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quinta-feira, 26 de março de 2015

O Boicote à Babilônia



Ao que parece o boicote à nova novela das nove, Babilônia já surtiu seus efeitos nas redes sociais, primeiro foi o deputado com nome de carro, depois uma representante do partido comunista do Brasil. O que eu acho disto? Simples, para mim o recado do mundo já está dado, mas a Igreja tem de dar o seu. Vou me explicar melhor nas linhas abaixo. 

Não creio em movimento algum da Igreja que possa frear o ideologismo das novelas da Globo, e não é na pressão, ou coerção que os cristãos devem influenciar a sociedade ao seu redor. Os atuais autores fazem aquilo que sua natureza pede que eles façam e qualquer ação coercitiva exterior constitui uma violência àquilo que eles entendem como sendo a sua essência. O resultado de tal ação estapafúrdia será maior ódio deles em relação ao cristianismo e à religião em geral. 

É mais do que previsto na Bíblia que cristãos seriam odiados pelo mundo e que nem por este motivo deveriam se maravilhar (espantar). Todavia, que o sejam pelo motivo correto. Nos Evangelhos há uma bem-aventurança para os que são perseguidos pela causa da justiça, ou seja, para aquele que são hostilizados pelo mundo em razão de serem como Cristo o foi. 

(É provável que você leitor não crente esteja dizendo para si mesmos, que se os crentes fossem como Cristo jamais seriam perseguidos. Balela! Na sociedade atual todo indivíduo, com personalidade própria é aborrecido, e por uma razão simples, as pessoas tendem a odiar aquilo que não pode ser enquadrado em esquemas, daí o ódio a Cristo, e a quem de fato pretenda ser seu seguidor). 

O Jesus das Escrituras nem sempre é encantador, ele tem junto de sua compaixão e misericórdia um lado austero. Quando tudo estava pronto para ele ser feito rei, Ele teve a audácia de proferir um discurso impopular, provocando evasão da população que estava pronta para a revolução. Jesus não é revolucionário. Também não é clericalista, afinal, mandou que seus discípulos fossem servos uns dos outros. Não era nem anarquista e muito menos conservador. Era capaz de discursar contra o pecado e no entanto comer com pecadores. Daí a fonte do ódio do mundo à pessoa de Cristo. 

Martin Lloydd-Jones alertou à Igreja da Inglaterra sobre o perigo de cristãos virem a serem perseguidos por causa de sua intransigência, por exemplo. pior do que tudo isto são as estereotipias em função do mau testemunho de algumas lideranças evangélicas, bem como do flagrante desalinhamento para com os ensinos de Jesus. 

Concordo com o boicote cristão à novela Babilônia por uma única razão. Cristãos precisam ocupar o pensamento com coisas mais excelentes, desenvolver hábitos de convivência familiar mais sadios e salutares do que o isolamento midiático que tem desagregado a família. E neste ponto não estou sozinho, mas trago comigo as intervenções filosóficas de ninguém mais que Mario Sergio Cortella. 

Face as colocações supra, se a Igreja tem algum motivo para abominar Babilônia e qualquer lixo global, que este não seja, em hipótese alguma o selinho das personagens representadas por Fernanda Montenegro, e por Natália Timberg. Primeiro, porque prostituir, chantagear, enganar, subornar, e uma série de outras ações mostradas na novela são tão pecaminosas quanto. 

Uma outra razão para que se boicote Babilônia é a noção de entretenimento, que pode ser a mesma que ilusão. Pascal advertiu que os divertimentos distraíam o homem privando-o de contemplar sua própria miséria. Creio que mesmo a crítica seja uma forma perigosa de divertimento a ser evitada, e na qual teimo por razões existenciais, mas por crer que possa contribuir. 

Por último, o boicote pode sim ser justificado mediante a aplicação maior à leitura, oração, meditação, e a coisas mais excelentes que podem e devem fazer parte da rotina diária de um cristão. Reafirmo que é ilusão esperar de pessoas com mentalidade pervertida, claramente anticristã, atitudes e valores cristãos. É igualmente absurdo boicotar a novela apenas pela exposição do beijo gay a suportar a injustiça sofrida pelo personagem representado por Camila Pitanga, bem como as distorções dos mecanismos do Direito que são usadas para perverter a justiça e perpetrar a maldade

Um forte abraço em Cristo, Marcelo Medeiros. 

segunda-feira, 16 de março de 2015

Vem vamos embora que esperar não é saber




Neste artigo faço menção aos versos da canção pra não dizer que não falei das flores, popularizada por meio da inesquecível interpretação de Geraldo Vandré. Esta canção se tornou o hino nacional contra a ditadura. Faço menção à referida canção em razão dos protestos deste último domingo. Eles refletem o caldeirão cultural e a babilônia (falo no sentido de confusão das línguas ocorridas no evento bíblico Babel) ideológica que esta nação povoada pelas mais diversas etnias se tornou.

Nunca, assim creio eu, foi tão necessária a esta nação uma voz que traduzisse para os próprios manifestantes seus mais profundos anseios. Falo disto, porque não tenho como acreditar que o povo queira, de fato, intervenção militar, ou ditadura (diga-se de passagem que ambas são extremamente diferentes), mas inaceitáveis. O povo quer é retorno nos impostos, fim de regalias para políticos, melhorias na saúde, educação, segurança e demais serviços.

Enquanto governo e oposição discutem o teor das manifestações, e o fazem com o foco na polarização direita/esquerda, em conspirações contra a democracia (falo dos pedidos "populares" de impeachment), em golpismo, em corrupção do governo (como se esta fosse um problema da situação, ao invés da marca indelével desta nação); o grito permanece preso no coração das pessoas.

Vejo imagens em redes sociais de pessoas com faixas e nestas a cruz suástica, simbolo do nazismo cuja herança maldita ninguém quer de fato. Outras seguram faixas pedindo intervenção militar, alguns chegam ao cúmulo de solicitar a volta da ditadura. E onde a canção de Geraldo Vandré entra nisto? No simples verso quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

João Bosco, grande filósofo da MPB acertou em cheio quando disse que a esperança equilibrista sabe que o show do bom artista, tem que continuar. Particularmente creio que é a Esperança o gás que move professores a continuar ensinando mesmo em um país onde o governo corta gastos com educação e teóricos insistem em querer aplicar conceitos empresariais e meritocráticos à educação como se educar fosse similar à produção fabril, por exemplo.

É a esperança que move o homem a ser minimamente honesto, mesmo em meio ao lamaçal de este corrupção que este país tem se tornado. Mas perceba que o autor fala de uma esperança equilibrista, o que supõe um abismo a ser atravessado. Atravessar o abismo equilibrando na esperança é o desafio de quem sabe e faz a hora e não espera acontecer.

Aqui são mais do que válidas as palavras de Paulo Freire e frequentemente citadas por Mario Sérgio Cortella, é preciso esperar, mas esperar do verbo esperançar, em outras palavras, uma espera que não é passiva, mas que conforme atravessa o abismo do real em direção ao utópico, ao esperado, ao desejado.

Toda vez que vejo um Fora Dilma, Fora PT, e tantas outras palavras de ordem presentes nos protestos dos últimos anos me lembro das palavras acima, que somente agora consigo traduzir, mas que já as trago como anseio. O problema com a democracia no Brasil está na falta de percepção de que é preciso saber esperar, mas esperar do verbo esperançar, e que aí reside a sabedoria do esperar que é saber e que faz acontecer, não percebido por Vandré.

O brasileiro sofre de um mal, o de esperar o amanhecer de um pensamento, que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento, e com isto se entrega a toda e qualquer cruzada quixotesca. Não há mudanças que ocorram em um passem de mágica. A democracia à brasileira ainda é muito marcada pela herança nefasta da ditadura. A própria ausência de participação popular no processo democrático, nas cobranças ao governo, no uso politico consciente das redes sociais demonstra isto.

Por este motivo não atendi a solicitação de Malafaia, não coloquei camisa amarela, e não fui, e nem irei às ruas pedir a volta da ditadura. Me manifestarei sim contra a corrupção e contra a forma de se fazer política neste país. Todavia, o farei sabedor de que o momento atual ainda que não seja perfeito é democrático em sua essência e infinitamente melhor do que o retrocesso à ditadura. E mais, a precariedade de nossa democracia (bem como tudo o que reclamam em Dilma) a é consequência direta da nefasta herança ditatorial. 

Falo isto sabedor de que os militares deixaram o poder há mais de vinte anos e que já era o tempo em que o povo e os políticos deste país deveriam começar a acertar. Estes cumprindo a sua real missão, aqueles cobrando, mas esperançoso de que no caminho a ser percorrido ambos aprenderão por meio de erros e acertos. 

Ao povo que protesta nas ruas, eleitores de Dilma, ou não, foco. E o foco é a corrupção, que não é particular do PT e menos ainda do PSDB, mas da forma de se fazer política neste país. Aos políticos, chega de conchavos e protecionismos. Transparência nas ações políticas e no combate á corrupção são palavras de ordem. E acima de tudo, entendam que este é o real pedido do povo nas ruas. 

Marcelo Medeiros.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Resgatando o Espanto



Li há algum tempo o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. Um dos artigos que me chamou a atenção foi o que o autor comparou os aeroportos com churrascos na lage. De fato o que não falta é gente fazendo selfie momentos antes do embarque. A sugestão de Pondé, é que se em algum momento a pessoa se vir em tal situação, que ao menos a mesma se preocupe em não demonstrar felicidade. Eu gostaria de fazer uma outra proposta. 

Mario Sérgio Cortella pontuou em Não nascemos prontos, que está faltando espanto. O assombro do qual fala o autor é a admiração diante da tecnologia, afinal, o celular, por exemplo é uma invenção que não chega a ter seus vinte cinco anos, e de lá para cá, ele foi acumulando aparelho telefônico, gravador de voz, rádio, câmera fotográfica, internet, televisão digital, entre outras coisas. Com isto o aparelho celular é um exemplo de como a humanidade deveria se assombrar diante de tamanha engenhosidade. 

Concordo com Pondé e com Cortella. Vou explicar. Tome como exemplo as redes sociais, que permitiam a aproximação de pessoas, e a comunicação em tempo real de tamanha eficácia, que praticamente eliminou as correspondências. A primeira delas foi o Orkut, que com a ascensão do Facebook, foi mandada para o lixo, e depois veio o vulgo zap zap, mandando aquele para o espaço. Acredito que sem espanto toda inovação humana corre o risco de não ser devidamente aproveitada, mas ser reduzida a um modismo, e depois descartada como se nenhuma outra contribuição viesse da mesma. 

Cresce cada vez mais, na minha cabeça que o espanto é o remédio para o tédio que apanha o ser humano, quando as coisas se tornam rotineiras. Voltando às viagens de avião, é uma das experiências mais extraordinárias que se possa ter, desde que não seja reduzida a mais uma ocasião para selfies. As aeronaves são máquinas que permitem aos seres humanos em geral fazer aquilo que lhes foi negado por sua natureza biológica (voar), e desta maneira, percorrer distâncias consideráveis em tempo reduzido (aqui já se tem motivo de sobra para espanto). 

Estar em um transporte extremamente rápido, movido a um combustível altamente inflamável, a uma altura absurda, me faz ver que a minha vida não depende de mim mesmo, que ela está nas mãos de outra pessoa, que ela é demasiadamente frágil e pequena, que a terra, tão pequena (quando vista de uma altura de vinte mil pés), é enorme diante da pequenez de cada ser humano. É neste instante que Pascal é evocado. 

Pascal fala da imensidão e vastidão do universo,e ressalta que a única grandeza do ser humano consiste em pensar, a leitura pessoal que faço dos seus pensamentos me leva á conclusão que ser consciente de seu pequenez é a essência da nobreza do homem diante do cosmos, e o misto de emoções proporcionadas por uma viajem de avião, a apreensão no momento da decolagem, o alívio no momento do pouso podem proporcionar profundas reflexões, ou como diria Cortella espanto, diante da vida, da maravilha tecnológica, do cosmos visto da altura em que se está. 

Mas tudo isto pode ser apagado pelo selfie quando este se torna um fim em si mesmo. Outra questão, o auto retrato é uma maravilha também. Há quase um século e meio era necessário se colocar imóvel durante horas para que a posição fosse gravada em uma tela por um pintor, aí veio a máquina de fotografar e facilitou para quem era retratado, depois vieram as câmeras fotográficas, facilitando a quem retratava, mas criando ansiedade para quem era fotografado e desejava saber como havia ficado. Foi então que surgiram os celulares com suas câmeras digitais, viabilizando um auto retrato e a imagem instantânea da mesma, bem como a publicação em rede sociais. Mas ninguém se espanta com isto mais, o modismo banalizou esta maravilha tecnológica e dispensou a arte e o artista.

Mesmo diante de toda esta maravilha, eu fico com a sensação de pousar de avião em meio a uma forte chuva. É incrível estar atravessando uma nuvem com a visibilidade totalmente obstruída, e somente perceber que está chovendo quando ao visualizar a paisagem, ver as gotas de água escorrendo na janela do avião. É algo que beira praticamente ao fascinum e tremendum.

Eu acredito que se você teve paciência para ler este artigo até aqui, talvez esteja se perguntando o que isto tudo tem a ver com churrascos na lage. Eu que venho de comunidades percebo que as mesmas proporcionam visões fantásticas de dois cenários. De um lado a natureza, de outro, das realizações humanas. Ambas são motivo de espanto, mas a despeito toda a maravilha que uma visão da lage proporciona ninguém se espanta, ou sequer frui da beleza seja natural, seja arquitetônica, e este é o grande pecado da geração atual, tanto na lage quanto nos aeroportos. 

Forte Abraço, Marcelo Medeiros.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Do mal será queimada a semente



Escrevo este artigo sob a inspiração da brilhante provocação filosófica de Mário Sergio Cortella. O livro Não se desespere, traz um artigo com o tema deste post. E o impacto que o mesmo exerceu sobre mim, pode ser explicado através da profunda admiração que tenho por algumas letras de canções da musica popular brasileira, dentre as quais a canção Juízo Final, composição de Nelson do Cavaquinho em parceria com Elcio Soares, cuja letra segue abaixo:
O sol há de brilhar mais uma vez
A luz, há de surgir nos corações. 
Do mal, será queimada a semente, 
O amor, será eterno novamente

É o juízo final, a história do bem e do mal
quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer. 
O foco de Cortella é a profecia nas palavras: O amor, será eterno novamente, O amor, será eterno novamente. É quando o autor discorre a respeito do conceito de esperança enquanto  expect-ativa (um jogo de palavras que faço para enfatizar o caráter ativo da esperança defendida por Cortella), ao invés da espera passiva. Para o autor em apreço a ação de esperançar demanda decisão na qual o indivíduo se propõe a queimar a semente do mal.
Semente? Sim, pois é potência, é possibilidade, é virtual. Somos capazes, porque humanos e livres, da prática deletéria, da ação maldosa, da agressão danosa. Humanos e livres, pulsões lesivas despontam como cenário e vontade em muitos dos nossos atos e omissões. Semente pode virar planta ou árvore ou fruto ou flor; semente, como o ovo, contém o novo. Semente pode virar praga, ou erva daninha ou veneno ou droga lesiva; semente como ovo pode apodrecer ou ser nefasta. 
Sei que as intenções do autor supra não são estas, mas a mim é impossível ler estas palavras sem fazer associação com aquilo que Pascal disse a respeito da miséria e grandeza que o homem traz em si. Ao mesmo tempo me lembro de Paulo que disse saber que a lei é boa, e o mandamento santo, justo e bom, mas que também sabe que em seu ser não habita bem algum.

Na verdade um olhar atento para a letra de Juízo Final traz revelações ainda mais aterradoras, para que o amor seja eterno novamente (alguma vez ele foi, se foi quando deixou de ser?), é necessário que a semente do mal seja queimada, para que tal ocorra o sol tem de brilhar mais uma vez, a fim de que luz resplandeça nos corações. É aqui que ponho o meu foco. Não é coisa fácil ao homem perceber a maldade potencial que ele traz consigo, e quero expor os motivos nas linhas abaixo. 

Com grande sabedoria Salomão afirmou que todo o caminho do homem é puro aos seus olhos, em outras palavras é fácil enxergar a inveja, o orgulho, a mentira, nos outros, ao passo que em si mesmo, com extrema raridade. Tanto a sociedade secular quanto a religiosa abominar o espírito farisaico. Mas o grande problema de ambas é prestar atenção na essência farisaica que traz em si mesmo. Brennan Manning chama a atenção para este fato no seu clássico O Impostor que Vive em Mim.

Para uma maior compreensão das ideias que passarei a expor nas linhas subsequentes, gostaria de pontuar que os fariseus, não eram somente religiosos. A compreensão que se tem deste importante grupo se resume à esfera religiosa, nada mais enganoso do que isto. Eles também eram um grupo político. Religião e política eram colocadas ao serviço dos interesses deste seguimento que aprendeu a amar as honras pessoais mais do que a glória de Deus.

O processo de secularização produziu o maior dos engôdos, o de que a religião (vista como um grande mal pela mente iluminista), estava suprimida, pelo menos nas mentes mais esclarecidas, quando na verdade a dimensão de religiosidade apenas se deslocou do transcendente para o imanente. Em termos práticos conciliar religião com política não é privilégio exclusivo dos evangélicos, com a diferença de que a religião do homem moderno é institucional, partidária, acadêmica, científica, etc...... . Daí que qualquer um possa ser um fariseu desta nova religião. Feita a explicação, sinto plena liberdade de voltar ao que disse Brennan Manning. 

Mas quando todos, inclusive eu, se tornam fariseus? No momento em que transferem a culpa para os outros, em que buscam o poder da religião, ou o saber acadêmico visando controlar os outros. Grande marco é a famosa parábola do fariseu e do publicano. O primeiro se preocupa em agradecer a Deus pelo fato de não ser como os demais homens, o que inclui o publicano que ora ao lado dele. O publicano se concentra em seus pecados e justamente por este motivo desce justificado. 

Ver o seu próprio pecado é um dos maiores sinais do alcance da graça de Deus na vida de um homem, uma vez que há pecados que sequer são percebidos como tais. É por este motivo que Davi ora a Deus para que este o livre dos pecados que lhe são ocultos (Sl 19. 12 - 14). Dentre os pecados ocultos se situa a soberba, algo que se confunde com o amor próprio, e que segunda leitura que faço de Pascal é a grande responsável pela cultura de hipocrisia que permeia grande parte da moral pública. 

Vencer a dinâmica do auto engano requer iluminação. Para que do mal seja queimada a semente e para que o amor seja eterno novamente há de se deixar ser iluminado pelo sol, que se permitir que a luz brilhe nos corações, é aqui que se fazem mais que pontuais as palavras do apóstolo João,
Amados, não vos escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que recebestes desde o início; este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. E no entanto é um mandamento novo que vos escrevo - o que é verdadeiro nele e em vós -, pois as trevas passam e já brilha a verdadeira luz. Aquele que diz que está na luz e odeia a seu irmão, está em trevas até agora. O que ama a seu irmão permanece na luz e nele não há ocasião de queda. Mas o que odeia a seu irmão está nas trevas; caminha nas trevas, e não sabe para onde vai porque as trevas cegaram seus olhos (I Jo 2. 7 - 11 Bíblia de Jerusalém). 
Para que haja uma queima da semente do mal, necessário se faz com que a luz do sol brilhe nos corações. Para João somente o brilho da verdadeira luz abre possibilidade ao verdadeiro amor, aquele que lança fora todo o medo (atenção, este é o nome da semente do mal, visto que os homens o praticam motivados pelo medo).

Forte abraço, Marcelo Medeiros. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Baby, baby, baby ou...... (algo bem próximo da depressão)

 
Domingo passei um perrengue para chegar em minha residência, as ruas fechadas em razão do Show do Justin Bierber (seria esta a forma correta de escrever o nome? Sei lá), o que me obrigou a andar a pés e ver algumas cenas que consideraria patéticas. Pessoas simulado desmaios e crises convulsivas, gritado freneticamente, umas por não possuírem o dinheiro para o ingresso, e outras por que mesmo com dinheiro, não conseguirão os tão almejados ingressos. Mais enervante ainda foi a cena em que produtores do evento fingiam desprezo pelas fãs, como se seus proventos, e os do suposto astro não tivessem em todo aquele fanatismo a sua origem.
Os leitores por favor, não me levem à mal, mas usamos o termo patético de forma errada. Ele advém do grego pathos (παθος) e é corretamente definido em nosso léxicos on line como sendo a arte de despertar nos outros os sentimentos ou afetos de que estamos possuídos. Em outras palavras, o que não é patético não pode ser considerado como arte, uma vez que patético é aquilo que comove fortemente. Mas não é com isto que me incomodo. Na verdade meu espanto vem da observação de que é justamente o contrario que está ocorrendo.
O que está acontecendo na verdade é o culto ao ridículo. Dizemos que algo é patético quando na verdade, estamos falando que algo é ridículo. Dando a palavra ao pai dos burros o ridículo é algo  merecedor de escárnio ou zombaria, que se presta à exploração do lado cômico, irrisório, risível: situação insólita e mesmo ridícula. E uma nova indústria esta se formando em torno do ridículo. A dos comediantes que não possuem o menos traço de graça, mas que ao explorarem a imagem de cantores consagrados sendo venerados por seus fãs, encontram um público disposto a rir da graça que fazem. Outra ramificação deste fenômeno é a crítica do obvio, daí a minha negação em se quer falar, ou escrever sobre este ícone da musica pop atual.
Não tenho, nem posso ter nada contra  Justin Bieber (agora sim, escrito da forma correta!). Quem tem seus a-has de vidro, não jogue pedra no Justin Bieber dos outros. Permitam que eu me explique melhor. Tive os ícones musicais de minha geração. Mas nunca consegui sofrer, ou sequer me rasgar por nenhum deles. Aprendi a curtir a arte deles da mesma forma que do alto da comunidade em que morei aprendia a desfrutar da beleza do nascer e do por do sol, das noites estreladas, da chuva caindo, e mesmo a variação das estações (hoje nem sempre perceptível). Isto sim poderia ser considerado por nós como patético, mas jamais como ridículo.
Ridículo, ao meu ver, é a falta, ausência de espanto de nossa geração. Como afirmou o filósofo Mário Sergio Cortella, qualquer surpresa com qualquer produto tecnológico é indício de que a pessoa não o possua, ou não está familiarizada com o mesmo. É mais do que óbvio, para quem tenha lido o artigo de Cortella, que ele está falando da admiração pela constante inovação tecnológica. Mas o cito, porque vejo esta mesma logica (a da banalização) sendo estendida à vida como um todo.
Não acredito que quem não se sensibiliza com grandeza e fragilidade da vida, com o mar, com a praia, com o vento, com a natureza, com a imensidão do universo, com a nossa excelência (demonstrada no pensar) e com nossa baixeza; seja capaz de se sensibilizar com arte. O que resta quando se perde o espanto é o ridículo. Eu, por exemplo, me espantei com a ausência de comoção com a morte do cantor, compositor Dominguinhos, um grande músico. Sei que o Nordeste produz t1200000000222226ocadores de acordeão às pencas como ele. Mas Ele era ainda um dos poucos a estarem na mídia, e ao meu ver representava um grupo de artistas que eram admirados por uma geração que entendia o que estes faziam porque tinha em comum o senso de espanto.
Tudo bem que já naquele tempo haviam as tietes fanáticas, por Gonzaguinha e cia. Mas todos boa parte da geração da minha mãe, por exemplo cantava que o barato da vida era viver e não ter a vergonha de ser feliz, felicidade esta que estava na beleza de ser um eterno aprendiz. Eles sabiam que a vida podia ser bem melhor e nutriam a esperança que ela de fato seria melhor. Em outras palavras aquela sim era uma geração patética, a final o lema era: a esperança equilibrista sabe que o show do bom artista, tem de continuar. Eles sim tinham a capacidade de se comoverem, visto que ainda havia espanto. Não estou dizendo que eles eram melhores do que nós, mas que fruíram a vida de forma melhor. Para Cortella,
não se pode perder, porém, é a capacidade de ficar espantado; essa perda nos leva a achar tudo muito óbvio e rotineiro, impedindo a admiração, que conduz à reflexão criadora. É o famoso (e fundamental) "parar para pensar" e, claro, admirar. ver http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq0806200021.htm
 
Ao meu ver é Justamente isto que está faltando a junção entre: espanto, admiração e reflexão, e esta sim deveria ser a finalidade da arte, ao invés do cultivo da tietagem. Não se espantem, mas nojo maior é o que sinto, quando vejo este mesmo quadro no mundo gospel. Sou capaz de me espantar com a performance de um Talles Roberto, com os recursos que ele tem, ainda que goste de poucas músicas dele. Mas sinto nojo na quase idolatria que o público sente por ele. Ao meu ver quem idolatra um artista perde aquilo que de fato deveria nos mover ao apreço de qualquer arte.
Na idolatria deixamos de ser patéticos e nos tornamos ridículos, risíveis. Patético é quem está (co)movido com algo. Seres patéticos sabem que somente na esperança é possível se equilibrar diante da vida e fazer da mesma um show em que cada um de nós é um bom artista. E nesta condição temos de fazer o espetáculo seguir.
 
Marcelo Medeiros, um patético (digo comovido e movido pela vida).  
 
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