto porque o verbo υπαρχων (huparchon), de υπαρχω é melhor traduzido pelos verbos ser e existir do que pelo subsistir. Logo, mais do que subsistir, cujo sentido predominante em nossa cultura é o de manutenção, sobrevivência, aqui cabe o entendimento de viver e existir. Jesus era, e é Deus. Αρπαγμον de αρπαγμός, é o termo empregado por Paulo, e o sentido mais apropriado do mesmo é agarrar com força. Sendo Deus, Cristo não se agarrou com força a este fato.

Mesmo diante do desafio de Satanás (se tu és o Filho de Deus, manda..., Se tu és do Filho de Deus, lança-te....), ou do próprio desafio dos fariseus, ele jamais usou de sua divindade para provar nada aos seus detratores. Nem após a ressurreição vemos tal padrão no mestre. Em momento algum ele se agarra à divindade. Tudo o que Cristo possui é o testemunho do seu Pai. É deste modo que ele assume a forma de servo.

6) Jesus o Servo Sofredor

Jesus Cristo assume o papel e identidade de Servo. Como? Primeiro, ele esvaziou-se a si mesmo. Aqui o termo para esvaziar-se é o verbo εκενωσεν (ekenooseen), que vem do verbo κενόω (kenóo), cujo sentido pode ser o de humilhar-se, neutralizar-se, ou tornar-se sem reputação. E foi isto que Cristo fez quando abriu mão da glória que tinha junto do Pai antes da fundação do mundo (Jo 17. 3, 5), para se fazer carne e nesta condição habitar entre nós (Jo 1. 14, 15).

Foi assim que ele veio a ser servo. Ele não era servo, mas ele se fez como tal. Assim, μορφην δουλου  (morphé doylou), pode ser traduzido como assumindo a forma de servo, tal como na Almeida Atualizada. O que lhe cabia era a adoração dos anjos (Hb 1. 6), dos homens (Mt 2. 2), e mesmo a confissão justa dos demônios (Mc 1. 38; Lc 4. 41). Mas ele assumiu a afronta dos fariseus, a animosidade dos gadarenos e o escarnio dos seus detratores.

Mais do que isto, ele disse que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (Mt 26. 28). Ele se identificou como o עֶ֥בֶד יְהוָֽה (ebed YHWH [servo do Senhor]) do profeta Isaías. E como ele fez isto na prática? Veja: Sabendo disso, Jesus retirou-se daquele lugar. Muitos o seguiram, e ele curou a todos os doentes que havia entre eles, advertindo-os que não dissessem quem ele era. Isso aconteceu para se cumprir o que fora dito pelo do profeta Isaías: Eis o meu servo, a quem escolhi, o meu amado, em quem tenho prazer. Porei sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará justiça às nações. Não discutirá nem gritará; ninguém ouvirá sua voz nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, não apagará o pavio fumegante, até que leve à vitória a justiça. Em seu nome as nações porão sua esperança (Mt 12. 15 - 21 NVI).

Paulo afirma que nesta condição Cristo se fez obediente até a morte de cruz. Uma morte que não era sua, mas nossa. Mas que ele assumiu para si a fim de que por meio desta fossemos feitos justiça de Deus. A fim de que fôssemos declarados justos ele assumiu a nossa culpa (I Co 1. 30, 31; II Co 5. 21). Foi desta forma que ele veio a ser o Senhor Justiça Nossa (Jr 23. 5, 6).

7) Jesus é exaltado

Jesus começou humilhando a si mesmo. O verbo aqui no verso oito é εταπεινωσεν (etapeinoosen), de ταπεινόω, cujo sentido é o mesmo de humilhar-se, abater-se. É o ato de assumir uma condição que é inferior á que se tem. Em decorrência de tal ato de humilhação, Deus o elevou e lhe deu um nome superior ao dos anjos, por exemplo (Hb 1. 4, 5). O fato é que Deus glorificou a Cristo, é isto que afirma o autor de Hebreus. Da mesma forma, Cristo não tomou para si a glória de se tornar sumo sacerdote, mas Deus lhe disse: "Tu és meu Filho; eu hoje te gerei" (Hb 5. 5 NVI). Além do nome sobre todo o nome, a ascensão e a entronização de Cristo á direita do Pai (At 1. 10, 11; Rm 8. 31, 32) são indicadores de que sua oração foi atendida e ele foi glorificado com a mesma glória que possuía junto ao Pai antes da fundação do mundo. neste sentido ele é a aplicação prática de que a humildade precede a honra (Pv 15. 33; 16. 18; 18. 12). Que Deus nos capacite, por meio do seu Santo Espírito a seguir o exemplo de Cristo.  

Pr Marcelo Medeiros, em Cristo Jesus, o que se fez pobre para nos enriquecer.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Família, criação de Deus

 
Nosso trimestre da Escola Bíblica Dominical aborda temas a respeito da família. Fica explícito que a a preocupação dos autores, bem como da editora, e provavelmente da denominação, sejam as mudanças nos valores que regem a nossa vida, e conequentemente afetam as relações humanas, dentre as quais as familiares. Nossa primeira lição busca afirmar que o valor perene da família se deve pela sua origem divina. Nosso breve subsídio vai se orientar pela definição de família e pelo resumo da lição.
 
A definição de família
 
O dicionário eletrônico Michaellis dá as seguintes definições para família:
1 Conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo teto, particularmente o pai, a mãe e os filhos.
2 Conjunto de ascendentes, descendentes, colaterais e afins de uma linhagem ou provenientes de um mesmo tronco; estirpe.
 3 Pessoas do mesmo sangue ou não, ligadas entre si por casamento, filiação, ou mesmo adoção, que vivem ou não em comum; parentes, parentela.
4 fig Grupo de pessoas unidas por convicções, interesses ou origem comuns.
Por sua vez o Aurélio exprime os seguintes conceitos:
O pai, a mãe e os filhos: família numerosa. /
Todas as pessoas do mesmo sangue, como filhos, irmãos, sobrinhos etc.
Grupo de seres ou coisas que apresentam características comuns: família espiritual.
 
O primeiro conceito exprime a idéia atualmente conhecida como família nuclear, a que é composta por pai, mãe e filhos. O segundo engloba os demais parentes e se encaixa com maior perfeição no conceito de família patrarcal, ou clã. A terceira definição nos aponta para a forma com a qual a família é constituída, por meio do casamento. A última nos remete às ligações afetivas oriundas do sentimento de pertença, neste caso a Igreja vem a ser sim uma família.
 
A instituição da família na Bíblia
 
Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra (Gn 1.26 - 28 NVI).
 
Então o Senhor Deus declarou: Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda. Depois que formou da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, o Senhor Deus os trouxe ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. Assim o homem deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens. Todavia não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe correspondesse.
Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele. Disse então o homem: Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada. Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha (Gn 2. 18 - 25 NVI).

Do texto bíblico podemos extrair as seguintes lições: 
  1. A afirmação de que o homem foi feito à imagem de semelhanaça de Deus aparece por duas vezes no primeiro texto. A instituição da família na Bíblia segue o modeo trinitário. O homem foi feito à imagem e à semelhança de Deus, que é trino, logo ele somente poderia ser homem se fosse macho e fêmea, ou seja, não poderia ser solitário.
  2. Fica claro já no primeiro texto que o modelo bíblico de família é a que se constitui de macho e fêmea. Fato claramente afirmado por Jesus em seu Evangelho quando indagou os seus discípulos: Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher e disse: Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne? (Mt 19. 4, 5 NVI). 
  3. A solidão não é algo bom para ser, ou criatura alguma, daí o casamento se constituir como um parceria, na qual o papel da mulher é de ser para com o homem uma auxiliadora que lhe corresponda, que lhe esteja à altura.
  4. A definição de família como pessoas do mesmo sangue, como filhos, irmãos, sobrinhos etc. ganha tônica nas palavras do texto bíblico, que afirma que o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele. Diante disto o homem disse: Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada. Aqui o parentesco é garantido pelo origem comum à homem e mulher.
  5. Ao contrário do que e diz nas Ciências Sociais, a família nucear tem precedência bíblica obre quaisquer outros modelos, visto que o texto bíblico diz: o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. O conceito bíblico de família tem a ver com unidade orgânica. Marido e mulher se tornam uma só carne.
  6. O texto termina com a afirmação de que homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha, indicando com isto que em função de homem e mulher serem uma só carne o lar, por eles constituído, é um lugar, ou ambiente de mútua aceitação. ETE FOI O PROJETO INICIAL DE DEUS.
 
A narrativa bíblica prossegue afirmando que o pecado entrou no mundo e com a entrada do mesmo a relação do homem com Deus foi contaminada e suas relações interpessoais também. Ma este projeto pode ser retomado graças ao Senhor Jesus Cristo, que veio ao mundo para reconciliar o homem com Deus e com o seu semelhante.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Minha definição de Teologia





Teologia

Palavra cuja etimologia é a junção de dois termos gregos, a saber: θεου (theou), e λογια (logia). O primeiro termo é usualmente traduzido por Deus, ao passo que o segundo, por estudo, ou tratado. Assim, em termos etimológicos a  θεουλογια (Teologia) seria o Estudo a respeito de Deus e alguns dicionários parecem concordar com tal conceito. O Michaellis, por exemplo, traz em um dos seus conceitos a respeito da palavra, a seguinte definição: Ciência sobrenatural de Deus e das criaturas enquanto ordenadas a Deus, e Ciência que se ocupa de Deus e de seus atributos e perfeições.
Como alguém que tem dedicado significativa parte da vida ao ensino religioso e seis anos ao Teológico, tenho de discordar deste conceito. Primeiro, Deus nunca esteve nos domínios da Teologia, ou de qualquer ciência humana. Paulo afirma: Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e inescrutáveis os seus caminhos! Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense? (Rm 11. 33 - 35 NVI). 
Antes de passar para o segundo ponto, preciso dizer que nem a mais profunda experiência de natureza espiritual capta Deus. Pelo contrário, é Deus quem nos conquista em momentos de êxtase profundos. Um exemplo é a experiência de Paulo no caminho de Damasco, ele viu a Cristo, mas não o captou com uma visão, em toda a sua plenitude. Tanto que ao escrever sua carta aos crentes de Filipo, ele diz: Quero conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte. Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus (Fp 3. 10, 12 NVI). Ele sabe que, a despeito de haver visto a Cristo ainda tem muito a conhecer a respeito do mesmo, e que para este propósito foi alcançado.
Segundo, os primeiros teólogos sabiam que estavam lidando com algo que os superava. É esta a mensagem que lemos em toda a Bíblia, mas gostaria de me referir a Davi. Ele diz a respeito de Deus: Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos. Sabes muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos te são bem conhecidos. Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor. Tu me cercas, por trás e pela frente, e pões a tua mão sobre mim. Tal conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance, é tão elevado que não o posso atingir (Sl 139. 1 - 6 NVI). Destacamos a última frase, porque nela percebemos que a Teologia mesmo sendo a principal ferramenta para o homem se expressar a respeito de Deus, é incompleta, ou seja, não o apreende em sua totalidade.
Assim, a Teologia funciona como um mapa. Ele não é a realidade em si, a Teologia muito menos. Mas é útil em representar uma realidade que nos é desconhecida. Note que a Teologia ela representa nossa experiência com Deus, que por sua vez servirá de norteador para outras pessas trilhem o caminho. Algum motosita, por melhor que seja, por mais experiência que tenha desprezaria um bom GPS? Creio que não. Por que desprezar a Teologia?
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros
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