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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A Parábola do Tesouro Escondido


Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo.

Outrossim o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a (Mt 13. 44 - 46 ACF). 
Há tanta coisa aqui no mundo,que pertence a quem

achar, ricos tesouros escondidos,são de quem os encontrar,e

eu achei cristo,e ele me achou,e bem mais que isto,ele me

amou, pertenço á ele,sou todo dele,jesus é meu tesouro pelo

amor.

Os homens lutam por riquezas,que um dia vão ter

fim,mas o tesouro duradouro,meu Deus guardou pra mim,e eu

achei cristo,e ele me achou,e bem mais que isto,ele me

amou, pertenço á ele,sou todo dele,jesus é meu tesouro pelo

amor (Édson Coêlho). 
O Reino de Deus, aqui chamado de Reino dos céus é um tema mais que recorrente na pregação de Cristo. Tanto ele quando o Batista conclamam o povo ao arrependimento face á chegada do reino (Mt 3. 2; 4. 17), tanto que as boas novas que o Messias traz são chamadas de notícias do Reino (Mt 4. 23) mas o que vem a ser este? Creio que seja objetivando uma resposta a esta pergunta que Cristo faz do principal tema de sua pregação, o cento do seu ensino. 

No capítulo 13 do Evangelho de Mateus, é possível de se identificar  cinco parábolas que revelam os mistérios do Reino de Deus, inclusive a respeito da natureza do mesmo. Começo com esta por ser, ao meu ver a mais esclarecedora a respeito do principal tema da pregação de Jesus e centro da expectativa dos público a quem tais exposições foram feitas. 

I) O Reino é semelhante

Do momento em que leio a respeito do Reino e percebo que uma das marcas distintas do mesmo é o seu caráter duradouro, ao passo que todas as coisas do mundo passam, percebo que o emprego do termo ομοια (omoia), cuja tradução em nosso idioma é a de semelhante, não pode ser compreendido como constituído da mesma substância. A colocação de que o Reino é semelhante a um tesouro escondido é analógica. 

O texto bíblico afirma categoricamente: as coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu,e não subiram ao coração do homem,são as que Deus preparou para os que o amam  (I Co 2. 9 ACF), daí que para que as mesmas pareçam minimamente compreensíveis aos homens a linguagem seja acomodada. Afinal, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente  (I Co 2. 14 ACF). 

Logo, tudo que se possa falar das realidades espirituais, incluindo aqui o Reino de Deus há de ser feito por analogia, comparação. Esta linguagem é muito comum nas Escrituras, tome por exemplo o livro de Apocalipse e comprove que para falar do cordeiro que foi morto e reviveu, João diz que viu entre os castiçais um semelhante ao Filho do homem (Ap 1. 13), cujos pés são semelhantes a latão reluzente (Ap 1. 15; 2. 18), ao ver o trono de Deus, e contemplar o que estava assentado sobre ele, o apóstolo amado o descreve assim: na aparência, semelhante à pedra jaspe e sardônica (Ap 4. 3). 

Ao descrever a vinda de Cristo, João o faz nas seguintes palavras: olhei, e eis uma nuvem branca, e assentado sobre a nuvem um semelhante ao Filho do homem, que tinha sobre a sua cabeça uma coroa de ouro, e na sua mão uma foice aguda (Ap 14. 14). O autor de Hebreus afirma categoricamente que Cristo é o esplendor da glória de Deus (Hb 1. 3), e João descreve tal magnificência dizendo que o seu brilho era como o de uma jóia muito preciosa, como jaspe, clara como cristal (Ap 21. 11). 

Não há como traduzir o inefável em palavras, daí o uso recorrente à analogia. Agora, perceba a analogia que será feita, o Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. O que se pode aprender por meio desta comparação? Desde já quero dizer que tenho o próprio ensino de Cristo como padrão hermenêutico das parábolas, e partindo deste ouso dizer o seguinte: 1) o Reino é de sumo valor, 2) O reino é algo oculto. Logo, o mesmo nada tem a ver com as pretensões dos imaturos discípulos de Cristo, que esperavam a implantação de uma política teocrática, ou a restauração davídica e em consequência desta a expulsão dos romanos da palestina. 

II) Semelhante a um tesouro

A ideia de θησαυρω (theesauroo) nos remete àquilo que foi guardado em depósito, enfim, uma grande riqueza. Ao comparar o Reino de Deus com riquezas que estão ocultas, Jesus está dizendo que o Reino foi guardado em depósito. Mas que tesouros são estes? Para responder a estas perguntas preciso recorrer a Paulo. 

Em primeiro lugar pode-se falar da benignidade de Deus que conduz os homens em geral (o que inclui a mim e a ti), que conduz ao arrependimento. Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? (Rm 2. 4 ACF). 

Em segundo lugar, a riqueza é a forma com a qual Deus se faz conhecido em toda a terra, por meio da misericórdia que ele exerce nos eleitos. Paulo diz que ele suportou com paciência os vasos da ira, para que pudesse dar a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, Os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios (Rm 9. 23, 24). 

Em terceiro lugar, é preciso que se considere a riqueza divina por meio do perdão, da quitação das dívidas, e do alto resgate que foi para que os eleitos fossem remidos de sua condição de escravos espirituais, de sua vã maneira de viver, a fim de viver uma vida de santidade. Mas para simplificar quero afirmar que este tesouro é Cristo, sim Cristo, em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça (Ef 1. 7 ACF). 

Mais adiante o mesmo Paulo afirma aos crentes de Éfeso, mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo (Ef 3. 8 ACF). Daí não ser exagerado que o tesouro do qual o mestre fala seja o próprio Cristo, visto que Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério [...] que é Cristo em vós, esperança da glória (Cl 1. 27 ACF). Mas se Cristo mesmo é o tesouro, por que se diz que escondido? A resposta se acha na natureza divina e humana de Cristo. 

III) Um tesouro escondido

Cristo é o tesouro do qual se fala na parábola em apreço e tanto a sua natureza divina, quando a humana revelam em que sentido ele está escondido. No tocante à natureza divina. Para Pascal, a maior verdade das Escrituras é a que a afirma o caráter oculto de Deus, ou seja, desde que o homem se corrompeu, ele o manteve em um estado do qual somente se livram por meio de Jesus Cristo. 

Daí o próprio Filho afirmar: ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11. 27 ACF). Isaías disse: verdadeiramente tu és o Deus que te ocultas, o Deus de Israel, o Salvador (Is 45. 15 ACF). Deus se torna acessível ao homem única e exclusivamente em Cristo, mas mesmo em sua revelação por meio de Cristo, ele ainda é o Deus que se esconde. Como? Simples somente aqueles a quem o Pai revela podem saber quem é Cristo. 

Quando perguntou aos seus discípulos que impressão o povo tinha a seu respeito, o povo o teve por algum dos profetas que haviam ressuscitado, ao indagar aos deus discípulos, ele obteve de Pedro a seguinte resposta: tú és o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16. 16 ACF). Diante da resposta do líder do colegiado apostólico, Cristo diz: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus (Mt 16. 17 ACF). 

O fato inconteste é que sem a revelação do Pai, Cristo é rocha de escândalo (I Pe 2. 6 - 8) e um motivo de contradição (Lc 2. 34). Todavia, para os que recebem a percepção celeste, Cristo é a pedra angular, a rocha de esquina, rejeitada pelos edificadores, mas para com Deus eleita e preciosa (At 4. 10, 11; I Pe 2. 4). A despeito de tudo isto a alegria do encontro com Cristo sobrepuja quaisquer alegrias terrenas e fazem com que o homem venda tudo o que possui. 

Um detalhe a ser devidamente percebido aqui é que o termo escândalo em nossa língua remete às circunstâncias que ofendem o decoro, ou à moral estabelecida, e de certa forma a vida de Cristo ofendeu o decoro e a moral contemporânea. Isto se deu quando ele comeu com pecadores (Mt 9. 10 - 13), entrou na casa de publicanos (Lc 19. 6 - 10). Mas longe de ser um mestre adocicado, Jesus foi bem austero com os seus discípulos, ao lhes dizer por exemplo que a justiça dos mesmos deveria de exceder em muito a dos escribas e fariseus (Mt 5. 20ss), e que os que tinham parte com ele deveriam comer da sua carne e do seu sangue (Jo 6. 49 - 66). 

Uma vez atento para estes aspectos, o leitor da Bíblia não se admira diante da fala em que Cristo declara bem aventurados os que não se escandalizam nele (Mt 11. 6). O termo σκανδαλον (skandalon), é mais do que o choque moral, ético, cultural, ele significa literalmente tropeço. Sim Cristo é uma rocha de tropeço, como bem colocaram Isaías e Pedro, em citação àquele. A única forma de não tropeçar em Cristo é crer nele. 

IV) A alegria do encontro com Cristo

Sempre fiquei inculcado com o fato do negociente ter de vender tudo o que tem para alcançar aquele terreno. Isto vai de encontro com a lógica de lucro, de acúmulo. Hoje percebo duas verdades, uma cultural e outra teológica. No campo cultural, a sociedade em que Jesus vivia não era capitalista, no teólogico, não há como fruir o reino de Deus sem que se perca alguma coisa. Geiler disse certa vez: a salvação é de graça, mas pode custar a vida. Esta é a dinâmica do Reino presente na maioria dos ensinamentos de Jesus. 

Quem deseja seguir a Cristo tem de estar disposto a abrir mão de sua vida, afinal o mundo tende a ser hostil ao Evangelho e a Cristo e o será em relação aos seus seguidores. Todavia mesmo no texto em que Jesus alerta seus discípulos a respeito do sofrimento que terão de enfrentar, ele fala aos mesmos a respeito da alegria duradoura que se fará em seus corações. 
Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a criança, já não se lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo. Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará (Jo 16. 20 - 22 ACF). 
Zaqueu é um exemplo de que a alegria do encontro com Cristo supera, e muito renúncia que o Evangelho demanda. Depois de receber Cristo com alegria o publicano se dispôs a dar metade de seus bens aos pobres e em defraudando alguém restituir quatro vezes mais (Lc 19. 6 - 10). Este desapego se estende às demais áreas.

Este é o sentido da parábola em apreço. Fraternos abraços em Cristo.

Marcelo Medeiros. 

sábado, 2 de agosto de 2014

O Reino de Deus no Sermão do Monte



Este estudo é o seguimento de uma série a respeito do sermão do monte, ou ensino da montanha,cujos ensaios iniciais já constam aqui no blog (aqui e aqui). Os mesmos fazem parte de um projeto que consiste no resgate da leitura da Bíblia na prática do discipulado. Não os escrevo para que sejam uma cartilha a ser seguida pelos discipuladores, mas um referencial exegético com vistas à orientação na verdade. Sim, acredito na verdade e em uma interpretação bíblica correta. Neste estudo abordarei o tema referente ao Reino de Deus. 

Um conceito chave para a compreensão do Sermão da Montanha é a expressão Reino dos céus, empregada exclusivamente por Mateus, ou Reino de Deus, conforme se vê nos sinóticos. Mas o que é este reino? Reino dos céus, ou Reino de Deus é o centro das expectativas judaicas do século primeiro. No período de Cristo era a esperança de uma irrupção divina no tempo com vistas à subversão de todos os reinos do mundo e instauração de uma monarquia divina sobre toda a terra, sendo que Israel teria privilégios em razão da aliança. 

O que se percebe aqui é que conforme dito por Fee e Stuartt, o Novo Testamento, e particularmente os Evangelhos são de natureza estritamente escatológica. Peço ao leitor, que por favor não confunda com a escatologia sistemática da atualidade, uma vez que nenhuma destas especulações permeavam a cabeça do judeu do primeiro século. Quando falo de escatologia, emprego aqui à expressão εσχατη ημερα (eschatee hemera), ou seja a consciência de que se está vivendo os últimos dias. 

Esta ideia de se estar vivendo no último momento permeava a mente do judeu e bom seria se permeasse a mente dos crentes da atualidade. Na perspectiva judaica, a manifestação do reino incluía o juízo sobre as nações que haviam oprimido a Israel. João Batista muda esta perspectiva ao chamar o povo ao arrependimento. O termo μετανοιας (metanóia), indica uma nova percepção a respeito de vida e pecados. Tanto João quanto o Jesus colocam o mesmo como condição imprescindível para a entrada no Reino de Deus (Mt 3. 2; Mc 1. 15), visto que o juízo agora é para o impenitente, o que inclui os grupos mais religiosos do povo de Israel. 

O arrependimento não é algo que se prende à esfera subjetiva do indivíduo, antes é dinâmico e produz frutos (Lc 3. 10 - 14). É aqui que o discurso de juízo se torna necessário, uma vez que o mesmo Cristo, salvador é também aquele cuja pá está na sua mão: limpará a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; mas quanto à palha queimará num fogo inextinguível (Mt 3. 12 Bíblia de Jerusalém). Esta mesma imagem retorna nas parábolas do Reino registradas no Evangelho de Mateus (Mt 13. 40 - 42). 

Jesus também proclama o Reino dos céus e faz sinais e prodígios como indicadores da proximidade do mesmo. Mais do que facilitar a vida das pessoas, as curas relatadas no Evangelho erma sinais de que a era messiânica já havia chegado (Is 35. 1 - 8; Mt 10. 7, 8; 11. 1 -5). Estes textos indicam que antes de se tornar uma realidade universal, o reino tem sua dimensão existencial, subjetiva, individual, pessoal, uma vez que o arrependimento, a conversão e a própria salvação possuem tais características. Agora que já foi explicado o que é o reino de Deus e a condição para a entrada no mesmo é necessário que se fale do Reino no contexto do sermão em apreço. 

No ensino do monte, o Reino de Deus é promessa ao pobre (entenda este termo como uma referência ao que sabe de sua miséria espiritual e que depende exclusivamente de Deus [aqui]), para o manso e para os perseguidos pela causa da justiça, sendo que neste contexto não se trata de três classes distintas de crentes, mas de pessoas que possuem tais qualidades (Mt 5. 3, 5, 10 - 12). 

O reino de Deus possui uma nova ordem hierárquica, visto que Jesus veio trazer uma compreensão mais plena da lei, os que cumprem o que Cristo ensinou no ensino do monte serão os maiores no Reino de Deus, ao passo que os que não cumprem e ainda ensinam os discípulos a não cumprirem serão os menores no Reino (Mt 5. 18, 19). Com isto Jesus ensina que a verdadeira grandeza não está no poder,ou na margem de influência política, social, ou religiosa que se possa ter aqui, mas em uma pureza interior, no domínio de si mesmo diante de situações de ira, no amor ministrado aos inimigos, na piedade que se vive nos aposentos da casa. 

No Reino de Deus o verdadeiro homem grande não é o que faz mídia pessoal, o que apresenta desenvolvimento, uma imagem de conquistador, ou algum tipo de poder, mas o que contém suas paixões, que modera a palavra a fim de não ofender o próximo, o que se mortifica ao pecado, o que trata aos inimigos com a mesma compaixão e imparcialidade que o Pai celestial trata os homens bons e aos maus. Isto inclui o entendimento de que a vingança e a retaliação pessoal cabem exclusivamente a Deus (Rm 12. 17, 19). 

O primeiro pedido da oração dominical, ou do Pai Nosso é pela vinda do Reino (Mt 6. 10) e de certa forma ele é a antecipação do ensino a respeito da vida presente e de como esta deve de ser vivida: sem ansiedades e preocupações com o que comida, vestimenta e tudo o mais (Mt 6. 25 - 33). A vida do Reino é uma vida de bem aventurança no aqui e agora. não quero dizer que cristão algum deixará de passar por provação, pelo simples fato de ser filho do rei, mas que tanto o perseguido pela causa da justiça, da verdade, e do Evangelho, é um bem aventurado no sentido clássico e original da palavra, uma vez que μακαριοι (makarioi), indica alguém que é livre de cuidados e de preocupação. 

Jesus encerra seu mais impactante ensino com as seguintes palavras: Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus (Mt 7. 21 Bíblia de Jerusalém). A vontade de Deus a respeito do caráter do cristão está claramente revelada no sermão que foi vislumbrado aqui. Mas há pessoas que preferem viver uma vida voltada para a construção de um personagem a ser visto pelos outros, um estereótipo, que vida de regra nada tem a ver com o conteúdo deste ensino de Cristo. 

Jesus disse aos seus discípulos: com efeito, eu vos asseguro que se a vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus (Mt 5. 20). De nada adianta o desempenho na construção de um arquétipo nas mentes dos outros, quando a despeito da função eclesiástica que se desenvolve, se passa tempo pensando em como prejudicar o outro, e fazer tantas coisas que a Igreja do tempo atual sequer especula como pecado, mas é. Ultrapassar a justiça dos escribas e fariseus consiste em amar o inimigo, mortificar o corpo ao pecado (algo ensinado por todo crente reformado) e entender que a essência da lei se alcança na vida pelo Espírito de Deus. 

Forte Abraço, Marcelo Medeiros. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Introdução ao Sermão do Monte (discipulado)


Com o advento de modelos de crescimento o tema do discipulado e do trabalho com pequenos grupos vem ganhado cada vez mais espaço nos dias atuais. Tem sido recorrente o discurso de que a finalidade da vida cristã é que cada discípulo seja um reflexo de Cristo. A fala não é nova, ela aparece em C. S. Lewis, Jonh Stott, e até em Brennan Manning. Uma preocupação que me vem à mente, é com relação a questão do conteúdo. Sim, creio que o sermão do Monte traz em si o conteúdo pleno para o discipulado, isto, se o mesmo for aplicado de forma correta.
É necessário o entendimento prévio de que o sermão do monte não é uma coletânea de regras morais, mas um discurso cujo contexto se situa no inicio do ministério de Cristo. Mateus, afirma que Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo (Mt 4. 23 ACF). Em resposta ao tríplice ministério de Cristo (pregação, cura e ensino), uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão (Mt 4. 25 ACF), o seguia. É a estas informações que imediatamente o evangelista coloca Jesus em um monte e os seus discípulos se aproximando do mestre. Conclusão: o sermão do monte tem de ser lido á luz da proclamação do Reino dos céus, ou Reino de Deus, feita pelo Filho de Deus, este é o primeiro ponto a ser observado.
Enquanto proclamação do Reino de Deus, o sermão do Monte traz as boas novas da proximidade do mesmo, bem como o acesso que os indigentes espirituais tem ao mesmo. Brennan Manning é feliz em pontuar que o sermão em apreço não começa com um conjunto de regras, mas com a ditosa promessa de o reinado divino é acessível aos pobres de espírito, aos que sabem que nada podem fazer por si mesmos. Mas como ensino, o mesmo é uma descrição do caráter dos súditos do Reino. Um retorno à pregação de João Batista proporciona a compreensão de que tanto para os que são convictos dos seus pecados, quanto aos que não o são, o arrependimento é condição para o ingresso na dispensação do Reino (Mt 3. 2, 8), Jesus segue este mesmo pensamento (Mc 1. 15). Assim, no contexto da pregação, as bem-aventuranças, por exemplo são a descrição do que o precursor do Messias havia chamado de frutos dignos de arrependimento.
Neste ponto do presente estudo cabem as observações de Martin Lloydd-Jones, para quem as virtudes descritas no sermão do monte somente poderia ser observadas na vida de homens regenerados, nascidos de novo e que jamais os leitores do sermão em apreço poderiam confundir as mesmas com os variados aspectos do temperamento humano, principalmente nos pontos em que a sociedade os tem como positivos. O que quero afirmar aqui é que o arrependimento é o ponto de partida para a pobreza de espírito, para o quebrantamento exigido por Deus, para a mansidão. Sem metanóia (μετανοια), não há a possibilidade de se ter fome e sede de justiça, de exercer a misericórdia para com os demais, de ser pacificador, e muito menos de ter um coração puro.
É de suma importância para o entendimento do texto em apreço que as palavras do ensino do monte foram dirigidas aos discípulos de Cristo. Então, temos aqui o que se exige de um genuíno discípulo de Cristo, que seja um imitador do mestre em todos os aspectos, desde sua pobreza, seu quebrantamento, sua mansidão (Mt 11. 29, 30), sua fome e sede da justiça de Deus (Jo 4. 34), sua compaixão (Mt 9. 35), sua pureza (Hb 7. 26), e principalmente sua disposição em sofrer pelo reino.
Quem quer que espere do Evangelho ao diferente do que Cristo teve neste mundo, precisa meditar nas palavras que Mateus registrou quando disse: Não é o discípulo mais do que o mestre, nem o servo mais do que o seu senhor. Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos? (Mt 10. 24, 25 ACF), e: Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa (Jo 15. 20 ACF).
O discípulo de Cristo é antes de tudo bem aventurado, sal e luz deste mundo, possuidor de uma justiça que excede toda forma de piedade externa, é alguém que não se atém à letra das normas e das regras, mas busca o espírito das mesmas (e justamente aí reside a sua justiça). Ser discípulo de Jesus é ser alguém cuja vida de devoção não é algo a ser publicado, usado como marketing pessoal, mas alguém cuja maior marca em sua relação com Deus é a intimidade. O discípulo sabe que não compensa em nada granjear o mundo inteiro e perder a sua alma. Daí que entre Deus e o dinheiro, ele fique com Deus, em que estão os mananciais da vida. No coração do verdadeiro discípulo de Cristo não há espaço para nenhuma forma de ansiedade, muito menos para julgamentos temerários, apenas sabedoria e discernimento, no tocante à administração dos dons divinos e na clara percepção a respeito dos falsos profetas, na firme disposição para com o cumprimento da vontade de Deus, e na estabilidade (permanência diante das adversidades).
Resumindo: O sermão do Monte não deve jamais ser visto como um conjunto de regras morais a serem levadas ao pé da letra, mas como proclamação da proximidade do Reino de Deus, e neste aspecto ele é tanto a descrição do caráter dos discípulos e súditos do reino do reino quanto o teste de qualidade dos mesmos. É a prova cabal de que ocorreu sincero e verdadeiro arrependimento no coração dos homens de pretendem entrar pela porta estreita.
O que se espera do leitor do referido texto é que ele atenda ao apelo existencial contido no mesmo, e deixe de orientar a vida pelos valores do presente século, e passe a orientar a vida pelos valores do reino de Deus. Não há mais lugar para o orgulho, para a vontade de potencia, para a avareza, enfim, para nada mais que represente a velha natureza.
Os que edificam suas vidas no contexto deste ensino de Jesus estão construindo sua vida sobre a rocha, ao passo que os que apenas ouvem aquilo que Cristo fala, mas não se predispõem a obedecer constroem suas vidas sobre a areia. Além da perda total de todo um investimento, os que desobedecem ao apelo do presente sermão ainda recebem a reprovação no dia do juízo. Afinal, de nada adianta chamar a Cristo de Senhor, mas não fazer a vontade do Pai, que por sua vez é revelada no presente ensino. Minha oração é que Deus conceda a mim e a todos quantos quiserem o espírito a fim de que esta vontade divina seja posta em prática.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros
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