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domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Deus que intervém na História - estudo incompleto




Os léxicos, via de regra, definem a História como sendo o ramo da ciência que se ocupa de registrar cronologicamente, apreciar e explicar os fatos do passado da humanidade em geral, e das diversas nações, países e localidades em particular. Em razão da ciência moderna ser feita a partir de pressupostos naturalistas toda e qualquer intervenção sobrenatural é excluída. Daí que enquanto disciplina acadêmica a história não leve em consideração a ação de Deus, algo que não pode ser quantificado, mensurado, ou observado em um telescópio. 



Mas conforme afirmado aqui, um dos pressupostos do Livro de Daniel é a intervenção de Deus na História da humanidade [aqui e aqui] e não há nada em definitivo que comprove a inviabilidade da mediação de Deus com os homens no curso histórico (embora hajam teólogos que no lugar de propor uma história sob o prisma da mediação divina, propõem uma metahistória). Meu percurso no presente estudo se dará da seguinte forma: falarei a respeito do Deus e depois de sua intervenção na história. 



O CONTEXTO



O contexto do presente estudo se dá na Babilônia, terra em que se desenvolveu a ciência da oniromancia. Tal se deu pela compreensão cultural e histórica de que os sonhos eram uma forma de comunicação entre Deus e os homens [aqui], fato este comprovado pelo relato das Escrituras (Gn 20. 3; 41. 25, 28). No auge do seu reinado Nabucodonozor teve um sonho com uma estátua composta de uma gama de metais (ouro, prata, bronze, o que talvez tivesse dado à imagem nada comum, um tom bizarro), e em razão deste teve seu espírito perturbado. 



Usando de artimanha (talvez pelo medo de ser engando com quaisquer artimanhas) o rei em apreço propõe um desafio aos sábios, mas não conta o teor, ou o conteúdo do sonho. O maior problema é que diante da impotência dos sábios em revelar o conteúdo e o sentido das visões noturnas que perturbavam o rei, este os ameaçou com a morte (Dn 2. 12, 13). 



Uma observação a ser feita é a de que este relato sucede ao relato da fidelidade de Daniel e seus amigos, em que os mesmos testados quanto ao compromisso com a lei, e imediatamente honrados por Deus, visto que o texto diz: entre todos os jovens não houve outros que se comparassem a Daniel, Ananias, Misael e Azarias [...] em todas as questões de sabedoria e discernimento sobre as quais os consultava, o rei os achava dez vezes superiores a todos os magos e adivinhos do seu reino inteiro (Dn 1. 19, 20 Bíblia de Jerusalém). 



Aqui há que se observar que a suposta capacidade de interpretação dos sonhos não é algo inerente aos jovens em apreço, mas uma graça divina, visto que o texto afirma: a estes quatro jovens Deus concedeu a ciência e a instrução nos domínios da literatura e da sabedoria. Além disto, Daniel era capaz de interpretar qualquer sonho, ou visão (Dn 1. 17 Bíblia de Jerusalém). Creio que os personagens envolvidos na trama do livro sabiam este caráter de Deus, tanto que diante do decreto do rei (que ameaçava a vida dos mesmos), puderam orar a buscar misericórdia. Isto nos leva ao Deus que intervém. 



O DEUS QUE INTERVÉM



Quem é Deus no livro de Daniel, mais precisamente no texto com o qual eu, você professor de Escola Bíblica e demais estudantes estamos,lidando? Esta é a primeira pergunta que precisa ser feita. O Deus que intervém é um Deus dadivoso. Segundo as observações feitas acima, Deus já havia dado aos jovens sabedoria, erudição e arte de interpretar sonho em ambiente especializado (Dn 1. 17, 19, 20). Pois é Iahweh quem dá a sabedoria; da sua boca procedem o contentamento e a inteligencia. Ele guarda para os retos a sensatez, é escudo para os que andam na integridade (Pv 2. 6, 7 Bíblia de Jerusalém).



Ele é misericordioso. Foi esta convicção que auxiliou a Daniel e seus companheiros na evocação do compromisso de interpretar o sonho do rei, uma vez que sua misericórdia já havia sido demonstrada quando Daniel e seus amigos foram testados e rejeitaram as iguarias do rei, e Deus como resposta fez com que eles se tornassem mais sábios que os babilônios. 



Deus é sábio. Sim, sua sabedoria é profunda, seu poder é imenso. Quem tentou resistir-lhe e saiu ileso? (Jó 9. 4 NVI). O próprio Deus perguntou para Jó: Quem é que tem sabedoria para avaliar as nuvens? Quem é capaz de despejar os cântaros de água dos céus? (Jó 38. 37 NVI). A sabedoria de Deus revela sua majestade na condução do curso da história.


O Deus que intervém é o mesmo Deus que revela o que há de acontecer. Sim, tal como ocorre com Daniel, é perceptível, da parte de José, a ideia de que quem está á frente dos acontecimentos é Deus, e como soberano, em um ato de graça revelou ao Faraó os acontecimentos futuros. O sonho de Faraó é um só; o que Deus há de fazer, mostrou-o a Faraó (Gn 45. 25 ACF). E mais uma vez ele diz:o que Deus há de fazer, mostrou-o a Faraó (Gn 41. 28 ACF). Na percepção de José o sonho foi repetido duas vezes a Faraó, é porque esta coisa é determinada por Deus, e Deus se apressa em fazê-la (Gn 41. 32 ACF).

Marcelo Medeiros

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Verdadeira Sabedoria se Manifesta na Prática



O título da presente postagem é bem sugestivo. Ele remete a uma grande verdade, a da indissociabilidade entre sabedoria, conhecimento, e vida prática. Com isto quero dizer que a despeito da falsa dicotomia estabelecida hoje, desde a antiguidade, quem sabe, ou conhece algo o faz em função de uma vivência prática. O presente estudo é uma sequência textual do estudo lançado neste espaço na semana passada [aqui].

Tal como ocorre com a língua, que é ligada ao coração, tal se dá com a sabedoria, ela pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Isto porque o termo חֲכָמִ֥ים [hokmah] tanto pode ser usado para a capacidade de saber e fazer o que é bom quanto para a de praticar o que não é bom. Veja o que Deus fala ao profeta Jeremias a respeito do povo de Israel: O meu povo é tolo, eles não me conhecem. São crianças insensatas que nada compreendem. São hábeis para praticar o mal, mas não sabem fazer o bem (Jr 4. 22 NVI). Isto posto, passo a tecer considerações a respeito da sabedoria no contexto bíblico geral e no de Tiago.

A SABEDORIA NO CONTEXTO EXEGÉTICO

Neste estudo faço uma breve exegese dos conceitos que envolvem a palavra sabedoria. Meu objetivo era demonstrar a elasticidade do conceito, e ao mesmo tempo apontar que independente da mesma, a sabedoria importante para o judeu era a de cunho prático, o que acontece mesmo quando por sabedoria se quer falar de habilidade técnica, como no caso de Bezaleel a Aoliabe, os construtores do utensílio do tabernáculo, o que se pretende aqui é um fim prático.

Em concordância com o que foi dito acima, exponho aqui em breves linhas as conclusões do referido estudo:

  1. A sabedoria é acima de tudo um dom divino, o que fica claro nos textos que falam de Deus capacitando Bezaleel e Aoliabe para a construção dos utensílios do tabernáculo (Ex 28. 3; 31. 3, 6; 35. 31; 36. 1).
  2. Em certo sentido somente Deus é sábio, visto que dele se diz: om ele está a sabedoria e a força; conselho e entendimento tem (Jó 12. 13 ACF). 
  3. O emprego do vocábulo חֲכָמִ֥ים [hokmah] engloba a habilidade técnica como no caso dos artífices envolvidos na construção do templo (Ex 28. 3; 31. 3, 6; 35. 31; 36. 1). Mas ela não se resume a tal. 
  4. Não é verdade que a sabedoria é o resultado inevitável do decorrer dos anos, e que toda pessoa idosa seja inevitavelmente sábia (Jó 12. 12; 32. 7 - 12). 
  5. Este tipo de sabedoria, a adquirida por meio da experiência prática nem sempre é rechaçada pelas Escrituras. A única exceção é o caso de Jó e de seus amigos, visto que estes achavam que sua sabedoria prática poderia penetrar nos desígnios de Deus (Jó 15. 7 - 12). 
  6. Conforme sabido pelo leitor da Bíblia, a sabedoria dos amigos de Jó foi rechaçada pelo próprio Deus (Jó 42. 7, 8). 
  7. As Escrituras são tratadas como sendo a fonte de sabedoria dos homens de Deus, e isto se pode ver tanto na literatura canônica (Sl 119. 98 - 100), quanto na do segundo cânon (Eclo 24. 22; Bar 4. 1). 
  8. A leitura dos textos paulinos reforçam a noção de que existem dois tipos de sabedoria, uma deste século, e outra que foi reservada exclusivamente aos santos (I Co 2. 6, 7). 
  9. A sabedoria reservada aos santos está oculta em Cristo, o Senhor da Glória (Cl 2. 2, 3, 9). 
  10. Cristo é a sabedoria de Deus (I Co 1. 30, 31), personificada na sabedoria do Antigo Testamento (Pv 1. 20 - 23; 8. 1 -13). 
  11. Esta sabedoria mais profunda, oculta em Cristo, é inevitavelmente humildade, uma vez que por meio da mesma se torna possível conhecer a Deus e gloriar-se nele (Jr 9. 23, 24; I Co 1. 31). 
  12. Daí que a humildade seja a essência da verdadeira sabedoria, visto que a sabedoria encarnada se colocou como exemplo de verdadeira humildade (Mt 11. 29). 
Feitas tais considerações creio ser justo rever a sabedoria no contexto da literatura sapiencial. 

A SABEDORIA NO CONTEXTO DA LITERATURA SAPIENCIAL

Sapiencial é por definição aquilo que é relativo à sapiência. Esta por sua vez é sinônima de sabedoria, ou erudição, podendo ser também uma forma de se referir ao Verbo de Deus, Cristo, e por extensão a toda sabedoria divina. Logo, quando falo em literatura sapiencial, me refeito a um tipo de,literatura (já classificada deste modo pelos teólogos biblicistas) que aborda assuntos de sabedoria. 

Em Jó, Provérbios, e Eclesiastes, a sabedoria é algo de cunho prático, que tem o seu começo no temor do Senhor (Yir'ah Yahweh [ יִרְאַ֣ת יְ֭הוָה]), conforme indicado em quase todos os escritos de sabedoria (Jó 28. 28; Sl 111. 10; Pv 1. 7; 9. 10). A finalidade do temor de Deus também é de cunho prático, visto que por meio do mesmo os homens deixam de pecar (Pv 16. 6). 

Por meio da sabedoria,
  1. O jovem escolhe as suas amizades (Pv 1. 11 - 14; 4. 14 - 18)
  2. Evita as mais variadas formas de pecado (Pv 6. 16 - 19)
  3. Os homens evitam o adultério (Pv 6. 23 - 29; 7. 1 - 6)
  4. Os homens são habilitados a reinar (Pv 8. 14 - 16)
  5. Adestra o homem quanto ao que convém que ele fale. O coração do sábio ensina a sua boca, e os seus lábios promovem a instrução (Pv 16. 23 NVI). 
  6. A sabedoria do homem o orienta quanto à aceitação dos mandamentos divinos (Pv 10. 8). 
Este é o discurso visto em Provérbios [aqui]. Já em Eclesiastes a sabedoria tem uma função mais dramática a de ajudar o homem a proceder neste mundo contraditório, de forma a fazer o sábio entender o tempo e o modo (Ec 8. 6). Para o pregador a sabedoria começa com a correta fruição dos dons e dádivas da parte de Deus [aqui]. 

A SABEDORIA NO CONTEXTO DA CARTA DE TIAGO

Com base nas observações que fiz acima posso afirmar que Tiago prima pela sabedoria de cunho prático, visto que para este:
  1. Quem tem falta de sabedoria deve pedir a mesma a Deus (Tg 1. 5, 6)
  2. A sabedoria ajuda o homem no tocante ao comportamento em meio às tribulações (Tg 1. 2 - 4).
  3. Orienta o homem no tocante à sua condição de vaidade (Tg 1. 9, 10). 
  4. Ajuda o homem na identificação da origem das tentações (Tg 13 - 15)
  5. Na prática da palavra de Deus (Pv 1. 22 - 25). 
Estas são as impressões iniciais. Agora resta tecer uma consideração de suma importância. A recomendação pelo discernimento que separa a sabedoria do alto com a sabedoria de cunho animal diabólica e terrena se dão em um contexto em que Tiago fala sobre o cuidado com a língua [aqui] nas linha anteriores, e os desejos que promovem guerra nas linhas seguintes.

Ao falar a respeito da fé que se manifesta por meio de obras (aliás, a única que existe de fato é esta), fiz questão de pontuar que a Bíblia em ponto algum condena as boas obras, visto que estas são, ou pelo menos deveriam de ser a consumação de uma fé autêntica. O problema com as obras é o pecado que se mistura as motivações mais nobres contaminando a ação em si. 

O efeito mais nefasto de uma péssima compreensão do papel das boas obras é a filosofia que faz alguns pensarem que por praticarem certas ações, ou por projetarem certa imagem, ou manterem certa postura terão algum tipo de crédito com. Estas considerações já foram postadas aqui neste blog [aqui]. Creio que algo similar ocorra com a sabedoria. Visto que para Tiago o problema não está no homem ser, ou não sábio, mas em usar tal sabedoria para o mal, ou seja para concretizar os desejos alimentados pelo seu ciúme (Tg 3. 14 - 16). 

A sabedoria que procede do alto é tem como característica maior um modo de vida (αναστροφης  [anastrophes]), marcado por mansidão (πραυτητι [prauteti]). Esta consiste na paciência que permite suportar insultos sem se exasperar (Tg 3. 13). Esta mesma é: 

  1. Pura (αγνη [agnee]); ou seja íntegra moral e espiritual (qualidade ausente nas palavras dos amigos de Jó). 
  2. Pacífica. O termo ειρηνικη (eirenikee), indica a ação de quem promove a paz. Aos que entendem que a promoção da paz implica o abandono da ortodoxia, apenas gostaria de destacar que de acordo com o presente contexto Tiago entende que a ortodoxia é importante. 
  3. Amável, ou moderada, visto que επιεικης (epieikees) fala tanto da moderação no julgar quanto na capacidade de suportar a injustiça e maus tratos sem sentimentos de vingança, mas com uma confiança inabalável em Deus (Fp 4. 5). 
  4. Compreensiva, sendo que o termo ευπειθης (eupeithees) fala de quem se permite ser facilmente persuadido, uma atitude contrária a de quem faz perguntas não pela curiosidade em si, mas porque não está disposto a se deixar ser persuadido. 
  5. Cheia de misericórdia e bons frutos (μεστη ελεους και καρπων [mestee eleous kai karpon]). Basta lembrar que da relação dos frutos do Espírito (Gl 5. 22), Tiago destaca neste contexto a mansidão, a paz e moderação, que se aproxima da longanimidade. 
  6. Imparcial, o termo αδιακριτος [adiakritos] indica uma integridade característica de quem não é dividido. Um sábio não pode ser uma pessoa que ao mesmo tempo em que bendiz a Deus, fala mal do seu próximo (Tg 3. 9, 10). 
  7. A sabedoria do alto possui estrita relação com tudo o que se relaciona com a justiça e a paz. Este é o entendimento de Tiago a respeito do tema. 

Não creio que haja uma sabedoria de matiz celeste que tenha apenas um destes predicados, ao meu ver estas são as marcas distintivas da sabedoria que vem do alto, que Deus concede aos que buscam em oração e meditação das Escrituras. 

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O propósito da tentação



Em nosso idioma a tentação é um tipo de atração por coisa proibida, um movimento íntimo que incita ao mal, um desejo veemente. Na Bíblia os termos empregados para tentação, a saber נִסָּ֖ה ou מַּסָּֽה (nasah ou masah) e πειρασμοις (peirasmos),  nem sempre possuem esta conotação, podendo também serem empregadas para exprimirem algum tipo de teste, ou provação com vistas a dar uma lição. É neste ponto que se pode falar em propósito. 

As provações revelam um desígnio divino. Esta é a verdade que emerge da narrativa bíblica, e aí, igualmente reside a grande diferença entre a tentação no plano divino, e a tentação no plano humano, ou satânico. Se Satanás pretende derrubar o crente, ou induzir o mesmo ao pecado, Deus ao contrário, visa com a provação, ou com a tentação, o aperfeiçoamento do fiel. O presente estudo tem como objetivo demonstrar tal diferença, que Deus abençoe o leitor. 

FUNDAMENTO EXEGÉTICO

E aconteceu, depois destas coisas, que tentou Deus a Abraão (Gn 22. 1a ARC). Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta (Tg 1. 13 ACF). Estes dois textos colocam tanto o leitor atento quanto o crítico diante de uma aparente contradição, afinal, Deus tenta, ou não tenta! O redator de Gênesis (tradicionalmente Moisés), afirma que sim; ao ponto que Tiago, o irmão do Senhor nega. E agora?

A verdade é que os termos empregados para exprimir tentação, a saber נִסָּ֖ה ou מַּסָּֽה (nasah ou masah) e πειρασμοις (peirasmos), possuem também a ideia de testar, experimentar, tanto que as versões mais atuais substituíram o verbo tentar, pelo experimentar, ou colocar à prova. Da mesma forma πειρασμοις pode ser um simples teste, que é posto à nossa fé. Assim, em Tiago o termo em apreço tanto pode ser empregado para expressar a provação, quanto à tentação. 

Quando a Bíblia diz que é bem-aventurado o homem que sofre a tentação (πειρασμοις); porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o ama (Tg 1. 12 ACF), entendemos aqui que πειρασμοις na verdade é provação. Agora quando o mesmo autor diz: Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta (Tg 1. 13 ACF), o que ele está dizendo é que Deus não pode induzir ninguém ao mal, neste sentido é correto afirmar que Deus que a ninguém tenta. E isto, porque ele mesmo não pode ser tentado pelo mal. 

Uma observação extremamente necessária a respeito do último texto é que o verbo tentar, ou πειραζω (peirazoo) aparece por três vezes neste verso de Tiago. O mesmo é empregado ao longo da narrativa bíblica a fim de expressar a ação dos fariseus em tentar a Cristo, por exemplo. E, chegando-se os fariseus e os saduceus, para o tentarem, pediram-lhe que lhes mostrasse algum sinal do céu (Mt 16. 1 ACF). Ou a própria ação de Satanás (Mt 4. 1, 3). 

Os fariseus submetiam Jesus à prova, visando ter algo de que o acusar (Jo 8. 6). Na Tradução Ecumênica Brasileira, se lê: eles falavam assim com a intenção de armar-lhe uma cilada, para ter de que acusá-lo. Este é o propósito de Satanás, bem como dos seus mais diversos agentes, que no contexto do Evangelho são os fariseus, e quando eles colocam o homem à prova o fazem no sentido de fazer o homem, ou um oponente fracassar. 

Quando Deus prova é diferente. Paulo se vale das tentações no deserto para explicar aos crentes de Corinto a natureza das provações divinas, ele afirma: Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar (I Co 10. 13 ACF). 

Foi assim com Israel no deserto, a cada teste, a cada prova vinha sempre algum tipo de livramento da parte de Deus. Exemplos? O Cordeiro de Abraão preso nos espinheiros, o lenho em Mara, a Rocha em Refidim, o Maná, são demonstrações de que nenhuma provação que vem de Deus é de todo insuportável ao homem, mais do que isto, são provas cabais de que o homem ao ser provado é assistido por Deus em sua provação. 

Por ora, convém reafirmar que πειρασμοις pode ser tanto a tentação para induzir o homem ao mal, quanto a tentação no sentido de provação, e mais, angústias também podem ser expressar por este termo (Lc 22. 28; Ap 3. 10). Uma atenção precisa ser dada a este último texto em que Jesus promete guardar a sua Igreja, em Filadélfia, da hora da πειρασμου της μελλουσης (peirasmos tees mellouses), ou provação que está por vir. 

A Grande promessa deste texto é que os que guardam a palavra da paciência (um produto das tribulações enviadas por Deus com vistas ao aperfeiçoamento do seu povo), são deveras guardados em meio às mais severas tentações (não creio que este texto fale de um arrebatamento pré-tribulacional, como alegam alguns), este é o cerne da promessa divina. 

GOZO NAS AFLIÇÕES
Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;

Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência.
Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma (Tg 1. 2 - 4 ACF). 
Estas palavras são, ou estão se tornando cada vez mais incompreensíveis à geração atual. Mas como bem disse Martin Lloydd-Jones em seus estudos sobre o sermão do monte, a alegria nas tribulações deveria ser o teste de autenticidade de todo o cristão. Jesus deixou claro aos seus seguidores que eles teriam aflições nesta vida, e que deveriam encarar as mesmas com alegria, uma vez que na história sagrada todos os profetas foram perseguidos (Mt 5. 11, 12), e com bom ânimo, visto que ele havia vencido o mundo (Jo 16. 33). 

O ânimo cristão vem do exemplo pessoal de Jesus, ao passo que a alegria nas aflições advém da perspectiva de uma vida futura, bem como do galardão que a mesma reserva aos crentes em Cristo. Neste aspecto, o homem que sofre a tentação é feliz porque ao ser aprovado tem a expectativa de receber uma coroa, a coroa da vida. É esta firme expectativa a fonte do gozo inefável do crente, mesmo quando este está em meio às tribulações. Esta mesma verdade transparece na carta de Pedro, veja:
inda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações,

Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo;
Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso (I Pe 1. 6 - 8) 
O texto deixa implícito que:
  1. A despeito do quanto venhamos a nos entristecer com as tribulações, as mesmas são necessárias. 
  2. Por meio das aflições, ou das mais variadas tentações, a fé cristã é provada. E mais importante, 
  3. O amor que o crente tem por Cristo é a fonte de todo o gozo do cristão em meio à tribulação. O crente não vê a Cristo, mas crê, e como fé e amor são indissociáveis (I Co 13. 7; Gl 5. 6 ). 
DEUS A NINGUÉM TENTA
Não digas: "é por causa do Senhor que me afastei", pois o Senhor não faz o que detesta. Não digas: "foi Ele quem me desviou", pois Ele não precisa do pecador. O senhor odeia toda abominação: não pode ser amada pelos que o temem. Ele mesmo criou o homem no começo e o entregou ao seu próprio arbítrio. Se quiseres, podes observar os mandamentos, ficar fiel depende de tua boa vontade (Sir 15. 11 - 15 Tradução Ecumênica Brasileira). 
Este texto consta nas Bíblias de tradução católicas, que trazem sete livros à mais. Sem entrar na discussão a respeito da inspiração, gostaria apenas de acrescentar que tais textos revelam o pensamento de uma época, e a progressão na compreensão de determinadas temáticas. O pensamento de Jesus Ben Sirac, coaduna com o de Salomão, que afirma: É a insensatez do homem que arruína a sua vida, mas o seu coração se ira contra o Senhor (Pv 19. 3 NVI). 

O desejo de pecar, por parte do homem, não procede de Deus. A diferença entre Jesus Ben Sirac e Tiago, consiste o fato de que para o sábio judeu do primeiro século antes de Cristo, o homem pode escolher entre pecar e não pecar, a despeito de século antes Qohelet ter dito que não existe um homem tão justo sobre a terra que faça o bem sem jamais pecar (Ec 7. 20 Bíblia de Jerusalém). 

Tiago aponta para o fato de que cada qual é tentado pela própria concupiscência quando esta o arrasta e seduz (Tg 1. 14 TEB). Os termos εξελκομενος και δελεαζομενος (ezelchomenos kai deleazomenos), são oriundos do mundo da caça e da pesca, indicando que nossa concupiscência é tão cruel quanto um caçador, ou um pescador. Assim, εξελκω denota uma caça sendo arrastada, ao passo que δελεαζω, indica um peixe que á atraído por uma isca. 

Este conceito é melhor abordado por Paulo, por meio das seguintes palavras: 
Que diremos então? A lei é pecado? De maneira nenhuma! De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a lei não dissesse: "Não cobiçarás". Mas o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso. Pois, sem a lei, o pecado está morto. Antes, eu vivia sem a lei, mas quando o mandamento veio, o pecado reviveu, e eu morri. Descobri que o próprio mandamento, destinado a produzir vida, na verdade produziu morte. Pois o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, enganou-me e por meio do mandamento me matou (Rm 7. 7 - 11 NVI). 
De acordo com este texto, o pecado se vale até mesmo de nossas virtudes e mesmo da lei, para se impor aos membros do corpo humano. A cobiça é algo que está sempre presente no ser humano. Perceba que em momento algum Paulo culpa a lei, ele sabe que o problema está não nesta, mas em uma lei que guerreia em seus membros (Rm 7. 14 - 17).  

Mesmos os mais insignificantes dos conflitos tem a sua razão de ser nos desejos que guerreiam no íntimo do ser humano, de forma que ele cobiça infinitamente, e quanto mais conquistam, menos pode se realizar plenamente (Tg 4. 1 - 3). Esta é a essência da natureza pecaminosa no homem. Mas mesmo este tipo de tentação tem a sua razão de ser. 

O PROPÓSITO DA TENTAÇÃO

Na leitura da trajetória do povo de Deus no deserto, é possível observar que por sucessivas vezes, Deus tentou o povo no deserto. Sim, ali lhes deu estatutos e uma ordenança, e ali os provou (Ex 15. 25 ACF). Na ocasião em que mandou o maná, disse o Senhor a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não (Ex 16. 4 ACF). Até no Sinai, o povo foi tentado, mas com que finalidade?

No caso do Sinai, veja a explicação dada por Moisés: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis  (Ex 20. 20 ACF). Mas e no caso da provação no deserto? É visível, que Deus prova o povo visando a humilhação do mesmo, bem como a revelação do que há nos corações dos mesmos, mas também prova visando um valioso ensino, que é o seguinte:
E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não.
E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor viverá o homem (Dt 8. 2, 3 NVI). 
é na provação que o homem aprende o que é de fato é dependência de Deus. Mas nãop para aí, quando acompanhadas pela esperança, as tentações servem para a prova da fé em Cristo (I Pe 1. 6, 7), bem como para o processo de desenvolvimento da paciência. Jesus disse aos seus discípulos: é perseverando que vocês obterão a vida (Lc 21. 19 NVI). O termo perseverança equivale à paciência  (υπομονη [hypomonee]). 

Mas e quanto as tentações oriundas dos desejos pecaminosos? Elas servem para ensinar aos crentes que  despeito da fraqueza dos mesmos, estes são alvo do amor de Deus, e que por este motivo estão livres para amar outros crentes frágeis, e mais estão prontos para interceder pelos mesmos. é o que se pode aprender com o autor de Hebreus
Porque todo o sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados; E possa compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados; pois também ele mesmo está rodeado de fraqueza. E por esta causa deve ele, tanto pelo povo, como também por si mesmo, fazer oferta pelos pecados (Hb 5. 1 - 3 ACF). 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.  

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Moisés, sua liderança e seus auxiliares

 
Atualmente a liderança é compreendida como sendo a capacidade de influenciar as pessoas por meio do exemplo. Trata-se de envolver as pessoas em uma missão e proposito. Este conceito é moderno, e tem sido defendido por James Hunther em seu clássico O Monge e o executivo. Curioso, é que ele afirma tanto neste livro, quanto no As lições do Monge e do Executivo, que suas ideias são revolucionárias, e atuais, mas não são novas, uma vez que o modelo de liderança que ele defende pode ser visto em personagens antigos, tais como, Sócrates, Platão e Jesus Cristo. Hoje veremos como esta liderança se manifestou na pessoa de uma dos maiores exponentes do judaísmo, Moisés.

I ) O caráter e a disposição do líder
Então o Senhor desceu numa coluna de nuvem e, pondo-se à entrada da Tenda, chamou Arão e Miriã. Os dois vieram à frente, e ele disse: "Ouçam as minhas palavras: Quando entre vocês há um profeta do Senhor, a ele me revelo em visões, em sonhos falo com ele.
Não é assim, porém, com meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa (Nm 12. 5 - 7 NVI).
Moisés foi fiel como servo em toda a casa de Deus, dando testemunho do que haveria de ser dito no futuro (Hb 3. 5 NVI). 
Em ambos os textos se afirmar duas verdades a respeito de Moisés, e que se constituem como qualidade essenciais dos que pretendam exercer cargos de liderança.  Em primeiro lugar, Moisés é chamado de servo, em hebraico a expressão é עַבְדִּ֣י (ebed), que será traduzida pelo autor da carta aos Hebreus por θεραπων (therapon), cujo sentido é o de um servidor, um atendente. Ao contrario do que ocorre, por exemplo com a expressão δουλος (doulos), θεραπων pressupõe o exercício de um trabalho livre e honroso. Tal indica que ele via em sua chamada algo digno e honroso. De sorte que não existe líder sem tais prerrogativas, uma imagem de seu trabalho como o ato da verdadeira liberdade, e como expressão de honra ao nosso Deus.
Em segundo lugar, se diz que Moisés era fiel. Aqui temos a ocorrência de dois termos no grego a palavra é πιστος (pistós), e é usada na LXX para traduzir נֶאֱמָ֥ן (ne'muna), que procede de אָמַן ('ãman), um termo que indica fidelidade, firmeza, estabilidade. São prerrogativas que um líder tem de possuir, a fim de que o mesmo seja plenamente bem sucedido no cumprimento de sua missão. Todavia,  אָמַן ('ãman) não é uma característica humana, mas procede da ação de Deus.
Outra qualidade apontada em Moisés, é a sua mansidão, que algumas versões traduzem por humildade, e que na Nova Versão Internacional, é traduzida por paciência. O termo hebraico  é עֲנָוִ֗ ('anaw), e abrange todos estes sentidos (Nm 12. 3).  עֲנָוִ֗ ('anaw) é a raiz do termo hebraico עֲנִיֶּ֛ ('ani), cujo sentido é do pobreza (Dt 15. 11). O pobre em Israel era aquele que não possuindo terra para trabalhar vivia em total estado de indigência, podendo vir a mendigar. Daí a estrita dependência que estes tinham de Deus (aqui). Visto sob este prisma, a humildade e mansidão constituem-se nas mais difíceis virtudes de se cultivar em um líder, visto que a ênfase carismática inevitavelmente o conduz a confiar em suas potencialidades. 
 
II) A necessidade de auxiliares
 
O texto de Êxodo 18 nos mostra que Moisés se assentou para julgar o povo, e que ao atender a cada um ele levou um expediente que durou da manhã até a tarde. O termo para julgar aqui é לִשְׁפֹּ֣ט (shepat), palavra que indica o exercício da função de juiz, mas que não pode ser confundida com o magistrado atual, uma vez que no contexto bíblico a resolução das questões envolve a consulta a Deus e o ensinamento ao povo dos estatutos e juízos de Deus. Isto se evidencia na resposta de Moisés ao seu sogro, quando este lhe perguntou o que fazes? E ele disse: O povo me procura para que eu consulte a Deus. Toda vez que alguém tem uma questão, esta me é trazida, e eu decido entre as partes, e ensino-lhes os decretos e leis de Deus (Ex 18. 15, 16 NVI).
O problema consiste em que com o passar do tempo auxiliares se tornaram necessários. Uma vez que a centralização das funções na pessoa de Moisés se tornou um peso tanto para este quanto para o povo. Quando tal ocorre, surge então a necessidade de delimitar aquilo que cabe somente ao líder e aquilo que ele pode delegar aos demais para que os mesmos exerçam.
O conselho que Jetro deu para Moisés requeria que o mesmo: 1) continuasse a representar o povo diante de Deus (Seja você o representante do povo diante de Deus e leve a Deus as suas questões [Ex 18. 19 NVI]); 2) Os ensinasse os estatutos e leis do Senhor (Oriente-os quanto aos decretos e leis, mostrando-lhes como devem viver e o que devem fazer [Ex 18. 20 NVI]); 3) levantasse novos líderes que o auxiliassem em questões menores, e lhes trouxessem apenas as mais graves (escolha dentre todo o povo homens [Ex 18. 21 NVI]). Todavia, ao se nomear auxiliares, critérios se tornam necessários.
 
III) Critérios na escolha de líderes (auxiliares da liderança)
Mas escolha dentre todo o povo homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e inimigos de ganho desonesto (Ex 18. 21 NVI).
Os homens a quem Deus manda escolher tem de serem capazes. Habilidosos, inteligentes, estando em condições legais para exercer validamente certos direitos. Mas esta habilidade não se restringe ao aspecto técnico da questão, uma vez que o termo חַ֜יִל (hayil) também é empregado para descrever os valentes soldados (I Cr 8. 40),indicando com isto que  חַ֜יִל (hayil) também pode expressar a força necessária a um soldado (Jz 18. 2; I Cr 26. 30). Esta mesma força é descrita como oriunda de Deus, que nos capacita para batalha. No caso do líder esta força, se expressa na capacidade de influenciar por meio do exemplo moral e de manter o mesmo em meio às adversidades.
Outra qualidade do líder é o temor reverente, descrito por meio do vocábulo יִרְאֵ֧י (yâre). Os líderes que iriam auxiliar a Moisés teriam de lidar com o poder, e com a possibilidade de corrupção que este mesmo poder desperta. Somente o temor de Deus poderia lhes dar o poder de superar as propostas de corrupção. Afinal Pela misericórdia e verdade a iniquidade é perdoada, e pelo temor do Senhor os homens se desviam do pecado (Pv 16. 6 ARCF). Chave neste conceito é o termo temor do Senhor (Yir'ah Yahweh [ יִרְאַ֣ת יְ֭הוָה]). O líder tem de ser temente a Deus.
Digno de confiança, é a expressão empregada pela NVI para traduzir o termo homens de verdade (אַנְשֵׁ֥י אֱמֶ֖ת [ish emeth]). Por sua vez a expressão אֱמֶ֖ת (emeth), tanto indica verdade como fidelidade, podendo ser traduzida por homens fieis. em outras palavras, dentre o perfil de um líder, tem de constar que o mesmo possa ser uma pessoa em que as outras possam se fiar. O termo אֱמֶ֖ת (emeth), nos remete ao termo אֱמָנִ֑ ('aman), aplicado a Moisés, para descreve-lo como servo fiel em toda a casa.
Por último, o homem que visa o seu bem- estar, e em função de ser mais amigos dos deleites do amigo de Deus não pode exercer a liderança, visto que diante de Deus o mesmo sempre será reprovado. Quem ama ao dinheiro nunca se farta do mesmo (aqui e aqui). Minha oração é que Deus nos ajude a preencher este perfil de líder descrito na Bíblia.
 
Em Cristo, Marcelo Medeiros

sábado, 18 de janeiro de 2014

As pragas divinas e as propostas ardilosoas do Faraó

 
Na lição passada vimos que Deus capacitou Moisés com conhecimento, com experiências de vida e profundas provas de que seu chamado tinha no próprio Deus a razão de ser. Ao chamar o seu servo e profeta, Deus lhe avisou que o Faraó não deixaria o povo sair, e mais que usaria o endurecimento do mesmo para multiplicar os sinais e exaltar o seu nome sobre toda a terra. Veja o que Deus disse para Moisés:
Dou-lhe a minha autoridade perante o faraó, e seu irmão Arão será seu porta-voz. Você falará tudo o que eu lhe ordenar, e o seu irmão Arão dirá ao faraó que deixe os israelitas saírem do país. Eu, porém, farei o coração do faraó resistir; e, embora multiplique meus sinais e maravilhas no Egito, ele não os ouvirá. Então porei a minha mão sobre o Egito, e com poderosos atos de juízo tirarei do Egito os meus exércitos, o meu povo, os israelitas. E os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando eu estender a minha mão contra o Egito e tirar de lá os israelitas (Ex 7. 1 - 5 NVI). 
 O texto afirma que mesmo diante dos sinais Faraó se faria endurecido, mas que o Senhor aproveitaria tal endurecimento para mostrar o seu poder e seu nome diante de toda a terra. É com esta ótica que analisaremos a temática proposta pela lição da Escola Bíblica Dominical.
 
I) Os sinais e as maravilhas (o pano de fundo hermenêutico).
 
Quando Deus renovou a sua aliança com Abraão, ele já havia lhe revelado que a saída do povo do Egito se daria mediante a realização de grandes sinais, que para o povo que os escravizou seriam castigos (Gn 15. 14). É isto o que lemos quando vemos Deus falando com Moisés: Eu os livrarei do trabalho imposto pelos egípcios. Eu os libertarei da escravidão e os resgatarei com braço forte e com poderosos atos de juízo (Ex 6. 6 NVI). A expressão para juízo aqui é שְׁפָטִ֖ (shepet), e tem como sentido a manifestação de uma sentença de Deus sobre o povo.
Outra expressão chave neste contexto é o termo hebraico הָאֹ֣ת (hoth) e suas variantes o significado do mesmo é marco, um símbolo, e que na teologia bíblica são milagres que visam comprovar a mensagem de Deus para o seu povo. E neste caso o sinal serve tanto para despertar a fé do povo e conferir credibilidade o ministério de Moisés (Ex 4. 8, 9 NVI), quanto para a glorificação do nome do Senhor. Mas o sinal também serve de advertência (Nm 17. 10). Fato é que Deus realizou em pleno Egito sinais e maravilhas, contra o faraó e todos os seus conselheiros (Sl 135. 9 NVI), Ele mostrou os seus prodígios no Egito, as suas maravilhas na região de Zoã (Sl 78. 43 NVI).
Outro termo de suma importância é מֹופְתַ֖ (môpheth). Significa prodígio, sinal, milagre extraordinário. Elifaz afirma que Ele realiza maravilhas insondáveis, milagres que não se pode contar (Jó 5. 9 NVI). E com isto Jó concorda, visto que este também afirma:  Deus realiza maravilhas que não se podem perscrutar, milagres incontáveis (Jó 9. 10 NVI). Chamamos de insondável aquilo que não é possível sondar, a que não se pode achar o fundo: abismo insondável. No sentido figurado é tudo o que não se pode penetrar, compreender. O termo perscrutar aqui é o mesmo que indagar, investigar, averiguar minuciosamente, penetrar. Esta é a principal marca dos milagres de Deus. Daí o fato que sejam impenetráveis ao saber cientifico, pois caso o fossem já não seriam mais fatos extraordinários.
Deus fez tais sinais com o fim de que o seu nome fosse proclamado em toda a terra. Veja o que Deus diz ao Faraó, por meio de Moisés:
Porque eu já poderia ter estendido a mão, ferindo você e o seu povo com uma praga que teria eliminado você da terra. Mas eu o mantive de pé exatamente com este propósito: mostrar-lhe o meu poder e fazer que o meu nome seja proclamado em toda a terra (Ex 9. 15, 16 NVI). 
Em outras palavras, se Deus quisesse teria exterminado com Faraó de uma única vez. Mas como suas maravilhas são insondáveis e seus caminhos inescrutáveis, Ele fez da forma que está registrado, a fim de fazer o seu nome proclamado em toda a terra. A ideia é reforçada por meio deste texto aqui:
Diga aos israelitas que mudem o rumo e acampem perto de Pi-Hairote, entre Migdol e o mar. Acampem à beira-mar, defronte de Baal-Zefom. O faraó pensará que os israelitas estão vagando confusos, cercados pelo deserto. Então endurecerei o coração do faraó, e ele os perseguirá. Todavia, eu serei glorificado por meio do faraó e de todo o seu exército; e os egípcios saberão que eu sou o Senhor (Ex 14. 2 - 4 NVI).
Deus se fez conhecido de forma irrefutável aos egípcios por meio dos sucessivos endurecimentos do Faraó, e das respostas que ele mesmo deu através dos sucessivos sinais que deu e milagres que realizou.  Mesmo diante dos atos de rebeldia do povo junto ao mar, diz o salmista, no Egito, os nossos antepassados não deram atenção às tuas maravilhas; não se lembraram das muitas manifestações do teu amor leal e rebelaram-se junto ao mar, o mar Vermelho. Contudo, ele os salvou por causa do seu nome, para manifestar o seu poder (Sl 106. 7, 8 NVI).  O que Deus tinha em vista era a sua glória. O que nos leva ao endurecimento do Faraó.  
 
II) O endurecimento do Faraó

No relato do chamado de Moisés Deus fala: Eu sei que o rei do Egito não os deixará sair, a não ser que uma poderosa mão o force. Por isso estenderei a minha mão e ferirei os egípcios com todas as maravilhas que realizarei no meio deles. Depois disso ele os deixará sair (Ex 3. 19, 20 NVI). Aqui a responsabilidade é colocada sobre o Faraó. Mas no mesmo contexto da chamada observamos Iahweh falando com seu servo nos seguintes termos:
Quando você voltar ao Egito, tenha o cuidado de fazer diante do faraó todas as maravilhas que concedi a você o poder de realizar. Mas eu vou endurecer o coração dele, para não deixar o povo ir. Depois diga ao faraó que assim diz o Senhor: Israel é o meu primeiro filho, e eu já lhe disse que deixe o meu filho ir para prestar-me culto. Mas você não quis deixá-lo ir; por isso matarei o seu primeiro filho! (Ex 4. 21 - 23 NVI). 
Aqui fica claro que além de endurecer o coração do soberano egípcio Deus levaria os fatos a um clímax tal que culminaria com a morte do primogênito do Faraó. Aqui fica estabelecido que existe uma interação entre a soberania divina e a responsabilidade humana, ainda que não saibamos como isto se dá.
A nota da Bíblia de Estudo Pentecostal afirma que Deus endureceu o coração do Faraó, como castigo porque seu coração já estava duro (nota de estudo de Ex 7. 3). Sendo que a despeito dos texto citados pelo comentarista da nota, não temos uma comprovação bíblica direta de que tal tenha se dado desta forma.
Um comentário muito interessante é o feito Finis Dake. A despeito de toda má fama que esta Bíblia de Estudo possua, dadas as ideias de seu comentarista, o fato inconteste é que ao meu ver ele é mais honesto, veja o que ele diz:
Deus deu a Faraó a oportunidade de resisti-lo, e endureceu o seu coração (Ex 4. 21; 9. 12; 10. 1, 20, 27; 11. 10; 14. 8; Rm 9. 16) da mesma forma que o Evangelho salva, ou condena, abranda, ou endurece, e vivifica ou mata os que o ouvem hoje. Qualquer castigo, ou calamidade que não despedace a natureza humana e subjuga a vida só a endurece. Como o sol que endurece o barro e amolece a cera, assim acontece com a verdade. O resultado não está no sol (em Deus), mas nas matérias.
Não fosse tal conclusão eu daria o argumento de Dake como perfeito. Mas ele deixa mesmo assim escapar que há uma articulação entre o sol e a matéria, tal como ocorre entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. Deste modo, fico com o argumento de MacArthur, para quem a interação entre a responsabilidade humana e a soberania de Deus precisam ser mantidas.
Sendo assim em dez ocasiões é afirmado que Deus endureceu o coração de Faraó (Ex 4. 21; 7. 3; 9. 12; 10. 1, 20, 27; 11. 10; 14. 4, 8, 17), e outras dez vezes encontramos o coração de Faraó se endurecendo (Ex 7. 13, 14, 22; 8. 15, 19, 32; 9. 7, 34, 35; 13. 15). Este equilíbrio tem de ser mantido, é o fato é que conforme Paulo disse aos Romanos, Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer (Rm 9. 18 NVI). Ao que parece o Faraó não foi o único caso. Veja o que foi dito a respeito de um rei gentio: Seom, rei de Hesbom, não quis deixar-nos passar; pois o Senhor, o Deus de vocês, tornou-lhe obstinado o espírito e endureceu-lhe o coração, para entregá-lo nas mãos de vocês, como hoje se vê (Dt 2. 30 NVI). É neste contexto que precisamos ler as propostas de Faraó.

III) As pragas divinas e as propostas do Faraó

Durante as primeiras pragas os magos egípcios conseguem imitar os sinais de Moisés (Ex 7. 22; 8. 7), e na medida em que se avança na leitura, percebe-se que tais sinais servem de pretexto para que o soberano egípcio se endureça ainda mais, mas na praga dos piolhos, a terceira, os próprios magos reconhecem se tratar do dedo de Deus, e a despeito do reconhecimento da corte religiosa, o coração do Faraó se endurece, como o Senhor já havia dito para Moisés (Ex 8. 18, 19).
a praga das moscas produz alguma negociação entre o Faraó e Moisés. Primeiro ele propõe que o povo ofereça sacrifícios e cultos a Deus no próprio Egito, ao que Moisés responde: Isso não seria sensato, respondeu Moisés; os sacrifícios que oferecemos ao nosso Deus são um sacrilégio para os egípcios. Se oferecermos sacrifícios que lhes pareçam sacrilégio, isso não os levará a nos apedrejar? (Ex 8. 26 NVI).
A segunda proposta do Faraó é que o povo não vá muito longe, e que Moisés ore pelo Faraó para que as moscas saiam (Ex 8. 28 - 31). Mas uma vez aliviado, o soberano não permite ao povo sair, e endurece o coração. O que faz com que advenham as seguintes pragas: peste nos animais (quinta), úlceras (sexta), chuva de pedras (sétima), seguidas de sucessivos endurecimentos, o que nos remete ao texto no qual Deus afirma que tais endurecimentos servem ao seu proposito de multiplicar os sinais e fazer seu nome conhecido em toda a terra.
Na oitava praga o Faraó propõe que apenas os homens saiam (Ex 10. 7, 8). Ao que Moisés responde: Temos que levar todos: os jovens e os velhos, os nossos filhos e as nossas filhas, as nossas ovelhas e os nossos bois, pois celebraremos uma festa ao Senhor (Ex 10. 9 NVI). Mas o governante da terra de Cam não permite, o que redunda na oitava praga, a dos gafanhotos. Diante de tal assolação o Faraó faz mais uma proposta, a saber: que o povo deixe o seu rebanho (Ex 10. 24), ao que Moisés e Arão respondem: os nossos rebanhos também irão conosco; nem um casco de animal será deixado. Temos que escolher alguns deles para prestar culto ao Senhor nosso Deus e, enquanto não chegarmos ao local, não saberemos quais animais sacrificaremos (Ex 10. 26 NVI).
Se você estiver lendo este estudo e acompanhado o seu respectivo contexto terá prestado atenção ao fato de que cada proposta acompanha um ato de endurecimento do coração, que por sua vez serve ao proposito maior de Deus em multiplicar os sinais na terra do Egito, para com isto fazer o seu nome conhecido, conforme visto ao longo do presente estudo. Até que vieram as pragas das trevas e da morte dos primogênitos. A lição que gostaria de ressaltar aqui é que se Moisés, a apesar de todos os sinais que Deus lhe deu encontrou oposição de Janes e Jambres, nós também encontraremos, e junto da oposição deliberada e do endurecimento dos mesmos vem a rebeldia do povo (II Tm 3. 8 - 4. 5), mas devemos permanecer na Palavra de Deus, tal como Moisés.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros
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