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terça-feira, 1 de abril de 2014

Introdução ao Sermão do Monte (discipulado)


Com o advento de modelos de crescimento o tema do discipulado e do trabalho com pequenos grupos vem ganhado cada vez mais espaço nos dias atuais. Tem sido recorrente o discurso de que a finalidade da vida cristã é que cada discípulo seja um reflexo de Cristo. A fala não é nova, ela aparece em C. S. Lewis, Jonh Stott, e até em Brennan Manning. Uma preocupação que me vem à mente, é com relação a questão do conteúdo. Sim, creio que o sermão do Monte traz em si o conteúdo pleno para o discipulado, isto, se o mesmo for aplicado de forma correta.
É necessário o entendimento prévio de que o sermão do monte não é uma coletânea de regras morais, mas um discurso cujo contexto se situa no inicio do ministério de Cristo. Mateus, afirma que Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo (Mt 4. 23 ACF). Em resposta ao tríplice ministério de Cristo (pregação, cura e ensino), uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão (Mt 4. 25 ACF), o seguia. É a estas informações que imediatamente o evangelista coloca Jesus em um monte e os seus discípulos se aproximando do mestre. Conclusão: o sermão do monte tem de ser lido á luz da proclamação do Reino dos céus, ou Reino de Deus, feita pelo Filho de Deus, este é o primeiro ponto a ser observado.
Enquanto proclamação do Reino de Deus, o sermão do Monte traz as boas novas da proximidade do mesmo, bem como o acesso que os indigentes espirituais tem ao mesmo. Brennan Manning é feliz em pontuar que o sermão em apreço não começa com um conjunto de regras, mas com a ditosa promessa de o reinado divino é acessível aos pobres de espírito, aos que sabem que nada podem fazer por si mesmos. Mas como ensino, o mesmo é uma descrição do caráter dos súditos do Reino. Um retorno à pregação de João Batista proporciona a compreensão de que tanto para os que são convictos dos seus pecados, quanto aos que não o são, o arrependimento é condição para o ingresso na dispensação do Reino (Mt 3. 2, 8), Jesus segue este mesmo pensamento (Mc 1. 15). Assim, no contexto da pregação, as bem-aventuranças, por exemplo são a descrição do que o precursor do Messias havia chamado de frutos dignos de arrependimento.
Neste ponto do presente estudo cabem as observações de Martin Lloydd-Jones, para quem as virtudes descritas no sermão do monte somente poderia ser observadas na vida de homens regenerados, nascidos de novo e que jamais os leitores do sermão em apreço poderiam confundir as mesmas com os variados aspectos do temperamento humano, principalmente nos pontos em que a sociedade os tem como positivos. O que quero afirmar aqui é que o arrependimento é o ponto de partida para a pobreza de espírito, para o quebrantamento exigido por Deus, para a mansidão. Sem metanóia (μετανοια), não há a possibilidade de se ter fome e sede de justiça, de exercer a misericórdia para com os demais, de ser pacificador, e muito menos de ter um coração puro.
É de suma importância para o entendimento do texto em apreço que as palavras do ensino do monte foram dirigidas aos discípulos de Cristo. Então, temos aqui o que se exige de um genuíno discípulo de Cristo, que seja um imitador do mestre em todos os aspectos, desde sua pobreza, seu quebrantamento, sua mansidão (Mt 11. 29, 30), sua fome e sede da justiça de Deus (Jo 4. 34), sua compaixão (Mt 9. 35), sua pureza (Hb 7. 26), e principalmente sua disposição em sofrer pelo reino.
Quem quer que espere do Evangelho ao diferente do que Cristo teve neste mundo, precisa meditar nas palavras que Mateus registrou quando disse: Não é o discípulo mais do que o mestre, nem o servo mais do que o seu senhor. Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos? (Mt 10. 24, 25 ACF), e: Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa (Jo 15. 20 ACF).
O discípulo de Cristo é antes de tudo bem aventurado, sal e luz deste mundo, possuidor de uma justiça que excede toda forma de piedade externa, é alguém que não se atém à letra das normas e das regras, mas busca o espírito das mesmas (e justamente aí reside a sua justiça). Ser discípulo de Jesus é ser alguém cuja vida de devoção não é algo a ser publicado, usado como marketing pessoal, mas alguém cuja maior marca em sua relação com Deus é a intimidade. O discípulo sabe que não compensa em nada granjear o mundo inteiro e perder a sua alma. Daí que entre Deus e o dinheiro, ele fique com Deus, em que estão os mananciais da vida. No coração do verdadeiro discípulo de Cristo não há espaço para nenhuma forma de ansiedade, muito menos para julgamentos temerários, apenas sabedoria e discernimento, no tocante à administração dos dons divinos e na clara percepção a respeito dos falsos profetas, na firme disposição para com o cumprimento da vontade de Deus, e na estabilidade (permanência diante das adversidades).
Resumindo: O sermão do Monte não deve jamais ser visto como um conjunto de regras morais a serem levadas ao pé da letra, mas como proclamação da proximidade do Reino de Deus, e neste aspecto ele é tanto a descrição do caráter dos discípulos e súditos do reino do reino quanto o teste de qualidade dos mesmos. É a prova cabal de que ocorreu sincero e verdadeiro arrependimento no coração dos homens de pretendem entrar pela porta estreita.
O que se espera do leitor do referido texto é que ele atenda ao apelo existencial contido no mesmo, e deixe de orientar a vida pelos valores do presente século, e passe a orientar a vida pelos valores do reino de Deus. Não há mais lugar para o orgulho, para a vontade de potencia, para a avareza, enfim, para nada mais que represente a velha natureza.
Os que edificam suas vidas no contexto deste ensino de Jesus estão construindo sua vida sobre a rocha, ao passo que os que apenas ouvem aquilo que Cristo fala, mas não se predispõem a obedecer constroem suas vidas sobre a areia. Além da perda total de todo um investimento, os que desobedecem ao apelo do presente sermão ainda recebem a reprovação no dia do juízo. Afinal, de nada adianta chamar a Cristo de Senhor, mas não fazer a vontade do Pai, que por sua vez é revelada no presente ensino. Minha oração é que Deus conceda a mim e a todos quantos quiserem o espírito a fim de que esta vontade divina seja posta em prática.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

terça-feira, 11 de março de 2014

Discipulado, objetivo, conteúdo, e metodologia


 
 
O discipulado tem sido um assunto cada vez mais recorrente em nossos dias. Ele tem ganho espaço na mídia referente aos assuntos cristãos e no discurso dos modelos de crescimento em razão de ser compreendido pelos idealizadores de tais modelos como método de fundamental importância para o crescimento da Igreja. Minha preocupação com o tema se dá em razão de ser o discipulado uma ordem de Cristo aos seus discípulos, embora em Mt 28. 19, 20, a ordem seja referente à condução das pessoas à obediência dos ensinos de Cristo, e crescimento sequer seja mencionado. Fato é que o discipulado foi a marca da Igreja primitiva, tanto que o nome usado para se referir aos cristãos primitivos era discípulos e paralelo ao de crentes.

A finalidade dos discipulado bíblico consiste na geração de crentes que obedeçam, guardem ao que Jesus ensinou. Ensinar o Cristo ensinou já se constitui um grande desafio. Agora levar as pessoas à obedecer ao que Cristo ensinou é um desafio maior ainda. Todavia no relato paralelo de Marcos, é possível observar que Cristo cooperava com os seus discípulos na execução da missão que lhes havia concedido. Mas a despeito da cooperação de Cristo com os apóstolos, é possível notar que eles tinham um objetivo (anunciar a Cristo com intuito de levar os homens ao arrependimento e à remissão de pecados), um conteúdo (o ensino de Cristo era matéria do διδαχή [didaché] apostólico), e uma metodologia, uma vez que eles ensinavam todos os dias no templo e nas casas. Na dúvida leia: todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo (At 5. 42). Aqui vemos objetivo, conteúdo (a boa nova do Cristo) e metodologia (ensino diário). Este mesmo paradigma pode ser percebido em Paulo, veja:

O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor; Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados;
O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;  Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.
E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus. 
A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis, [....] Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória; A quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo; E para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente (Cl 1. 13- 29 ARCF). 
 
Qual é o objetivo claramente delineado aqui? Apresentar todo o homem perfeito em Jesus Cristo. Não se trata de mera perfeição moral, mas da perfeição decorrente do estar em Cristo. O termo que aparece aqui para perfeito é o grego τέλειον (teleion), cujo sentido varia desde perfeição até a maturidade. Neste aspecto o texto tem de ser lido à luz do contexto de da carta gêmea de Paulo aos colossenses. Aos Efésios Paulo afirma que o propósito da obra do ministério é a edificação do corpo de Cristo, a saber, que alcancemos a estatura de varão perfeito, άνδρα  τέλειον (andra teleion), que equivale a estar conformado a Cristo. Paulo diz: até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo (Ef 4. 13 NVI).

Agora perceba, caro leitor que o amadurecimento na fé depende do conhecimento de Cristo, e que para isto são instituídos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, visando o aperfeiçoamento dos santos para a obra do ministério. Uma vez os santos aperfeiçoados o corpo, como um todo, cresce para o pleno conhecimento de Cristo. É aqui que retornamos ao texto de Cl 1. 13 – 29.

É o conhecimento de Cristo, e de sua obra que garante a perfeição almejada pelo próprio Cristo quando aqui na terra (Mt 5. 48), o que nos remete ao conteúdo. O homem perfeito é um homem que foi resgatado do império das trevas para o reino de amor do Filho de Deus, cuja principal marca é o fato de haver sido resgatado dos seus pecados, de sua vã maneira de viver.

O homem perfeito é o homem que sabe que todas as coisas foram criadas em Cristo e para Ele são, e assim sendo o governo de sua vida não lhe cabe mais, mas ao Senhor que o resgatou. Sim o tão ansiado reino de Deus começa agora com o reino de Cristo na vida do cristão, do homem regenerado. Este reino se expressa por meio de uma comunidade cuja maior marca é a reconciliação promovida na cruz, que por sua vez possui duas dimensões. No aspecto vertical ela nos lembra a nossa reconciliação com Deus (Rm 5. 8 – 10), no horizontal, nossa reconciliação com os homens (Ef 2. 13- 16).


Este é o conteúdo ministrado por Paulo, e a julgar pela carta, suficientemente poderoso para que os objetivos (promover a maturidade) sejam alcançados. Mas o grande fato que tem de ser ressaltado aqui é que a totalidade do conteúdo é Cristo. O discipulado não é meramente teológico, mas primordialmente cristocêntrico. Daí que escrevendo aos irmãos de Corinto, Paulo tenha dito: decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado (I Co 2. 2 ARCF). Mas não basta falar de Cristo, quando se faz isto de forma esporádica.

O que precisamos é falar de Cristo em toda a sabedoria. Para isto necessário se faz com que este falar de Cristo se dê por meio de exortação e de ensino, e isto em παση σοφια (pasee Sophia). O termo grego para ensinar é διδασκω (didaskoo), ao passo que para advertir, ou admoestar é νοιθετέω (noithetéoo), que por sua vez é oriundo de duas palavras gregas νοως noous [mente]), e τιθεμι (tithemi), cujo significado é o de colocar. Com isto, o verbo na verdade significa trazer à mente. De posse de tais dados exegéticos é possível a compreensão de que Paulo, na verdade se vale de todos os recursos para que o seu ensinamento não seja esquecido, mas seja constantemente lembrado.

A respeito da sabedoria, vale lembrar que o pentecostalismo, meio do qual faço parte, tem sido invadido por um discurso tendenciosamente anti intelectual, Jonh Stott, afirmava que ao abrir mão de pensar, o homem abre mão de dignidade que o criador lhe conferiu. Retornado ao apostolo Paulo, se observa o mesmo afirmando:

falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se aniquilam; Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória(I Co 2. 6, 7 ARCF).

O termo perfeito aqui é o mesmo empregado por Paulo na carta aos Colossenses. Τελειοις (teleiois) é empregado para maturidade. É claro que esta sabedoria não pode, nem deve, sob hipótese alguma ser reduzida á sabedoria deste mundo, pois a considerar o contexto dos textos aqui citados a identidade da sabedoria aqui é Cristo (I Co 1. 30, 31). Não é sem razão que Paulo ora,
Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2. 2, 3 ARCF).

Para o pregador da fé ente os gentios estava claro que a maturidade demanda sabedoria, e que sendo Cristo esta sabedoria, quando mais o conteúdo de Cristo fosse exposto, tanto mais as pessoas seriam amadurecidas na fé. Assim, alem de dispor da ajuda divina para tal, ele ainda se valia dos recursos simbólicos para proclamar a Cristo. Aqui se faz necessária uma outra reflexão. Mais do que uma metodologia, o discipulador tem de contar com o poder de Deus para ser bem sucedido. Neste ponto o leitor pode perceber que retornei à fala inicial. Mas antes de encerrar Este post gostaria de chamar a atenção para a fala final do apostolo no texto base deste estudo. E para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente (Cl 1. 29 ARCF).

A primeira observação é que discipular é um trabalho árduo. Ao mesmo tempo em que não nos cabe salvar o mundo, nos cabe fazer de tudo para ganhar os que estão de fora. Daí a propriedade do termo κοπιω (kopioo), cujo sentido é o de um trabalho que conduz á exaustão. Tanto que a mesma palavra pode ser traduzida por cansaço. A segunda observação é que o termo αγωνιζομενος (agonizoomenos), que é uma das conjugações de um verbo (αγωνιζομαι [agonizomai]) cuja equivalência em nossa língua é de: competir, de combater. Ele aparece no texto que Paulo faz a seguinte observação: E todo aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível (I  Co 9. 25 ARCF). A última observação é que este combate é realizado por meio da força (ενεργειαν [energeian]) divina. Em nossas versões ενεργειαν é traduzida por eficácia. Esta é a daquilo que produz o efeito que se espera. Ou seja, a perfeição, ou a obediência ao que Cristo ensinou é garantido pelo poder de Deus.

 

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros

 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Condições para o genuíno discipulado

 
Atentemos para o texto abaixo:

Disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: "Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará". Eles lhe responderam: "Somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém. Como você pode dizer que seremos livres? "Jesus respondeu: "Digo-lhes a verdade: Todo aquele que vive pecando é escravo do pecado. O escravo não tem lugar permanente na família, mas o filho pertence a ela para sempre. Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres (Jo 8. 31- 36 NVI).
 
Este é um dos textos mais conhecidos de nossa Bíblia. Frequantemente lançamos mão do mesmo para pregar em cultos ao ar livre, evangelismos e  nos chamados cultos evangelísticos. Mas qual é a mensagem de Deus para nós nestes dias finais. O que nosso Pai tem a falar para nós por meio deste texto. Muito assim creio, uma vez que o mesmo faz menção a Jesus, o divisor de águas de nossa história, e fala de um dos temas mais caros, a liberdade.
Tal liberdade não consiste em se fazer o que se quer da vida, mas resulta de um processo de desvencilhamento do pecado, que por sua vez está ligado à submissão à Palavra de Cristo. Sem discipulado, e um autêntico relacionamento com Cristo, não há como se experimentar a libertação prometida no texto. Daí a nossa necessidade de, ainda que em inhas gerais, abordar o texto sob a ótica da temática acima apresentada. De acordo com o texto, quais são as condições para o desenvolvimento do genuíno discipulado?

Crer em Jesus. Esta é uma exigência constante nos Evangelhos. E crer em Jesus, implica necessariamente ouvir a sua palavra e crer no Pai. Jesus mesmo afirmou: Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida (Jo 5. 24 NVI). O verbo grego ακωη (akooee), pode ser traduzido tanto como ouvir, quanto para obedecer. A disposição em obedecer é precedida pela fé genuína.
Permanecer na Palavra. Parece que este é um dos conceitos chave do Evangelho de João. Em um dos últimos discursos de Jesus aos seus discípulos, o Mestre faz sucessivas menções a este verbo.
 
Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido (Jo 15. 4 - 7 NVI).
 
Da leitura é possível observar que:
  1. Permanecer em Jesus é a condição para que Jesus permaneça conosco.
  2. Também é o caminho para a frutificação espiritual.
  3. Não permanecer em Jesus e em sua Palavra acarreta morte espiritual.
  4. A permanência em Jesus e em sua santa palavra é o segredo de uma vida de oração bem sucedida.
 
Ser discípulo. É mais do que ser aluno, ou admirado. É estar disposto a seguir Jesus, e até a cruz, se necessário for. O aluno é alguém que ouve os ensinos do mestre e seleciona o que concorda do que discorda. Jesus não permite tal relação. Ele nos chama para sermos seguidores seus, e pronto (Mt 10. 25; Jo 15. 19, 20). O discipulado é muito mais do que orientar as pessoas quanto às doutrinas da fé, ou preparar pessoas para o batismo. Consiste no processo de ensinar as pessoas a guardarem tudo o que Jesus tem dito (Mt 20. 19, 20) Este é o nosso desafio.
Conhecer a verdade. A verdade dentro do Evangelho de João é muito mais do que uma categoria filosófica. É uma pessoa de carne e osso, que quando viveu entre nós teve o nome de Jesus. Ele mesmo fez a seguinte afirmação a respeito de si mesmo: εγω ειμι η οδος και η αληθεια και η ζωη (egoo eimi ee odos, kai aletheia, kai ee Zooee), em português claro: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14. 6 NVI).
Conhecer a a verdade é conhecer a Jesus, tanto que no texto que dá base ao presente estudo, Jesus afirma: conhecerão a verdade, e a verdade os libertará, e, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres (Jo 8. 32, 36 NVI), indicando com isto que a Verdade, ou a αληθεια (aletheia) e o Filho, são as mesmas pessoas.
O conhecimento pessoal, diferente do conhecimento teórico não pode se basear exclusivamente nas informações que temos a respeito das pessoas. Conhecer a Jesus é similar a percorrer uma estrada de carro, afinal, ele disse ser o caminho que nos conduz ao Pai. As informações bíblicas, teológicas e afins, que temos dele são como o GPS, cuja finalidade consiste em orientar, mas olhar o GPS não significa conhecer a estrada. Este conhecimento da verdade encarnada e personificada em Jesus só pode ser acessado mediante relacionamento Mestre, discípulo.
Ruptura com o pecado. Sem romper com o pecado, nosso relacionamento estará comprometido. Uma vez que não poderemos permanecer na PALAVRA. Aliás, est é o sentido da similitude que Jesus faz. O escravo não tem lugar permanente na família, mas o filho pertence a ela para sempre (Jo 8. 35 NVI). Escravos do pecado não podem crer em Jesus (Jo 16. 8), não podem conhecer a Jesus e não podem permanecer em sua palavra. Veja o seguimento deste mesmo discurso:
 
Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo. Vocês pertencem ao pai de vocês, o diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira. No entanto, vocês não crêem em mim, porque lhes digo a verdade! (Jo 8. 43 - 45 NVI). 
 
Deus nos ama, a despeito do nosso pecado, mas permanecer no pecado, após termos recebido o conhecimento da verdade, ou quando somos confrontados pela verdade do Evangelho, é ser escravo, e, O escravo não tem lugar permanente na família. A situação pode ser vista em pessoas que à todo custo fogem do ensino, dos estudos bíblicos, se escondem atrás de um ativismo desenfreado e irrefletido. E são escravas dos seus desejos, de sua natureza corrompida e caída. Para estes Jesus segue afirmando: Qual de vocês pode me acusar de algum pecado? Se estou falando a verdade, porque vocês não crêem em mim? Aquele que pertence a Deus ouve o que Deus diz. Vocês não ouvem porque não pertencem a Deus (Jo 8. 46, 47 NVI). 
 
À luz do texto e do contexto o maior e mais claro sinal de que uma pessoa não pertence a Deus, é usa rejeição para com a própria palavra de Deus. Sem as Escrituras, Cristo não se faz presente, sem a presença do mesmo, não há libertação. Outro sinal de que a pessoa não pertence a Deus é a sua permanente condição de escrava do pecado, visto que Jesus oferece plena libertação (I Jo 3. 6 - 10). Liberdade não pode ser confundida com a autonomia para que possamos fazer o que nos agrada, o que desejamos. Não! É a isenção de todas as possíveis restrições que nos impediam de nos relacionar com Deus e com nosso próximo. Esta é a verdadeira liberdade. Na verdade a única viável.
Aqui, convém que nos esqueçamos das definições do dicionário. Sim, que larguemos de mão este papo de isenção de restrição externa ou coação física ou moral. Sempre teremos a voz do Espírito a nos orientar (Hb 3. 7 - 14). Nossa vontade tem de se dobrar à vontade de Deus, não o contrário. Que Deus nos abençoe e nos capacite cada vez mais a entendermos isto.
 
Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.
 
 
 
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