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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Elias no monte da Transfiguração


Temos visto ao longo desta série de estudos que Elias foi um importante servo de Deus cuja missão consistiu basicamente em proclamar a que o verdadeiro Deus era o Deus de Israel. Há muitos crentes que acham tais estudos supérfluos, e afirmam que o que importa de fato é Cristo e o Novo Testamento. E se analisarmos bem, veremos que não estão, de todo errados, mas, com tal forma de pensar mostram que não entendem plenamente o Novo Testamento, uma vez que a revelação nele contida. Há uma interdependência entre as Escrituras do Antigo e do Novo pacto, e com o estudo de hoje apontaremos este elemento.
Retornando a Elias, precisamos falar que Deus escolheu a nação de Israel, para que eles fossem guardiões das revelações e das Escrituras, que por meio desta guarda, o Messias seria manifesto e o mundo estaria preparado para o receber. Neste processo ocupam fundamental papel a lei e os profetas. À lei coube o papel de ser um pedagogo (παιδαγωγον), naquele tempo, um escravo, ou tutor cuja função era a de conduzir os meninos aos seus respectivos mestres. É neste sentido que Paulo afirma que a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé (Gl 3. 24 NVI).
Esta função do tutor, ou pedagogo (παιδαγωγον), fica clara quando apelamos ao sentido hebraico da palavra lei. O termo תֹּורָ֑ה (torah), tem o sentido básico de ensino, instrução, lei. No monte da transfiguração, a lei, ou תֹּורָ֑ה (torah), foi representada por Moisés, ao passo que os profetas (nebiuin - נְבִאִ֖ים) o foram por Elias. Ambos são de vital importância pois apontam para Cristo. É exclusivamente sob esta perspectiva que a leitura dos textos que abordam a transfiguração tem de ser feita.

O contexto da Transfiguração

Em todos os Evangelhos sinóticos podemos perceber que os ensinos de Cristo recebem um arranjo diferente. Não quero com isto afirmar que eles foram inventados, de forma alguma, ante creio que os relatos dos fatos ali registrados são fidedignos. Mas quando olhamos para o contexto que envolve a narrativa da transfiguração, percebemos que a disposição de fatos que antecedem o evento é a mesma. A unica exceção é o relato de Lucas no tocante ao sinal que os fariseus pedem ao Senhor.
  1. Os saduceus pedem um sinal dos céus (Mt 16. 1 - 4; Mc 8. 10; Lc 12. 54), e Jesus nega. Para o mestre é inconcebível que alguém que sabe ler os sinais do dia não saiba ler os sinais dos tempos (semain ton Kairon - σημεια των καιρων). Por sinais dos tempos (σημεια των καιρων), enteda-se os milagres que acompanham o ministério de Cristo. Eles idicam que o tempo está cumprido. Se olharmos para este mesmo texto no contexto do Evangelho de Marcos perceberemos que alguns sinais são colocados após a negativa de Jesus em manifestar sinais diante dos fariseus.
  2. Após negar sinais aos fariseus e aos saduceus Jesus realiza sinais à vista dos seus discípulos e caminha para as cercanias de Cesaréia de Felipe. Ali ele indaga aos seus discipulos a respeito da visão, da percepção que o povo tinha de sua vida e ministério. A resposta de acordo com Mateus é: Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas (Mt 16. 14 NVI). O relato de Marcos difere do de Mateus, por preservar apenas a figura de João Batista, o precursor do Messias e a de Elias (Mc 8. 28).  Lucas segue a mesma formatação de Marcos. Nas palavras deste evangelista, os discípulos deram a seguinte resposta a Jesus: dizem que és João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, que és um dos profetas do passado que ressuscitou (Lc 9. 19 NVI). Ao perguntar para os seus discípulos a respeito da percepção que estes tinham da identidade do Filho do homem, ele teve a seguinte resposta de Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16. 16 NVI). A mesma confissão pode ser vista nos demais evangelistas (Mc 8. 27; Lc 9. 18). Jesus promete a Pedro que sobre esta percepção edificará a sua Igreja e que nem mesmo a morte poderá triunfar sobre a mesma.
  3. Então Jesus disse: É necessário que o Filho do homem sofra muitas coisas e seja rejeitado pelos líderes religiosos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da lei, seja morto e ressuscite no terceiro dia (Lc 9. 22). Esta afirmação não foi entendida por Pedro, que se pôs a censurar Jesus. No contexto de Mateus e de Marcos, Jesus repreende a Pedro por meio das segintes palavras: Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens (Mt 16. 23 NVI).
  4. Em Lucas, Jesus aparece imediatamente fazendo a seguinte afirmação: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me (Lc 9. 23 NVI). Em outras palavras: Não estou aqui para poupar a minha vida, e quem quiser se preservar de sofrer não serve para ser o meu seguidor. SE QUISERMOS ENTENDER A TRANSFIGURAÇÃO, PRECISAMOS ENTENDER O SENTIDO DESTAS PALAVRAS.
  5. O discurso de Cristo encerra-se com três promessas, a de sua vinda, a da justa retribuição no momento da vinda de Cristo, e a de que alguns dos que ali estavam não veriam a morte antes de verem o Reino de Deus (Mt 16. 27, 28; Mc 8. 38; 9. 1; Lc 9. 26, 27).
Reiteramos que este contexto é de suma importância para que possamos entender o relato da transfiguração.
 
O relato da transfiguração
 
Após os fatos outrora narrados, Jesus sobe ao monte na companhia de três dos seus discípulos: Pedro, Tiago e João. Estes são os mesmos discípulos que os Evangelhos descrevem de forma inequívoca como sendo parte do círculo íntimo de Cristo. Eles estiveram com Cristo em seu momento de dor no Getsêmane (Mt 26. 37), por exemplo. No relato de lucas é acrescentado que a motivação de Cristo para subir ao monte com estes mesmos discípulos foi a de orar (Lc 9. 28). Para Mateus Jesus simplesmente se transfigurou (μετεμορφωθη) na presença dos discípulos. O termo em apreço vem do grego μεταμορφω (metamorfoo), do qual vem a nossa palavra Metamorfose. Esta é empregada por Mateus e por Marcos e no contexto teológico geral do Novo Testamento esta palavra denota a exposição do que há na essência do indivíduo. Em um conceito oposto ao empregado por Paulo para a expressão aparência (scheema - σχημα), que também pode ser moda, forma, maneira.
Lucas acrescenta que a transfiguração ocorreu no momento em que Cristo orava. και εγενετο εν τω προσευχεσθαι αυτον το ειδος του προσωπου αυτου ετερον, ou seja: Enquanto orava, a aparência de seu rosto se transformou (Lc 9. 29 NVI). Lucas evita empregar o termo μετεμορφωθη, por ser a palavra usada pelos gregos para descrever as transformações que os deuses da época faziam para visitar o nosso mundo. Nestas os deuses se manifestavam em figuras menores em dignidade, ao passo que com Jesus ocorreu o contrário, Ele revelou sua forma excelente. Daí a preferência deste evangelista pelos termos εγενετο (egeneto) e ετερον (heteron), que indicam que ele assumiu uma forma diferente da que tinha. Em outras palavras, o rosto de Jesus se tornou outro, e isto ocorreu durante o período da oração.
Lucas prossegue narrando que dois homens começaram a conversar com Jesus. Eram Moisés e Elias. E o tema da conversa era sobre a partida de Jesus, que estava para se cumprir em Jerusalém (Lc 9. 30, 31 NVI). Mateus e Marcos apenas afirmam que Moisés e Elias estavam conversando com Jesus, ao passo que Lucas afirma que o tema da conversa eram fatos referentes ao sofrimento de Cristo. Quando olhamos para a vida de Elias e para o contexto no qual o mesmo se encontra inserido perebemos o quanto a mesma tinha relação com a de Cristo. Falaremos mais na seção abaixo.

Elias no contexto do relato da transfiguração

Quando olhamos para o contexto da transfiguração percebemos que ao perguntar aos seus discípulos a respeito da percepção que o povo tinha da pessoa de Jesus, o mesmo recebeu como resposta uma comparação com Elias e com outros profetas. Lucas e Marcos omitem da lista apenas Jeremias. O que se pode perceber desta enquete é que à vista do povo Jesus era um profeta (prophetoon - προφητων). A abundância de sinais em seu ministério talvez tenha levado o povo a compará-lo com Elias e a pregação de arrependimento à João Batista.
Mas Pedro teve uma percepção que apenas o Pai pode produzir, a certeza de que Jesus era χριστος ο υιος του θεου του ζωντος (Cristos hious tou Theou zoontos), o Cristo, Filho do Deus Vivo (Mt 16. 16). O termo χριστος (Cristo) equivale ao termo hebraico ־מְשִׁ֥יחַ  (Ha Mashia), indicando que as perspectivas bíblicas a respeito do Messias estavam se cumprindo na pessoa de Cristo. Esta percepção de Pedro, que lhe foi dada pelo próprio Deus, uma vez que apenas este pode revelar quem é o Filho, abriu o caminho para que se entendesse que Cristo era muito superior aos profetas.
Se Elias foi um porta voz de Deus em um momento de grave turbulência espiritual, Jesus foi a própria palavra encarnada. A visão de Elias e de Moisés falando dos sofrimentos de Cristo no Monte da Transfiguração aponta para a verdade de que os sofrimentos de Cristo foram preditos pela lei e pelos profetas. Infelizmente, somente após a ressurreição, os apóstolos vieram a entender tais palavras.
Os discípulos então perguntam a respeito das profecias referentes a uma nova vinda de Elias, ao que Jesus responde que este já tinha vindo, e que haviam feito de tudo com ele, e da mesma forma fariam com o Filho do homem. Aqui se faz necessário explicar que em nenhum momento se está falando de reencarnação, ou algo parecido. Primeiro, a antropologia bíblica é diferente da assumida pelos idealizadores da doutrina espírita. Segundo, o foco em todo o texto é a identidade de Jesus e os sofrimentos que ele terá de passar para concretizar a primeira etapa de sua obra. Ao ser perguntado se era Elias, o próprio João disse que não (Jo 1.23 - 27), dando a entender que sei papel se resumia a ser um precursor de Jesus. Quando Cristo afirma que ele, João, é o Elias que havia de vir (Mt 11. 14; 17. 10 - 12), o fez tendo em vista afirmar que nele estavam sendo cumpridas todas as expectativas criadas pelos profetas. Este é o foco do texto. Por último, nada no texto sugere a doutrina da reencarnação.

Conclusões

O texto da transfiguração foi inspirado pelo Espírito Santo aos três evangelistas sinóticos, a fim de que entendêssemos que os sofrimentos de Cristo foram vividos por Elias e Moisés, e desta forma a vida dos mesmos apontou para a de Cristo. Nada no texto, ou contexto sugere a doutrina da encarnação. A lei e os profetas profetizam a respeito de Cristo, quando este veio, a referência passou a ser o Filho amado. Que possamos ouvir a sua voz.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros
 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O legado de Elias



Em nossa última postagem a respeito de uma lição da Escola Bíblica Dominical, deixamos um Elias em um quadro, cujos sintomas eram similares ao da depressão. O tratamento que Deus ministra sobre a vida de Elias é a voz em meio a uma brisa suave e a missão de fazer sucessão. Uma das causas da depressão, do abatimento, ou do desânimo do servo de Deus, está no fato de que, a despeito da seca, da manifestação no Carmelo, da forte chuva que veio após o servo de Deus ter orado, o povo não abandonou o culto a Ba'al.
É com Jeú que tal culto será definitivamente erradicado em Israel, isto, de acordo com o relato do autor do livro dos Reis (II Rs 10. 28). No livro do profeta Oséias encontraremos o lamento de Deus pela idolatria de Israel. Ainda lá, Ba'al pode ser visto como concorrente do Senhor (Os 2. 8). Mas nesta lição focaremos o legado de Elias. Connvém-nos perguntar: o que é legado?
 
O que significa o termo legado?

Dentre os significados que o dicionáro eletrônico Michaellis apresenta, temos:
  1. Disposição, a título gracioso, por via da qual uma pessoa confia a outra, em testamento, um determinado benefício, de natureza patrimonial; doação "causa-mortis".
  2. Parte da herança deixada pelo testador a quem não seja herdeiro por disposição testamentária nem fideicomissário.
  3. No sentido cultural do termo: língua, costumes e tradições, que passam de uma a outra geração.
  4. Que, ou o que é encarregado de qualquer missão diplomática.
O que entendemos das definições é que legado é o mesmo que herança. Ao falarmos do legado de Elias, temos de nos perguntar pela herança que ele deixou. outra pergunta incômoda: quais foram os bens deixados por Elias, e quem foi seu herdeiro? Se atentarmos bem para nas narrativas que abordam a vida de Elias veremos que o texto não faz menção a nada do que conhecemos como bem material, casa, dinheiro, riquezas, bois, animais, etc. Que herança Elias teria deixado?
Responder estas incômodas perguntas é de suma importância para que venhamos a entender o significadode um legado de Elias. Como um homem que ao ser arrebatado deixou somente uma capa ao seu discípulo pode ter deixado um legado em Israel?

O legado de Elias
 
Elias deixou o Espirito profético para a vida de Eliseu. Se atentarmos bem veremos que o ministério de ambos é bem parecido. Os dois realizaram milagres de controle sobre as águas, ambos assitiram e foram ajudados, ou socorridos por mulheres, ressuscitaram mortos, abençoaram a vida de gentios, foram perseguidos por reis cruéis. 
O chamado de Eliseu, conforme vemos no texto da lição apresente uma séria polêmica. Por quais motivos Deus escolheu Eliseu, ao invés de alguém do colegiado profético? Quando focamos o texto de II Rs 2. 1 - 10, percebemos que os discípulos dos profetas sabiam que Deus tomaria Elias diante de Eliseu. Estes discípulos eram homens que  faziam parte de uma antiga escola, cuja finalidade era a formação de profetas. O modo com o qual Deus indica Eliseu, ao invés de um discípulo, ou do servo de Elias, nos mostra que Deus é livre em sua escolha. Pela lógica humana, o herdeiro jamais teria sido Eliseu, mas Deus assim o quis.
Por último, Eliseu é encarregado de cumprir a missão de Elias. A ele caberá o papel de resistir os maus reis de Israel, entregar palavras proféticas, realizar os sinais que comprovam que o verdadeiro Deus é o Deus de Israel. Eliseu recebe de elias uma ordem, um encargo, o dever de levar adiante a missão que lhe foi outorgada.
Em termos culturais, o legado de Elias se vê na Teologia dos profetas. Ao contrário do que se vê nos Salmos, nos quais alguns autores adimitem a existência de outros deuses (Sl 82. 1; 86. 5; 95. 3), os profetas afirma que os deuses das nações são meros ídolos. Isaías afirma, que ao contrário do Deus de Israel, eles não podem revelar o futuro (Is 41. 23), e Jeremias pergunta: pode o homem mortal fazer os seus próprios deuses? ao que ele mesmo responde: Sim, mas estes não seriam deuses! (Jr 16. 20 NVI).
É verdade que ainda nos Salmos temos algumas declarações a respeito da nulidade dos ídolos. Um exemplo é este clássico: Os ídolos das nações não passam de prata e ouro, feitos por mãos humanas. Têm boca, mas não podem falar, olhos, mas não podem ver; têm ouvidos, mas não podem escutar, nem há respiração em sua boca. Tornem-se como eles aqueles que os fazem e todos os que neles confiam (Sl 135. 15 - 18 NVI). Mas ao observamos o contexto amplo do mesmo veremos que ainda se consideram as demais divindades. De forma que o mesmo salmista afirma: Na verdade, sei que o Senhor é grande, que o nosso Soberano é maior do que todos os deuses (Sl 135. 5 NVI). Mas é nos profetas que vemos este grito de que apenas Deus é Deus.
A verdade que não foi dita de coração no momento em que o povo de Israel viu que pelo clamor de Elias desceu fogo do céu, é afirmada de forma viceral em Israel pela boca dos profetas (Is 41. 24, 29; Jr 2. 11; 5. 7; 16. 20). E não temos como negar que este é um legado de Elias, aquele que no seu próprio nome já afirma quem é o Deus verdadeiro.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.
 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um homem de Deus em depressão





O tema mais do que nunca é atual e necessário, visto que no nosso meio, o evangélico, as doenças de cunho emocional (psicológico), não são levadas à sério. Assim, graças a Deus que a lição de EBD, comentada por José Gonçalves traz o assunto á tona. O exemplo não é de qualquer homem, mas simplesmente daquele que veio, ao lado de Moisés, a ser um grande marco do profetismo, Elias. Elqe é descrito pelas Escrituras Sagradas como um homem possuidor das mesmas paixões que nós e cuja vida se distinguiu de tantos do seu tempo em razão da seriedade na oração e dos sinais que acompanharam o seu ministério.

O contexto

Recapitulando o que temos aprendido até o momento percebemos que:

  1. Elias se apresenta a Acabe, e com ousadia pecualiar desafia o grande Deus do trovão, uma divindade cujo nome era Ba'al (בַּ֖עַל). A despeito do poder que lhe atribuem, ele afirma diante do rei: Juro pelo nome do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, que não cairá orvalho nem chuva nos anos seguintes, exceto mediante a minha palavra (I Rs 17. 1 NVI).
  2. Ele é orientado por Deus a ir até o ribeiro de Querite, para ai ser sustentado. Saia daqui, vá para o leste e esconda-se perto do riacho de Querite, a leste do Jordão. Você beberá do riacho, e dei ordens aos corvos para o alimentarem lá (I Rs 17. 3, 4 NVI).
  3. Quando o ribeiro se seca, por falta de chuva, ele é orientado a ir até a casa de uma  viúva, que mora em Serepta. Vá imediatamente para a cidade de Sarepta de Sidom e fique por lá. Ordenei a uma viúva daquele lugar que lhe forneça comida (I Rs 17. 9 NVI).
  4. De acordo com MacArthur, a cidade de Serepta é uma cidade litoral. A mesma faz margens com o mar Medterrâneo, ou o Grande Mar, e está situada a onze quilômetros ao sul de Sidom. Deus enviou Elias ao território controlado por Et' Ba'al (אֶת־הַבַּ֔עַל), a fim de mostrar lá a sua provisão para esta viúva, e que Ba'al não tinha sequer o poder sobre sua casa.
  5. Por útimo Deus envia Elias de volta a Israel, para que este confronte Acabe e os profetas de Ba'al, saindo vitorioso no embate com os falsos profetas.
 
A pergunta que não quer calar é: como um homem tão poderoso, em palavras e em obras, pode ter se amedrontado diante das ameaças de uma mulher como Jezabel. Minha sincera opinião, e pretendo mostrá-la, é a de que Elias estava, já há um bom tempo, sob fortes tenções, e que a ameaça da esposa de Acabe apenas foi o gatilho que colocou à mostra tal tenção. Por favor não se escandalize comigo, leia o texto até o fim.
 
Elias não era normal
 
O que é ser normal? Existe alguém que seja realmente normal? Etimologicamente normal, seria aquele que segue as regras, que é regular, comum (Maria Luíza Silveira Teles; O que é neurose). 
Este é o problema com relação a Elias, ele não seguia a norma enquanto todo o Israel, ou parte significativa do mesmo seguia aos costumes da casa real, o nosso profeta era um homem de identidade.  De acordo com o dicionário Michaellis, a identidade é o conjunto dos caracteres próprios de uma pessoa, tais como nome, profissão, sexo, impressões digitais, defeitos físicos etc., o qual é considerado exclusivo dela e, conseqüentemente, considerado, quando ela precisa ser reconhecida.
  1. Conforme temos visto ao longo desta série de estudos Elias trazia em seu nome o nome do verdadeiro Deus (YHWH - יהוה), o Deus que se revelou a Moisés na sarça ardente (Ex 3. 14, 15). Seu nome Elias אֵלִיָּ֨הוּ traz a verdade de que Jeová, ou Iahweh é Deus. E ele vive esta verdade em cada momento de sua vida.
  2. Não possui uma profissão anterior ao exercício profético, mas ele foi reconhecido em situação mais diversas como ish elohim (אִ֥ישׁ אֱלֹהִ֖ים), ou como trduzem as nossas Bíblias, homem de Deus. Elias desde cedo foi reconhecido como alguém cuja palavra de Deus, na sua boca era verdade. Aqui aparece o termo 'emet (אֱמֶֽת), cujo sentido tanto pode ser o de verdade quanto o de fidelidade (Sl 85. 11; 111. 8), quanto o de verdade (Sl 119. 142). Apenas estes fatores são o suficiente para tirar qualquer pessoa da dita normalidade. E mais, é uma loucura parecida com esta que Deus espera de nós. Não que tenhamos que realizar as mesmas proezas de Elias, mas nossa identidade tem de ser tão sólida quanto a dele.
  3. As vestimentas de Elias eram: roupas de pêlos e usava um cinto de couro  (II Rs 1. 8 NVI), o que fez com que o rei logo concluísse quem era, o portador da mensagem que seus embaixadores enviaram. Suas vestimentas, ainda que não fossem o termômetro de sua espirituailidade, eram de sua personalidade, e de seu modo de vida austero.
Com isto, provamos que em instância alguma de sua vida elias seguia a norma, daí a nossa expressão inicial neste tópico. Não, de forma alguma Elias era uma pessoa normal. Quando todo o povo estava dividido em dois pensamentos, em razão do culto a Ba'al, ele mantinha uma firma convicção de que Iahweh era o Deus verdadeiro. Isto o colocou em rota de colisão com toda a cultura de sua época.

O quadro da depressão em si

Nossos dicionários definem a depressão da seguinte forma: abatimento físico, ou moral. Por sua vez o abatimento é um estado caracterizado por desânimo, acabrunhamento, fraqueza, rebaixamento. É um períod de forte baixa. De acordo com Jeremy Holmes, uma pessoa deprimida é:
  1. Uma pessoa que oscila entre a agitação e a letargia. Esta última pode manifestar-se por meio de uma sonolência mórbida, ou, um estado de inércia ou indiferença; apatia.
  2. Falta de aceitação de si mesmo, associada a uma visão sombria do futuro.
  3. Ânsia e desejo frequene de morte.

E isto podemos ver em Elias uma vez que nos capítulos 17 e 18 de I Rs não vemos registros da rotina de sono do profeta, raramente ele é encontrado dormindo. Mas ao ouvir de Jezabel as intenções que esta tinha para a vida dele, Elias teve medo e fugiu para salvar a vida. Em Berseba de Judá ele deixou o seu servo e entrou no deserto, caminhando um dia (I Rs 19. 3, 4 NVI). Aqui temos o momento de agitação.
O momento de sonolência se dá quando este persiste em dormir, mesmo quando alimento lhe é oferecido. Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: Levante-se e coma. Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo (I Rs 19. 5, 6 NVI).
Elias não apresenta um mínimo traço de rejeição, ou de falta de aceitação de suas fraquezas. Mas há indícios no texto de que ele tenha apresentado, uma visão pessimista de sua carreira. Ele alega que foi zeloso, mas que a despeito de seu zelo, não é melhor do que seus pais (I Rs 19. 4). Outro aspecto a ser notado é que Obadias, servo de Acabe tinha escondido cem profetas de Deus e mantido os mesmo à pão e água (I Rs 18. 4), e Elias tomou ciência de tal fato (I Rs 18. 8 - 16). A pergunta a ser feita é: como ele argumentou diante de Deus ser o único que ficou de todos os profetas? A resposta é simples: depressão.
Daí, o passo seguinte é o desejo pela morte. Ele mesmo diz ao Senhor: Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados (I Rs 19. 4). A saída do quadro, se é que possamos dizer que Elias tenha mesmo saído deste quadro de imediato, se dá quando Deus aponta novas perspectivas para o profeta.
Uma coisa temos de admitir, não foi fácil para o homem de Deus, conduzir todo este processo de reforma e não ver resposta, nem da casa real, nem por parte do po vo. O Ba'al, conforme dissemos, só foi erradicado de Israel nos dias Jeú (II Rs 10. 28). Em outras palavras Elias não viu o resultado de toda a sua campanha. Mas Deus o conduz a ver sob um novo prisma.

Novas perpectivas

O Senhor lhe disse: Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria. Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta. Jeú matará todo aquele que escapar da espada de Hazael, e Eliseu matará todo aquele que escapar da espada de Jeú. No entanto, fiz sobrar sete mil em Israel, todos aqueles cujos joelhos não se inclinaram diante de Baal e todos aqueles cujas bocas não o beijaram (I Rs 19. 15 - 18 NVI).

Deus sinaliza para Elias, que a reforma começada por ele não terá o seu fim nos seus dias. Mas que prosseguirá para as gerações que virão. Assim uma nova  missão é apontada para Elias, a de fazer sucessão profética, e real. Cabe ao homem de Deus ungir um profeta que o suceda e mais  dois instrumentos de juízo para castigar os adoradores de Ba'al. O remédio maior para a depressão é a compreensão de que ainda temos um papel relevante a cumprir. Foi assim com o homem de Deus, é assim conosco.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.
 
 
 
 
 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Elias e os profetas de Baal


Já foi afirmado nesta série de estudos sobre a vida de Elias e Eliseu, que o primeiro é um profeta, cujo significado do nome אֵלִיָּ֨הוּ é Jeová, ou Iahweh é Deus. Seu nome se compõe da partícula El (אֵלִ), que é o diminutivo Deus אֱלֹהִ֑ים (elohim), com a partícula Yah (יָּ֨ה), que é diminutivo de יְהוָ֥ה ou  יהוה (YHWH). O motivo do retorno a este assunto se dá pelo fato de que durante muitos anos Ba'al (ַבַּ֖עַל ou הבעל ) rivalizou com יהוה (Iahweh), e o nome do profeta é um lembrete de que o povo deveria para com a atitude sincrética de conciliar o culto de Iahweh (יְהוָ֥ה ) com Ba'al (בַּ֖עַל). Neste estudo veremos uma  desafio no monte Carmelo.
 
O contexto
 
observando o contexto no qual e dão os fatos podemos entender que:
 
  1. Após três anos de seca em Israel, um período de provisão na casa de uma viúva em Serepta, Elias retorna a Israel, e por orientação divina se apresenta a Acabe com a promessa de que virá chuva sobre a terra (I Rs 18. 1). Mas antes que tal aconteça, tem de ficar claro a Acabe, quem de fato controla o clima, se Iahweh, Deus de Israel, ou Ba'al.
  2. Daí o motivo de por mais uma orientação divina, Elias mandar Acabe reunir os profetas (ְבִיאֵ֤י [nebihuim]) de Ba'al, e de Aserá (הָֽאֲשֵׁרָה֙). Diante de todo o povo, o profeta irá propor um desafio. O Deus que responder com fogo, este sim, é o verdadeiro Deus (I Rs 18. 19, 24).
  3. Sendo Ba'al (ַבַּ֖עַל ou הבעל ), o senhor dos raios e das chuvas, é mais do que esperado que ele ao menos mande um pequeno relâmpago sobre o sacrifício.
  4. Mas a maior razão do desafio de Elias é que quando este indaga ao povo a respeito de quem servirão, eles permanecem indecisos. Elias dirigiu-se ao povo e disse: "Até quando vocês vão oscilar entre duas opiniões? Se o Senhor é Deus, sigam-no; mas, se Baal é Deus, sigam-no". O povo, porém, nada respondeu (I Rs 18. 21 NVI).
  5. A cultura da idolatria, começada com Jeroboão (I Rs 12. 26 - 31), estava profundamente arraigada no coração do povo. E esta talvez seja a provável causa de indecisão face ao desafio, ao apelo do profeta Elias.
 
É neste contexto que acontece uma das mais belas histórias das narrativas do Velho Testamento.
 
No monte Carmelo
 
Quando o profeta Elias diz ao povo: vocês abandonaram os mandamentos do Senhor e seguiram os baalins. Agora convoque todo o povo de Israel para encontrar-se comigo no monte Carmelo (I Rs 18. 18b, 19a, NVI), a primeira imagem que vem à nossa mente é a de uma reunião em monte específico, e de fato tal se deu. O problema é que ao contrário do que ocorre com nossa geografia, o Carmelo não é um único monte, mas uma cadeia montanhosa.
De acordo com o docionário Wycliffe de um único pico este nome passou a ser atribuído a um conjunto de colinas que a ele estava associado, designando assim, a cordilheira montanhosa de mais de 30quilômetros de extensão, com uma largura de 5 á 12 quilômetros para o Oeste e para o Noroeste de Esdraelon, com uma altitude de 572 metros acima do nível do mar no seu cume (pág 378).
No mesmo dicionário, obtemos a informação de que o local era bem irrigado, por causa de sua exposição aos ventos do mar. E este dado é de fundamental importância para que seja respondido o questionamento a respeito da origem da água que Elias usou para irrigar o seu sacrifício, a ponto de encher as valas que o mesmo havia cavado em torno do altar (I Rs 18. 33 - 35). É bem provável que dadas às peculiardades geográficas ali tenha se acumulado água para tal, mas que ao mesmo tempo era inacessível ao povo pela dificuldade de acesso.
Neste mesmo lugar foram construídos promotório antigos às divindades que regiam o tempo. Estes fatos reunidos tornamo Carmelo o local indicado para o desafio proposto por Elias. O nome Carmelo (כַּרְמֶ֑ל[Karmel]), significa jardim. Ao que tudo nos indica, ele aparece com esta conotação em Is 32. 17, onde o Senhor promete: até que sobre nós o Espírito seja derramado do alto, e o deserto se transforme em campo fértil, e o campo fértil pareça uma floresta (NVI). Até os dias de hoje a copa do mesmo impressiona os visitantes. Na imagem abaixo, que capturamos de um blog de arqueologia, vemos esta imagem impressionante.
 
 
Resposta pelo fogo
 
A esta altura, talvez a única pergunta a ser respondida é: por que o fogo? Em primeiro lugar, já foi dito neste estudo que Ba'al (ַבַּ֖עַל ou הבעל ) é o deus dos raios, na cultura  cananéia, é claro. Aqui está sendo proposto que o rival de  יהוה (Iahweh) responda com pelo menos um dos seus raios. Fato que não ocorre.
Em segundo lugar, sucessivas vezes  יהוה (Iahweh) revindica, por meio dos profetas o poder de controlar o clima. É ele, e jamais os ídolos, o verdadeiro controlador do clima (Lv 26. 4; Dt 11. 14, 17; 28. 12, 24; I Sm 12. 17, 18; Is 30. 23; Am 4. 7). Um dos mais contundentes textos que aborda a questão é este:
Peça ao Senhor a chuva de primavera, pois, é o Senhor quem faz o trovão, quem manda a chuva e lhes dá as plantas do campo. Porque os ídolos falam mentiras, os adivinhadores têm falsas visões, e contam sonhos enganadores; o consolo que trazem é vão. Por isso o povo vagueia como ovelhas, aflitas pela falta de um pastor (Zc 10. 1, 2 NVI).
Digno de nota é a ocorrência dos termos מְטַר (mored) e גֶּ֙שֶׁם֙ (geshem), respectivamente para chuva e aguaceiro. O Deus que controla o clima tem de ter a habilidade, o poder para responder com fogo.
Por último, a história de Israel é marcada por tais respostas por meio do fogo.

  • Isto se deu na vocação de Moisés

Moisés pastoreava o rebanho de seu sogro Jetro, que era sacerdote de Midiã. Um dia levou o rebanho para o outro lado do deserto e chegou a Horebe, o monte de Deus. Ali o Anjo do Senhor lhe apareceu numa chama de fogo que saía do meio de uma sarça. Moisés viu que, embora a sarça estivesse em chamas, esta não era consumida pelo fogo. "Que impressionante! ", pensou. "Por que a sarça não se queima? Vou ver isso de perto. " O Senhor viu que ele se aproximava para observar. E então, do meio da sarça Deus o chamou: "Moisés, Moisés! " "Eis-me aqui", respondeu ele. Então disse Deus: "Não se aproxime. Tire as sandálias dos pés, pois o lugar em que você está é terra santa (Ex 3. 1 - 5 NVI).

  • Na inauguração do tabernáculo

Assim Moisés e Arão entraram na Tenda do Encontro. Quando saíram, abençoaram o povo; e a glória do Senhor apareceu a todo o povo. Saiu fogo da presença do Senhor e consumiu o holocausto e as porções de gordura sobre o altar. E, quando todo o povo viu isso, gritou de alegria e prostrou-se rosto em terra (Lv 9. 23, 24 NVI).

  • Na  vocação de Gideão

E o Anjo de Deus lhe disse: "Apanhe a carne e os pães sem fermento, ponha-os sobre esta rocha e derrame o caldo". Gideão assim o fez. Com a ponta do cajado que estava em sua mão, o Anjo do Senhor tocou a carne e os pães sem fermento. Fogo subiu da rocha, consumindo a carne e os pães. E o Anjo do Senhor desapareceu. Quando Gideão viu que era o Anjo do Senhor, exclamou: "Ah, Senhor Soberano! Vi o Anjo do Senhor face a face! (Jz 6. 20 - 22 NVI).

  • Na inauguração do templo do Senhor

Assim que Salomão acabou de orar, desceu fogo do céu e consumiu o holocausto e os sacrifícios, e a glória do Senhor encheu o templo (II Cr 7. 1 NVI).

  • No desafio de Elias

À hora do sacrifício, o profeta Elias colocou-se à frente e orou: "Ó Senhor, Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, que hoje fique conhecido que tu és Deus em Israel e que sou o teu servo e que fiz todas estas coisas por ordem tua. Responde-me, ó Senhor, responde-me, para que este povo saiba que tu, ó Senhor, és Deus, e que fazes o coração deles voltar para ti". Então o fogo do Senhor caiu e queimou completamente o holocausto, a lenha, as pedras e o chão, e também secou totalmente a água na valeta (I Rs 18. 36 - 38 NVI). 

Diante da ousadia de Elias, do claro sinal da parte de Deus, o povo, que dantes havia se mostrado indeciso, exclamou יְהוָ֖ה ה֥וּא הָאֱלֹהִֽים׃ יְהוָ֖ה ה֥וּא הָאֱלֹהִֽים׃ (Iahweh elohim, Iahweh elohim[Adonai Elohim, Adonai elohim]), o Senhor é Deus, o Senhor é Deus. O sinal serviu de motivação para a decisão do povo. Mas o culto a Ba'al só foi erradicado em Israel no reinado de Jeú (II Rs 10. 28). MacArthur observa, em sua Bíblia de Estudo, que tal iniciativa não fora motivada pelo zelo espiritual, mas por motivações políticas, ou seja, por acreditar que exterminando o culto a Ba'al ele estava enfrequecendo o partido de Acabe em Israel.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

 
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