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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Lição da EBD n° 1: O valor de um bom conselho


Conselho nada mais é do que uma opinião, um parecer sobre o que convém fazer; aviso, advertência, podendo também ser entendido como uma assembleia de pessoas que deliberam sobre certos assuntos, é neste último sentido que se fala em conselho estadual, ou municipal de   educação. A ideia que permeia tais conselhos é a de que cada pensamento se confirma com conselho e com bons conselhos se faz a guerra (Pv 20. 18). O livro de Provérbios, constitui-se como uma literatura voltada para aquisição da sabedoria, e por este motivo, afirma incessantemente o valor dos bons conselhos.
 
I) A sabedoria de Provérbios.
 
Os provérbios são máximas expressas em poucas palavras e que por este motivo se tornaram populares. Rifão, anexim, adágios são palavras sinônimas para provérbios. O Dicionário Aurélio na versão virtual traz ainda as seguintes informações:
O rifão tem estilo vulgar, às vezes com termos baixos; o anexim, sentencioso, contém ironia ou chiste. O adágio, o rifão e o anexim são chamados pelo povo de ditados. Todas as línguas têm seus provérbios. Com frequência os mesmos provérbios com formas diferentes ocorrem entre muitos povos e cm épocas diferentes. Às vezes, provérbios semelhantes têm a mesma origem. Em outros casos não têm provavelmente nenhuma conexão. A Bíblia contém um livro inteiro de provérbios. Estes provérbios são até hoje de uso comum, especialmente em países de maioria protestante.
Na Bíblia há um livro feito apenas de tais sentenças. Ele recebe em nossa língua o nome de Provérbios (hb mashal [מִ֭שְׁלֵי]). A finalidade do mesmo consiste justamente em transmitir lições de modo fácil e que as mesmas permaneçam na mente do ouvinte. Seguindo Gordon Fee e Douglas Stuartt, um grande erro que se pode cometer com os provérbios da Bíblia consiste em deixar de perceber o seu caráter pedagógico e interpretar os mesmos como se fossem leis. Este erro é cometido principalmente pelos que seguem a moral de causa e efeito.
Dois provérbios deixam claro que se não forem acompanhados pela sabedoria, as máximas de nada adiantam. Como as pernas do coxo, que pendem flácidas, assim é o provérbio [וּ֝מָשָׁ֗ל] na boca dos tolos (Pv 26. 7 ARCF). Entenda que no caso do coxo, as pernas perdem a sua principal função, de igual modo o proverbio na boca do tolo, visto que este não possui o sendo para aplicar as lições ali contidas. Como o espinho que entra na mão do bêbado, assim é o provérbio [וּ֝מָשָׁ֗ל] na boca dos tolos (Pv 26. 9 ARCF). Entenda que o bêbado, é por definição alguém cujo o cérebro perturbado pela ação do álcool, de modo que ele não pode socorrer a si mesmo quando um espinho entra em sua pele.
 
II) O propósito, ou finalidade de Provérbios
 
Provérbios é uma coletânea de adágios cujo propósito final é o de transmitir a sabedoria (hokmã [חָכְמָ֣ה]), aqui entendida não como saber, mas como habilidade para aplicar o conhecimento de forma prática. Para maiores informações, ver neste blog, o estudo Sabedoria de Deus para uma vida vitoriosa. Ao lado da sabedoria temos a instrução (mushar [מוּסַ֣ר]), esta mesma palavra é utilizada em Jó 12. 18 para atadura, mas os autores bíblicos a usam para castigo (Pv 1. 8; 13. 1, 24), correção (Pv 3. 11).
Para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade (Pv 1. 3 ARCF), o final da disciplina aqui é a pratica da justiça, juízo e equidade. O objetivo principal aqui é que o homem de Deus, de posse das sagradas letras que podem nos tornar sábios para a salvação que há em Cristo, se torne plenamente instruído em toda a boa obra (II Tm 3. 14 - 17).
Para dar aos simples, prudência, e aos moços, conhecimento e bom siso (Pv 1. 4 ARCF). A aquisição da prudência (ormãh [עָרְמָ֑ה])é uma das finalidades do ensino dos provérbios. Não é sem razão que a sabedoria clama: Entendei, ó simples, a prudência; e vós, insensatos, entendei de coração (Pv 8. 5 ARCF). Uma vez personificada a sabedoria afirma: eu a sabedoria, habito com a prudência, e acho o conhecimento dos conselhos (Pv 8. 12 ARCF). Em todos estes casos, tem a ver com a capacidade de prever e evitar as inconveniências e os perigos; cautela, precaução.
Mediante leitura dos provérbios, os sábios ouvem a sabedoria dos antigos e adquirem mais e mais conhecimento, ou לֶ֑קַח (leqãh), cujo sentido real é o de um aprendizado recebido por meio da ação de um mestre. O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento, e o entendido adquirirá sábios conselhos (Pv 1. 5 ARCF).
Sem este trabalho anterior, a verdade expressa nos provérbios não pode ser plenamente entendida, afinal, a vida não é feita de regras inflexíveis, do tipo pode, ou não pode. Pelo contrário! O temor, este sim, é o caminho para a sabedoria (Pv 1. 7). Com isto os escritores bíblicos estão nos dizendo que: pela misericórdia e verdade a iniquidade é perdoada, e pelo temor do Senhor os homens se desviam do pecado (Pv 16. 6 ARCF).
O sábios judeus tem toda a razão em afirmar: No temor do Senhor há firme confiança e ele será um refúgio para seus filhos. O temor do Senhor é fonte de vida, para desviar dos laços da morte (Pv 14. 26, 27 ARCF). Mas o que é o temor do Senhor? A sabedoria responde: O temor do Senhor é odiar o mal; a soberba e a arrogância, o mau caminho e a boca perversa, eu odeio (Pv 8. 13 ARCF). Não se trata de regras, mas de temer a Deus a fim de que o mal seja evitado, daí o entendimento mais do que comum que o temor do Senhor é o principio da Sabedoria.
 
III) O valor do bom conselho
 
Via de regra a expressão לְעֵצָ֣ה (eshah) é empregada nos livros sapienciais de forma positiva para o conselho oriundo da sabedoria. Mas pode também ser entendido como urdidura, trama, e é estritamente neste sentido que o sábio afirma: Não há sabedoria, nem inteligência, nem conselho [עֵ֝צָ֗ה] contra o Senhor (Pv 21. 30 ARCF). Creio firmemente que a razão de ser de tal afirmativa seja o fato de que ninguém pode surpreender a Deus, pelo contrário! É Ele que aniquila as imaginações dos astutos, para que as suas mãos não possam levar coisa alguma a efeito. Ele apanha os sábios na sua própria astúcia; e o conselho [ לְעֵצָ֣ה] dos perversos se precipita (Jó 5. 12, 13 ARCF). 
Mas o caso de Roboão, mostra que para ouvir o bom conselho é necessário um coração sábio (I Rs 12. 8, 13, 14). E o caso de Absalão, que preferiu o conselho de Husai ao de Aitofel, nos mostra que mesmo quando o conselheiro é astuto, é Deus quem detém o poder de confirmar, ou derrotar o conselho (II Sm 17. 7, 14, 23). Aqui se confirmar as palavras que Elifaz proferiu para Jó: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia; e o conselho [ לְעֵצָ֣ה] dos perversos se precipita (Jó 5. 12, 13 ARCF). E, Muitos propósitos há no coração do homem, porém o conselho do Senhor permanecerá (Pv 19. 21 ARCF).
Salomão ainda afirma que Quando não há conselhos os planos se dispersam, mas havendo muitos conselheiros eles se firmam (Pv 15. 22 ARCF). Aqui cabe a observação de que a palavra para planos é סֹ֣וד (sôdh), que pode ser compreendida como intimidade (Sl 25. 14), ou planejamento secreto (Pv 15. 22). Em dois casos, o uso do termo indica que por ter intimidade com os seus, Deus lhes revela seus propósitos e segredos íntimos (Sl 25. 14; Pv 3. 32). Para todos os efeitos a sabedoria é mais do necessária para que possamos discernir entre o bom e o mau conselho, entre o conselho que vem de Deus, e o que não vem d'Ele.
O salmista afirma: Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho [ לְעֵצָ֣ה] dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores (Sl 1. 1 ARCF). Jó discorda do conceito de que com os idosos está a sabedoria. Para este a sabedoria está em adquirir os conselhos de Deus. Afinal
Na sua mão está a alma de tudo quanto vive, e o espírito de toda a carne humana.  Porventura o ouvido não provará as palavras, como o paladar prova as comidas? Com os idosos está a sabedoria, e na longevidade o entendimento.  Com ele está a sabedoria e a força; conselho e entendimento tem.  Eis que ele derruba, e ninguém há que edifique; prende um homem, e ninguém há que o solte (Jó 12. 10 - 14 ARCF). 
O bom conselho é muito valioso. Daí o conselho do sábio: Ouve o conselho, e recebe a correção, para que no fim sejas sábio (Pv 19. 20 ARCF). Cada pensamento se confirma com conselho e com bons conselhos se faz a guerra (PV 20. 8 ARCF). Mas os que não ouvem e nem aceitam o conselho da sabedoria comerão dos frutos das suas ações (Pv 1. 25 - 32). Que Deus nos dê mais e mais de sua sabedoria para que possamos filtrar os conselhos, ouvir e colocar em prática os bons conselhos.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.
                                                                                                                                                           

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Sabedoria de Deus para uma vida vitoriosa



A nossa próxima lição de Escola Bíblica Dominical tem por título: A sabedoria de Deus para uma vida vitoriosa, como subtítulo, traz a atualidade de Provérbios e Eclesiastes. Diante das informações básicas contidas na capa, o leitor pode indagar: em que sentido um texto escrito há mais de dois mil e quinhentos anos pode ser atual? Pode a sabedoria de um povo do período pré-científico ajudar homens do período moderno, afinal, estamos em um era de alto desenvolvimento científico e tecnológico, experimentamos bens de consumo, que aqueles povos jamais sonhariam? Creio firmemente que uma resposta no mínimo satisfatória englobaria uma abordagem das seguintes questões:
1) O caráter perene da Palavra de Deus enquanto escrito inspirado.
2) A necessária distinção entre ciência e sabedoria.
3) O necessário reconhecimento de que o fato de vivermos em um período permeado pela ciência e pela técnica não nos torna mais sábios do que os povos antigos.
4) O desenvolvimento cientifico não torna a nossa vida melhor do que a daqueles povos.
5) Nem a fruição de bens de consumo nos torna mais felizes e satisfeitos.
Por incrível que pareça é justamente nestes pontos que reside a mensagem dos dois livros que estaremos estudando no trimestre que vem.
 
I ) O caráter perene da Palavra de Deus enquanto escrito inspirado
 
Esta não é uma afirmação de cunho científico, a base da mesma é a própria Bíblia, que diz a respeito de si própria: Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra (II Tm 3. 16, 17 NVI). Por meio deste texto, observamos a inspiração do texto, e a finalidade do mesmo fazer com que  o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.
Ao olharmos para Provérbios e Eclesiastes, é justamente isto que vemos, instruções para que o homem venha a trilhar o caminho da justiça, ao menos este é um dos objetivos que o autor do livro apresenta para a coletânea dos provérbios, dar, ao leitor, a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade (Pv 1. 3 ARCF). Mas somente quando Deus dá a sabedoria, que a justiça é acessível aos homens (Pv 2. 1 - 9).
Provérbios é um escrito que constantemente reivindica autoridade por meio da expressão: ouve. Assim no primeiro capitulo observa-se: Escuta, meu filho a disciplina do teu pai, não desprezes a instrução de tua mãe (Pv 1. 8 Bíblia de Jerusalém). Um dos motivos para o ouvir é a qualidade da sabedoria que o autor vindica para si. Escutai, filhos, a instrução do pai, ficai atentos para conhecerdes a inteligência; eu vos dou boa doutrina, não abandoneis minha instrução (Pv 4. 1, 2 Bíblia de Jerusalém).
Mais do ouvir, o autor apela para que se preste atenção. Meu filho, presta atenção à minha sabedoria, dá ouvidos ao meu entendimento (Pv 5. 1 Bíblia de Jerusalém). O ouvir aqui possui uma dimensão superior ao mero escutar, ou à mera percepção sensorial. Ouvir, é atender, obedecer, sendo este o real sentido da expressão hebraica שְׁמַ֖ע (shemai). Mas ao que tudo indica, o ouvir é uma característica exclusiva dos sábios. Afinal, o texto mesmo diz: O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento, e o entendido adquirirá sábios conselhos (Pv 1. 5 ARCF). Mas quem é o sábio? É justamente aqui que se torna necessária a distinção entre sabedoria e ciência.
 
II) A necessária distinção entre ciência e sabedoria
 
De acordo com o Aurelio on line, a ciência é: . Conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos. (Toda ciência, para definir-se como tal, deve necessariamente recortar, no real, seu objeto próprio, assim como definir as bases de uma metodologia específica: ciências físicas e naturais, [por exemplo, a historia, tem como objeto a ação humana no tempo, a Geografia, as relações do homem com o espaço terrestre, etc..].) Conjunto de conhecimentos humanos a respeito da natureza, da sociedade e do pensamento, adquiridos através do desvendamento das leis objetivas que regem os fenômenos e sua explicação.
No livro O que é Religião, Rubem Alves afirma que a ciência é um tipo de conhecimento pragmático que surgiu como resposta às demandas de um período histórico específico. De acordo com o filósofo Francis Bacon, o objetivo da empreitada cientifica é ode tornar a vida humana mais fácil. Como? Mediante a explicação dos fenômenos naturais e o consequente domínio da natureza. No entanto, as invenções e o desenrolar da historia nos mostram que tornar a vida mais fácil é bem diferente de torna-la melhor, e creio ser justamente aí que entra a sabedoria.
Retornando ao vulgo pai dos burros, agora na versão on line, encontro a seguinte definição de sabedoria: aplicação inteligente (aqui leia-se hábil) dos conhecimentos, conduta orientada de acordo com o conhecimento daquilo que é verdadeiro e justo. Grande circunspeção e prudência; juízo, bom senso, razão, retidão. Discernimento adquirido pelas experiências de uma longa vida, e é justamente neste ponto do nosso estudo que se faz necessário reconhecer que o fato de vivermos em um período permeado pela ciência e pela técnica não nos torna mais sábios do que os povos antigos.
 
III) O necessário reconhecimento de que o fato de vivermos em um período permeado pela ciência e pela técnica não nos torna mais sábios do que os povos antigos

Aqui é preciso esclarecer que temos sim mais ciência, ou melhor maior produção cientifica, isto é fato! A Bíblia nada fala de química, física, biologia, astronomia, por exemplo; e a grande é que as poucas incursões que os autores dos salmos fazem na área em nada se pode comparar com as elucubrações dos cientistas modernos. Caio Prado Junior afirma que nem as especulações dos filósofos pré-socráticos  pode ser equiparada ao trabalho de um cientista moderno, visto que aqueles buscavam apenas responder como seria possível ao homem, que imerso em uma realidade tão diversa, conhecer a mesma.
Também precisamos reconhecer que a ciência produziu um modus vivendis, sem o qual a nossa sobrevivência seria impossível, ou no mínimo demasiadamente complicada. Eu, por exemplo, não consigo mais me imaginar sem um celular que me permita comunicar com minha mulher na hora em que pretendo. Não me imagino mais escrevendo à mão em folhas de papel computador. Mas isto significa que somos mais sábios? De forma alguma!
A sabedoria não está no quanto produzimos de ciência, ou de bens de consumo, mas em como aproveitamos e aplicamos nossa produção intelectual à nossa existência real e concreta. Como observa Peter Kreuff, a despeito do progresso que temos, existe muito descontentamento em nossa literatura, usamos carros, e com estes abrimos mãos do prazer de uma caminhada para economizar tempo que não usamos para nada, além de mata-lo.
É com esta sabedoria que Eclesiastes se preocupa. A vida de nada adianta, se o homem não frui dela o seu melhor, e fruir o melhor da vida nada mais é do que aproveitar os dons que Deus nos concedeu a fim de viver. O sentido de dom aqui é o de dadiva. As dádivas vão desde o vinho, até o prazer da companhia do cônjuge (Ec 9. 7 - 9), bem como o tempo de vida que temos, e que pode ser aproveitado para que haja investimento (Ec 9. 10).

IV) O desenvolvimento cientifico não torna a nossa vida melhor do que a daqueles povos

Não basta viver em uma sociedade moldada pela ciência. Esta pode ser utilizada tanto para cura, quando para destruição em massa. O iluminismo trouxe uma onde imensa de otimismo em relação á ciência moderna, mas as duas guerras do século XX jogaram este otimismo por terra. Trocamos sofrimentos antigos por novas formas de sofrimento, e tudo, porque seja na Jerusalém do século IX a. C. , seja na América, ou no Brasil do século XXI d. C, a verdade é que a vida é vaidade, fugaz, passageira, frágil, e absurda.
Mesmo dispondo tamanho desenvolvimento, corremos o sério risco de aproveitarmos a vida bem menos do que os antigos a aproveitaram. A arte do bem viver demanda sabedoria acima de qualquer coisa. Se não dispomos da habilidade necessária para aplicar as descobertas da ciência moderna, de nada adianta. Um ponto no qual esta questão se mostra nevrálgica, é a questão do mundo do trabalho.
Nas Escrituras, este é apontado como sendo a fonte de sustento do homem (Gn 3. 19; Sl 104. 23; 128. 1, 2). A perspectiva de Provérbios, a respeito da atividade laborativa é positiva. Em todo trabalho há proveito, mas ficar só em palavras leva à pobreza (Pv 14. 23 ARCF). E isto, ao ponto de acreditar que todo o seu trabalho terá uma recompensa. Viste o homem diligente na sua obra? Perante reis será posto; não permanecerá entre os de posição inferior (Pv 22. 29 ARCF). Mas a perspectiva do pregador não é das melhores. Para este o trabalho é um castigo que Deus dá ao pecador, é algo odioso, enfadonho e nada gratificante. A gratificação do mesmo está não no labor em si, mas nos resultados que este traz (Ec 2. 16 - 26).
Neste ponto a fala do pregador me lembra a de Mário Sérgio Cortella, para quem o trabalho é fundamental, mas não essencial. Em filosofia, essência, tem a ver com o ser, o que nos leva concluir, que por mais digno que seja o trabalho, o ser humano não se define a partir do mesmo. O trabalho é digno não por si mesmo, mas pelo que ele traz para nós. Reconhecimento, sustento. Mas o pregador, percebe que nem sempre o reconhecimento vem (Ec 9. 11), e que o apetite nunca cessa (Ec 6. 7). Daí, a saída que o pregador propõe, é esta: que o homem se alegre no seu trabalho, e desfrute do mesmo.
Então louvei eu a alegria, porquanto para o homem nada há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se; porque isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da sua vida que Deus lhe dá debaixo do sol (Ec 8. 15 ARCF). Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol (Ec 9. 9 ARCF). Mas como aplicar esta sabedoria nos dias atuais?
Primeiro, precisamos entender que o trabalho é fundamental, visto que sem o mesmo não sustentamos e muito menos acessamos os bens de consumo dos quais necessitamos para a nossa subsistência. O trabalho não é essencial visto que ele não nos melhora enquanto pessoa. Terceiro, o trabalho foi feito para que desfrutássemos do prazer, mas se o apetite não for moderado, ele estabelece um circulo vicioso em que vamos trabalhado, e nos esgotando cada vez, produzindo perda de vitalidade e transformando a nossa vida em um verdadeiro buraco negro. Por último, a alegria do viver está nas coisas mais básicas da vida, mesmo as mais corriqueiras. Mas esta é apenas uma reflexão inicial.
Creio que o nosso modo de produção também precisa mudar. A ciência, repito, foi formulada para que o homem vencesse o temor da natureza e uma vez explicando-a por categorias racionais, este viesse a trabalhar em seu favor, e com isto a vida se tornasse mais fácil. Oscar Wilde percebeu que tal promessa não se cumpriu e mais, em livro que tem por título: A Alma do homem sob o Espírito do Socialismo, propôs que as maquinas fossem escravas do homem, para que este viesse a desenvolver a sua máxima potencialidade. ISTO É SABEDORIA, A APLICAÇÃO HÁBIL DOS RECURSOS PARA UMA VIDA MELHOR.

V) A simples fruição de bens de consumo não nos torna mais felizes e satisfeitos

Pode ser que fruir bens de consumo nos torne mais tediosos, do que alegres, satisfeitos e gratos em relação à vida. Este tédio pode ser visto no romance as Cidades e as Serras, de Eça de Queirós. Neste o personagem Jacinto que vive no contexto da cidade, e por este motivo possui acesso aos bens de consumo, demonstra grande tedio face à rotina, ao passo que Zé Fernandes, que vem do campo, tudo é maravilhoso, inclusive o tédio que Jacinto demonstra diante da vida.
Em uma palestra intitulada Nós não nascemos prontos, Mario Sérgio Cortella afirma que está faltando espanto. Andamos de avião, em uma velocidade extraordinária, viajamos para partes do mundo, antes inacessíveis, e, a despeito de tudo isto, estamos em meio a uma geração que reage de forma, no mínimo apática a isto tudo. E o pior ainda está por vir, a apatia é a regra de conduta social em nossa sociedade. Demonstrar felicidade em viajar de avião é brega.
Chesterton observa que a vitalidade tem a ver com a repetição constante. Uma criança demonstra a energia vital dela em repetir a mesma brincadeira, o mesmo filme. O autor chega a brincar dizendo que talvez Deus seja como uma criança, o que não é absurdo se observarmos que ele não sofre a ação do tempo, por viver na eternidade. Isto explica o ciclo constante que ele imprimiu na natureza e que o pregador tão bem fala (Ec 1. 4 - 11).
Para o pregador tanto a adolescência quanto a juventude são vaidade, daí que o melhor de nossa vida tenha de ser devidamente desfrutado. Como? Vivendo o prazer em sua plenitude (Ec 11. 7 - 9) e lembrando-se, ainda nos dias da mocidade, que há um criador (Ec 12. 1 - 8). Mas em que a lembrança do criador nos proporciona uma vida mais feliz.
Primeiro, esta é a constatação do pregador. Em um mudo em que tudo é vaidade, e que a justiça tem de ser equilibrada com a consciência de que não há homem justo que faça o bem e nunca peque (Ec 7. 14 - 20), a melhor vida é a que conciliar o entendimento de que Deus é a fonte máxima do prazer, da alegria, da satisfação (Ec 2. 26), sabendo que a busca pelo prazer tem de ser conciliada com a busca por Deus, a fonte suprema do mesmo.
É justamente quando o foco é retirado do criador, ou do Absoluto, que tudo o que poderia contribuir para uma vida de espanto e fascinação diante da beleza da criação se transforma em tédio. À semelhança do personagem Jacinto, das Cidades e as Serras, explicamos tudo, tudo mesmo. Mas caímos no erro de achar que somente o contexto em que vivemos é a realização da civilização, quando a verdade não é esta.
A necessidade de tudo explicar nos retirou a nossa humildade, a consciência clara de nossa ignorância, e a sensação de espanto, e com a mesma, a alegria de viver. Minha oração sincera é que este trimestre de estudo, e os posts que aqui serão publicados em decorrência do mesmo, sejam vacina contra estes males, afinal, esta é a sabedoria de Provérbios e Eclesiastes.

Pr Marcelo Medeiros.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Lição da EBD nº 10






Sofonias, e o Grande dia do Senhor

O profeta Sofonias apresenta características distintas em relação aos demais profetas. Primeiro, ao lermos seu livro nos deparamos com uma extensa genealogia, algo que ao ver de todos os comentaristas é incomum na literatura profética. Segundo, sua genealogia o liga ao nome de um dos reis mais piedosos que houve em Judá, o rei Ezequias. O mais curioso, é que foi este soberano que recebeu de Isaías, o oráculo de que as riquezas da Casa do Senhor seriam levadas por Babilônia, e curiosamente sentiu alívio por saber que tal fato não se daria em seus dias (Is 39).
Uma lição que extraímos deste primeiro comentário é a visão "prévia", que Deus tem de todas as coisas que existem. A presciência de Deus, na verdade é um termo antropomórfico, visto que fala do conhecimento divino em categorias temporais. Deus sabe de todas as coisas e pronto. Ele não habita no tempo e no espaço, mas na eternidade, e desta perspectiva ele vê o tempo como um fluxo contínuo.
Retornando ao tema proposto, Sofonias é um profeta contemporâneo de Naum, Jeremias, Habacuque, e da famosa profetisa Hulda. Pelo tom dramático que o profeta emprega para falar do dia do Senhor (Sf 1. 7, 8, 10, 14, 18; 2. 2, 3; 2. 8) cuja expressão em hebraico é: יֹ֣ום יְהוָ֔ה (yom YHWH), a maioria dos intérpretes decidiu colocar o seu ministério profético nos dias anteriores às reformas feitas por Josias.
Ainda assim convém ressaltar que a única evidência interna, afirma tão somente que seu ministério se deu durante o reinado de Josias, conforme lemos: durante o reinado de Josias, filho de Amom, rei de Judá (Sf 1. 1 NVI). Minha singela opinião é a de que seu ministério profético possa sim ter ocorrido durante o período de reforma. A profecia de Hulda é bastante clara a este respeito. por Josias ter se arrependido, "ele morrerá antes que as maldições escritas no livro aconteçam", ou seja, Josias não veria as desgraças que se abateriam sobre a cidade santa (II Rs 22. 19, 20). Em outras palavras, "o destino de Judá já estava selado".
Reornando ao tema do dia do Senhor יֹ֣ום יְהוָ֔ה (yom YHWH), percebemos que este mesmo é de extrema importância para Sofonias, dadas às ocorrências das expressões no livro do referido profeta (Sf 1. 7, 8, 10, 14, 18; 2. 2, 3; 2. 8). O dia do Senhor יֹ֣ום יְהוָ֔ה (yom YHWH), é um dos conceitos chave do livro, e para o desenvolvimento do mesmo, o profeta recorre a uma ampla tradição profética anterior e contemporânea ao mesmo, o que indica que este seja conhecedor dos escritos de muitos profetas.
Em todos os casos, para o profeta Sofonias, o dia do Senhor יֹ֣ום יְהוָ֔ה (yom YHWH) é:
  1. Um dia que está muito próximo. Calem-se diante do Soberano Senhor, pois o dia do Senhor está próximo (Sf 1. 7 NVI). O profeta Isaías mesmo convida o povo nas seguintes palavras: Chorem, pois o dia do Senhor está perto; virá como destruição da parte do Todo-poderoso (Is 13. 6 NVI). Para Ezequiel, o dia está próximo, o dia do Senhor está próximo (Ez 30. 8 NVI). A expressão קָרֹוב֙ (qãrôb) curiosamente é a mesma expressão empregada para designar parentesco. Tal indica que por sua atitude, Judá estava se avizinhando do dia do Senhor.
  2. Sofonias prossegue afirmando: o Senhor preparou um sacrifício; consagrou os seus convidados (Sf 1. 7 NVI). A expressão indica que a batalha de Deus contra as nações produzirá tantos cadáveres que o resultado será um banquete de aves de rapina. Jeremias percebe este sentido da expressão e afirma:  aquele dia pertence ao Soberano, ao Senhor dos Exércitos. Será um dia de vingança, para vingar-se dos seus adversários. A espada devorará até saciar-se, até satisfazer sua sede de sangue. Porque o Soberano, o Senhor dos Exércitos, fará um banquete na terra do norte, junto ao rio Eufrates (Jr 46. 10 NVI). Ambos os profetas empregam aqui a expressão ritual  זֶ֠בַח  (zebhah), cujo sentido é o de sacrifício, holocausto, ou matança.
  3. É um dia de ira. a expressão aqui é יֹ֖ום אַף־יְהוָֽה׃ (yom aph YHWH). אַף־ (aph) é uma expressão usada para designar a face, ou mesmo o nariz de uma pessoa, também pode ser a respiração acelerada, por conta de uma forte emoção.
  4. Este dia da ira do Senhor não deve de ser visto por nós como se fosse um dia futuro apenas. Tal interpretação talvez possa ser aplicada ao Apocalipse, mas não aos profetas, uma vez que estes falavem do futuro deles, não do nosso. Tal pode ser visto nas palavras de Jeremias, para quem o dia da ira do Senhor era o momento da desolação de Jerusalém por causa da invasão babilônica. Como se faz convocação para um dia de festa, convocaste contra mim terrores por todos os lados. No dia da ira do Senhor ( בְּיֹ֥ום אַף־יְהוָ֖ה), ninguém escapou nem sobreviveu; aqueles dos quais eu cuidava e os quais eu fiz crescer, o meu inimigo destruiu (Jr 2. 22 NVI).
Em razão do caráter trágico deste dia apenas um resto, ou remanescente sobrará de Israel. O termo
שְׁאֵרִ֛ית (Shrîth) indica os que escaparam, os que sobraram. Este remanescente se tornará herdeiro do território de Moabe, Amom, e da terra ocupada pelos filisteus. É o que lemos:

Ela pertencerá ao remanescente da tribo de Judá. Ali encontrarão pastagem; e ao entardecer, eles se deitarão nas casas de Ascalom. Pois o Senhor, o seu Deus, cuidará deles; ele restaurará a sorte deles. "Ouvi os insultos de Moabe e as zombarias dos amonitas, que insultaram o meu povo e fizeram ameaças contra o seu território. Por isso, juro pela minha vida", declara o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, "Moabe se tornará como Sodoma e os amonitas como Gomorra: um lugar tomado por ervas daninhas e poços de sal, uma desolação perpétua. O remanescente do meu povo os saqueará; os sobreviventes da minha nação herdarão a terra deles (Sf 2. 7 - 9 NVI).

Este restante do povo é um restante que não cometerá iniquidade. O remanescente (שְׁאֵרִ֛ית) de Israel não cometerá injustiças; eles não mentirão, nem se achará engano em suas bocas. Eles se alimentarão e descansarão, sem que ninguém os amedronte (Sf 3. 13 NVI). É a partir da ideia do resto (שְׁאֵרִ֛ית) que o profeta Sofonias desenvolve a sua temática da restauração do povo eleito, daí ele terminar o seu livro com o seguinte convite:

Cante, ó cidade de Sião; exulte, ó Israel! Alegre-se, regozije-se de todo o coração, ó cidade de Jerusalém! O Senhor anulou a sentença contra você, ele fez retroceder os seus inimigos. O Senhor, o Rei de Israel, está em seu meio; nunca mais você temerá perigo algum. Naquele dia se dirá a Jerusalém: Não tema, ó Sião; não deixe suas mãos enfraquecerem. O Senhor, o seu Deus, está em seu meio, poderoso para salvar. Ele se regozijará em você, com o seu amor a renovará, ele se regozijará em você com brados de alegria (Sf 3. 14 - 17 NVI).

Pr Marcelo Medeiros, em Cristo.
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