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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O Julgamento e a Soberania Pertencem a Deus



Creio que no sentido de exame e apreciação o julgamento seja algo da esfera humana, mas no que tange à sentença, jamais. É muito comum alguém dizer não julgueis, como se a Bíblia condenasse toda e qualquer forma de apreciação, quando na verdade condena é o juízo temerário (ou seja, aquele que é feito sem fundamento justo, daquele que é feito a respeito de alguém, sem provas suficientes). No presente estudo pretendo abordar a respeito deste tipo de juízo, bem como da arrogância dos que sem levar em conta a soberania de Deus fazem planos para o dia de amanhã.

O CONTEXTO E O TEXTO BÍBLICO

O juízo temerário é aquele que se faz sem que se leve em conta os perigos que o mesmo possa trazer. É a respeito deste que Tiago fala por meio das seguintes palavras:
Irmãos, não falem mal uns dos outros. Quem fala contra o seu irmão ou julga o seu irmão, fala contra a Lei e a julga. Quando você julga a Lei, não a está cumprindo, mas está se colocando como juiz. Há apenas um Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo?  (Tg 4. 11, 12 NVI). 
Mas em que consiste o pecado condenado aqui por Tiago? Creio que a resposta passe por uma consideração negativa a respeito das colocações feitas pelo irmão do Senhor, ou seja, o que ele não quis dizer. O que me leva a considerar que:


1) Tiago não está falando do confronto que se deve fazer ao irmão que está em erro

Jesus instruiu os seus discípulos da seguinte forma:
Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’. Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano (Mt 18. 15 - 17 NVI). 
perceba que jesus orienta aos seus discípulos a  respeito dos passos a serem tomados quando um irmão erra. Vá a ele e o convença do seu erro. O verbo grego ελεγξον (elegchon), é o mesmo empregado para convencimento de erro(Jo 16. 8 - 12), repreensão (Ap 3. 19), redarguir (II Tm 3. 16), daí minha predileção pela tradução que a Nova Versão Internacional faz deste texto, por mostrar o erro.

Somente a exposição das Escrituras (que são o sopro de Deus), em conjunto com a atuação do Espírito Santo são suficientemente capazes de convencer ao crente, ou o irmão errado a respeito da gravidade do seu erro. Em um primeiro momento a Palavra é dita na esfera individual, em um segundo momento se recorre ao testemunho de duas testemunhas.

Por último se recorre à Igreja e somente mediante recusa em ouvir a Igreja é que se recomenda um tipo de disciplina, que consiste na consideração do contradizente como sendo não mais um irmão, mas alguém que é rebelde e contradizente, visto que não se deixa convencer pelos argumentos da Palavra de Deus.

2) Também não está falando da refutação ao falso mestre

Quem lê o livro do Apocalipse, a carta à Igreja de Éfeso, percebe que Jesus elogiou esta Igreja, por quê? Simplesmente porque ela colocou à prova alguns crentes que se diziam apóstolos, mas na verdade não o eram, e mais, os tais foram achados e julgados como mentirosos (Ap 2. 2). Quem dera em nossos dias houvessem mais Igrejas com similar postura!

Feitas os devidos esclarecimentos, preciso voltar ao tema conforme a abordagem feita por Tiago, que pede para que ninguém fale mal do seu próximo, e que este falar mal não pode ser confundido com o exercício do discernimento, cuja finalidade consiste na correta diferenciação entre o falso e o verdadeiro profeta, e menos ainda no ministério da exortação, que visa a correção do que está no erro 

Mas do quê então Tiago fala em seu texto? Creio que de alguma forma Tiago esteja se reportando ao ensino de Cristo sobre o juízo temerário dos homens. Mas sei que seu texto tem de ser lido sob o prisma do contexto geral de sua carta. Somente assim se constata que a religião praticada sem o domínio da língua é vã (Tg 1. 26, 27 [aqui]), que a fé em Cristo é incompatível com a acepção de pessoas e que esta em si já é um julgamento (Tg 2. 1 - 13 [aqui]), que a tendência da natureza humana decaída é maldizer o homem feito à imagem e semelhança de Deus, de disputar por proeminência, etc....

O JUÍZO TEMERÁRIO

Sim, Tiago está falando do juízo temerário que os homens tendem a fazer. Sim, mas o que vem a ser tal juízo? Para uma maior elucidação a respeito do que vem a ser um julgamento desta natureza, recorrerei ao sermão do Segundo Domingo do Advento, de autoria do Padre Antônio Vieira. Eis algumas colocações que o mesmo faz: 
  1. Em seu juízo Deus julga com o entendimento, ao passo que os homens o fazem com a vontade. Como a vontade humana é corrompida, a luz (Cristo), é julgada e condenada, ao passo que aquilo que representa o mal é absolvido, nas palavras de Vieira, o entendimento acha o que há, a vontade acha o que quer
  2. No juízo de Deus geralmente basta só testemunho da própria consciência; no juízo dos homens a própria consciência não vale testemunha. O maior exemplo foi José, cuja consciência mesmo limpa o levou para a prisão pela falsa acusação da mulher de Potifar. 
  3. No juízo de Deus as nossas boas obras defendem-nos, ao passo que no juízo dos homens o maior inimigo que temos são as nossas boas obras. A excelência de Abel, foi o motivo de desgosto de Caim, ao passo que a excelência de Davi, foi a causa da hostilidade de Saul. 
  4. Deus julga o que conhece; os homens julgam o que não conhecem. Este foi o caso de Eli, cujo juízo sobre Ana, justamente por não conhecer sua aflição. 
  5. O que faz o juízo dos homens o mais arriscado possível, é que Deus não julga senão no fim; os homens não esperam pelo fim para julgar. Daí a razão de Paulo haver dito: nada julgueis antes de tempo, até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o louvor (I Co 4. 5 ACF). 
  6. O juízo com que nos julgamos uns aos outros é a lei que pusemos a Deus  para que ele nos julgue também a nós
Daí o risco em se colocar como legislador no lugar de Deus. 

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O perigo da Busca Pela Autorrealização Humana



Ao longo desta série de Estudos venho tratando de uma questão pontual para Tiago, o pecado. Ele está presente na concupiscência que age como um caçador de forma a atrair e ludibriar o indivíduo (aqui). Ele, se manifesta nas atitudes e gestos mais triviais que se pode perceber, tais como a acepção de pessoas (aqui), e no mau uso da língua (aqui e aqui). Mesmo a sabedoria humana pode vir a se perder, se guiada e orientada por sentimentos animais, terrenos e diabólicos (aqui). Hoje abordarei como os desejos prejudicam os relacionamentos na Igreja. 
De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês? (Tg 4. 1 NVI). 
É uma pergunta intrigante, com uma resposta ainda mais instigante. Fato é que em consonância com boa parte do que já afirma a filosofia grega, Tiago afirma que a guerra (polemoi [πολεμοι]) bem como as contendas (machai [μαχαι]), tem como principal causa os desejos que guerreiam nos membros do destinatário. 

Segundo MacArthur o emprego de πολεμοι e de μαχαι por Tiago indica que que ele esteja falando de conflitos externos interpessoais, jamais de embates intrapessoais. O termo paixões é a tradução mais exata de ηδονων (hedonoon), palavra da qual vem  o termo hedonismo, que é uma doutrina moral que considera o prazer como sendo o alvo principal da vida. Em outras palavras ao eleger o prazer como o alvo máximo da vida o indivíduo acaba por se submeter a todo tipo de guerra entre os membros que compõem o corpo e guerras interpessoais. 

O verbo guerrear é a tradução do verbo grego στρατευω (strateioo), do qual procede a palavra estratégia, que em termos práticos e contextuais é a habilidade individual de empregar a astúcia, sagacidade e esperteza a fim de conseguir algum objetivo. Em outras palavra a concupiscência faz  om que o indivíduo trame o que necessário for para atingir a satisfação daquele desejo. 
Vocês cobiçam coisas, e não as têm; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras. Não têm, porque não pedem  (Tg 4. 2 NVI). 
Dar vazão a concupiscência não é sinônimo de realização. O curioso neste caso é que os gregos tinham um conceito de felicidade, que não aparece nas Bíblia, a eudaimonia (έυδαιιμονια), cujo sentido é o de supressão dos desejos sob a orientação do daimon. Fato é que as negativa externa do desejo faz com que as pessoas matem e invejem, em outras palavras, alimentem toda sorte de sentimentos ruins umas para com as outras. 

Tal como ocorreu com Caim, o fato de se deixar ser levado pela inveja e intentar contra o outro é tão perverso quanto o homicídio. Geralmente os escritores bíblicos empregam ζηλον (zeelon), para se referirem ao ciúme, ou a emulação.alguns autores entendem que esta seria a terminologia mais aplicável neste contexto. 

Tanto a inveja quanto o ciume, que são tratados pela psicologia moderna como afetos bem próximos são danosos. O mais curioso é que nosso mundo midiático estimula ao máximo tais sentimentos, ao apresentar artistas, atores, e demais homens e mulheres bem sucedidos como padrão de bem estar e de felicidade, quando na verdade tanto o caminho para esta felicidade quanto a realização em si são dolorosas, visto que o homem pode ganhar o mundo, mas perder a alma no meio do caminho. 
Não têm, porque não pedem. Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres (Tg 4. 2, 3 NVI).
O verbo grego αιτέω (aiteoo) é empregado para a realização de pedidos e no contexto do Evangelho, para os pedidos em oração. Neste caso, como a oração é motivada pelo ciúme, pelo desejo que o que faz a prece tem de se assemelhar ao outro, ou de ter aquilo que o outro possui, esta não é atendida. Neste contexto o pedir mal nada tem a ver com o fato de orar sem fazer as devidas especificações, como se Deus precisasse de tais expedientes para atender ao crente. 

A verdade bíblica é que ele, Deus, conhece aquilo que todo e qualquer crente necessita e precisa antes mesmo que estes peçam qualquer coisa para ele. Davi afirma categoricamente: antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor  (Sl 139. 4 NVI). E Jesus ao ensinar aos seus discípulos a respeito da oração lhes garantiu: o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem (Mt 6. 8 NVI). 

O pedir mal conforme o próprio texto sugere consiste no pedido feito com fins hedonistas, visto que prazeres, ou deleites, é a tradução do termo ηδοναις (hedonais). Todo pedido que tem um fim como o descrito nas linhas acima é motivada por um desejo mal, o que traz rejeição à oração. 
Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus (Tg 4. 4 NVI). 
Com base no entendimento dos versos anteriores, afirmo que o adultério aqui consiste no fato de o crente colocar a busca pelo prazer acima da busca pessoal por Deus. Na sátira Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, C. S. Lewis coloca na boca de Fitafuso uma fala que revela um conceito interessante, qual? O de que todo prazer na verdade emana de Deus, e quando aquele ao invés deste se torna um fim em si mesmo, o homem se perde em uma busca desenfreada. O mais interessante é que a estratégia do inferno é fazer o homem buscar cada vez mais prazer fora de Deus e obter uma satisfação cada vez menor. 

Tal ato é um adultério porque altera a essência do homem, que foi criado para ser movido por Deus, e somente por este. Ao alterar tal característica humana, ocorre uma falsificação do ser e do indivíduo. Mais importante ainda é o fato de que esta é a linguagem espiritual que os escritores do Antigo Testamento usam para se referir ao Israel infiel como se o mesmo fosse uma prostituta (Jr 2. 20; 3. 1, 5, 8, 9; Ez 16. 26 - 29). Jesus se referiu à sua geração como sendo adúltera e perversa (Mt 12. 39; 16. 4). 

Agora convém perguntar: em que sentido a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Existem quatro sentidos para a palavra mundo

  1. No sentido clássico é o universo físico (Sl 24. 1; Jo 17. 5)
  2. A ordem das coisas que tem o homem como o seu respectivo centro - é neste sentido que se fala em consumação do mundo (Mt 13. 38; Jo 16. 21). 
  3. A humanidade (Mt 18. 7; Rm 3. 19). 
  4. Uma ordem de coisas separadas de Deus, que tem Satanás como o seu príncipe (Jo 12. 31; 14. 30; 15. 18, 19; I Jo 5. 19). 
Tiago está se referindo neste texto ao mundo conforme falado por Jesus e por João que disse: 
não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo — a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens — não provém do Pai, mas do mundo. O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre (I Jo 2. 15 - 17 NVI). 

 O homem que se entrega à sua concupiscência e abraço o presente século é tão adúltero quanto a nação de Israel o foi em seu sincretismo. 
Ou vocês acham que é sem razão que a Escritura diz que o Espírito que ele fez habitar em nós tem fortes ciúmes? (Tg 4. 5 NVI). 
Este ensino, na verdade é uma combinação de textos do Antigo Testamento, visto que tal citação não é encontrada como tal na tanakh. via de regra a tendência comum é interpretar tal texto como se aqui fizesse uma menção ao Espírito de Deus, nutrido ciúmes pelo crente em razão de sua infidelidade. Ao meu ver tal interpretação não é de todo má, visto que nas mesmas Escrituras se afirma que Deus é ciumento. 

Foi Davi Stern quem propôs uma interpretação antagônica a esta, ao afirmar que na verdade este texto não faz menção ao Espírito de Deus, mas ao espírito decaído do homem, que o faz desejar as coisas do mundo. O que pode ser confirma do pelo emprego textual que Tiago faz do termo e pela afirmação posterior, de que Deus concede maior graça. A alma do perverso deseja o mal, nem o seu vizinho recebe dele compaixão (Pv 21. 10 NVI). 
Mas ele nos concede graça maior. Por isso diz a Escritura: "Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes" (Tg 4. 6 NVI).
Quando leio neste contexto que Deus concede graça maior, entendo que a graça que Deus dispõe ao crente é maior do que a natureza pecaminosa do mesmo. É como foi dito por Paulo ao afirmar que onde abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 5. 20). A própria compreensão de que o desejo desenfreado pelo mundo é pecaminosa é fruto da graça de Deus. 

Tiago emprega o termo αντιτασσεται (antitassetai), do qual vem a palavra antítese, para se referir à oposição que Deus faz em relação ao soberbo. υπερηφανοις  (hupereephanois) é possivelmente a junção de υπερ (= acima) + ηφανοις  (=mostrar-se), em outras palavras o soberbo é aquele que se mostra, e a julgar pelo contexto aquele que se mostra possuidor de bens. Face ao exposto convém que o crente pondere sua vida a partir destas últimas recomendações de Tiago:

  1. Resistindo ao dibo, que neste contexto se faz presente na natureza decaída do homem (Tg 4. 7)
  2. Procurando maior proximidade em relação a Deus (Tg 4. 8 ). 
  3. Buscando pureza espiritual (Tg 4. 8)
  4. Eliminando toda a duplicidade (Tg 4. 8). Aqui aparece o mesmo termo διψυχοι (dypschoi), duplicidade de mente.
  5. Buscando pureza (II Co 7. 1; Tg 4. 8)
  6. Arrependendo-se (Tg 4. 9)
  7. Humilhando-se diante de Deus (Tg 4. 10). 
Em Cristo, Marcelo Medeiros

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Verdadeira Sabedoria se Manifesta na Prática



O título da presente postagem é bem sugestivo. Ele remete a uma grande verdade, a da indissociabilidade entre sabedoria, conhecimento, e vida prática. Com isto quero dizer que a despeito da falsa dicotomia estabelecida hoje, desde a antiguidade, quem sabe, ou conhece algo o faz em função de uma vivência prática. O presente estudo é uma sequência textual do estudo lançado neste espaço na semana passada [aqui].

Tal como ocorre com a língua, que é ligada ao coração, tal se dá com a sabedoria, ela pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Isto porque o termo חֲכָמִ֥ים [hokmah] tanto pode ser usado para a capacidade de saber e fazer o que é bom quanto para a de praticar o que não é bom. Veja o que Deus fala ao profeta Jeremias a respeito do povo de Israel: O meu povo é tolo, eles não me conhecem. São crianças insensatas que nada compreendem. São hábeis para praticar o mal, mas não sabem fazer o bem (Jr 4. 22 NVI). Isto posto, passo a tecer considerações a respeito da sabedoria no contexto bíblico geral e no de Tiago.

A SABEDORIA NO CONTEXTO EXEGÉTICO

Neste estudo faço uma breve exegese dos conceitos que envolvem a palavra sabedoria. Meu objetivo era demonstrar a elasticidade do conceito, e ao mesmo tempo apontar que independente da mesma, a sabedoria importante para o judeu era a de cunho prático, o que acontece mesmo quando por sabedoria se quer falar de habilidade técnica, como no caso de Bezaleel a Aoliabe, os construtores do utensílio do tabernáculo, o que se pretende aqui é um fim prático.

Em concordância com o que foi dito acima, exponho aqui em breves linhas as conclusões do referido estudo:

  1. A sabedoria é acima de tudo um dom divino, o que fica claro nos textos que falam de Deus capacitando Bezaleel e Aoliabe para a construção dos utensílios do tabernáculo (Ex 28. 3; 31. 3, 6; 35. 31; 36. 1).
  2. Em certo sentido somente Deus é sábio, visto que dele se diz: om ele está a sabedoria e a força; conselho e entendimento tem (Jó 12. 13 ACF). 
  3. O emprego do vocábulo חֲכָמִ֥ים [hokmah] engloba a habilidade técnica como no caso dos artífices envolvidos na construção do templo (Ex 28. 3; 31. 3, 6; 35. 31; 36. 1). Mas ela não se resume a tal. 
  4. Não é verdade que a sabedoria é o resultado inevitável do decorrer dos anos, e que toda pessoa idosa seja inevitavelmente sábia (Jó 12. 12; 32. 7 - 12). 
  5. Este tipo de sabedoria, a adquirida por meio da experiência prática nem sempre é rechaçada pelas Escrituras. A única exceção é o caso de Jó e de seus amigos, visto que estes achavam que sua sabedoria prática poderia penetrar nos desígnios de Deus (Jó 15. 7 - 12). 
  6. Conforme sabido pelo leitor da Bíblia, a sabedoria dos amigos de Jó foi rechaçada pelo próprio Deus (Jó 42. 7, 8). 
  7. As Escrituras são tratadas como sendo a fonte de sabedoria dos homens de Deus, e isto se pode ver tanto na literatura canônica (Sl 119. 98 - 100), quanto na do segundo cânon (Eclo 24. 22; Bar 4. 1). 
  8. A leitura dos textos paulinos reforçam a noção de que existem dois tipos de sabedoria, uma deste século, e outra que foi reservada exclusivamente aos santos (I Co 2. 6, 7). 
  9. A sabedoria reservada aos santos está oculta em Cristo, o Senhor da Glória (Cl 2. 2, 3, 9). 
  10. Cristo é a sabedoria de Deus (I Co 1. 30, 31), personificada na sabedoria do Antigo Testamento (Pv 1. 20 - 23; 8. 1 -13). 
  11. Esta sabedoria mais profunda, oculta em Cristo, é inevitavelmente humildade, uma vez que por meio da mesma se torna possível conhecer a Deus e gloriar-se nele (Jr 9. 23, 24; I Co 1. 31). 
  12. Daí que a humildade seja a essência da verdadeira sabedoria, visto que a sabedoria encarnada se colocou como exemplo de verdadeira humildade (Mt 11. 29). 
Feitas tais considerações creio ser justo rever a sabedoria no contexto da literatura sapiencial. 

A SABEDORIA NO CONTEXTO DA LITERATURA SAPIENCIAL

Sapiencial é por definição aquilo que é relativo à sapiência. Esta por sua vez é sinônima de sabedoria, ou erudição, podendo ser também uma forma de se referir ao Verbo de Deus, Cristo, e por extensão a toda sabedoria divina. Logo, quando falo em literatura sapiencial, me refeito a um tipo de,literatura (já classificada deste modo pelos teólogos biblicistas) que aborda assuntos de sabedoria. 

Em Jó, Provérbios, e Eclesiastes, a sabedoria é algo de cunho prático, que tem o seu começo no temor do Senhor (Yir'ah Yahweh [ יִרְאַ֣ת יְ֭הוָה]), conforme indicado em quase todos os escritos de sabedoria (Jó 28. 28; Sl 111. 10; Pv 1. 7; 9. 10). A finalidade do temor de Deus também é de cunho prático, visto que por meio do mesmo os homens deixam de pecar (Pv 16. 6). 

Por meio da sabedoria,
  1. O jovem escolhe as suas amizades (Pv 1. 11 - 14; 4. 14 - 18)
  2. Evita as mais variadas formas de pecado (Pv 6. 16 - 19)
  3. Os homens evitam o adultério (Pv 6. 23 - 29; 7. 1 - 6)
  4. Os homens são habilitados a reinar (Pv 8. 14 - 16)
  5. Adestra o homem quanto ao que convém que ele fale. O coração do sábio ensina a sua boca, e os seus lábios promovem a instrução (Pv 16. 23 NVI). 
  6. A sabedoria do homem o orienta quanto à aceitação dos mandamentos divinos (Pv 10. 8). 
Este é o discurso visto em Provérbios [aqui]. Já em Eclesiastes a sabedoria tem uma função mais dramática a de ajudar o homem a proceder neste mundo contraditório, de forma a fazer o sábio entender o tempo e o modo (Ec 8. 6). Para o pregador a sabedoria começa com a correta fruição dos dons e dádivas da parte de Deus [aqui]. 

A SABEDORIA NO CONTEXTO DA CARTA DE TIAGO

Com base nas observações que fiz acima posso afirmar que Tiago prima pela sabedoria de cunho prático, visto que para este:
  1. Quem tem falta de sabedoria deve pedir a mesma a Deus (Tg 1. 5, 6)
  2. A sabedoria ajuda o homem no tocante ao comportamento em meio às tribulações (Tg 1. 2 - 4).
  3. Orienta o homem no tocante à sua condição de vaidade (Tg 1. 9, 10). 
  4. Ajuda o homem na identificação da origem das tentações (Tg 13 - 15)
  5. Na prática da palavra de Deus (Pv 1. 22 - 25). 
Estas são as impressões iniciais. Agora resta tecer uma consideração de suma importância. A recomendação pelo discernimento que separa a sabedoria do alto com a sabedoria de cunho animal diabólica e terrena se dão em um contexto em que Tiago fala sobre o cuidado com a língua [aqui] nas linha anteriores, e os desejos que promovem guerra nas linhas seguintes.

Ao falar a respeito da fé que se manifesta por meio de obras (aliás, a única que existe de fato é esta), fiz questão de pontuar que a Bíblia em ponto algum condena as boas obras, visto que estas são, ou pelo menos deveriam de ser a consumação de uma fé autêntica. O problema com as obras é o pecado que se mistura as motivações mais nobres contaminando a ação em si. 

O efeito mais nefasto de uma péssima compreensão do papel das boas obras é a filosofia que faz alguns pensarem que por praticarem certas ações, ou por projetarem certa imagem, ou manterem certa postura terão algum tipo de crédito com. Estas considerações já foram postadas aqui neste blog [aqui]. Creio que algo similar ocorra com a sabedoria. Visto que para Tiago o problema não está no homem ser, ou não sábio, mas em usar tal sabedoria para o mal, ou seja para concretizar os desejos alimentados pelo seu ciúme (Tg 3. 14 - 16). 

A sabedoria que procede do alto é tem como característica maior um modo de vida (αναστροφης  [anastrophes]), marcado por mansidão (πραυτητι [prauteti]). Esta consiste na paciência que permite suportar insultos sem se exasperar (Tg 3. 13). Esta mesma é: 

  1. Pura (αγνη [agnee]); ou seja íntegra moral e espiritual (qualidade ausente nas palavras dos amigos de Jó). 
  2. Pacífica. O termo ειρηνικη (eirenikee), indica a ação de quem promove a paz. Aos que entendem que a promoção da paz implica o abandono da ortodoxia, apenas gostaria de destacar que de acordo com o presente contexto Tiago entende que a ortodoxia é importante. 
  3. Amável, ou moderada, visto que επιεικης (epieikees) fala tanto da moderação no julgar quanto na capacidade de suportar a injustiça e maus tratos sem sentimentos de vingança, mas com uma confiança inabalável em Deus (Fp 4. 5). 
  4. Compreensiva, sendo que o termo ευπειθης (eupeithees) fala de quem se permite ser facilmente persuadido, uma atitude contrária a de quem faz perguntas não pela curiosidade em si, mas porque não está disposto a se deixar ser persuadido. 
  5. Cheia de misericórdia e bons frutos (μεστη ελεους και καρπων [mestee eleous kai karpon]). Basta lembrar que da relação dos frutos do Espírito (Gl 5. 22), Tiago destaca neste contexto a mansidão, a paz e moderação, que se aproxima da longanimidade. 
  6. Imparcial, o termo αδιακριτος [adiakritos] indica uma integridade característica de quem não é dividido. Um sábio não pode ser uma pessoa que ao mesmo tempo em que bendiz a Deus, fala mal do seu próximo (Tg 3. 9, 10). 
  7. A sabedoria do alto possui estrita relação com tudo o que se relaciona com a justiça e a paz. Este é o entendimento de Tiago a respeito do tema. 

Não creio que haja uma sabedoria de matiz celeste que tenha apenas um destes predicados, ao meu ver estas são as marcas distintivas da sabedoria que vem do alto, que Deus concede aos que buscam em oração e meditação das Escrituras. 

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A importância da Sabedoria Humilde



Sabedoria é um termo cujo conceito varia do acúmulo de muitos conhecimentos; grande instrução; ciência, erudição, saber até a aplicação inteligente destes mesmos conhecimentos, produzindo uma conduta orientada de acordo com o conhecimento daquilo que é verdadeiro e justo. Os escritos de sabedoria, e principalmente a carta de Tiago, dão maior ênfase a este último aspecto, mas não há como negar, que na Bíblia o termo aparece com uma variada gama de significados. 


O estudo do assunto é de fundamental importância, tanto pelo valor exegético, quanto pela desconstrução de uma cultura que impera em neste país, e que tem o seu impacto na vida da Igreja. Somado ao fator histórico de que a educação é tão somente uma ferramenta de ascensão social, observo a emergência de uma cultura de morte da razão, o que demanda em nova incursão sobre o tema. Minha proposta começa com a conceituação exegética e lexical do assunto, e avança para o contexto da carta de Tiago e do tempo presente. 

O CONCEITO EXEGÉTICO DE SABEDORIA

A sabedoria חָכְמָ֛ה (hokmanh) pode ser aplicada à perícia técnica de um artesão, como no caso dos que foram empregados na confecção das vestes sacerdotais e dos objetos e utensílios do tabernáculo (Ex 28. 3; 31. 3, 6; 35. 31; 36. 1). Aqui acabe a observação de que neste aspecto ocorre uma aproximação entre חָכְמָ֛ה (hokmanh) e σοφια (sophia), que na cultura helênica compreendia os artesãos que eram habilidosos em seu ofício.

Sócrates, o primeiro filósofo encarava a sua tarefa como uma missão que lhe fora dada pelos deuses. Conta-se que quando Querofonte, seu amigo, foi consultar o oráculo de Delphos, este ouviu do mesmo a seguinte frase: Sócrates é o mais sábio de todos os mortais. Na interpretação de Kreuff, a sabedoria era algo que pertencia exclusivamente aos deuses e foi por este motivo que a afirmação perturbou ao filósofo em questão.

Com esta indagação em mente Sócrates sai por toda parte fazendo perguntas aos homens, dese os que se consideravam sábios até os que eram tidos por ignorantes, a fim de averiguar se de fato o oráculo era verdadeiro. Sua conclusão é que os artesãos que ele achou maior sabedoria, pois estes ao menos eram peritos em sua arte, ao passo que os que se julgavam sábios nada sabia. O filósofo em questão também constatou que de fato era sábio, por que sabia que nada sabia.

Este é um outro ponto em que a sabedoria judaica converge com a socrática, uma vez que somente clamam por sabedoria, aqueles que sentem que não a possuem. Daí Tiago afirmar: se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada  (Tg 1. 5 NVI). 

Tanto חָכְמָ֛ה quanto σοφια podem ser empregados para expressar uma sabedoria secular, que sendo dom de Deus, é igualmente acessível aos homens, por meio da graça comum, e que se torna problema para o homem do momento em que ele pensa que pode opor-se ao plano de Deus (Is 47. 10; Jr 49. 7). Um exemplo claro deste tipo de sabedoria é a exibida pelos amigos de Jó, que era uma sabedoria prática, pragmática, adquirida com o tempo (Jó 15. 8 - 10), mas que foi rechaçada por não explicar o desígnio divino na vida de Jó. 

Tanto Jó, quanto Eliú desdenharam da suposta sabedoria dos seus amigos. Com os idosos está a sabedoria, e na longevidade o entendimento. Com ele está a sabedoria e a força; conselho e entendimento tem (Jó 12. 12, 13 ACF), esta afirmação de Jó significa que nem sempre a idade traz sabedoria. 
Dizia eu: Falem os dias, e a multidão dos anos ensine a sabedoria. Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do TodoPoderoso o faz entendido. Os grandes não são os sábios, nem os velhos entendem o que é direito. Assim digo: Dai-me ouvidos, e também eu declararei a minha opinião. Eis que aguardei as vossas palavras, e dei ouvidos às vossas considerações, até que buscásseis razões. Atentando, pois, para vós, eis que nenhum de vós há que possa convencer a Jó, nem que responda às suas razões (Jó 32. 7 - 12 ACF). 
Eliú afirma que retardou o seu discurso a respeito dos problemas de Jó, esperando que os anos dos anciãos que o precederam ensinassem a sabedoria, mas o que se viu foi justamente o contrário. É com esta ótica, que a leitura de I Co 1. 18 - 22 ganha significado, uma vez que neste contexto a sabedoria tanto é a erudição intelectual, quanto (I Co 1. 22, 23), quanto a perspicácia do homem em estratagemas políticos, sendo ambos superados pela sabedoria da cruz, manifesta em Cristo Jesus (I Co 1. 30, 31; 2. 6, 7). 

Na concepção rabínica a sabedoria de Deus se confunde com a erudição escriturística, sendo que nesta visão a sabedoria pré existente é associada à Toráh (תֹורָתְ). Há fundamentos para tal entendimento tanto na literatura canônica, quanto na deuterocanônica. Assim, em Baruque se lê que a sabedoria é o livro dos preceitos de Deus, a lei que subsiste para sempre; todos os que a ela se agarram destinam-se á vida, e os que a abandonarem perecerão (Br. 4. 1 Bíblia de Jerusalém). O mesmo se percebe com a leitura de Sirácida, onde após a exposição dos meios de aquisição da sabedoria afirma: tudo isto é o livro da Aliança do Deus Altíssimo, a lei que Moisés promulgou, a herança para as assembleias de Jacó (Eclo 24. 32)

Nos escritos canônicos tal conceito se faz presente. Para tal basta que se leia a seguinte afirmação de Davi: 
Tu, pelos teus mandamentos, me fazes mais sábio do que os meus inimigos; pois estão sempre comigo. Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque os teus testemunhos são a minha meditação. Entendo mais do que os antigos; porque guardo os teus preceitos (Sl 119. 98 - 100). 
Perceba: Deus é a fonte de sabedoria, mas o instrumento pelo qual ele derrama a sabedoria é a revelação escrita.  O acesso à revelação o entendimento decorrente da meditação constante na Palavra de Deus. Este entendimento supera a sabedoria acumulada durante anos. O justo ainda que morra prematuramente terá repouso, velhice venerável não é longevidade, nem é medida pelo número dos anos, as cãs do homem são a inteligência e a velhice uma vida imaculada (Sab 4. 7- 9 Bíblia de Jerusalém). Se a velhice não é acompanhada pela vida de justiça, de nada adianta. 

Cristo enquanto sabedoria de Deus (I Co 1. 30, 31; 2. 6, 7), é o perfeito cumprimento da sabedoria personificada da literatura sapiencial do Antigo Testamento (Pv 1. 20 - 32; 8 - 9). Paulo afirma que em Cristo se acham escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Cl 2. 3 Bíblia de Jerusalém), e partindo desta lógica, o crente não precisa se deixar ser enganado por argumentos capciosos (Cl 2. 4, 5).

A SABEDORIA NO CONTEXTO DE TIAGO

Tiago é conhecedor das Escrituras e demonstra isto no concílio de Jerusalém (At 15. 13 - 19), mas a sabedoria, conforme abordada por ele, deve ser buscada em Deus, por meio da oração e tem de ter uma dimensão profundamente prática. Neste contexto é possível observar que: 1) Deus é a fonte de sabedoria, 2) Cada qual deve buscar esta sabedoria em oração confiante, 3) Deus partilha desta sabedoria com todos, de forma liberal, 4) esta sabedoria não visa o debate com fins esnobistas e exibicionistas, 5) se manifesta por meio de frutos de justiça.

A leitura atenta dos textos em que a sabedoria é equiparada à perícia técnica (Ex 28. 3; 31. 3, 6; 35. 31; 36. 1), revela uma verdade inconteste, a de que Deus é o autor da sabedoria em questão. Deus mesmo ordena: falarás também a todos os que são sábios de coração, a quem eu tenho enchido do espírito da sabedoria (Ex 28. 3 ACF), Iahweh mesmo encheu Bezaleel com destreza, habilidade e plena capacidade artística, sendo que o termo destreza é empregado pela NVI para traduzir o hebraico חָכְמָ֛ה (Ex 31. 3).

Mesmo Salomão, busca a sua sabedoria em Deus (I Rs 3. 5 - 9), e aconselha a que se busque a sabedoria em Deus. Para os sábios, é o Senhor quem dá a sabedoria e de sua boca vem o conhecimento e o entendimento, ele entesoura a sabedoria para os retos, como escudo para quem é honesto (Pv 2. 6, 7 Tradução Ecumênica Brasileira). Mesmo quando o homem alcança a sabedoria por meio dos anos vividos, a fonte maior é o próprio Deus (Jó 12. 9 - 13). Mesmo a sabedoria decorrente da leitura bíblica tem em ?Deus a sua fonte (Sl 119. 98 - 100).

Esta mesma tem um fim puramente prático, uma vez que no contexto da recomendação de oração para se obter sabedoria, Tiago fala das aflições (Tg 1. 2 - 4), das tentações (Tg 1. 13 - 15), da nova natureza (Tg 1. 16 - 18), da observância fiel da palavra (Tg 1. 21 - 25), do uso da língua (Tg 1. 26, 27), e nisto consiste a verdadeira sabedoria.

MARCAS DA VERDADEIRA SABEDORIA

Já foi falado neste estudo que em toda a Bíblia o termo sabedoria é usado de forma ampla. De igual modo foi afirmado que Deus é a fonte de toda a sabedoria. Agora convém afirmar que para Tiago, na mesma proporção em que a fé sem obras é morta, a sabedoria que não molda o modo de vida do crente, é igualmente inútil.

Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria (Tg 3. 13 ACF). Perceba que aqui Tiago emprega os termos σοφος και επιστημων (sophos kai epistemon), para expressar o homem sábio, de um lado, e o dotado de conhecimento do outro. Não há nada no texto que sugira o desprezo ao segundo, mas se o conhecimento e mesmo a sabedoria não se expressa em um modo de vida marcado por mansidão ambos são inúteis.

A sabedoria do alto contrapõe-se tanto ao ciúme (ou inveja), quanto ao sentimento faccioso. Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade (Tg 3. 14 ACF). A palavra neste texto ζηλον (zeelon), é empregada no Novo Testamento tanto para expressar ciúme, quanto inveja. Mas neste contexto a mesma é empregada para significar o desejo de promover a sua própria opinião, em exclusão das demais. Neste caso o convencimento não se dá pela linha dos argumentos, mas talvez até da imposição de falsos argumentos.

Uma outra questão é o fato de que tal sabedoria, ao contrário da verdadeira sabedoria, se coloca sempre a serviço de interesses pessoais, aqui traduzido por sentimentos facciosos (εριθειαν [epitheian]). É uma palavra empregada para expressar o vício de líderes que criam partidos para a satisfação do seu próprio orgulho.

A sabedoria do alto é marcada por uma integridade de mente e de caráter, o que faltou aos amigos de Jó, por exemplo, que não disseram de Deus o que convinha. Também se faz ver na disposição em promover a paz. Claro que não falo aqui de paz  a qualquer custo, ou às expensas da verdade, mas na disposição em controlar a língua a fim de não criar a guerra.

A expressão επιεικης (epiekees) aplica-se à moderação nos julgamentos, bem como à paciência que se submete aos maus tratos, sem ódio, ou malícia, mas confiando em Deus acima de todas as coisas. O verdadeiro sábio não nem insubmisso, muito menos sectário. Todavia, é justo, misericordioso, imparcial, e não cede à tentação de em alguns momentos louvar a Deus e em outros maldizer o homem, que é a imagem de Deus. A verdadeira sabedoria, está á serviço da justiça, que redunda em paz.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O propósito da tentação



Em nosso idioma a tentação é um tipo de atração por coisa proibida, um movimento íntimo que incita ao mal, um desejo veemente. Na Bíblia os termos empregados para tentação, a saber נִסָּ֖ה ou מַּסָּֽה (nasah ou masah) e πειρασμοις (peirasmos),  nem sempre possuem esta conotação, podendo também serem empregadas para exprimirem algum tipo de teste, ou provação com vistas a dar uma lição. É neste ponto que se pode falar em propósito. 

As provações revelam um desígnio divino. Esta é a verdade que emerge da narrativa bíblica, e aí, igualmente reside a grande diferença entre a tentação no plano divino, e a tentação no plano humano, ou satânico. Se Satanás pretende derrubar o crente, ou induzir o mesmo ao pecado, Deus ao contrário, visa com a provação, ou com a tentação, o aperfeiçoamento do fiel. O presente estudo tem como objetivo demonstrar tal diferença, que Deus abençoe o leitor. 

FUNDAMENTO EXEGÉTICO

E aconteceu, depois destas coisas, que tentou Deus a Abraão (Gn 22. 1a ARC). Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta (Tg 1. 13 ACF). Estes dois textos colocam tanto o leitor atento quanto o crítico diante de uma aparente contradição, afinal, Deus tenta, ou não tenta! O redator de Gênesis (tradicionalmente Moisés), afirma que sim; ao ponto que Tiago, o irmão do Senhor nega. E agora?

A verdade é que os termos empregados para exprimir tentação, a saber נִסָּ֖ה ou מַּסָּֽה (nasah ou masah) e πειρασμοις (peirasmos), possuem também a ideia de testar, experimentar, tanto que as versões mais atuais substituíram o verbo tentar, pelo experimentar, ou colocar à prova. Da mesma forma πειρασμοις pode ser um simples teste, que é posto à nossa fé. Assim, em Tiago o termo em apreço tanto pode ser empregado para expressar a provação, quanto à tentação. 

Quando a Bíblia diz que é bem-aventurado o homem que sofre a tentação (πειρασμοις); porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o ama (Tg 1. 12 ACF), entendemos aqui que πειρασμοις na verdade é provação. Agora quando o mesmo autor diz: Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta (Tg 1. 13 ACF), o que ele está dizendo é que Deus não pode induzir ninguém ao mal, neste sentido é correto afirmar que Deus que a ninguém tenta. E isto, porque ele mesmo não pode ser tentado pelo mal. 

Uma observação extremamente necessária a respeito do último texto é que o verbo tentar, ou πειραζω (peirazoo) aparece por três vezes neste verso de Tiago. O mesmo é empregado ao longo da narrativa bíblica a fim de expressar a ação dos fariseus em tentar a Cristo, por exemplo. E, chegando-se os fariseus e os saduceus, para o tentarem, pediram-lhe que lhes mostrasse algum sinal do céu (Mt 16. 1 ACF). Ou a própria ação de Satanás (Mt 4. 1, 3). 

Os fariseus submetiam Jesus à prova, visando ter algo de que o acusar (Jo 8. 6). Na Tradução Ecumênica Brasileira, se lê: eles falavam assim com a intenção de armar-lhe uma cilada, para ter de que acusá-lo. Este é o propósito de Satanás, bem como dos seus mais diversos agentes, que no contexto do Evangelho são os fariseus, e quando eles colocam o homem à prova o fazem no sentido de fazer o homem, ou um oponente fracassar. 

Quando Deus prova é diferente. Paulo se vale das tentações no deserto para explicar aos crentes de Corinto a natureza das provações divinas, ele afirma: Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar (I Co 10. 13 ACF). 

Foi assim com Israel no deserto, a cada teste, a cada prova vinha sempre algum tipo de livramento da parte de Deus. Exemplos? O Cordeiro de Abraão preso nos espinheiros, o lenho em Mara, a Rocha em Refidim, o Maná, são demonstrações de que nenhuma provação que vem de Deus é de todo insuportável ao homem, mais do que isto, são provas cabais de que o homem ao ser provado é assistido por Deus em sua provação. 

Por ora, convém reafirmar que πειρασμοις pode ser tanto a tentação para induzir o homem ao mal, quanto a tentação no sentido de provação, e mais, angústias também podem ser expressar por este termo (Lc 22. 28; Ap 3. 10). Uma atenção precisa ser dada a este último texto em que Jesus promete guardar a sua Igreja, em Filadélfia, da hora da πειρασμου της μελλουσης (peirasmos tees mellouses), ou provação que está por vir. 

A Grande promessa deste texto é que os que guardam a palavra da paciência (um produto das tribulações enviadas por Deus com vistas ao aperfeiçoamento do seu povo), são deveras guardados em meio às mais severas tentações (não creio que este texto fale de um arrebatamento pré-tribulacional, como alegam alguns), este é o cerne da promessa divina. 

GOZO NAS AFLIÇÕES
Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;

Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência.
Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma (Tg 1. 2 - 4 ACF). 
Estas palavras são, ou estão se tornando cada vez mais incompreensíveis à geração atual. Mas como bem disse Martin Lloydd-Jones em seus estudos sobre o sermão do monte, a alegria nas tribulações deveria ser o teste de autenticidade de todo o cristão. Jesus deixou claro aos seus seguidores que eles teriam aflições nesta vida, e que deveriam encarar as mesmas com alegria, uma vez que na história sagrada todos os profetas foram perseguidos (Mt 5. 11, 12), e com bom ânimo, visto que ele havia vencido o mundo (Jo 16. 33). 

O ânimo cristão vem do exemplo pessoal de Jesus, ao passo que a alegria nas aflições advém da perspectiva de uma vida futura, bem como do galardão que a mesma reserva aos crentes em Cristo. Neste aspecto, o homem que sofre a tentação é feliz porque ao ser aprovado tem a expectativa de receber uma coroa, a coroa da vida. É esta firme expectativa a fonte do gozo inefável do crente, mesmo quando este está em meio às tribulações. Esta mesma verdade transparece na carta de Pedro, veja:
inda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações,

Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo;
Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso (I Pe 1. 6 - 8) 
O texto deixa implícito que:
  1. A despeito do quanto venhamos a nos entristecer com as tribulações, as mesmas são necessárias. 
  2. Por meio das aflições, ou das mais variadas tentações, a fé cristã é provada. E mais importante, 
  3. O amor que o crente tem por Cristo é a fonte de todo o gozo do cristão em meio à tribulação. O crente não vê a Cristo, mas crê, e como fé e amor são indissociáveis (I Co 13. 7; Gl 5. 6 ). 
DEUS A NINGUÉM TENTA
Não digas: "é por causa do Senhor que me afastei", pois o Senhor não faz o que detesta. Não digas: "foi Ele quem me desviou", pois Ele não precisa do pecador. O senhor odeia toda abominação: não pode ser amada pelos que o temem. Ele mesmo criou o homem no começo e o entregou ao seu próprio arbítrio. Se quiseres, podes observar os mandamentos, ficar fiel depende de tua boa vontade (Sir 15. 11 - 15 Tradução Ecumênica Brasileira). 
Este texto consta nas Bíblias de tradução católicas, que trazem sete livros à mais. Sem entrar na discussão a respeito da inspiração, gostaria apenas de acrescentar que tais textos revelam o pensamento de uma época, e a progressão na compreensão de determinadas temáticas. O pensamento de Jesus Ben Sirac, coaduna com o de Salomão, que afirma: É a insensatez do homem que arruína a sua vida, mas o seu coração se ira contra o Senhor (Pv 19. 3 NVI). 

O desejo de pecar, por parte do homem, não procede de Deus. A diferença entre Jesus Ben Sirac e Tiago, consiste o fato de que para o sábio judeu do primeiro século antes de Cristo, o homem pode escolher entre pecar e não pecar, a despeito de século antes Qohelet ter dito que não existe um homem tão justo sobre a terra que faça o bem sem jamais pecar (Ec 7. 20 Bíblia de Jerusalém). 

Tiago aponta para o fato de que cada qual é tentado pela própria concupiscência quando esta o arrasta e seduz (Tg 1. 14 TEB). Os termos εξελκομενος και δελεαζομενος (ezelchomenos kai deleazomenos), são oriundos do mundo da caça e da pesca, indicando que nossa concupiscência é tão cruel quanto um caçador, ou um pescador. Assim, εξελκω denota uma caça sendo arrastada, ao passo que δελεαζω, indica um peixe que á atraído por uma isca. 

Este conceito é melhor abordado por Paulo, por meio das seguintes palavras: 
Que diremos então? A lei é pecado? De maneira nenhuma! De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a lei não dissesse: "Não cobiçarás". Mas o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso. Pois, sem a lei, o pecado está morto. Antes, eu vivia sem a lei, mas quando o mandamento veio, o pecado reviveu, e eu morri. Descobri que o próprio mandamento, destinado a produzir vida, na verdade produziu morte. Pois o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, enganou-me e por meio do mandamento me matou (Rm 7. 7 - 11 NVI). 
De acordo com este texto, o pecado se vale até mesmo de nossas virtudes e mesmo da lei, para se impor aos membros do corpo humano. A cobiça é algo que está sempre presente no ser humano. Perceba que em momento algum Paulo culpa a lei, ele sabe que o problema está não nesta, mas em uma lei que guerreia em seus membros (Rm 7. 14 - 17).  

Mesmos os mais insignificantes dos conflitos tem a sua razão de ser nos desejos que guerreiam no íntimo do ser humano, de forma que ele cobiça infinitamente, e quanto mais conquistam, menos pode se realizar plenamente (Tg 4. 1 - 3). Esta é a essência da natureza pecaminosa no homem. Mas mesmo este tipo de tentação tem a sua razão de ser. 

O PROPÓSITO DA TENTAÇÃO

Na leitura da trajetória do povo de Deus no deserto, é possível observar que por sucessivas vezes, Deus tentou o povo no deserto. Sim, ali lhes deu estatutos e uma ordenança, e ali os provou (Ex 15. 25 ACF). Na ocasião em que mandou o maná, disse o Senhor a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não (Ex 16. 4 ACF). Até no Sinai, o povo foi tentado, mas com que finalidade?

No caso do Sinai, veja a explicação dada por Moisés: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis  (Ex 20. 20 ACF). Mas e no caso da provação no deserto? É visível, que Deus prova o povo visando a humilhação do mesmo, bem como a revelação do que há nos corações dos mesmos, mas também prova visando um valioso ensino, que é o seguinte:
E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não.
E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor viverá o homem (Dt 8. 2, 3 NVI). 
é na provação que o homem aprende o que é de fato é dependência de Deus. Mas nãop para aí, quando acompanhadas pela esperança, as tentações servem para a prova da fé em Cristo (I Pe 1. 6, 7), bem como para o processo de desenvolvimento da paciência. Jesus disse aos seus discípulos: é perseverando que vocês obterão a vida (Lc 21. 19 NVI). O termo perseverança equivale à paciência  (υπομονη [hypomonee]). 

Mas e quanto as tentações oriundas dos desejos pecaminosos? Elas servem para ensinar aos crentes que  despeito da fraqueza dos mesmos, estes são alvo do amor de Deus, e que por este motivo estão livres para amar outros crentes frágeis, e mais estão prontos para interceder pelos mesmos. é o que se pode aprender com o autor de Hebreus
Porque todo o sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados; E possa compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados; pois também ele mesmo está rodeado de fraqueza. E por esta causa deve ele, tanto pelo povo, como também por si mesmo, fazer oferta pelos pecados (Hb 5. 1 - 3 ACF). 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.  

terça-feira, 20 de maio de 2014

Nova Lição da CPAD



Segundo informações colhidas na rede a CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus) apresentou a capa e o conteúdo de sua mais nova lição de Escolas Bíblicas Dominicais, que trarão como conteúdo a carta de Tiago. A ação arca o retorno a tendência das lições bíblicas dos quatro últimos trimestres de privilegiar a temática bíblica. O estudo é de suma importância dada atualidade da carta em apreço, mas principalmente na formação de cristãos cujo caráter reflita o de Cristo. É com extrema ansiedade que aguardo por tais estudos.
 
Lição 1: Tiago — Fé que se Mostra pelas Obras
Lição 2: O Propósito da Tentação
Lição 3: A Importância da Sabedoria Humilde
Lição 4: Gerados pela Palavra da Verdade
Lição 5: O Cuidado ao Falar e a Religião Pura
Lição 6: A Verdadeira Fé não Faz Acepção de Pessoas
Lição 7: A Fé se Manifesta em Obras
Lição 8: O Cuidado com a Língua
Lição 9: A Verdadeira Sabedoria se Manifesta na Prática
Lição 10: O Perigo da Busca pela Autorrealização Humana
Lição 11: O Julgamento e a Soberania Pertencem a Deus
Lição 12: Os Pecados de Omissão e de Opressão
Lição 13: A Atualidade dos Últimos Conselhos de Tiago
 
Em Cristo, Marcelo Medeiros
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