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sábado, 27 de dezembro de 2014

Resgatando o Espanto



Li há algum tempo o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. Um dos artigos que me chamou a atenção foi o que o autor comparou os aeroportos com churrascos na lage. De fato o que não falta é gente fazendo selfie momentos antes do embarque. A sugestão de Pondé, é que se em algum momento a pessoa se vir em tal situação, que ao menos a mesma se preocupe em não demonstrar felicidade. Eu gostaria de fazer uma outra proposta. 

Mario Sérgio Cortella pontuou em Não nascemos prontos, que está faltando espanto. O assombro do qual fala o autor é a admiração diante da tecnologia, afinal, o celular, por exemplo é uma invenção que não chega a ter seus vinte cinco anos, e de lá para cá, ele foi acumulando aparelho telefônico, gravador de voz, rádio, câmera fotográfica, internet, televisão digital, entre outras coisas. Com isto o aparelho celular é um exemplo de como a humanidade deveria se assombrar diante de tamanha engenhosidade. 

Concordo com Pondé e com Cortella. Vou explicar. Tome como exemplo as redes sociais, que permitiam a aproximação de pessoas, e a comunicação em tempo real de tamanha eficácia, que praticamente eliminou as correspondências. A primeira delas foi o Orkut, que com a ascensão do Facebook, foi mandada para o lixo, e depois veio o vulgo zap zap, mandando aquele para o espaço. Acredito que sem espanto toda inovação humana corre o risco de não ser devidamente aproveitada, mas ser reduzida a um modismo, e depois descartada como se nenhuma outra contribuição viesse da mesma. 

Cresce cada vez mais, na minha cabeça que o espanto é o remédio para o tédio que apanha o ser humano, quando as coisas se tornam rotineiras. Voltando às viagens de avião, é uma das experiências mais extraordinárias que se possa ter, desde que não seja reduzida a mais uma ocasião para selfies. As aeronaves são máquinas que permitem aos seres humanos em geral fazer aquilo que lhes foi negado por sua natureza biológica (voar), e desta maneira, percorrer distâncias consideráveis em tempo reduzido (aqui já se tem motivo de sobra para espanto). 

Estar em um transporte extremamente rápido, movido a um combustível altamente inflamável, a uma altura absurda, me faz ver que a minha vida não depende de mim mesmo, que ela está nas mãos de outra pessoa, que ela é demasiadamente frágil e pequena, que a terra, tão pequena (quando vista de uma altura de vinte mil pés), é enorme diante da pequenez de cada ser humano. É neste instante que Pascal é evocado. 

Pascal fala da imensidão e vastidão do universo,e ressalta que a única grandeza do ser humano consiste em pensar, a leitura pessoal que faço dos seus pensamentos me leva á conclusão que ser consciente de seu pequenez é a essência da nobreza do homem diante do cosmos, e o misto de emoções proporcionadas por uma viajem de avião, a apreensão no momento da decolagem, o alívio no momento do pouso podem proporcionar profundas reflexões, ou como diria Cortella espanto, diante da vida, da maravilha tecnológica, do cosmos visto da altura em que se está. 

Mas tudo isto pode ser apagado pelo selfie quando este se torna um fim em si mesmo. Outra questão, o auto retrato é uma maravilha também. Há quase um século e meio era necessário se colocar imóvel durante horas para que a posição fosse gravada em uma tela por um pintor, aí veio a máquina de fotografar e facilitou para quem era retratado, depois vieram as câmeras fotográficas, facilitando a quem retratava, mas criando ansiedade para quem era fotografado e desejava saber como havia ficado. Foi então que surgiram os celulares com suas câmeras digitais, viabilizando um auto retrato e a imagem instantânea da mesma, bem como a publicação em rede sociais. Mas ninguém se espanta com isto mais, o modismo banalizou esta maravilha tecnológica e dispensou a arte e o artista.

Mesmo diante de toda esta maravilha, eu fico com a sensação de pousar de avião em meio a uma forte chuva. É incrível estar atravessando uma nuvem com a visibilidade totalmente obstruída, e somente perceber que está chovendo quando ao visualizar a paisagem, ver as gotas de água escorrendo na janela do avião. É algo que beira praticamente ao fascinum e tremendum.

Eu acredito que se você teve paciência para ler este artigo até aqui, talvez esteja se perguntando o que isto tudo tem a ver com churrascos na lage. Eu que venho de comunidades percebo que as mesmas proporcionam visões fantásticas de dois cenários. De um lado a natureza, de outro, das realizações humanas. Ambas são motivo de espanto, mas a despeito toda a maravilha que uma visão da lage proporciona ninguém se espanta, ou sequer frui da beleza seja natural, seja arquitetônica, e este é o grande pecado da geração atual, tanto na lage quanto nos aeroportos. 

Forte Abraço, Marcelo Medeiros.

sábado, 6 de dezembro de 2014

A Paz Demanda Consenso Absoluto?



Neste momento estou assistindo a um vídeo protagonizado por religiosos, dentre os quais Ed René Kivtz e o filósofo Luís Felipe Pondé. Um assunto que me salta aos olhos é a possibilidade de convivência pacífica entre as religiões. Falo dele porque o momento atual, do politicamente correto, prega o relativismo e a tolerância extremada, chegando ao extremo de considerar intolerante que discorda. 

Minha resposta à pergunta que dá título a este post é um sonoro não. Em primeiro lugar,  é preciso que se pergunte pela conceituação lexical da palavra. Em segundo, recomendo que se faça uma reflexão da definição lexical. Por último, que se perceba que a paz não é a ausência de conflitos, mas a sábia administração dos mesmos. 

Isto fica bem na cara quando, ao pesquisar a palavra no dicionário, se depara com o verbete harmonia. A palavra me faz voltar automaticamente para o mundo musical, onde harmonia é definida como a disposição de notas diferentes simultaneamente tocadas. Dentro da harmonia há os acordes consonantes, feitos a partir de terças e quartas superpostas, e os dissonantes, que são os que acrescentam os intervalos de sétima, maior, ou menor, nona, etc...

A verdade é que não se faz música com uma única nota, nem o samba de uma nota só é de fato de uma nota só. A melodia dá a sensação de que é uma única nota, mas a harmonia, como tem nota! Face á exposição, a paz é algo que demanda a diferença com suas consonâncias e dissonâncias. Desafiando é uma canção da Bossa Nova que, ao meu ver é um dos maiores exemplos de como a harmonia funciona de forma dissonante, sem este fator, a música não expressaria um desafinado que ama a arte em apreço. 

Paz é entender que quem não concorda, que quem distoa tem algo importante a dizer.



Marcelo Medeiros. 

domingo, 16 de junho de 2013

Admirável Mundo novo


A primeira vez que li este livro, o fiz motivado pela indicação de um professor de História da Educação, enquanto cursava Pedagogia na UNESA. Ver que o mesmo era fonte de uma série de estudos filosóficos sobre o filme Matrix reforçou ainda mais. Anos mais tarde começo a vislumbrar uma realidade cada vez mais parecida com os horrores descritos no livro em apreço. É mais do que fato que em nossa sociedade ainda não vivemos a realidade da clonagem, muito menos da programação genética, o que deixa um espaço, ainda que mínimo para a liberdade, visto que ao contrário do que verificamos no romance, as pessoas ainda podem (em tese), escolher que função exercer em nossa sociedade. Outra realidade da qual estamos distantes é a forma de envelhecimento. As pessoas da distopia huxelyana não sofrem os efeitos da ação do tempo, elas não envelhecem, apenas morrem, e mais uma vez vemos aqui a alteração genética. De acordo com Pondé, aqui vivemos um tipo de bovarismo, onde as pessoas com maiores recursos, apelam às cirurgias plásticas como forma de uma suposta correção dos efeitos da ação do tempo. Mas alguns pontos relatados no romance podem ser vistos em nosso nada admirável mundo. 
O primeiro, as pessoas são programadas, mediante constante emprego da psicologia behaviorista, a cada vez pensarem menos, ou serem menos críticas. Com isto não queremos dizer que a sociedade não era eficiente, muito pelo contrário, com as pessoas geneticamente programadas para exercerem as suas respectivas funções, com a divisão humane em Alfa, Beta, e outras categorias sendo cada uma destinada a um conjunto de funções sociais, tudo corria bem, do ponto de vista tecnocrático. Mas sem nenhuma liberdade para o pensamento, ou para a crítica. Cabe lembrar que mesmo que tal não tenha ocorrido, se de alguma forma vier a ocorrer teremos um fenômeno descrito por Lewis no seu A Abolição do homem. Em outras palavras, no dia em que a ciência de alguns homens que dominam a natureza alcançar o homem, e controlá-lo da mesmo forma que o faz com os demais fenômenos naturais então será o fim. 
E de fato, não é preciso ser cientista para perceber o alto investimento em marketing que os que controlam as mídias fazem, para que percebamos como o estímulo está associado à resposta. Basta olhar para o comercial do guaraná, da cerveja e perceber a associação que se faz entre bebida e sexo, diversão, entretenimento, satisfação e coisas do tipo. Mas o behaviorismo não se limita ênfase no consumo, mas afeta igualmente a ação política, que em nossa sociedade não é mais decidida por meio do pensamento crítico, mas pelo apelo midiático constante, a propaganda, ou o que chamam de debate, que na verdade é o uso de estratagemas artificiosos para o convencimento. 
O segundo aspecto em que ocorrem semelhanças entre a sociedade descrita no livro, e a nossa, é o alto investimento que a mesma fazia nos prazeres do sentido. Aqui fica o alerta para as atuais iniciativas governamentais para com a Educação sexual, por exemplo. A imagem de nosso país, é vendida por aí afora como a de um paraíso sexual. O mais curioso é que os colonizadores da América virão nela um protótipo do paraíso perdido em função da liberdade religiosa que lá experimentaram. Os Colonizadores daqui viram um paraíso em termos de riquezas a serem exploradas. Hoje, além da exploração das riquezas, da mão de obra barata, temos a exploração sexual, amplamente fortalecida e apimentada pelos debates em torno da legitimidade das relações homo afetivas, e da legalização da prostituição como profissão. Enfim, o tema da sexualidade anda em voga, mas o que está por trás de todo este discurso de liberdade é o uso do sexo como arma para amortecer o ímpeto das pessoas, mas como o texto mesmo o diz, esta é uma prisão da qual ninguém quer sair. 
Isto é bem parecido com o que Platão elaborou em sua República. A despeito de todo aquele papo que lemos no livro sétimo, a grande verdade é que a república de Platão era baseada numa mentira, que para ser sustentada, mantida, os soldados, e os demais membros da sociedade eram premiados com muita diversão e muito prazer para os seus sentidos, de forma que não viessem a questionar o sábio rei filósofo. Para isto, as mulheres seriam comunais, os guerreiros teriam direito a quantas mulheres e a quantos meninos quisessem, e estariam sempre prontos a exercerem a função para a qual nasceram programados a de defender a cidade. No entendimento platônico as almas humanas não eram iguais, alguns tinham alma de ferro (os soldados), outros de bronze (os artesãos), e os rei filósofo, uma alma de ouro. Deu para ver a semelhança? 
Por último, o mais curioso, dois grandes legados de nossa cultura, a ciência, a religião e as artes, entrarão cada vez mais em declínio até que estejam em museus acessíveis somente aos governantes e aos poderosos. Tal como na República de Platão, onde somente o sábio filósofo saia da caverna a fim de contemplar as idéias puras, assim ocorre em nossa sociedade, onde o conhecimento e a ciência estão empregando uma linguagem cada vez mais hermética, acessível somente aos iniciados nos saberes, que nunca são democratizados. As artes estão sofrendo contínuo declínio, de forma que as melhores elaboradas são cada vez mais inacessíveis ao povo leigo, e tudo reforçado por um discurso antropológico relativista. a própria religião tende a se transformar em um caldeirão de sopa de entulho. Em nome de um discurso em prol da diversidade estão construindo justamente o contrário, uma religiosidade na qual todos os deuses são igualmente verdadeiros. É mais do que lógico, que do momento em que as pessoas afirma que duas coisas opostas são verdadeiras, nenhuma delas na verdade o é. 
Esta mistura de psicologia comportamentalista, com uma política de incentivo aos prazeres, aliada à morte da ciência, da arte, e da religião produzem o cenário descrito por Huxley, onde o mundo é uma ditadura disfarçada de democracia, e a sociedade uma prisão sem muros, da qual as pessoas não querem sair, por estarem drogadas pelo prazer. 

Marcelo Medeiros

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O ateísmo é brega


Minha principal motivação em escrever este singelo artigo sobre Pondé e a visão que o mesmo tem sobre o ateísmo, se dá em virtude de que é no campo filosófico e científico, com larga predominância do primeiro, que tem ocorrido as mais calorosas discussões entre teísmo e ateísmo, o que tem feito com que muitos cristãos se aprimorem, ou busquem cada vez mais a formação filosófica. Um dos filósofos mais atrativos da atualidade é o brasileiro Luís Felipe Pondé. Seu Guia Politicamente Correto da Filosofia é nitroglicerina pura, um dos livros mais provocativos que já li. 
O livro, como era de se esperar de um cristão, despertou a curiosidade do autor desta post. Afinal, qual é a religião de Pondé? De um lado a resposta foi surpreendente, de outro não. Confesso que num primeiro momento achei que fosse religioso, mas ao ver a entrevista do mesmo no programa Roda Viva, e na Marília Gabriela, julguei que ele fosse niilista. Mas para minha surpresa, ele mesmo não se define assim. Pondé se define como alguém que transita entre o ateísmo, e o teísmo, e mais adiante falaremos sobre a postura do mesmo. Por enquanto convém que nos atenhamos a entrevista do vídeo da presente postagem. 
Em uma entrevista, feita após uma palestra que segundo informações do canal do youtube, fazem parte de uma palestra sobre as razões do ódio; aliás, parece que em várias outras entrevistas, o filósofo Luís Felipe Pondé afirmou que o ateísmo é brega. Com isto o autor quer dizer que o Ateísmo, não pode ser visto como uma conquista da razão. Na verdade, fé e descrença, de acordo com o autor (que neste ponto reflete bem os moralistas franceses, tais como Montaigne, e Pascal), nada têm a ver com razão. Em outra entrevista, cujo teor pode ser acessado na íntegra, por meio deste link: http://www.paulopes.com.br/2011/12/ateismo-como-conquista-da-razao-e.html#.Ua40JNK1GHh, o filósofo em questão afirma que os teólogos mais clássicos entendiam que a fé é uma graça de Deus, em outras palavras, uns viriam a crer, e outros não. Se até o presente momento você leu este post e me considerou um herege, leia mais atentamente o que Paulo escreveu aos crentes de Tessalônica (II Ts 3. 2), onde se lê que a fé não é de todos. Até este ponto sou forçado a concordar com o apóstolo das gentes e com Paulo de Tarso, o da Bíblia, é claro, sem falar que eles vem acompanhados de muita gente boa. 
O fato acima descrito é reconhecido, mesmo por apologistas como Norman L. Geisler e Willian Lane Craig,  bem como pelos herdeiros dos trabalhos intelectuais destes gigantes da fé. Em outras palavras, um apologeta entra em um debate com a finalidade de se dirigir aos ouvintes da platéia, que estão em sincera dúvida quanto à fé cristã, e por falta de respostas ainda não se decidiram. Geisler e Turek afirmam, no livro Não tenho fé suficiente para ser ateu, que ambos os interlocutores investiram muito em seus conhecimentos, para abrirem mão com facilidade de suas respectivas visões. Aqui aspectos emocionais e sentimentais, enfim, psicológicos são abordados. EM OUTRAS PALAVRAS, PONDÉ ACERTOU, E COMO!
A fim de exemplificar que o ateísmo é rudimentar e básico em suas assertivas o filósofo em apreço apela para o fato de que uma das principais razões para os ateus alegarem a não existência de Deus, é a presença do mal no mundo, e que como pessimista que é, ele mesmo, se vê, em muitas ocasiões, tomado por estas idéias, o que lhe permite transitar entre o ateísmo, e o teísmo. Típico de filósofo? Talvez, mas creio que exista explicação mais rica para tal sentimento em Pondé, e ele pode ser encontrada em alguém que com extrema intensidade transitou entre as duas visões acima descritas, C. S. Lewis. Antes, convém ressaltar que o maior mérito do vídeo, é a funcionalidade do mesmo como um soco na boca do estômago, visto que o mesmo agride, e muito bem, o orgulho ateísta presente em grande parte dos debates entre os proponentes da visão ateísta e os religiosos. 
Mas como explicar que um filósofo assuma este impasse, sem com isto denegri a tão nobre ramo do conhecimento humano, e do qual vieram todos os demais conhecimentos (para não falar em ciência)?  Se olharmos para Pascal, que é um dos moralistas franceses, por exemplo, veremos que este descria totalmente de argumentos racionais, ou mesmo nos da natureza, para provar a existência de Deus. Deus, para Pascal, é um Deus que se esconde, e que só pode ser conhecido por meio de Jesus Cristo (pensamento 247). A opção entre um mundo caótico, e a crença em Deus, é uma questão mais de aposta do que de razão. Afinal, o coração tem as suas razões que a própria razão desconhece. Fato é que Deus está além dos horizontes da razão, e se a ciência, ou, mesmo a argumentação lógica passam a ser critérios para a verdade, então nada pode ser dito sobre Deus, que de acordo com Pascal só pode ser conhecido em Cristo, em outras palavras, por meio de um relacionamento pessoal. Em outra postagem prometo analisar o argumento da aposta de Pascal, que ao meu ver não visa ser uma prova para a existência de Deus, mas a descrição de um drama epistemológico vivido pelo ser humano. 
A contribuição de C. S. Lewis é ainda mais marcante. Ele foi ateu durante muitos anos, mas foi alvo da graça de Deus, que ele chama de alegria, e voltou para a Igreja. Ele afirma que quando era ateu, ele fundava sua cosmovisão no fato de que o mundo em que habitamos é caótico, é mergulhado no sofrimento, e os homens que nele habitam ajudam a aumentar ainda mais o sofrimento presente. Em vários de seus livros ele observa o seguinte: da mesma forma que existe sofrimento no mundo há bondade (é esta bondade que faz com que Pondé veja Deus em alguns momentos da vida, e por este motivo afirme a existência do mesmo). Retornado a C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz, ele brinca com os que a partir do caos, ou do sofrimento que existe no mundo, ousam a afirmar que Deus não existe, uma vez que a maioria dos que assim agem, o fazem sem muita, ou a partir de uma experiência rasa com o sofrimento, nas palavras do demônio fitafuso, eles nem sabem o que é uma dor de dente, mas se afetam com a fome na África, e coisas do tipo. 
Cabe dizer aqui, que C. S. Lewis, confessou no livro Cristianismo Puro e Simples, que em muitos momentos de sua fase como ateísta ele chegou a duvidar de que estivesse certo, mas por uma questão de convicção ele se aferrou às idéias que defendia. Quando finalmente abraçou a fé, ele passou pelas mesmas oscilações, mas se aferrou às idéias teístas. Ao meu ver o quadro atual de Pondé reflete tal oscilação, que ao meu ver, do ponto de vista intelectual, é das mais honestas, mais cética, mais rica filosoficamente e mais humilde. 
Como Cristão, creio que mesmo um pouco de dúvida a nossa fé faz bem. Como? a dúvida, diz Timothy Keller, funciona como um anticorpo em nosso organismo, quando superada, nos deixa imunes. Mas não há como permanecer na dúvida eternamente, como diria Pascal, é necessário apostar. 



Pr Marcelo Medeiros

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

 

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

Foi instituído em nosso país mediante a lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007, sancionada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, e aos olhos de muitos que militam em prol da diversidade esta representou um avanço face ao reconhecimento do próprio Estado da existência do problema. De acordo com o site Wikipédia, a intolerância religiosa pode se manifestar como perseguições, aos grupos diversos e como uma atitude político ideológica. E aqui reside um problema que pretendemos abordar nas linhas abaixo.

Uma breve consulta na Wikipédia, ou mesmo a leitura superficial da história, nos mostra que momentos históricos específicos grupos religiosos mais distintos passaram por este tipo de situação. Daí todos os esforços empreendidos para que tal quadro histórico não se repita em nossos dias. O problema é que, o discurso em prol da tolerância se apresenta como ameaçador ao Cristianismo em razão do seu caráter "exclusivista". Em outras palavras: para todo cristão Jesus é o caminho a verdade e a vida, portanto, quaisquer alternativas, que não Cristo estão descartadas, Daí a nossa necessidade de refletir sobre o assunto.

A primeira reflexão a ser feita é que a "Tolerância Religiosa", bem como a "laicização do Estado" são bençãos para nós cristãos. De forma alguma podemos nos valer do Estado, bem como de leis que imponham a nossa religiosidade para aumentar nosso número de adeptos. Até porque, na própria Bíblia encontramos o relato de uma reforma empreendida por Zorobabel, e no decorrer da mesma Deus usou o profeta Zacarias para dizer: Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito’, diz o Senhor dos Exércitos (Zc 4. 6 NVI). O Cristianismo não é uma religião baseada em força, mesmo que em determinados períodos da história, tal expediente tenha sido usado.

A segunda reflexão é de natureza filosófica e aborda a natureza da verdade. Ela é possível dentro do campo religioso? Creio que sim. E na verdade todo religioso crê desta forma. Mas como esta questão aparece no debate? Por meio da afirmação de que todas as religiões são verdadeiras. Neste aspecto me satisfaço com a afirmação de Geisler: "se a verdade não existe como posso afirmar qualquer coisa sobre ela, mesmo que seja para negá-la?". Na verdade, exigimos a verdade de nossos políticos, de nosso cônjuge, e no entanto a negamos na teoria, e nos discursos. Creio que esta é uma atitude que Paul Tournier chamaria de neurótica. Mas o problema não para por aqui.

Em um dos comentários a respeito do assunto no facebook alguém postou a seguinte pérola: não existe religião verdadeira, nem falsa [...]. Leia aqui.  Confesso que este superou todos os demais inclusivistas, visto que estes advogam a veracidade de todas as religiões. Este conseguiu criar uma categoria para além da verdade e do erro, e a pergunta a ser feita é: o que existe para além da verdade e do erro.

Via de regra, o que se faz é afirmar a veracidade e a validade de todas as religiões. E aqui temos um problema, detectado por Geisler e Pondé. As crenças religiosas fazem afirmações diversas e excludentes a respeito da realidade. Se observarmos as três religiões monoteístas por exemplo, veremos que a  despeito de possuírem uma matriz comum, o judaísmo entende que tá na onda certa, por este motivo alguns, ainda aguardam o messias, enquanto outros defendem uma interpretação de que Israel é este Messias. Para o Cristianismo, Jesus, o Cristo, ou χριστος, forma grega da palavra messias מְשִׁיחִֽי (ou massiah), é , como o próprio nome o sugere, este Messias, ao passo que para o islamismo tanto judeus, quanto cristãos estão no bonde errado.

Para os judeus o profeta por excelência é Moisés. A confissão de fé mulçumana afirma que há um só Deus e Maomé é o seu profeta. Para os cristãos toda figura humana, inclusive a de Moisés, foi superada por Jesus Cristo. Não há como dizer que todas estão certas, nem como dizer que todas estão erradas, ou que não são nem certas e nem erradas. Alguém pegou o bonde errado. E aí começa o conflito, e como diz Pondé, passados os vinte minutos, é preciso ir aos croquetes (paráfrase). Acho que é na boca que começa toda tolerância com o outro.

Nossa terceira reflexão tem a ver com o significado que as palavras: tolerância e intolerância, tem assumido em nossos dias. Intolerância é definida no michaellis como: Falta de tolerância, sendo a qualidade de intolerante, a pobreza quanto a definição me levou a recorrer ao signifcado antônimo do termo, que é: ato, ou efeito de tolerar, de admitir, de aquiescer. Neste aspecto sou forçado a dizer que o crente em Cristo,convicto de que a Bíblia é a Palavra de Deus e como tal é verdade NÃO PODE SER TOLERANTE.

O verbo aquiescer é definido como anuir, ceder, condescender, consentir. Ou seja, ser tolerante aqui é o mesmo que crer que todas as religiões são verdadeiras, que as afirmativas dos mambros dos demais grupos religiosos é verdadeira. Para que tal coisa acontecesse, necessário seria que sequer tivéssemos opinião, ou que reconhecêssemos que nossa posição é falsa.

Por outro lado, o termo também pode ser comprendido como sendo: o direito que se reconhece aos outros de terem opiniões diferentes ou até diametralmente opostas às nossas. Aqui temos a tolerância no sentido legal dos termos, uma vez que nossa constituição nos garante o direito à liberdade de opinião. Também encontramos no léxico em apreço a seguinte definição: pequenas diferenças para mais ou para menos, legalmente permitidas no peso ou no título das moedas. Eu gostaria de usar esta definição de forma analógica e afirmar que em todo grupo social isto ocorre. A unidade é muito diferente da homogeneidade, e para ser mantida, pequenas diferenças tem de serem preservadas, e até mesmo respeitadas. Isto ocorre no interior de grupos cristãos com posicionamentos a respeito desta, ou daquela doutrina. Por último, tolerância é a boa disposição dos que ouvem com paciência opiniões opostas às suas. Esta, por razões que esclarecerei nas linhas abaixo, é a mais importante para nós cristãos.

Dentro destes termos, e exclusivamente dentro dos limites acima expostos, sou forçado a afirmar que a tolerância deve de ser cultivada por nós cristãos. 1) Um Cristão o tem dever de obedecer leis justas, que não se oponham aos princípios da Palavra de Deus, por este motivo tem de aceitar e lutar pelos direitos à diversidade de opiniões. 2) Para convivermos precisaos de tolerância. Isto se dá com nossas relações familiares, sociais, trabalhistas etc... . 3) Precisamos de tolerância para o exercício de nossa missão.

Stott afirma que parte da missão da Igreja consiste exatamente em "ouvir o mundo", para dialogar com o mesmo. Se não ouvirmos: não entederemos os anseios mais profundos das pessoas, não estabelceremos pontos de contato, e não seremos ouvidos. Mesmos nas opiniões opostas às nossas podemos estabelecer pontos que nos permitam ver em quais perspectivas os anseios das pessoas de religiões diferentes podem ser satisfeitos por meio do Evangelho.

Enquanto os donos do poder sonham com um mundo onde todas as pessoas consideram as religiões como igualmente verdadeiras, sonho com uma Igreja TOLERANTE, não no sentido da aquiescência com toda e qualquer idéia, mesmo as que contradigam os pricípios básicos de nossa fé, mas que pacientemante ouça e perceba o anseio de nosso mundo por transcedência, por significado e relevância. ESTA É A ÚNICA TOLERÂNCIA QUE DEUS QUER DE NÓS.
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros
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