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sábado, 9 de maio de 2015

Mulheres que ajudaram Jesus



Dando sequencia a série de estudos das lições bíblicas da Escola Dominical, publicadas pela CPAD, o presente post estará focando a atuação feminina no ministério de Jesus. Já foi dito neste espaço que uma peculiaridade do Evangelho de Lucas é o destaque que este evangelista dá às mulheres. Este é o escrito em que
A mulher assume papel significante. A pecadora que ungiu Jesus e lavou os pés recebe a honra de ter o seu ato lembrado onde o Evangelho for pregado (Lc 7. 37 - 50). Algumas mulheres que auxiliavam o ministério de Jesus são apresentadas aqui: e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens (Lc 8. 2, 3 NVI [ver aqui]). 
Teólogos e teólogas adeptos da teologia feminista podem argumentar que tais textos são patriarcalistas, e emitem uma imagem negativa da mulher, mas há que se atentar, por exemplo, no caso da pecadora que a despeito do anonimato da mesma, Jesus deixa claro que onde o Evangelho fosse pregado o ato da mesma seria lembrado. Este estudo será guiado por alguns pressupostos que serão claramente delineados nas linhas abaixo.

O PRESSUPOSTO CANÔNICO

Alegar que a Bíblia foi escrita em um ambiente patriarcal traz um sério ônus. Demanda que se ignore que no cânon sagrado dois livros levam nomes de mulheres Rute e Ester, e que no segundo cânon, aparece uma personagem chamada Judite, que dá nome ao seu livro. A primeira história trata de uma moabita que com a ajuda de sua sogra consegue um parente remidor para sua herança. Dela vem ninguém mais, ninguém menos do que Davi, o grande rei de Israel.

O segundo livro traz a narrativa do judaísmo em contexto persa, e de uma trama engendrada por Hamã a fim de exterminar o povo judeu. Para Mardoqueu, tio da protagonista que dá nome ao livro, Ester foi colocada no palácio com vistas à preservação do povo judeu. E não há outra explicação para o estranho incidente com a rainha Vasti, que foi deposta por recusar-se a ser exposta à vista dos demais homens como uma prostituta.

(Aqui é conveniente que se explique que naqueles tempos, uma mulher expor a sua beleza equivalia a um desfile nu, situação esta aviltante para uma rainha, uma mulher oficial. Na verdade este procedimento era adotado com prostitutas e concubinas. A teologia feminista louva Vasti, ao invés de Ester, mas foi por meio desta, ao invés daquela que o povo de Deus foi preservado da trama de Hamã).

O caso de Débora tem de ser examinado com cuidado. Primeiro, ela é a mulher proeminente em Israel, na época dos juízes. Quando esta, por meio de um oráculo afirma que Baraque tem de ir à guerra e este recusa ir sem a presença da juíza, ela afirma que a honra de matar Sísera (general do exército inimigo), seria dada a uma mulher. Na narrativa as palavras da profetisa se concretizam, e Jael mata Sísera (Jz 4-5). Este autor não vê como tal narrativa pode se encaixar em um contexto cultural patriarcal.

Ainda dentro do livro de Juízes é possível a leitura de uma conspiração de Abimeleque contra os demais filhos de Gideão.
O desfecho da história em apreço foi o mais simples possível, ele morreu ferido por uma pedra lançada por uma mulher do alto de uma torre, ainda agonizante suplicou ao seu escudeiro que terminasse o trabalho, para que a honra de sua morte não fosse dada a uma mulher. Assim Deus retribuiu a maldade que Abimeleque praticara contra o seu pai, matando os seus setenta irmãos. Deus fez também os homens de Siquém pagarem por toda a sua maldade. A maldição de Jotão, filho de Jerubaal, caiu sobre eles (Jz 9. 56, 57 NVI [ver aqui]).  
Convém que se ressalte que segundo a narrativa, Abimeleque pediu ao seu escudeiro para que este o matasse, a fim de que não se soubesse que ele havia morrido pelas mãos de uma mulher, conforme de lê nas linhas abaixo
Porém uma mulher lançou um pedaço de uma mó sobre a cabeça de Abimeleque; e quebrou-lhe o crânio. Então chamou logo ao moço, que levava as suas armas, e disse-lhe: Desembainha a tua espada, e mata-me; para que não se diga de mim: Uma mulher o matou. E o moço o atravessou e ele morreu (Jz 9. 53, 54 ACF).
Mas há de se ressaltar que: em um ambiente supostamente patriarcalista, não há como entender que um copista tenha escrito de tal forma. O ideal seria que se levantasse um homem valente em Siquém que depusesse Abimeleque, o que não ocorreu.

Judite traz uma história cheia de anacronismos históricos e geográficos. Duas hipóteses podem ser levantadas, sendo a última improvável. A primeira é que o livro é uma novela, uma fábula. A segunda que o autor propositalmente usou este anacronismos a fim de ocultar a mensagem que ele queria transmitir ao povo daquele período.

No livro de Lucas é dito que Maria recebeu a visita do anjo a fim de lhe informar os planos de Deus para ela como mãe do Messias. Sem querer entrar na discussão a respeito do nascimento virginal de Cristo, e da obra do Espírito Santo; este autor gostaria de indagar aos proponentes da teoria patriarcal se algum deles consegue explicar porque o anjo não pediu autorização para José, e sequer comunicou a este em primeiro lugar?

Mateus, evangelho escrito para os judeus, deixa claro que José tomou ciência da natureza da gravidez de Maria bem depois, tanto que intentava deixá-la secretamente, a fim de não a infamar (Mt 1. 18). Este dado é importante. Se uma mulher fosse tratada com tamanho desdém, se esta fosse a regra, não haveria motivo para José arriscar a sua reputação para preservar a de Maria.

Mas curioso ainda é o fato de que cinco mulheres são citadas na genealogia de Jesus. Tamar, nora de Judá é a primeira. Esta usa de artimanha para com o mesmo visto que seu sogro não havia cumprido a palavra em dar seu filho mais novo como marido da mesma a assim suscitar descendência. A simples menção desta é um testemunho da mazela deste patriarca. 

Raabe é a meretriz que acolheu os espias em sua casa. Ela é a segunda mulher estrangeira que entra na genealogia de Cristo em um evangelho direcionado aos judeus, supostamente patriarcais. Do ponto de vista publicitário isto não seria nada bom, caso as pressuposições da teologia feminista esteja acertada. 

Rute é a terceira. Ela é moabita, e a lei preconizava: nenhum amonita nem moabita entrará na congregação do Senhor; nem ainda a sua décima geração entrará na congregação do Senhor eternamente (Dt 23. 3 ACF). as tanto Rute é aceita, seu tataraneto vem a ser Rei em Israel. A quarta mulher é Bete-Seba, uma adúltera. Estão presentes mulheres gentias e de má fama na genealogia de Jesus. 

A exceção é Maria, mas cujo incidente da inexplicável e inacreditável gravidez deve de ter provocado comentários. José não queria representar acusação formal contra a mesma, mas intentava deixá-la secretamente, até que em visão Deus se comunica com ele e as más impressões são desfeitas e ele a recebe como sua mulher. 

Além do mais, há de se observar a contínua ocorrência de nomes de mulheres nos capítulos iniciais do Evangelho de Lucas, bem como a canonização de cânticos atribuídos às mesmas. Maria, Isabel (mulher de Deus), Ana (graciosa), são algumas das protagonistas iniciais deste tão maravilhoso Evangelho.

O PRESSUPOSTO HERMENÊUTICO

É possível que diante das colocações supra alguém ainda objete que neste contexto as mulheres desempenharam uma função secundária, em outras palavras não foram protagonistas, mas coadjuvantes. Mas o que não se deve ignorar é que na Bíblia nem os homens são vistos como personagens principais. O personagem principal na Bíblia é o próprio Deus, conforme se lê nas linhas subsequentes
Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus! Tu ordenaste força da boca das crianças e dos que mamam, por causa dos teus inimigos, para fazer calar ao inimigo e ao vingador. Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: Todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, As aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares. Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra! (Sl 8. 1 - 9 ACF). 
do presente texto algumas verdades serão destacadas

  1. O Salmo começa e termina com um louvor ao nome do Senhor. Não é o nome de Abraão, de Isaque, de Jacó, Moisés, Elias, Davi, mas do Senhor, que é exaltado em toda a terra. 
  2. As crianças eram vistas com desprezo no período bíblico, logo quando o salmista diz: Tu ordenaste força da boca das crianças e dos que mamam, por causa dos teus inimigos, para fazer calar ao inimigo e ao vingador, ele está dizendo que Deus usa os desprezados para a consecução de seus planos. 
  3. Maria entendeu esta verdade, tanto que em seu cântico ela diz: atentou na baixeza de sua serva; Pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada, Porque me fez grandes coisas o Poderoso; E santo é seu nome (Lc 1. 46, 47 ACF). 
  4. Ser humano algum, seja homem seja mulher, é coisa alguma diante do cosmos criado por Deus. Porém, Deus submeteu ao ser humano o domínio da natureza. 
  5. O início e o fim da presente obra poética indica que a finalidade divina é fazer o seu nome ser glorificado em toda a terra. 

Aqui é possível vislumbrar que o centro da história sagrada é o próprio Deus. Assim, cabem aqui as considerações feitas por Douglas Stuart a respeito do teor das narrativas, para quem Deus é o herói de todas as narrativas bíblicas. Não se trata então de hierarquização entre Abraão e Sara, mas de compreender que tanto o patriarca com sua carne mortificada, quanto a esposa depois de passado o período fértil, são alvos da misericórdia divina, que lhes dá um filho temporão e lhes suscita descendência. 

Há de se reparar que no texto bíblico a palavra heróis não aparece, os homens e mulheres de fé, são pessoas que da fraqueza suscitaram a força. É isto que se lê claramente no texto sagrado (Hb 11. 34). Se há louvor aos homens há de se reparar que estes são antigos que alcançaram testemunho (Hb 11. 2), e entre eles aparecem Sara, Raabe, e mulheres que receberam pela ressurreição os seus mortos

Tanto as mulheres quanto os homens são colocados neste texto como testemunhas que rodeiam os santos, constituindo assim motivação para que os mesmos prossigam na carreira que lhes foi proposta. Tal como ocorreu com as testemunhas citadas pelo autor (Hb 11), a garantia dos santos é o próprio Cristo autor e consumador da fé dos mesmos. 

MULHERES QUE AJUDARAM A JESUS

O consenso dentro da Teologia ortodoxa é o de que 
O evangelho de Cristo trouxe uma revolução na posição social das mulheres, e o ponto inicial foi o favor de Deus para com a virgem Maria (Lc 1. 28, 30,42, 48). O Senhor Jesus ensinou às mulheres (Jo 4. 10 - 26; 11. 20 - 27) e recebeu seus atos de bondade e apoio financeiro (Lc 8. 3; 10. 38 - 42; 23. 56). Elas devem ser consideradas como espiritualmente iguais em Cristo (Gl 3. 28). 
Após a ressurreição de Cristo, as mulheres se uniram com outros discípulos em oração e plena comunhão (At 1. 14). Portanto elas evidentemente ajudaram a eleger Matias (At 1. 15 - 26). Elas receberam o poder e os dons do Espírito Santo junto com os homens no dia de Pentecostes (At 2. 1 - 11, 17, 18). Na vida das igrejas primitivas as mulheres estavam sempre entre os primeiros crentes (At 5. 14; 12. 12; 16. 14, 15; 17. 4, 34)). Algumas como Lídia, Priscila, e Febe eram extraordinárias como colaboradoras de Paulo e como mulheres em cujas casas as Igrejas se reuniam (Rm 16. 1 - 5). Embora fosse permitido que as mulheres cristãs orassem e profetizassem na Igreja (dicionário Wycliffe, artigo mulher). 
Para os que diante das colocações acima ainda ousem apelar ao texto paulino em que o silêncio é recomendado às mulheres, convém ressaltar que a liderança da liturgia pública era  vedada às mesmas. Quando ao mais eram iguais. O que é reforçado pelos seguintes fatos:

  1. Jesus é chamado de semente da mulher (Gn 3. 15; Ap 12. 17). 
  2. Nascido de mulher (Gl 4. 4, 5). 
  3. Aceitou o sustento e a ajuda ministerial feminina em seu ministério (Lc 8. 2, 3)
  4. Aceitou a adoração de uma pecadora, e concomitantemente repreendeu um anfitrião desatento às formalidades da hospitalidade da época (Lc 7. 36 - 50). 
  5. Aceitou as misericórdias das mesmas junto à cruz
  6. Ignorou as formalidades da época quando se valeu do testemunho das mulheres para que estas divulgassem a notícia da ressurreição (Lc 24. 1 -8). 
  7. Foi o testemunho destas que provocou a necessidade de averiguação dos  fatos na igreja primitiva (Lc 24. 9 - 11, 22 - 24). 
Em Cristo. Marcelo Medeiros


sábado, 25 de abril de 2015

A Tentação de Jesus



O presente post tem como objetivo uma breve incursão no relato de tentação conforme registrado no Evangelho de Lucas. Alguns problemas a serem colocados são: Qual é a essência da tentação sofrida pelo Salvador? Sendo Jesus plenamente Deus, por que se permitiu ser tentado por Satanás? Qual o propósito de Cristo ter sido tentado? São questões a serem refletidas e respondidas neste estudo.

O CONTEXTO DA TENTAÇÃO

Tanto no relato de Lucas quanto no de Mateus a tentação é trabalhada como algo que ocorre após o batismo de Jesus. Daí que na percepção do autor do deste post não seja viável uma compreensão da tentação sem uma compreensão dos fatos ocorridos no batismo de Jesus, sendo que para o propósito do presente estudo será considerado o relato de Lucas.
Ora, tendo todo o povo recebido o batismo, e no momento em que Jesus também batizado, achava-se em oração, o céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal, como pomba. E do céu veio uma voz: Tú és o meu filho eu, hoje te gerei (Lc 3. 21, 22 Bíblia de Jerusalém). 
Mas se o batismo de João era de arrependimento por que Jesus, que não tinha pecado (Jo 8. 46; Hb 4. 15), que fora gerado pelo Espírito Santo se batizou (Mt 1. 18 - 21; Lc 1. 35)? Instado por João, Jesus disse que convinha o cumprimento de toda a justiça (Mt 3. 15). Mas que Justiça é esta? Diante deste questionamento, é natural que os teólogos respondam que a justiça é o processo mediante o qual Cristo antecipa em seu batismo o seu papel como substituto do homem (II Co 5. 21).

Mas um detalhe destacado por Piper em sua Cristologia bíblica, ou evangélica, é a pobreza de Cristo. Esta se manifestou na ausência de bens, mas também na ausência de um nome. O milagre da concepção de Cristo é algo aparentemente fácil de ser entendido e aceito hoje, mas na época causou tamanho constrangimento que José quis deixar Maria em segredo [aqui]. Foi a intervenção do anjo que impediu tal empreitada.

Contudo, a revelação do anjo para José foi de teor pessoal, ao invés de público. Os comentários advindos do estranho fato de um filho gerado antes do tempo somente naquele dia serão revelados. Para todos os efeitos, no entendimento de Piper, é a de que fama de Jesus entre os judeus não era boa. Em um dos embates entre ele e Cristo, este os confrontou com as seguintes palavras: vós, porém procurais matar-me, a mim, que vos falei a verdade que ouvi de Deus. Isso Abraão não fez. Vós fazeis a obra de vosso pai (Jo 8. 40, 41a Bíblia de Jerusalém). Diante da acusação os judeus lhe responderam: não nascemos de prostituição, temos só um pai, que é Deus (Jo 8. 41b Bíblia de Jerusalém). No entendimento de Piper, os judeus estão lançando em rosto a origem duvidosa de Cristo.

Mas independente do que se comentava a respeito de Cristo, Deus deu sucessivos testemunhos a respeito do seu Filho, conforme explicitado pelos autores evangélicos e pelo autor da carta aos Hebreus. O anjo falou com Maria, os anjos falaram com os pastores no campo, o Espírito falou com
Simeão, e com Ana, e agora, no momento do batismo vem uma voz do céu a fim de corroborar tudo o que já havia sido falado. Mas o que os fatos do Batismo têm a ver com a tentação em si? É esta pergunta que será respondida no próximo tópico deste breve estudo.

A TENTAÇÃO

A tentação possui:

  1. Um cenário (o deserto)
  2. Um agente da tentação (O Diabo, cujo nome significa caluniador, difamador), 
  3. um paciente (alguém que sofre a tentação, neste caso Jesus). 
  4. Os elementos
Cabe dizer que Cristo é plenamente Deus (Cl 2. 9) e plenamente humano (I Tm 2. 5). Como homem ele foi tentado tanto por Satanás quanto por outros homens (Mt 4. 1; 16. 1; Lc 4. 1), de forma que o autor sacro aos  hebreus acertadamente afirma que ele foi tentado em tudo, mas sem pecado (Hb 4. 15). 

Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou do Jordão; era conduzido pelo Espírito através do deserto (Lc 4. 1). 

O texto diz que a tentação ocorreu imediatamente após o batismo de Jesus, após a experiência de ter ouvido a voz dos céus, de ter experimentado o Espírito Santo descer sobre ele em forma de pomba. Tentações ocorrem após grandes momentos de espiritualidade profunda. Foi isto que aconteceu com Jesus aqui, ao voltar do Jordão. 

Existem experiências espirituais que deixam uma sensação de vacuidade. Entretanto a experiência de Jesus no Jordão fez com que ele voltasse cheio, pleno do Espírito Santo, o mesmo que impulsiona sua vida ministerial. Em Atos Lucas faz questão de recorrer ao discurso de Pedro na casa de Cornélio, quando este afirmou: Sabeis o que aconteceu por toda a Judéia: Jesus de Nazaré, começando pela Galiléia, depois do batismo proclamado por João, como Deus o ungiu com o Espirito Santo e com poder, e ele passou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo (At 10. 37, 38 Bíblia de Jerusalém). 

Jesus foi conduzido pelo Espírito no deserto, ao longo da caminhada que fez do Jordão e no ermo. O Espírito esteve sobre Maria para que ele fosse concebido, esteve sobre Simeão para que este o reconhecesse, esteve sobre João Batista, a fim de que este preparasse o caminho para o Messias, e agora está sobre Cristo. 

Nada comeu nestes dias e passado o tempo, teve fome. Disse-lhe então o Diabo: se és o Filho de Deus manda que esta pedra se transforme em pão (Lc 4. 2, 3 Bíblia de Jerusalém). 

A necessidade associada à fraqueza oriunda da fome, foi a oportunidade vital que o adversário empregou para tentar a Cristo. Foram situações similares a esta que levaram o povo de Israel a sucumbir no deserto. Mesmo diante das inúmeras demonstrações de poder e dos sinais e maravilhas no Egito, eles murmuraram diante do mar, em Elim e por toda a caminhada. A falta de memória mina a resistência humana diante da tentação. 

Com a primeira proposta e com a última (segundo o relato de Lucas), o diabo quer colocar em xeque a filiação de Cristo. Se és o Filho de Deus, é mais do que uma dúvida capciosa, é um desafio à deidade de Cristo que se repetiu quando os fariseus afirmaram que Jesus expulsava demônio por Belzebú (Mt 12. 22ss), e não satisfeitos com a resposta que Cristo lhes deu, lhe pediram um sinal (Mt 12. 38), quando na controvérsia com os judeus estes lhe perguntaram se ele era maior do que Abraão (Jo 8. 53), quando na cruz os seus algozes o desafiaram a descer (Mc 15. 31, 32). 

Somente a experiência do Jordão, e a do monte da transfiguração habilitaram Jesus a manter sua identidade e resistir a primeira insídia do diabo. Não é nada incomum acreditar que o Espírito testificou para Cristo publicamente e intimamente a sua filiação com relação ao Pai. De sorte que ele não se viu forçado a fazer sinais, com vistas a comprovar sua filiação divina, nem para o diabo, e nem para os seus adversários políticos. 

Replicou-lhe Jesus: Está escrito: não só de pão vive o homem (Lc 4. 4 Bíblia de Jerusalém). 

O homem precisa de pão para se alimentar, é claro, mas ele não depende exclusivamente do pão. a vida é dada e sustentada por Deus. E Jesus disse: pois a vida é mais do que o alimento e o corpo mais que a roupa (Lc 12. 23 Bíblia de Jerusalém), dizendo com isto que viver é muito mais do que comer e vestir-se. 

A citação do Deuteronômio revela que, ao contrário da disposição de povo de Israel, Jesus se abandonará radicalmente à providência divina, confiando exclusivamente no Pai. Viver para Jesus é partilhar da vida que ele tinha junto ao pai desde antes da fundação do mundo. 

O diabo levando-o para mais alto, mostrou-lhe num instante todos os reinos da terra e disse-lhe: Eu te darei todo este poder com a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem quiser. Por isto, se te prostrares diante de mim, toda ela será tua (Lc 4. 5 - 7 Bíblia de Jerusalém). 

Se na tentação anterior o Diabo apelou para a concupiscência da carne, nesta ele apela para a concupiscência dos olhos. Ele busca usar a glória dos reinos do mundo com o intuito de seduzir a Jesus. De fato os reinos deste mundo constituem uma sedução aos homens. Mas é preciso escolher entre a glória de Deus e a dos homens, pois a amizade ao mundo é inimizade contra Deus (Tg 4. 1 - 4). 

Em sucessivos textos Satanás é descrito como sendo o príncipe deste mundo (Jo 12. 31; 14. 30; 16. 11), Paulo faz menção deste como sendo o deus deste século (II Co 4. 4) e João afirma que o mundo está sob o poder deste (I Jo 5. 19). Embora a terra seja propriedade do Senhor (Ex 19. 5, 6; Sl 24. 1), por direito de criação, os sistemas políticos deste mundo estão sob domínio de Satanás, tanto que o mundo rejeitou a Cristo. 

O preço que o diabo pede de Cristo para que ele alcance o Reino sem a cruz é tão somente que este se prostre aos seus pés e o o adore. Cristo responde que somente a Deus cabe a adoração. Está escrito: adorarás ao Senhor teu Deus, e só a ele prestarás culto (Lc 4. 8 Bíblia de Jerusalém). Novamente Jesus responde com as palavras do Deuteronômio. 

Conduziu-o depois a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o filho de Deus atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem aos teus anjos a teu respeito para que te guardem. E ainda: eles te tomarão pelas mãos para que não tropeces em nenhuma pedra. Mas Jesus lhe respondeu: foi dito: não tentarás ao Senhor teu Deus. Tendo acabado toda a tentação o diabo o deixou até o tempo oportuno (Lc 4. 9 - 13 Bíblia de Jerusalém). 

De diferente nesta tentação é o local. Ela se dá em Jerusalém no pináculo do templo, que segundo Vincent é o pico, ou a região pontiaguda de uma torre, que distava de uma altura de aproximadamente cento e quarenta metros do vale de Cedrom. Aqui a filiação é associada com o fazer com que Deus atenda o homem nos mínimos caprichos. 

Outro fator é o uso das Escrituras fora de contexto, e pior, Jesus de fato, poderia ter feito com que anjos o socorressem caso ele se lançasse, e mais, devida a ênfase que este lado da construção, é possível que além de popular ela fosse muito frequentada. Novamente Cristo responde com as palavras do Deuteronômio não tentarás ao Senhor teu Deus. Tentar aqui é desafia-lo de forma a tentar fazer com que ele faça aquilo que o ser humano quer que ele faça. 

CONCLUSÃO

A tentação de Jesus é a tentação de cada crente, de cada servo de Deus. As necessidades mais básicas constituem fonte de tentação. Mas a sede de poder e glória também o é, e a sensação de controle sobre o sagrado é a pior tentação. Cair nesta produz o maior tipo de pecado. Mas a vitória de Cristo deixa uma lição que é corroborada em sua vida. Ele venceu o diabo na cruz, e podemos vencer também. 

Marcelo Medeiros. 


sexta-feira, 10 de abril de 2015

O Nascimento de Jesus



Da acordo com Paul Jhonson o período em que Jesus nasceu era extremamente turbulento. O território conhecido como Palestina era um misto de prosperidade material e turbulência política. Herodes, o Grande vivia atormentado pela possibilidade de vir a ser removido de sua posição política privilegiada. As constantes revoluções somadas aos boatos de nascimento de um herdeiro de Davi eram motivos de sobra para a paranoia.

Neste contexto histórico Cesar Augusto promoveu um censo, que foi muito contestado pelos historiadores até meados do século passado. Foi quando se descobriram no Egito alguns recibos censitários datados do segundo século da atual era. Somados às menções de Josefo ao senso promovido por Quirino em VI d. C, permitem o estabelecimento da hipótese da correção de Lucas quanto à narração de tal evento.

Este estudo tem como objetivo elucidar os fatos pertinentes ao nascimento de Cristo. A anunciação, o censo, os pastores no campo, a aparição dos anjos, o cântico dos mesmos, a apresentação de Jesus no templo, sua circuncisão, etc... Feitos os esclarecimentos supra, convém que se prossiga com o presente estudo.

O CONTEXTO HISTÓRICO
E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse (Este primeiro alistamento foi feito sendo Quirino presidente da Síria). E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade (Lc 2. 1 - 3 ACF)
O texto de Lucas traz a informação de um senso que foi realizado por ordem de César Augusto no período em que Quirino [κυρηνιου], sendo este o seu nome na forma grega, ou Cirênio na forma latina. Na época es presidente da Síria. Uma questão crucial a ser considerada é a de que fossem as informações do aludido evangelista carentes de veracidade, as mesmas teriam de serem desmentidas por documentos da época. Mas o que se observa é um ceticismo lançado contra a informação prestada. O fundamento da suspeita, infelizmente, não é a falta de veracidade, mas de documentação correlata comprovando que tal senso de fato tenha ocorrido.

Esta ideia predominou de meados do séc. XIX, para meados do XX. Descobertas de recibos e decretos entre os papiros do Egito trouxeram nova luz aos estudos. Por meio destas foi possível constatar que a cada ciclo de catorze anos eram realizados sensos. A estas foram somadas outras inscrições indicando que Augusto foi o primeiro a ordenar o censo imperial. 


Bruce Stark, em seu artigo censo informa-nos de que no período em apreço ocorreu uma revolta liderada por Judas Galileu, possivelmente contrariados com a política imperial. A despeito das descobertas mencionadas no presente texto, a exatidão doo momento histórico em que tal censo se deu é motivo de controvérsia, visto que a julgar pelas informações dadas por Josefo, a ocorrência do recenseamento teria se dado após o nascimento de Cristo.


Uma tese que tem ganho bastante força no sentido de conciliar as declarações de Lucas com as de Josefo é a defendida por Irvine Robertson, sob a ótica deste erudito o senso narrado por Lucas na verdade é um passo inicial para o verdadeiro grande censo histórico. Afinal uma crise política decorrente do crescente descrédito de Herodes tinha de ser resolvida. Uma iniciativa tomada por inicialmente por Augusto foi a de tratar a região palestina como uma província qualquer do Império (o que explica a revolta liderada por judas Galileu). Na resolução da crise o senso foi suspenso temporariamente.
E disse-lhes: Homens israelitas, acautelai-vos a respeito do que haveis de fazer a estes homens, Porque antes destes dias levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; a este se ajuntou o número de uns quatrocentos homens; o qual foi morto, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos e reduzidos a nada. Depois deste levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; mas também este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos (At 5. 35 - 37 ACF).
Por algum tempo a menção de Teudas ao lado da de Judas,ou melhor colocando aquele como anterior a este, tem gerado problemas. O principal é o fato de que o Teudas reconhecido historicamente é o mencionado por Josefo. Este teve seu movimento foi sufocado por Fado. A solução para este problema data dos primórdios da atual era, quando se propôs a existência de mais de um homem com este nome. A hipótese ganha plausibilidade na medida em que se percebe que dentre as revoluções ocorridas na época três foram lideradas por homens com o nome de Judas.

Estes detalhes históricos serão de extrema importância na medida em que as lições sobre o Evangelho de Lucas forem se desenvolvendo. No tocante aos milagres de Jesus, por exemplo, Paul Johnson destaca o perigo que alguém vindicar para si que era capaz de operar milagres. A história mostra que uma explicação plausível para tal era que os revolucionários, dentre os quais Teudas reivindicavam este poder.

A respeito de Judas Galileu, ele é um revolucionário que provocou um levante contra Roma, por causa da questão dos tributos. Nesta época Roma vindicava para si o direito de tributar livremente a Judeia e adjacências. Sua revolta foi sufocada, mas há uma concordância de que das ações deste tenha surgido o movimento conhecido como Zelote. No ministério de Cristo há um homem chamado Simão, que era zelote (Lc 6. 15).

UMA TEOLOGIA SOCIAL IMPLÍCITA

No estudo passado foi afirmado o interesse de Lucas pelo social, particularmente pelos pobres [aqui]. Paul Johnson afirma que naquela época a vida era extremamente barata. Os pobres desprezados. Mas isto, claro, não se aplicava a qualquer tipo de pobre, mas a um especificamente. Segundo o autor em apreço, os pobres judeus eram amparados. O que é confirmado pela prática da esmola, comum no judaísmo desde o período inter bíblico. O problema eram os pobres estrangeiros que estavam na região da Galiléia.

O nascimento de Jesus em uma estrebaria revela a plena identificação do Deus Eterno e Poderoso com os pobres e destituídos de bens. A razão de ser desta afirmação é plenamente justificável à luz do fato inconteste de que o Rei eterno nasceu em uma estrebaria.
E subiu também José da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém (porque era da casa e família de Davi), A fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem (Lc 2. 4 - 7 ACF). 
Todavia o processo não para aí. A história envolvendo o nascimento de Jesus começou com a visita de um mensageiro celestial, por nome de Gabriel, com fins de anunciar que uma menina comprometida com um homem da casa de Davi, havia sido escolhida por Deus para ser a mãe do futuro Messias.

Aos olhos do leitor da história esta é uma linda narrativa, mas cabe a pergunta: como o homem moderno (o que inclui este escritor e o leitor), reagiriam diante da história de uma menina, noiva de um rapaz serio, que aparecesse grávida e dizendo que a gravidez era fruto de uma obra do Espírito Santo? Pense que de acordo com o relato de Mateus o próprio José se viu profundamente dividido, Por este motivo ele planejou deixar a jovem secretamente, sem apresentar uma acusação formal de adultério.

Diante de tais elementos, é viável considerar que o casal tenha aproveitado a ocasião do senso para que a criança nascesse fora do ambiente e longe dos rumores. Werner Keller especula a possibilidade de que se tenha espalhado um boato de que Jesus era filho de Maria com um soldado estrangeiro. Jonh Piper fala sobre este assunto ao abordar a questão da pobreza de Cristo, que sequer um nome e boa fama teve.

É neste ponto que se faz necessário considerar os testemunhos que Deus deu a respeito do seu próprio Filho. Este nasceu destituído do bom nome diante dos homens, mas conforme diz o autor aos Hebreus, que ele (Cristo) recebeu um nome mais excelente que os anjos. Não se trata do nome que foi revelado para que José colocasse na criança, mas do título de Filho, visto que o autor prossegue dizendo: a qual dos anjos Deus disse jamais: "tu és meu filho, hoje te gerei", e: "eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho"(Hb 1. 4, 5).

E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus (Lc 1. 35 ACF). Perceba que o testemunho do anjo é que Jesus é αγιον κληθησεται υιος θεου (hagion klehesetai hios Theou), ou seja, chamado santo e Filho de Deus.

Lucas alista então o testemunho dos anjos aos pastores, o testemunho de Simeão e Ana, a teofania do Espirito Santo no momento do batismo, o testemunho do próprio João Batista, mesmo dos demônios (Lc 4. 34, 35). Os dois primeiros serão abordados neste estudo, os demais serão deixados para sequência de estudos da presente lição de Escola bíblica.

O TESTEMUNHO DOS ANJOS
E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura. E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens (Lc 2. 9 - 14 ACF). 
Algumas observações a serem feitas sobre este texto:

  1. A mensagem da concepção de Jesus foi trazida por um anjo, a notícia de que a gravidez de Maria era obra do Espirito de Deus, idem. De modo análogo os anjos anunciam o nascimento de Cristo aos pastores no campo. 
  2. A manifestação dos anjos trouxe a manifestação da glória do Senhor. Tal como nas ocorrências do Antigo Testamento, esta glória produz terror, medo nos que presencia a manifestação. 
  3. A expressão não temais prenuncia o caráter da mensagem que os anjos estão para trazer, uma mensagem que é classificada como: ευαγγελιζομαι υμιν χαραν μεγαλην (euanggelizomai hymin charan megaleen), uma notícia que produz grande alegria. 
  4. A alegria está ligada ao nascimento de uma criança especial. Jesus, é esta criança. Ele não nasceu nos palácios, ou em um lar nobre, mas em uma estrebaria e os pastores que ali estão são os convidados a estarem na comitiva de recepção da figura mais importante da história da humanidade. 
  5. Este menino é o σωτηρ (sooteer), salvador. Em seu cântico Maria já havia declarado: A minha alma engrandece ao Senhor, E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador (Lc 1. 46b, 47 ACF). Cristo é o salvador não apenas do povo de Israel, mas de todas as nações (Lc 2. 32; 3. 6). 
  6. Ele é χριστος (Christos), forma grega do hebraico מָּשִׁ֖יחַ. O Sentido deste termo é o Ungido. o título em apreço é reservado ao descendente de Davi, conforme lido no saltério (Sl 2. 1, 2). Neste sentido Jesus é o legítimo herdeiro do trono de Davi, conforme dito pelo anjo. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim  (Lc 1. 31 - 33). 
  7. Ele é Senhor (κυριος - Kyrois), indica poder e autoridade supremos. No caso de Cristo o nome indica sua divindade, uma vez que este é o termo empregado pelos tradutores da LXX para designar o próprio Deus. 
  8. O louvor dos anjos é indicador de que o nascimento da criança é fator preponderante para o estabelecimento da paz na terra. 
Feitas as observações supra convém passar ao testemunho de Ana e Simeão. 

SIMEÃO E ANA
E, cumprindo-se os dias da purificação dela, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor (Segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o macho primogênito será consagrado ao Senhor); E para darem a oferta segundo o disposto na lei do Senhor: Um par de rolas ou dois pombinhos (Lc 2. 22 - 24 ACF). 
Cristo nasceu de mulher e sob a lei (Gl 4. 4, 5). A oferta  apresentada pelo casal era a oferta típica de pessoas que não dispunham de recursos. E, quando forem cumpridos os dias da sua purificação por filho ou por filha, trará um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola para expiação do pecado, diante da porta da tenda da congregação, ao sacerdote  (Lv 12. 6 ACF). 
Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem era justo e temente a Deus, esperando a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. E fora-lhe revelado, pelo Espírito Santo, que ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor. E pelo Espírito foi ao templo e, quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com ele procederem segundo o uso da lei, Ele, então, o tomou em seus braços, e louvou a Deus, e disse: Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; Pois já os meus olhos viram a tua salvação, A qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, E para glória de teu povo Israel (Lc 2. 25 - 32 ACF). 

  1. Simeão era temente a Deus
  2. Esperava a consolação de Israel
  3. O Espírito Santo estava sobre ele.  
  4. O mesmo Espírito lhe revelou que não morreria sem ver a consolação de Israel
  5. Foi ao Templo movido pelo Espírito de Deus
  6. Quando percebeu pelo Espírito que a promessa fora cumprida louvou a Deus. 
  7. Reconheceu que os gentios tinham participação na promessa. 


Mas também afirmou: Eis que este é posto para queda e elevação de muitos em Israel, e para sinal que é contraditado (E uma espada traspassará também a tua própria alma); para que se manifestem os pensamentos de muitos corações (Lc 2. 34, 25 ACF). O mesmo Cristo que é salvador é pedra de tropeço, rocha de escândalo (Is 8. 16; Rm 9. 33; I Co 1. 23). Isto, em parte por sua origem duvidosa, aos olhos dos homens. Mas, há que se entender com Paul Johnson e Piper que o fundamento do ódio do mundo por Cristo se deve pelo fato dele ser a luz, e o mundo estar em trevas, ou por Jesus ser a encarnação da verdade em contraste com um mundo cada vez mais antagônico para com a mesma. 

Marcelo Medeiros. 

sábado, 4 de abril de 2015

O Evangelho Segundo Lucas



Evangelho é uma palavra que na sua acepção original remete ao galardão concedido aos que proclamam boas novas, no caso, as notícias em tempos de guerra. Passando sucessivamente a significar o ensino doutrinário e as boas notícias anunciadas pelos apóstolos de casa em casa e no templo judaico (At 5. 42). Daí que a primeira definição que o Michaellis dá a palavra seja doutrina de Jesus Cristo [aqui].

Mas a segunda definição reflete melhor a compreensão atual a respeito do que seja Evangelho. Os quatro primeiros livros do Novo Testamento, os escritos pelos evangelistas Mateus, Marcos. Lucas e João, em que está narrada a vida e doutrina de Jesus Cristo. Dentre estes destaca-se um pela singularidade literária, predileção temática e emprego de palavras próprias de um técnico, é o Evangelho de Lucas. Que os amantes do estudo da Bíblia e fraquentadores da Escola bíblica dominical estarão estudando aos domingos pela manhã. 

AUTORIA E DATA

O primeiro ponto favorável a autoria lucana do terceiro evangelho é o apoio da tradição que desde cedo atribuiu a este médico, pouco citado nas Escrituras, é claro, os créditos pela elaboração da obra em apreço. A leitura deste primeiro tratado ao lado do segundo (At 1.1, 2), a observação dos termos comuns a ambas indica que o autor é o mesmo. Todavia este não se identifica nem no primeiro, nem no segundo tratado, tudo o que se sabe é que é alguém que se interessa por medicina e que faz emprego de termos médicos, sendo inclusive seletivo com os termos gregos que emprega. 

Exemplos? Ao se referir aos prazeres da vida (ηδονων του βιου - edone toy bioy), ele emprega um termo que se aproxima da palavra para vida no sentido biológico (Lc 8. 14), e ele o faz mesmo sabendo que vida no sentido mais pleno é ζωη (zooeé), esta é mais uma distinção entre a vida presente (βιου) e a eterna (ζωην αιωνιον - zooeé aioonion). 

Ora, levantando-se Jesus da sinagoga, entrou em casa de Simão; e a sogra de Simão estava enferma com muita febre, e rogaram-lhe por ela. E, inclinando-se para ela, repreendeu a febre, e esta a deixou. E ela, levantando-se logo, servia-os (Lc 4. 38, 39 ACF). Perceba o emprego da expressão πυρετω μεγαλω (pyretoo megaloo), que pode ser traduzida como grande, ou muita febre, e segundo Vincent, é a expressão peculiar de um médico. 

Um outro detalhe é precisão de Lucas face aos acidentes geográficos. Nas cinco referências mais imediatas ao Lago de Genesaré (Lc 5. 1, 2; 8. 22, 23, 33), ele emprega λιμνην γεννησαρετ (limnee Genneesaret), ou simplesmente λιμνην (limnee), ao invés de θαλασσαν (thalassan), expressão para mar. Estes e outros fatores indicam alguém de mente grega. 

Lucas chama sua produção bibliográfica de επεχειρησαν (epecheiresan), cujo sentido é o de concepção de uma tarefa difícil (Lc 1. 1). Nada de anormal, uma vez que ele tem pretensões de organizar (αναταξασθαι - anatazanthai - ou por em ordem), o material colhido por meio de prováveis entrevistas às testemunhas oculares (Lc 1. 2). 

O que se chama atualmente de Evangelho foi primeiramente a proclamação e o ensino apostólico (Mt 5. 42). Foi somente na medida em que as testemunhas oculares foram morrendo que surgiu a preocupação com a produção literária dos evangelhos. Todavia os eruditos insistem que tal se deu em um prazo menor ao de trina anos, o que coloca a data de composição deste evangelho aproximadamente em sessenta e dois depois de Cristo. O que justificaria a ausência de menções, em Lucas e nos demais evangelistas de relatos da queda de Jerusalém.

FUNDAMENTOS E HISTORICIDADE DA FÉ CRISTÃ

Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra (Lc 1. 1, 2 NVI). 
Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, Segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde oprincípio, e foram ministros da palavra (Lc 1. 1, 2 ACF).  
A julgar pelas palavras de Lucas na epígrafe do seu Evangelho, é possível observar que:

  1. A pretensão do autor é a de colocar em ordem os fatos que se deram em Jerusalém e nas regiões adjacentes. 
  2. O mesmo se refere aos relatos registrados pelo nome de fatos, que em grego são chamados de πραγματων (pragmaton), possivelmente a palavra que tenha dado origem ao termo pragmatismo, que é um ramo da filosofia (de cunho americano), que preconiza que a finalidade última do conhecimento é a prática. 
  3. πραγμα, ou πραγματων são termos que denotam ação, atos, feitos, indicando que os Evangelhos são registros das ações de Cristo. 
  4. Os fatos narrados se deram na história, não é sem razão que Lucas faz frequentes alusões aos personagens históricos contemporâneos dos eventos que ele pretende registrar. 
  5. Os relatos são fruto da transmissão oral e escrita de testemunhas oculares. 
  6. Estas testemunhas presenciaram os eventos narrados desde o princípio, daí a legitimidade dos mesmos como ministros da Palavra. O termo para ministro é o mesmo empregado por Paulo (I Co 4.  1), υπηρεται (hyperetai), que no linguajar médico se aplica aos auxiliares do médico principal. 
  7. Para todos os efeitos, Lucas desenvolveu seu relato a partir de acurada investigação, conforme ele mesmo dá a entender por meio das seguintes palavras: havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio (Lc 1. 3 ACF). 
  8. Ao que parece Lucas dirige oseu evangelho a uma pessoa de posição elevada por nome de Teófilo, que é chamado de κρατιστε (kratiste), cujo sentido é o de nobilíssimo, sendo aplicado exclusivamente a quem está em eminência (At 23. 26; 24. 3; 26. 25). 
  9. A despeito da posição de autoridade ocupada por Teófilo, pode-se perceber que ele era um discípulo, uma vez que o verbo κατηχηθης  (kateecheethees) é a palavra que dá origem ao vocábulo catequese. Mais do que material para discipulado, Lucas pretende imprimir em Teófilo a certeza dos fatos em que o mesmo foi instruído. 
  10. ασφαλειαν (assphaleian) é um termo que junta α (de negação) com σφαλειαν (que segundo Vincent é cair), conferindo noção de estabilidade, segurança contra o erro, podendo ser traduzida como verdade e solidez. 
ALGUMAS VERDADES RESSALTADAS EM

Lucas é acertadamente o Evangelho da salvação universal. Nele Jesus é chamado de salvação, que preparaste à vista de todos os povos: luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel, teu povo (Lc 2. 30 - 32 NVI). Por este motivo asseguradamente é afirmado: E toda a humanidade verá a salvação de Deus  (Lc 3. 6 NVI). 

Olhando para os seus discípulos, ele disse: Bem-aventurados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus (Lc 6. 23 NVI). Lucas demonstra inegável olhar para com os pobres, que aqui não são pobres no sentido dos poucos recursos que possem, mas os seus discípulos, ou  aqueles que sabem que nada podem fazer por sua salvação. É a estes que  o ministério de Jesus se  dirige. 

O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos (Lc 4. 18 NVI). Não é sem razão que ele atenta para a viúva que em sua pobreza dá em oferta tudo quanto possui (Lc 21. 2 - 4), que no banquete, os párias sociais são privilegiados (Lc 14. 21ss). 

Mas Lucas também é o Evangelho em que a mulher assume papel significante. A pecadora que ungiu Jesus e lavou os pés recebe a honra de ter o seu ato lembrado onde o Evangelho for pregado (Lc 7. 37 - 50). Algumas mulheres que auxiliavam o ministério de Jesus são apresentadas aqui: e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens (Lc 8. 2, 3 NVI). 

Lucas mostra Jesus orando. Ele orou no batismo (Lc 3. 21, 22). A despeito da multidão que era atraída por seu ensino e milagres ele é descrito como alguém que gostava de se retirar para orar. A sua fama, porém, se propagava ainda mais, e ajuntava-se muita gente para o ouvir e para ser por ele curada das suas enfermidades. Ele, porém, retirava-se para os desertos, e ali orava (Lc 5. 15, 16 NVI). 

Após os momentos de conflito, decorrentes do conflito de interesses entre Jesus e os fariseus ele se retirou para orar. Logos após a noite de oração, ele chama os seus discípulos para que estes façam parte de seu colegiado. E, olhando para todos em redor, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele assim o fez, e a mão lhe foi restituída sã como a outra. E ficaram cheios de furor, e uns com os outros conferenciavam sobre o que fariam a Jesus. E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou a noite em oração a Deus (Lc 6. 10 - 12 NVI). 

Tantos em Atos quanto no Evangelho Lucas demonstra um interesse intenso no Espirito Santo (Lc 1. 15, 35, 41, 67, 80; 2. 25 - 27; 4. 1, 14, 18). Minha oração é que Deus por Cristo Jesus nos habilite a perseverar nos estudos das verdades fundamentais das boas novas de Cristo. 

Marcelo Medeiros

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