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quarta-feira, 6 de abril de 2016

Vigiar e Orar



Esta imagem da paixão de Cristo de Mel Gibson remete a uma das cenas mais dramáticas do Evangelho: A Oração no Getsêmane. Foi um momento extremamente comovente em que o Filho luta com o Pai em oração, uma vez que ele não deseja beber do cálice. Este é um símbolo da amaríssima separação que ocorrerá entre o Pai e o Filho na cruz. 

O aspecto desastroso do desastre (me perdoem o pleonasmo proposital), é que os momentos em que passamos por eles, em regra estamos sozinhos. É quando não se pode contar com a ajuda de absoutamente ninguém. Esta solidão Jesus experimentou no Getsêmane quando pediu aos seus discíupulos para que velassem com ele em oração, mas não pode contar com os mesmos. 
E, voltando para os seus discípulos, achou-os adormecidos; e disse a Pedro: Então nem uma hora pudeste velar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26. 40, 41 ACF). 
Em ambos os versos o termo velar e vigiar advém do mesmo verbo grego, γρηγορεω (gregoreoo) cujo sentido é o de manter-se acordado, não se entregar ao sono. É um termo empregado para a ação dos sentinelas que ficam vigilantes em relação ao perigo, e diante da proximidade do mesmo têm a obrigação de alertar a cidade. 

Para que o discípulos podessem vencer a tentação, Jesus os ensinou a orar ao Pai: E não nos conduzas à tentação; mas livra-nos do mal (Mt 6. 13 ACF). O segredo da vitória do crente face à tentação é a oração diária, por parte do mesmo. Mas entre a prática da oração e a vida do crente existe um problema: a carne. 

A natureza humana tende à fruição, ao prazer, ao entretenimento, ao sono, e tudo mais. Estas coisas nem de longe são pecaminosas. Mas constituem problema quando são embaraço para a vida de oração. Manter-se acordado foi o desafio dos discípulos. E o nosso? Possa ser que nosso desafio seja o de rejeitar uma programação televisiva, ou qualquer tipo de entretenimento para estar em oração. 

O fato inconteste é o de que a carne é fraca tanto no que toca a vencer o cansaço, o stress e o ativismo, quanto no que tange à vitória sobre as tentações. Já o espírito, está pronto para ambas. Que sejamos o homem piedoso que Davi descreve nas seguintes palavras: Por isso, todo aquele que é santo orará a ti, a tempo de te poder achar; até no transbordar de muitas águas, estas não lhe chegarão (Sl 32. 6 ACF). 

Em Cristo, Marcelo Medeiros

sábado, 25 de abril de 2015

A Tentação de Jesus



O presente post tem como objetivo uma breve incursão no relato de tentação conforme registrado no Evangelho de Lucas. Alguns problemas a serem colocados são: Qual é a essência da tentação sofrida pelo Salvador? Sendo Jesus plenamente Deus, por que se permitiu ser tentado por Satanás? Qual o propósito de Cristo ter sido tentado? São questões a serem refletidas e respondidas neste estudo.

O CONTEXTO DA TENTAÇÃO

Tanto no relato de Lucas quanto no de Mateus a tentação é trabalhada como algo que ocorre após o batismo de Jesus. Daí que na percepção do autor do deste post não seja viável uma compreensão da tentação sem uma compreensão dos fatos ocorridos no batismo de Jesus, sendo que para o propósito do presente estudo será considerado o relato de Lucas.
Ora, tendo todo o povo recebido o batismo, e no momento em que Jesus também batizado, achava-se em oração, o céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal, como pomba. E do céu veio uma voz: Tú és o meu filho eu, hoje te gerei (Lc 3. 21, 22 Bíblia de Jerusalém). 
Mas se o batismo de João era de arrependimento por que Jesus, que não tinha pecado (Jo 8. 46; Hb 4. 15), que fora gerado pelo Espírito Santo se batizou (Mt 1. 18 - 21; Lc 1. 35)? Instado por João, Jesus disse que convinha o cumprimento de toda a justiça (Mt 3. 15). Mas que Justiça é esta? Diante deste questionamento, é natural que os teólogos respondam que a justiça é o processo mediante o qual Cristo antecipa em seu batismo o seu papel como substituto do homem (II Co 5. 21).

Mas um detalhe destacado por Piper em sua Cristologia bíblica, ou evangélica, é a pobreza de Cristo. Esta se manifestou na ausência de bens, mas também na ausência de um nome. O milagre da concepção de Cristo é algo aparentemente fácil de ser entendido e aceito hoje, mas na época causou tamanho constrangimento que José quis deixar Maria em segredo [aqui]. Foi a intervenção do anjo que impediu tal empreitada.

Contudo, a revelação do anjo para José foi de teor pessoal, ao invés de público. Os comentários advindos do estranho fato de um filho gerado antes do tempo somente naquele dia serão revelados. Para todos os efeitos, no entendimento de Piper, é a de que fama de Jesus entre os judeus não era boa. Em um dos embates entre ele e Cristo, este os confrontou com as seguintes palavras: vós, porém procurais matar-me, a mim, que vos falei a verdade que ouvi de Deus. Isso Abraão não fez. Vós fazeis a obra de vosso pai (Jo 8. 40, 41a Bíblia de Jerusalém). Diante da acusação os judeus lhe responderam: não nascemos de prostituição, temos só um pai, que é Deus (Jo 8. 41b Bíblia de Jerusalém). No entendimento de Piper, os judeus estão lançando em rosto a origem duvidosa de Cristo.

Mas independente do que se comentava a respeito de Cristo, Deus deu sucessivos testemunhos a respeito do seu Filho, conforme explicitado pelos autores evangélicos e pelo autor da carta aos Hebreus. O anjo falou com Maria, os anjos falaram com os pastores no campo, o Espírito falou com
Simeão, e com Ana, e agora, no momento do batismo vem uma voz do céu a fim de corroborar tudo o que já havia sido falado. Mas o que os fatos do Batismo têm a ver com a tentação em si? É esta pergunta que será respondida no próximo tópico deste breve estudo.

A TENTAÇÃO

A tentação possui:

  1. Um cenário (o deserto)
  2. Um agente da tentação (O Diabo, cujo nome significa caluniador, difamador), 
  3. um paciente (alguém que sofre a tentação, neste caso Jesus). 
  4. Os elementos
Cabe dizer que Cristo é plenamente Deus (Cl 2. 9) e plenamente humano (I Tm 2. 5). Como homem ele foi tentado tanto por Satanás quanto por outros homens (Mt 4. 1; 16. 1; Lc 4. 1), de forma que o autor sacro aos  hebreus acertadamente afirma que ele foi tentado em tudo, mas sem pecado (Hb 4. 15). 

Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou do Jordão; era conduzido pelo Espírito através do deserto (Lc 4. 1). 

O texto diz que a tentação ocorreu imediatamente após o batismo de Jesus, após a experiência de ter ouvido a voz dos céus, de ter experimentado o Espírito Santo descer sobre ele em forma de pomba. Tentações ocorrem após grandes momentos de espiritualidade profunda. Foi isto que aconteceu com Jesus aqui, ao voltar do Jordão. 

Existem experiências espirituais que deixam uma sensação de vacuidade. Entretanto a experiência de Jesus no Jordão fez com que ele voltasse cheio, pleno do Espírito Santo, o mesmo que impulsiona sua vida ministerial. Em Atos Lucas faz questão de recorrer ao discurso de Pedro na casa de Cornélio, quando este afirmou: Sabeis o que aconteceu por toda a Judéia: Jesus de Nazaré, começando pela Galiléia, depois do batismo proclamado por João, como Deus o ungiu com o Espirito Santo e com poder, e ele passou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo (At 10. 37, 38 Bíblia de Jerusalém). 

Jesus foi conduzido pelo Espírito no deserto, ao longo da caminhada que fez do Jordão e no ermo. O Espírito esteve sobre Maria para que ele fosse concebido, esteve sobre Simeão para que este o reconhecesse, esteve sobre João Batista, a fim de que este preparasse o caminho para o Messias, e agora está sobre Cristo. 

Nada comeu nestes dias e passado o tempo, teve fome. Disse-lhe então o Diabo: se és o Filho de Deus manda que esta pedra se transforme em pão (Lc 4. 2, 3 Bíblia de Jerusalém). 

A necessidade associada à fraqueza oriunda da fome, foi a oportunidade vital que o adversário empregou para tentar a Cristo. Foram situações similares a esta que levaram o povo de Israel a sucumbir no deserto. Mesmo diante das inúmeras demonstrações de poder e dos sinais e maravilhas no Egito, eles murmuraram diante do mar, em Elim e por toda a caminhada. A falta de memória mina a resistência humana diante da tentação. 

Com a primeira proposta e com a última (segundo o relato de Lucas), o diabo quer colocar em xeque a filiação de Cristo. Se és o Filho de Deus, é mais do que uma dúvida capciosa, é um desafio à deidade de Cristo que se repetiu quando os fariseus afirmaram que Jesus expulsava demônio por Belzebú (Mt 12. 22ss), e não satisfeitos com a resposta que Cristo lhes deu, lhe pediram um sinal (Mt 12. 38), quando na controvérsia com os judeus estes lhe perguntaram se ele era maior do que Abraão (Jo 8. 53), quando na cruz os seus algozes o desafiaram a descer (Mc 15. 31, 32). 

Somente a experiência do Jordão, e a do monte da transfiguração habilitaram Jesus a manter sua identidade e resistir a primeira insídia do diabo. Não é nada incomum acreditar que o Espírito testificou para Cristo publicamente e intimamente a sua filiação com relação ao Pai. De sorte que ele não se viu forçado a fazer sinais, com vistas a comprovar sua filiação divina, nem para o diabo, e nem para os seus adversários políticos. 

Replicou-lhe Jesus: Está escrito: não só de pão vive o homem (Lc 4. 4 Bíblia de Jerusalém). 

O homem precisa de pão para se alimentar, é claro, mas ele não depende exclusivamente do pão. a vida é dada e sustentada por Deus. E Jesus disse: pois a vida é mais do que o alimento e o corpo mais que a roupa (Lc 12. 23 Bíblia de Jerusalém), dizendo com isto que viver é muito mais do que comer e vestir-se. 

A citação do Deuteronômio revela que, ao contrário da disposição de povo de Israel, Jesus se abandonará radicalmente à providência divina, confiando exclusivamente no Pai. Viver para Jesus é partilhar da vida que ele tinha junto ao pai desde antes da fundação do mundo. 

O diabo levando-o para mais alto, mostrou-lhe num instante todos os reinos da terra e disse-lhe: Eu te darei todo este poder com a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem quiser. Por isto, se te prostrares diante de mim, toda ela será tua (Lc 4. 5 - 7 Bíblia de Jerusalém). 

Se na tentação anterior o Diabo apelou para a concupiscência da carne, nesta ele apela para a concupiscência dos olhos. Ele busca usar a glória dos reinos do mundo com o intuito de seduzir a Jesus. De fato os reinos deste mundo constituem uma sedução aos homens. Mas é preciso escolher entre a glória de Deus e a dos homens, pois a amizade ao mundo é inimizade contra Deus (Tg 4. 1 - 4). 

Em sucessivos textos Satanás é descrito como sendo o príncipe deste mundo (Jo 12. 31; 14. 30; 16. 11), Paulo faz menção deste como sendo o deus deste século (II Co 4. 4) e João afirma que o mundo está sob o poder deste (I Jo 5. 19). Embora a terra seja propriedade do Senhor (Ex 19. 5, 6; Sl 24. 1), por direito de criação, os sistemas políticos deste mundo estão sob domínio de Satanás, tanto que o mundo rejeitou a Cristo. 

O preço que o diabo pede de Cristo para que ele alcance o Reino sem a cruz é tão somente que este se prostre aos seus pés e o o adore. Cristo responde que somente a Deus cabe a adoração. Está escrito: adorarás ao Senhor teu Deus, e só a ele prestarás culto (Lc 4. 8 Bíblia de Jerusalém). Novamente Jesus responde com as palavras do Deuteronômio. 

Conduziu-o depois a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o filho de Deus atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem aos teus anjos a teu respeito para que te guardem. E ainda: eles te tomarão pelas mãos para que não tropeces em nenhuma pedra. Mas Jesus lhe respondeu: foi dito: não tentarás ao Senhor teu Deus. Tendo acabado toda a tentação o diabo o deixou até o tempo oportuno (Lc 4. 9 - 13 Bíblia de Jerusalém). 

De diferente nesta tentação é o local. Ela se dá em Jerusalém no pináculo do templo, que segundo Vincent é o pico, ou a região pontiaguda de uma torre, que distava de uma altura de aproximadamente cento e quarenta metros do vale de Cedrom. Aqui a filiação é associada com o fazer com que Deus atenda o homem nos mínimos caprichos. 

Outro fator é o uso das Escrituras fora de contexto, e pior, Jesus de fato, poderia ter feito com que anjos o socorressem caso ele se lançasse, e mais, devida a ênfase que este lado da construção, é possível que além de popular ela fosse muito frequentada. Novamente Cristo responde com as palavras do Deuteronômio não tentarás ao Senhor teu Deus. Tentar aqui é desafia-lo de forma a tentar fazer com que ele faça aquilo que o ser humano quer que ele faça. 

CONCLUSÃO

A tentação de Jesus é a tentação de cada crente, de cada servo de Deus. As necessidades mais básicas constituem fonte de tentação. Mas a sede de poder e glória também o é, e a sensação de controle sobre o sagrado é a pior tentação. Cair nesta produz o maior tipo de pecado. Mas a vitória de Cristo deixa uma lição que é corroborada em sua vida. Ele venceu o diabo na cruz, e podemos vencer também. 

Marcelo Medeiros. 


quarta-feira, 9 de julho de 2014

O propósito da tentação



Em nosso idioma a tentação é um tipo de atração por coisa proibida, um movimento íntimo que incita ao mal, um desejo veemente. Na Bíblia os termos empregados para tentação, a saber נִסָּ֖ה ou מַּסָּֽה (nasah ou masah) e πειρασμοις (peirasmos),  nem sempre possuem esta conotação, podendo também serem empregadas para exprimirem algum tipo de teste, ou provação com vistas a dar uma lição. É neste ponto que se pode falar em propósito. 

As provações revelam um desígnio divino. Esta é a verdade que emerge da narrativa bíblica, e aí, igualmente reside a grande diferença entre a tentação no plano divino, e a tentação no plano humano, ou satânico. Se Satanás pretende derrubar o crente, ou induzir o mesmo ao pecado, Deus ao contrário, visa com a provação, ou com a tentação, o aperfeiçoamento do fiel. O presente estudo tem como objetivo demonstrar tal diferença, que Deus abençoe o leitor. 

FUNDAMENTO EXEGÉTICO

E aconteceu, depois destas coisas, que tentou Deus a Abraão (Gn 22. 1a ARC). Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta (Tg 1. 13 ACF). Estes dois textos colocam tanto o leitor atento quanto o crítico diante de uma aparente contradição, afinal, Deus tenta, ou não tenta! O redator de Gênesis (tradicionalmente Moisés), afirma que sim; ao ponto que Tiago, o irmão do Senhor nega. E agora?

A verdade é que os termos empregados para exprimir tentação, a saber נִסָּ֖ה ou מַּסָּֽה (nasah ou masah) e πειρασμοις (peirasmos), possuem também a ideia de testar, experimentar, tanto que as versões mais atuais substituíram o verbo tentar, pelo experimentar, ou colocar à prova. Da mesma forma πειρασμοις pode ser um simples teste, que é posto à nossa fé. Assim, em Tiago o termo em apreço tanto pode ser empregado para expressar a provação, quanto à tentação. 

Quando a Bíblia diz que é bem-aventurado o homem que sofre a tentação (πειρασμοις); porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o ama (Tg 1. 12 ACF), entendemos aqui que πειρασμοις na verdade é provação. Agora quando o mesmo autor diz: Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta (Tg 1. 13 ACF), o que ele está dizendo é que Deus não pode induzir ninguém ao mal, neste sentido é correto afirmar que Deus que a ninguém tenta. E isto, porque ele mesmo não pode ser tentado pelo mal. 

Uma observação extremamente necessária a respeito do último texto é que o verbo tentar, ou πειραζω (peirazoo) aparece por três vezes neste verso de Tiago. O mesmo é empregado ao longo da narrativa bíblica a fim de expressar a ação dos fariseus em tentar a Cristo, por exemplo. E, chegando-se os fariseus e os saduceus, para o tentarem, pediram-lhe que lhes mostrasse algum sinal do céu (Mt 16. 1 ACF). Ou a própria ação de Satanás (Mt 4. 1, 3). 

Os fariseus submetiam Jesus à prova, visando ter algo de que o acusar (Jo 8. 6). Na Tradução Ecumênica Brasileira, se lê: eles falavam assim com a intenção de armar-lhe uma cilada, para ter de que acusá-lo. Este é o propósito de Satanás, bem como dos seus mais diversos agentes, que no contexto do Evangelho são os fariseus, e quando eles colocam o homem à prova o fazem no sentido de fazer o homem, ou um oponente fracassar. 

Quando Deus prova é diferente. Paulo se vale das tentações no deserto para explicar aos crentes de Corinto a natureza das provações divinas, ele afirma: Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar (I Co 10. 13 ACF). 

Foi assim com Israel no deserto, a cada teste, a cada prova vinha sempre algum tipo de livramento da parte de Deus. Exemplos? O Cordeiro de Abraão preso nos espinheiros, o lenho em Mara, a Rocha em Refidim, o Maná, são demonstrações de que nenhuma provação que vem de Deus é de todo insuportável ao homem, mais do que isto, são provas cabais de que o homem ao ser provado é assistido por Deus em sua provação. 

Por ora, convém reafirmar que πειρασμοις pode ser tanto a tentação para induzir o homem ao mal, quanto a tentação no sentido de provação, e mais, angústias também podem ser expressar por este termo (Lc 22. 28; Ap 3. 10). Uma atenção precisa ser dada a este último texto em que Jesus promete guardar a sua Igreja, em Filadélfia, da hora da πειρασμου της μελλουσης (peirasmos tees mellouses), ou provação que está por vir. 

A Grande promessa deste texto é que os que guardam a palavra da paciência (um produto das tribulações enviadas por Deus com vistas ao aperfeiçoamento do seu povo), são deveras guardados em meio às mais severas tentações (não creio que este texto fale de um arrebatamento pré-tribulacional, como alegam alguns), este é o cerne da promessa divina. 

GOZO NAS AFLIÇÕES
Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;

Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência.
Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma (Tg 1. 2 - 4 ACF). 
Estas palavras são, ou estão se tornando cada vez mais incompreensíveis à geração atual. Mas como bem disse Martin Lloydd-Jones em seus estudos sobre o sermão do monte, a alegria nas tribulações deveria ser o teste de autenticidade de todo o cristão. Jesus deixou claro aos seus seguidores que eles teriam aflições nesta vida, e que deveriam encarar as mesmas com alegria, uma vez que na história sagrada todos os profetas foram perseguidos (Mt 5. 11, 12), e com bom ânimo, visto que ele havia vencido o mundo (Jo 16. 33). 

O ânimo cristão vem do exemplo pessoal de Jesus, ao passo que a alegria nas aflições advém da perspectiva de uma vida futura, bem como do galardão que a mesma reserva aos crentes em Cristo. Neste aspecto, o homem que sofre a tentação é feliz porque ao ser aprovado tem a expectativa de receber uma coroa, a coroa da vida. É esta firme expectativa a fonte do gozo inefável do crente, mesmo quando este está em meio às tribulações. Esta mesma verdade transparece na carta de Pedro, veja:
inda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações,

Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo;
Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso (I Pe 1. 6 - 8) 
O texto deixa implícito que:
  1. A despeito do quanto venhamos a nos entristecer com as tribulações, as mesmas são necessárias. 
  2. Por meio das aflições, ou das mais variadas tentações, a fé cristã é provada. E mais importante, 
  3. O amor que o crente tem por Cristo é a fonte de todo o gozo do cristão em meio à tribulação. O crente não vê a Cristo, mas crê, e como fé e amor são indissociáveis (I Co 13. 7; Gl 5. 6 ). 
DEUS A NINGUÉM TENTA
Não digas: "é por causa do Senhor que me afastei", pois o Senhor não faz o que detesta. Não digas: "foi Ele quem me desviou", pois Ele não precisa do pecador. O senhor odeia toda abominação: não pode ser amada pelos que o temem. Ele mesmo criou o homem no começo e o entregou ao seu próprio arbítrio. Se quiseres, podes observar os mandamentos, ficar fiel depende de tua boa vontade (Sir 15. 11 - 15 Tradução Ecumênica Brasileira). 
Este texto consta nas Bíblias de tradução católicas, que trazem sete livros à mais. Sem entrar na discussão a respeito da inspiração, gostaria apenas de acrescentar que tais textos revelam o pensamento de uma época, e a progressão na compreensão de determinadas temáticas. O pensamento de Jesus Ben Sirac, coaduna com o de Salomão, que afirma: É a insensatez do homem que arruína a sua vida, mas o seu coração se ira contra o Senhor (Pv 19. 3 NVI). 

O desejo de pecar, por parte do homem, não procede de Deus. A diferença entre Jesus Ben Sirac e Tiago, consiste o fato de que para o sábio judeu do primeiro século antes de Cristo, o homem pode escolher entre pecar e não pecar, a despeito de século antes Qohelet ter dito que não existe um homem tão justo sobre a terra que faça o bem sem jamais pecar (Ec 7. 20 Bíblia de Jerusalém). 

Tiago aponta para o fato de que cada qual é tentado pela própria concupiscência quando esta o arrasta e seduz (Tg 1. 14 TEB). Os termos εξελκομενος και δελεαζομενος (ezelchomenos kai deleazomenos), são oriundos do mundo da caça e da pesca, indicando que nossa concupiscência é tão cruel quanto um caçador, ou um pescador. Assim, εξελκω denota uma caça sendo arrastada, ao passo que δελεαζω, indica um peixe que á atraído por uma isca. 

Este conceito é melhor abordado por Paulo, por meio das seguintes palavras: 
Que diremos então? A lei é pecado? De maneira nenhuma! De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a lei não dissesse: "Não cobiçarás". Mas o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso. Pois, sem a lei, o pecado está morto. Antes, eu vivia sem a lei, mas quando o mandamento veio, o pecado reviveu, e eu morri. Descobri que o próprio mandamento, destinado a produzir vida, na verdade produziu morte. Pois o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, enganou-me e por meio do mandamento me matou (Rm 7. 7 - 11 NVI). 
De acordo com este texto, o pecado se vale até mesmo de nossas virtudes e mesmo da lei, para se impor aos membros do corpo humano. A cobiça é algo que está sempre presente no ser humano. Perceba que em momento algum Paulo culpa a lei, ele sabe que o problema está não nesta, mas em uma lei que guerreia em seus membros (Rm 7. 14 - 17).  

Mesmos os mais insignificantes dos conflitos tem a sua razão de ser nos desejos que guerreiam no íntimo do ser humano, de forma que ele cobiça infinitamente, e quanto mais conquistam, menos pode se realizar plenamente (Tg 4. 1 - 3). Esta é a essência da natureza pecaminosa no homem. Mas mesmo este tipo de tentação tem a sua razão de ser. 

O PROPÓSITO DA TENTAÇÃO

Na leitura da trajetória do povo de Deus no deserto, é possível observar que por sucessivas vezes, Deus tentou o povo no deserto. Sim, ali lhes deu estatutos e uma ordenança, e ali os provou (Ex 15. 25 ACF). Na ocasião em que mandou o maná, disse o Senhor a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não (Ex 16. 4 ACF). Até no Sinai, o povo foi tentado, mas com que finalidade?

No caso do Sinai, veja a explicação dada por Moisés: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis  (Ex 20. 20 ACF). Mas e no caso da provação no deserto? É visível, que Deus prova o povo visando a humilhação do mesmo, bem como a revelação do que há nos corações dos mesmos, mas também prova visando um valioso ensino, que é o seguinte:
E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não.
E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor viverá o homem (Dt 8. 2, 3 NVI). 
é na provação que o homem aprende o que é de fato é dependência de Deus. Mas nãop para aí, quando acompanhadas pela esperança, as tentações servem para a prova da fé em Cristo (I Pe 1. 6, 7), bem como para o processo de desenvolvimento da paciência. Jesus disse aos seus discípulos: é perseverando que vocês obterão a vida (Lc 21. 19 NVI). O termo perseverança equivale à paciência  (υπομονη [hypomonee]). 

Mas e quanto as tentações oriundas dos desejos pecaminosos? Elas servem para ensinar aos crentes que  despeito da fraqueza dos mesmos, estes são alvo do amor de Deus, e que por este motivo estão livres para amar outros crentes frágeis, e mais estão prontos para interceder pelos mesmos. é o que se pode aprender com o autor de Hebreus
Porque todo o sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados; E possa compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados; pois também ele mesmo está rodeado de fraqueza. E por esta causa deve ele, tanto pelo povo, como também por si mesmo, fazer oferta pelos pecados (Hb 5. 1 - 3 ACF). 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.  

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