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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Deus dá sua Lei ao povo de Israel



A lei de Deus é antes de qualquer coisa, dádiva, dom, presente. Via de regra os cristãos a associam com o jugo farisaico, ou com o conjunto de tradições que Jesus deliberadamente rejeitou. Davi afirma: a lei de Iahweh é perfeita, faz a vida voltar (Sl 19. 8 [7] Bíblia de Jerusalém). Aqui se vê um testemunho similar ao de Paulo, para quem a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom (Rm 7. 12 Bíblia de Jerusalém).

Daí a compreensão que partilho aqui de que originalmente a lei não pretendia ser um fardo pesado para o povo de Israel, mas um caminho de vida. Outra dimensão desta mesma lei é que ela foi dada em meio a celebração de uma aliança, a do Sinai, é isto que precisa de ser visto, ao revisar a lei para o povo, Moisés afirmou: ouve ó Israel, os estatutos e as normas que hoje vos proclamo aos vossos ouvidos. Vós os aprendereis e cuidares de pô-los em prática. Iahweh, nosso Deus concluiu conosco uma aliança no Horebe (Dt 5. 1, 2 Bíblia de Jerusalém). É a partir destes pressupostos que estarei elaborando os posts que abordam os dez mandamentos.

A AUTORIA

A despeito das discussões entre os proponentes da Escola ortodoxa e os da escola crítica a autoria da תֹּ֘ורַ֤ת (torah), a respeito da autoria mosaica da lei, há que se ressaltar aqui o fato de que o paralelismo existe entre esta e as leis de povos vizinhos de Israel, pode ser um fruto da graça comum, de modo que não tenho quaisquer dificuldade com a crítica bíblica, visto que a graça o responde. Em outras palavras, Paulo reconheceu que existem gentios para os quais a lei de Deus está escrita em seus corações e eles por natureza obedecem a lei. Neste caso, o fazem pressionados exclusivamente por suas próprias consciências. 

Voltando ao entendimentos das escolas liberais e ortodoxas, para aqueles a lei é resultado de uma série tradições orais que foram se acumulando até que durante o reino persa foram organizados por Esdras e a autoria foi concedida à Moisés (esta afirmação pode ser vista na introdução ao Antigo Testamento de Erick Zengüer). 

Os mais ortodoxos como Hill e Walton até entendem e aceitam que existem textos no pentateuco que não podem ser de autoria mosaica, tais como o registro da morte do profeta e legislador, e a narrativa da contenda deste com Miriã e Arão, mas no geral entendem juntamente com testemunho de Jesus e dos apóstolos que grande parte do conteúdo da תֹּ֘ורַ֤ת (torah) é mosaico. 

O CONTEXTO

A promulgação da lei se deu no contexto da celebração de uma aliança entre Deus e o povo. Esta aliança foi celebrada três meses após a saída do povo do Egito (Ex 19. 1). Tão logo o povo chegou ao Sinai, Moisés foi chamado ao monte para ouvir as palavras de Deus (Ex 19. 2, 3). Ali foi feito um memorial das obras de Deus (Ex 19. 4), e celebrada uma aliança בְּרִיתִ֑י (berit). 

Os dez mandamentos são o marda da aliança que Iahweh está celebrando com o seu povo. Ao lembrar a lei para o povo Moisés ressaltou como se deu tal aliança: O Senhor nosso Deus fez conosco aliança em Horebe. Não com nossos pais fez o Senhor esta aliança, mas conosco, todos os que hoje aqui estamos vivos. Face a face o Senhor falou conosco no monte, do meio do fogo (Dt 5. 2 - 4 ACF). 

Aqui se percebe uma verdade, a de que a aliança do Sinai estava inaugurando uma nova etapa na economia da salvação. Os pactos feitos com Noé, Abraão, eram incondicionais, mas ao povo de Israel Deus colocou condições, neste caso a obediência à lei. E como resposta o povo disse a Moisés: o que te disser o Senhor nosso Deus, o ouviremos e cumpriremos (Dt 5. 27 ACF). De acordo com o relato de Êxodo, o povo respondeu a uma só voz: tudo o que o Senhor tem falado faremos (Ex 19. 8 ACF). 

Apesar do compromisso assumido a história de Israel mostra que o povo não obedeceu conforme proposto, tanto que ainda no monte Deus fala com Moisés: quem dera eles tivessem sempre no coração esta disposição para temer-me e para obedecer a todos os meus mandamentos. Assim tudo iria bem com eles e com seus descendentes (Dt 5. 29 NVI). 

O TEMOR COMO BASE DA ALIANÇA

A manifestação de Deus no Sinai provocou terror e espanto no povo, ao ponto deste pedir que Moisés falasse com Deus (Ex 20. 19). Em princípio as palavras do povo foram moldadas pelo temor, mas Deus sabia que eles não teriam sempre a mesma disposição. Diante do espanto e do terror provocado pela teofania, os israelitas pensaram que iam morrer. Foi quando Moisés disse: não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis (Ex 20. 20 ACF).  

O comentário da lição de Escola bíblica dominical pontua que os sinais exibidos na cordilheira do Sinai tinham por objetivo fortalecer a autoridade de Moisés como líder e legislador. Creio que isto se aplique aos Sinais que Deus deu ao líder em apreço, com vistas a autenticar sua liderança aos olhos do povo quando no momento da saída do Egito (Ex 4. 1- 9). Mas a manifestação na outorga da lei, visava provocar temor no coração do povo. Deus ordenou à Moisés: reúna o povo diante de mim, para ouvir as minhas palavras, a fim de que aprendam a me temer enquanto viverem sobre a terra (Dt 4. 10). 

É o temor que produz a obediência. Assim, que lembrou ao povo as palavras da aliança (Dt 5), Moisés disse: 
Esta é a lei, isto é, os decretos e as ordenanças, que o Senhor, o seu Deus ordenou que eu lhes ensinasse, para que vocês os cumpram na terra para a qual estão indo para dela tomar posse. Desse modo vocês, seus filhos e seus netos temerão ao Senhor, o seu Deus, e obedecerão a todos os seus decretos e mandamentos, que eu lhes ordeno, todos os dias da sua vida, para que tenham vida longa (Dt 6. 1, 2 NVI). 
Note que a lei tem de ser ensinada. Aqui cabe ressaltar novamente o sentido de תֹּ֘ורַ֤ת (torah), que não se restringe à lei, mas abrange igualmente a questão da instrução. A instrução da lei aumenta o temor no coração do povo, e conforme pontuado no texto bíblico, é o temor que livra o homem de pecar, melhor, o conduz na perfeita obediência da lei. 

Marcelo Medeiros.                                                                                                                                                                                                                                                                                        

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Moisés, sua liderança e seus auxiliares

 
Atualmente a liderança é compreendida como sendo a capacidade de influenciar as pessoas por meio do exemplo. Trata-se de envolver as pessoas em uma missão e proposito. Este conceito é moderno, e tem sido defendido por James Hunther em seu clássico O Monge e o executivo. Curioso, é que ele afirma tanto neste livro, quanto no As lições do Monge e do Executivo, que suas ideias são revolucionárias, e atuais, mas não são novas, uma vez que o modelo de liderança que ele defende pode ser visto em personagens antigos, tais como, Sócrates, Platão e Jesus Cristo. Hoje veremos como esta liderança se manifestou na pessoa de uma dos maiores exponentes do judaísmo, Moisés.

I ) O caráter e a disposição do líder
Então o Senhor desceu numa coluna de nuvem e, pondo-se à entrada da Tenda, chamou Arão e Miriã. Os dois vieram à frente, e ele disse: "Ouçam as minhas palavras: Quando entre vocês há um profeta do Senhor, a ele me revelo em visões, em sonhos falo com ele.
Não é assim, porém, com meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa (Nm 12. 5 - 7 NVI).
Moisés foi fiel como servo em toda a casa de Deus, dando testemunho do que haveria de ser dito no futuro (Hb 3. 5 NVI). 
Em ambos os textos se afirmar duas verdades a respeito de Moisés, e que se constituem como qualidade essenciais dos que pretendam exercer cargos de liderança.  Em primeiro lugar, Moisés é chamado de servo, em hebraico a expressão é עַבְדִּ֣י (ebed), que será traduzida pelo autor da carta aos Hebreus por θεραπων (therapon), cujo sentido é o de um servidor, um atendente. Ao contrario do que ocorre, por exemplo com a expressão δουλος (doulos), θεραπων pressupõe o exercício de um trabalho livre e honroso. Tal indica que ele via em sua chamada algo digno e honroso. De sorte que não existe líder sem tais prerrogativas, uma imagem de seu trabalho como o ato da verdadeira liberdade, e como expressão de honra ao nosso Deus.
Em segundo lugar, se diz que Moisés era fiel. Aqui temos a ocorrência de dois termos no grego a palavra é πιστος (pistós), e é usada na LXX para traduzir נֶאֱמָ֥ן (ne'muna), que procede de אָמַן ('ãman), um termo que indica fidelidade, firmeza, estabilidade. São prerrogativas que um líder tem de possuir, a fim de que o mesmo seja plenamente bem sucedido no cumprimento de sua missão. Todavia,  אָמַן ('ãman) não é uma característica humana, mas procede da ação de Deus.
Outra qualidade apontada em Moisés, é a sua mansidão, que algumas versões traduzem por humildade, e que na Nova Versão Internacional, é traduzida por paciência. O termo hebraico  é עֲנָוִ֗ ('anaw), e abrange todos estes sentidos (Nm 12. 3).  עֲנָוִ֗ ('anaw) é a raiz do termo hebraico עֲנִיֶּ֛ ('ani), cujo sentido é do pobreza (Dt 15. 11). O pobre em Israel era aquele que não possuindo terra para trabalhar vivia em total estado de indigência, podendo vir a mendigar. Daí a estrita dependência que estes tinham de Deus (aqui). Visto sob este prisma, a humildade e mansidão constituem-se nas mais difíceis virtudes de se cultivar em um líder, visto que a ênfase carismática inevitavelmente o conduz a confiar em suas potencialidades. 
 
II) A necessidade de auxiliares
 
O texto de Êxodo 18 nos mostra que Moisés se assentou para julgar o povo, e que ao atender a cada um ele levou um expediente que durou da manhã até a tarde. O termo para julgar aqui é לִשְׁפֹּ֣ט (shepat), palavra que indica o exercício da função de juiz, mas que não pode ser confundida com o magistrado atual, uma vez que no contexto bíblico a resolução das questões envolve a consulta a Deus e o ensinamento ao povo dos estatutos e juízos de Deus. Isto se evidencia na resposta de Moisés ao seu sogro, quando este lhe perguntou o que fazes? E ele disse: O povo me procura para que eu consulte a Deus. Toda vez que alguém tem uma questão, esta me é trazida, e eu decido entre as partes, e ensino-lhes os decretos e leis de Deus (Ex 18. 15, 16 NVI).
O problema consiste em que com o passar do tempo auxiliares se tornaram necessários. Uma vez que a centralização das funções na pessoa de Moisés se tornou um peso tanto para este quanto para o povo. Quando tal ocorre, surge então a necessidade de delimitar aquilo que cabe somente ao líder e aquilo que ele pode delegar aos demais para que os mesmos exerçam.
O conselho que Jetro deu para Moisés requeria que o mesmo: 1) continuasse a representar o povo diante de Deus (Seja você o representante do povo diante de Deus e leve a Deus as suas questões [Ex 18. 19 NVI]); 2) Os ensinasse os estatutos e leis do Senhor (Oriente-os quanto aos decretos e leis, mostrando-lhes como devem viver e o que devem fazer [Ex 18. 20 NVI]); 3) levantasse novos líderes que o auxiliassem em questões menores, e lhes trouxessem apenas as mais graves (escolha dentre todo o povo homens [Ex 18. 21 NVI]). Todavia, ao se nomear auxiliares, critérios se tornam necessários.
 
III) Critérios na escolha de líderes (auxiliares da liderança)
Mas escolha dentre todo o povo homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e inimigos de ganho desonesto (Ex 18. 21 NVI).
Os homens a quem Deus manda escolher tem de serem capazes. Habilidosos, inteligentes, estando em condições legais para exercer validamente certos direitos. Mas esta habilidade não se restringe ao aspecto técnico da questão, uma vez que o termo חַ֜יִל (hayil) também é empregado para descrever os valentes soldados (I Cr 8. 40),indicando com isto que  חַ֜יִל (hayil) também pode expressar a força necessária a um soldado (Jz 18. 2; I Cr 26. 30). Esta mesma força é descrita como oriunda de Deus, que nos capacita para batalha. No caso do líder esta força, se expressa na capacidade de influenciar por meio do exemplo moral e de manter o mesmo em meio às adversidades.
Outra qualidade do líder é o temor reverente, descrito por meio do vocábulo יִרְאֵ֧י (yâre). Os líderes que iriam auxiliar a Moisés teriam de lidar com o poder, e com a possibilidade de corrupção que este mesmo poder desperta. Somente o temor de Deus poderia lhes dar o poder de superar as propostas de corrupção. Afinal Pela misericórdia e verdade a iniquidade é perdoada, e pelo temor do Senhor os homens se desviam do pecado (Pv 16. 6 ARCF). Chave neste conceito é o termo temor do Senhor (Yir'ah Yahweh [ יִרְאַ֣ת יְ֭הוָה]). O líder tem de ser temente a Deus.
Digno de confiança, é a expressão empregada pela NVI para traduzir o termo homens de verdade (אַנְשֵׁ֥י אֱמֶ֖ת [ish emeth]). Por sua vez a expressão אֱמֶ֖ת (emeth), tanto indica verdade como fidelidade, podendo ser traduzida por homens fieis. em outras palavras, dentre o perfil de um líder, tem de constar que o mesmo possa ser uma pessoa em que as outras possam se fiar. O termo אֱמֶ֖ת (emeth), nos remete ao termo אֱמָנִ֑ ('aman), aplicado a Moisés, para descreve-lo como servo fiel em toda a casa.
Por último, o homem que visa o seu bem- estar, e em função de ser mais amigos dos deleites do amigo de Deus não pode exercer a liderança, visto que diante de Deus o mesmo sempre será reprovado. Quem ama ao dinheiro nunca se farta do mesmo (aqui e aqui). Minha oração é que Deus nos ajude a preencher este perfil de líder descrito na Bíblia.
 
Em Cristo, Marcelo Medeiros

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Um libertador para Israel


Moisés foi o instrumento humano que Deus empregou para realizar o que dantes havia prometido ao seu servo Abraão no tocante à libertação de seu povo do Egito. É importante que no decorrer desta lição atentemos para os fatores históricos e sociais em que se deu o nascimento deste homem de Deus, bem como os meios que Deus proveu para criação, educação e preparo do mesmo.

I ) Genealogia de Moisés
E Anrão tomou por mulher a Joquebede, sua tia, e ela deu-lhe Arão e Moisés: e os anos da vida de Anrão foram cento e trinta e sete anos (Ex 6. 20 ARCF). 
Moisés é da tribo de Levi, uma tribo que de acordo com a benção profética de Jacó seria sem herança (Gn 49. 5 - 8). Foi deste meio que Deus tirou um homem cuja atuação ministerial engloba a de profeta, sacerdote (dada sua atuação como intercessor entre o povo e Deus), legislador para o povo de Israel. Na verdade Moisés é um homem cuja maior marca é a renúncia a tudo quanto ele poderia ter sido dado ao seu potencial intelectual e social.

II) O contexto em que Moisés nasceu

Conforme dissemos aqui, o momento em que Moisés nasce é crítico para o povo, pois os egípcios com medo do crescimento do povo eleito, escravizaram os hebreus, e com pesados trabalhos. Ao perceberem que, a despeito da opressão o povo crescia, os opressores buscaram um outro método, que na minha leitura é um dos primeiros planos de eugenia. Para que tal fosse concretizado os meninos deveriam de serem mortos. Inicialmente o plano fracassa porque as parteiras desobedecem á voz do Faraó, mas este ordena que os egípcios e os próprios israelitas lancem os meninos no Nilo (Ex 1. 11 - 22).
Neste aspecto Moisés se iguala a Cristo, visto que ambos foram perseguidos pelos respectivos soberanos da nação no momento em que nasceram, e tiveram as suas vidas ameaçadas. Mas o texto bíblico nos mostra Deus providenciando meios para a preservação, o sustento, e o preparo de Moisés. Ele foi preservado em razão da afeição que a filha do Faraó teve por ele. Ele foi sustentado por sua própria mãe até que foi desmamado e foi preparado ao ser educado em toda a ciência do Egito, conforme vemos neste texto em que Estevão resume a vida de Moisés.
Então outro rei, que nada sabia a respeito de José, passou a governar o Egito. Ele agiu traiçoeiramente para com o nosso povo e oprimiu os nossos antepassados, obrigando-os a abandonar os seus recém-nascidos, para que não sobrevivessem. "Naquele tempo nasceu Moisés, que era um menino extraordinário. Por três meses ele foi criado na casa de seu pai. Quando foi abandonado, a filha do faraó o tomou e o criou como seu próprio filho. Moisés foi educado em toda a sabedoria dos egípcios e veio a ser poderoso em palavras e obras (At 7. 18 - 22 NVI). 
Não se sabe com certeza, o que fez com que Moisés, mesmo sendo educado em toda ciência do Egito se identificou com a causa dos seus irmãos de etnia. Este é um sentimento que não é nada comum á natureza humana, visto que nossa tendência é a de nos acomodarmos diante do sofrimento alheio, mas ele teve compaixão dos seus. Seu comprometimento com a causa do seu povo fez com que este se indispusesse contra o sistema e com isto, fosse forcado a fugir do Egito.

III) A fuga de Moisés

Para abordarmos tal assunto recorreremos ao resumo que a própria Bíblia faz da história deste servo de Deus. Na interpretação de Estevão, eis o desenvolvimento da história
Ao completar quarenta anos, Moisés decidiu visitar seus irmãos israelitas. Ao ver um deles sendo maltratado por um egípcio, saiu em defesa do oprimido e o vingou, matando o egípcio. Ele pensava que seus irmãos compreenderiam que Deus o estava usando para salvá-los, mas eles não o compreenderam. No dia seguinte, Moisés dirigiu-se a dois israelitas que estavam brigando, e tentou reconciliá-los, dizendo: ‘Homens, vocês são irmãos; por que ferem um ao outro? "Mas o homem que maltratava o outro empurrou Moisés e disse: ‘Quem o nomeou líder e juiz sobre nós? Quer matar-me como matou o egípcio ontem? ’ Ouvindo isso, Moisés fugiu para Midiã, onde ficou morando como estrangeiro e teve dois filhos (At 7. 23 - 29 NVI).  
Creio que a educação que Moisés recebeu no Egito serviu para que o mesmo desenvolvesse habilidades de escritas e leitura, tão necessárias para o registro fidedigno que o mesmo faz da trajetória histórica do povo, quanto para o registro dos mandamentos de Deus. Mas foi no deserto de Midiã que ele se preparou para conduzir o povo pelo deserto. Foi ali que ele aprendeu a viver em meios às intempéries do deserto.
Mas no que aprendeu a viver em desertos, desaprendeu a linguagem diplomática. Um grave problema no que tange ao perfil deste líder impar é a conciliação entre o que diz Estevão (que Moisés era poderoso em palavras e obras), e o que o próprio diz a seu respeito, a saber que era pesado de língua. Sobre este assunto nos debruçaremos nas linhas abaixo, quando abordarmos a sua chamada.
Por ora nos interessa reafirmar que a fuga de Moisés foi importante em sua formação como guia de um povo pelo caminho do deserto e por privações.

III) O chamado de Moisés

Deus chama seu servo no momento em que seu povo mais geme e clama a respeito da opressão que estava passando no Egito. Na verdade a totalidade do texto bíblico dá sim a entender que foi uma convergência entre o tempo divino e o clamor do povo.
E aconteceu, depois de muitos dias, que morrendo o rei do Egito, os filhos de Israel suspiraram por causa da servidão, e clamaram; e o seu clamor subiu a Deus por causa de sua servidão. E ouviu Deus o seu gemido, e lembrou-se Deus da sua aliança com Abraão, com Isaque, e com Jacó; E viu Deus os filhos de Israel, e atentou Deus para a sua condição (Ex 2. 23 - 25 ARCF). 
O clamor do povo chega a Deus, mas perceba caro leitor que o texto nos mostra Deus se lembrando da aliança que fizera com os patriarcas, o que remete ao pacto em que Deus renova, particularmente com Abraão, as promessas de uma descendência numerosa e de que a mesma seria peregrina em terra estranha, antes de herdar a terra prometida.
Após quarenta anos de deserto, e de longa experiência como pastor dos rebanhos do seu sogro, Deus chama Moisés no meio da sarça ardente. Uma sarça queimar em pleno deserto não é algo incomum, o extraordinário estava em que a que fora visualizada por Moisés queimava e não se consumia. Ao se aproximar para ver o fenômeno de perto. Deus brada do meio da sarça. É neste contexto que se dá o chamado de Moisés (Ex 3. 1 - 15). Creio que no caso dele tenha sido deste forma, porque ao longo do contexto Moisés demonstra preocupação com a aceitação do povo, visto que já havia lidado com a rejeição. Fato é que mesmo não havendo um padrão único para o chamamento divino, é possível se perceber que todo homem de Deus, recebe sua comissão em meio a uma profunda experiência com Deus.
Diante do chamado divino, Moisés expõe a sua inadequação. Ele pergunta: Quem sou eu para apresentar-me ao faraó e tirar os israelitas do Egito? (Ex 3. 11 NVI). E obtém de Deus a seguinte resposta: Eu estarei com você. Esta é a prova de que sou eu quem o envia: quando você tirar o povo do Egito, vocês prestarão culto a Deus neste monte (Ex 3. 12 NVI). A obra de Deus é feita pelo próprio Deus, é esta a verdade contida na afirmação de Isaías quando ele disse: tudo o que alcançamos, fizeste-o para nós (Is 26. 12 NVI).
A segunda alegação de Moises é a ausência de conhecimento teológico. Embora Deus se manifeste como o Todo poderoso aos patriarcas, ele não fez seu nome conhecidos aos mesmos (Ex 6. 2, 3). a revelação do nome de Deus foi feita à Moisés. E qual é o seu nome? Seu nome é יְהוָ֞ה (YHWH), cuja transliteração pode ser Jeová, Javé, ou Iahweh; mas cujo significado é EU SOU. Aqui se encerra toda a Teologia, tudo o que se pode afirmar a respeito da pessoa de Deus. Ele É.
Esta experiência somada ao preparo intelectual e prático do servo de Deus formaram o tripé da preparação do homem de Deus chamado Moisés. Os sinais que Deus concede à Moisés são muito interessantes, mas sem a presença de Deus eles nada seriam, visto que no inicio de seu ministério, quando este se apresenta para Faraó, os magos repetem os mesmos sinais, indicando que a garantia do ministério é a presença de Deus.
Concluo este trabalho afirmando mais uma vez que o preparo intelectual e espiritual é indispensável para o líder. Mas nenhum preparo dispensa e experiência espiritual, e ao analisarmos a vida de Moisés, percebemos todas estas qualidades presentes. Minha oração é que aqueles que se sentem chamados por Deus busquem o preenchimento de todas estas lacunas, para a Glória de Deus.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.
 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Elias no monte da Transfiguração


Temos visto ao longo desta série de estudos que Elias foi um importante servo de Deus cuja missão consistiu basicamente em proclamar a que o verdadeiro Deus era o Deus de Israel. Há muitos crentes que acham tais estudos supérfluos, e afirmam que o que importa de fato é Cristo e o Novo Testamento. E se analisarmos bem, veremos que não estão, de todo errados, mas, com tal forma de pensar mostram que não entendem plenamente o Novo Testamento, uma vez que a revelação nele contida. Há uma interdependência entre as Escrituras do Antigo e do Novo pacto, e com o estudo de hoje apontaremos este elemento.
Retornando a Elias, precisamos falar que Deus escolheu a nação de Israel, para que eles fossem guardiões das revelações e das Escrituras, que por meio desta guarda, o Messias seria manifesto e o mundo estaria preparado para o receber. Neste processo ocupam fundamental papel a lei e os profetas. À lei coube o papel de ser um pedagogo (παιδαγωγον), naquele tempo, um escravo, ou tutor cuja função era a de conduzir os meninos aos seus respectivos mestres. É neste sentido que Paulo afirma que a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé (Gl 3. 24 NVI).
Esta função do tutor, ou pedagogo (παιδαγωγον), fica clara quando apelamos ao sentido hebraico da palavra lei. O termo תֹּורָ֑ה (torah), tem o sentido básico de ensino, instrução, lei. No monte da transfiguração, a lei, ou תֹּורָ֑ה (torah), foi representada por Moisés, ao passo que os profetas (nebiuin - נְבִאִ֖ים) o foram por Elias. Ambos são de vital importância pois apontam para Cristo. É exclusivamente sob esta perspectiva que a leitura dos textos que abordam a transfiguração tem de ser feita.

O contexto da Transfiguração

Em todos os Evangelhos sinóticos podemos perceber que os ensinos de Cristo recebem um arranjo diferente. Não quero com isto afirmar que eles foram inventados, de forma alguma, ante creio que os relatos dos fatos ali registrados são fidedignos. Mas quando olhamos para o contexto que envolve a narrativa da transfiguração, percebemos que a disposição de fatos que antecedem o evento é a mesma. A unica exceção é o relato de Lucas no tocante ao sinal que os fariseus pedem ao Senhor.
  1. Os saduceus pedem um sinal dos céus (Mt 16. 1 - 4; Mc 8. 10; Lc 12. 54), e Jesus nega. Para o mestre é inconcebível que alguém que sabe ler os sinais do dia não saiba ler os sinais dos tempos (semain ton Kairon - σημεια των καιρων). Por sinais dos tempos (σημεια των καιρων), enteda-se os milagres que acompanham o ministério de Cristo. Eles idicam que o tempo está cumprido. Se olharmos para este mesmo texto no contexto do Evangelho de Marcos perceberemos que alguns sinais são colocados após a negativa de Jesus em manifestar sinais diante dos fariseus.
  2. Após negar sinais aos fariseus e aos saduceus Jesus realiza sinais à vista dos seus discípulos e caminha para as cercanias de Cesaréia de Felipe. Ali ele indaga aos seus discipulos a respeito da visão, da percepção que o povo tinha de sua vida e ministério. A resposta de acordo com Mateus é: Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas (Mt 16. 14 NVI). O relato de Marcos difere do de Mateus, por preservar apenas a figura de João Batista, o precursor do Messias e a de Elias (Mc 8. 28).  Lucas segue a mesma formatação de Marcos. Nas palavras deste evangelista, os discípulos deram a seguinte resposta a Jesus: dizem que és João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, que és um dos profetas do passado que ressuscitou (Lc 9. 19 NVI). Ao perguntar para os seus discípulos a respeito da percepção que estes tinham da identidade do Filho do homem, ele teve a seguinte resposta de Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16. 16 NVI). A mesma confissão pode ser vista nos demais evangelistas (Mc 8. 27; Lc 9. 18). Jesus promete a Pedro que sobre esta percepção edificará a sua Igreja e que nem mesmo a morte poderá triunfar sobre a mesma.
  3. Então Jesus disse: É necessário que o Filho do homem sofra muitas coisas e seja rejeitado pelos líderes religiosos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da lei, seja morto e ressuscite no terceiro dia (Lc 9. 22). Esta afirmação não foi entendida por Pedro, que se pôs a censurar Jesus. No contexto de Mateus e de Marcos, Jesus repreende a Pedro por meio das segintes palavras: Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens (Mt 16. 23 NVI).
  4. Em Lucas, Jesus aparece imediatamente fazendo a seguinte afirmação: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me (Lc 9. 23 NVI). Em outras palavras: Não estou aqui para poupar a minha vida, e quem quiser se preservar de sofrer não serve para ser o meu seguidor. SE QUISERMOS ENTENDER A TRANSFIGURAÇÃO, PRECISAMOS ENTENDER O SENTIDO DESTAS PALAVRAS.
  5. O discurso de Cristo encerra-se com três promessas, a de sua vinda, a da justa retribuição no momento da vinda de Cristo, e a de que alguns dos que ali estavam não veriam a morte antes de verem o Reino de Deus (Mt 16. 27, 28; Mc 8. 38; 9. 1; Lc 9. 26, 27).
Reiteramos que este contexto é de suma importância para que possamos entender o relato da transfiguração.
 
O relato da transfiguração
 
Após os fatos outrora narrados, Jesus sobe ao monte na companhia de três dos seus discípulos: Pedro, Tiago e João. Estes são os mesmos discípulos que os Evangelhos descrevem de forma inequívoca como sendo parte do círculo íntimo de Cristo. Eles estiveram com Cristo em seu momento de dor no Getsêmane (Mt 26. 37), por exemplo. No relato de lucas é acrescentado que a motivação de Cristo para subir ao monte com estes mesmos discípulos foi a de orar (Lc 9. 28). Para Mateus Jesus simplesmente se transfigurou (μετεμορφωθη) na presença dos discípulos. O termo em apreço vem do grego μεταμορφω (metamorfoo), do qual vem a nossa palavra Metamorfose. Esta é empregada por Mateus e por Marcos e no contexto teológico geral do Novo Testamento esta palavra denota a exposição do que há na essência do indivíduo. Em um conceito oposto ao empregado por Paulo para a expressão aparência (scheema - σχημα), que também pode ser moda, forma, maneira.
Lucas acrescenta que a transfiguração ocorreu no momento em que Cristo orava. και εγενετο εν τω προσευχεσθαι αυτον το ειδος του προσωπου αυτου ετερον, ou seja: Enquanto orava, a aparência de seu rosto se transformou (Lc 9. 29 NVI). Lucas evita empregar o termo μετεμορφωθη, por ser a palavra usada pelos gregos para descrever as transformações que os deuses da época faziam para visitar o nosso mundo. Nestas os deuses se manifestavam em figuras menores em dignidade, ao passo que com Jesus ocorreu o contrário, Ele revelou sua forma excelente. Daí a preferência deste evangelista pelos termos εγενετο (egeneto) e ετερον (heteron), que indicam que ele assumiu uma forma diferente da que tinha. Em outras palavras, o rosto de Jesus se tornou outro, e isto ocorreu durante o período da oração.
Lucas prossegue narrando que dois homens começaram a conversar com Jesus. Eram Moisés e Elias. E o tema da conversa era sobre a partida de Jesus, que estava para se cumprir em Jerusalém (Lc 9. 30, 31 NVI). Mateus e Marcos apenas afirmam que Moisés e Elias estavam conversando com Jesus, ao passo que Lucas afirma que o tema da conversa eram fatos referentes ao sofrimento de Cristo. Quando olhamos para a vida de Elias e para o contexto no qual o mesmo se encontra inserido perebemos o quanto a mesma tinha relação com a de Cristo. Falaremos mais na seção abaixo.

Elias no contexto do relato da transfiguração

Quando olhamos para o contexto da transfiguração percebemos que ao perguntar aos seus discípulos a respeito da percepção que o povo tinha da pessoa de Jesus, o mesmo recebeu como resposta uma comparação com Elias e com outros profetas. Lucas e Marcos omitem da lista apenas Jeremias. O que se pode perceber desta enquete é que à vista do povo Jesus era um profeta (prophetoon - προφητων). A abundância de sinais em seu ministério talvez tenha levado o povo a compará-lo com Elias e a pregação de arrependimento à João Batista.
Mas Pedro teve uma percepção que apenas o Pai pode produzir, a certeza de que Jesus era χριστος ο υιος του θεου του ζωντος (Cristos hious tou Theou zoontos), o Cristo, Filho do Deus Vivo (Mt 16. 16). O termo χριστος (Cristo) equivale ao termo hebraico ־מְשִׁ֥יחַ  (Ha Mashia), indicando que as perspectivas bíblicas a respeito do Messias estavam se cumprindo na pessoa de Cristo. Esta percepção de Pedro, que lhe foi dada pelo próprio Deus, uma vez que apenas este pode revelar quem é o Filho, abriu o caminho para que se entendesse que Cristo era muito superior aos profetas.
Se Elias foi um porta voz de Deus em um momento de grave turbulência espiritual, Jesus foi a própria palavra encarnada. A visão de Elias e de Moisés falando dos sofrimentos de Cristo no Monte da Transfiguração aponta para a verdade de que os sofrimentos de Cristo foram preditos pela lei e pelos profetas. Infelizmente, somente após a ressurreição, os apóstolos vieram a entender tais palavras.
Os discípulos então perguntam a respeito das profecias referentes a uma nova vinda de Elias, ao que Jesus responde que este já tinha vindo, e que haviam feito de tudo com ele, e da mesma forma fariam com o Filho do homem. Aqui se faz necessário explicar que em nenhum momento se está falando de reencarnação, ou algo parecido. Primeiro, a antropologia bíblica é diferente da assumida pelos idealizadores da doutrina espírita. Segundo, o foco em todo o texto é a identidade de Jesus e os sofrimentos que ele terá de passar para concretizar a primeira etapa de sua obra. Ao ser perguntado se era Elias, o próprio João disse que não (Jo 1.23 - 27), dando a entender que sei papel se resumia a ser um precursor de Jesus. Quando Cristo afirma que ele, João, é o Elias que havia de vir (Mt 11. 14; 17. 10 - 12), o fez tendo em vista afirmar que nele estavam sendo cumpridas todas as expectativas criadas pelos profetas. Este é o foco do texto. Por último, nada no texto sugere a doutrina da reencarnação.

Conclusões

O texto da transfiguração foi inspirado pelo Espírito Santo aos três evangelistas sinóticos, a fim de que entendêssemos que os sofrimentos de Cristo foram vividos por Elias e Moisés, e desta forma a vida dos mesmos apontou para a de Cristo. Nada no texto, ou contexto sugere a doutrina da encarnação. A lei e os profetas profetizam a respeito de Cristo, quando este veio, a referência passou a ser o Filho amado. Que possamos ouvir a sua voz.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros
 
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