Evangelho é uma palavra cujo sentido original é o de "galardão que se dá ao que entrega boas novas". Usualmente estas boas notícias são concernentes à vitória do exército em tempo de guerra. A nova cristã é devidamente sintetizada no credo que tem por nome o mistério da piedade (I Tm 3. 15, 16). Trata da doutrina apostólica pela qual tanto Timóteo quanto Tito tem o dever de zelar. Como tal a mesma deve de ter precedência sobre fábulas e quaisquer outros assuntos de natureza especulativa (I Tm 1. 4). Visando expor o programa do Evangelho delineado nas pastorais este autor escreve este artigo em complementação aos Estudos bíblicos dominicais.
PRESERVAR A PUREZA DO EVANGELHO, UM DEVER DO MINISTRO
Como te roguei, quando parti para a macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, Nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora (I Tm 1. 3, 4 ACF).
Quando Paulo se despediu de Éfeso, recomendou aos Presbíteros que olhassem pelo rebanho de Deus, sobre o qual os mesmos foram constituídos. Ele fez isto sabedor de que nos últimos dias lobos entrariam no meio do rebanho e devorariam sem pena o mesmo (At 20. 28, 29). Aqui fica estabelecido que o papel de um pastor consisite no zelo pela pureza doutrinária.
Nenhuma outra doutrina além do Evangelho. Este é o lema do apóstolo.
Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade. É soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, Perversas contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais (I Tm 6. 3 - 5 ACF).
- doutirna errada não é aquela que não se conforma ao credo denominacional. De igual modo, não é a que não se afina com os conceitos do líder, muito menos a que vai de encontro ao programa da nova metodologia.
- doutrina estranha - heteodidaskalei [ετεροδιδασκαλει] - é a doutrina que não se conforma com as sãs palavras de Cristo.
- O teste do genuíno ensino é a conformidade do mesmo com as palavras de Jesus, cujo registro se veem no Evangelho.
- Daí a expressão προσερχεται [prosechetai], cujo sentido é o de adesão, indicando com isto que o padrão é o Evangelho.
Todavia a preservação da pureza do Evangelho demanda uma séria iniciativa, por parte do ministro, contra tudo o que possa desviar os ouvintes do Evangelho. No tempo de Paulo eram as questões loucas suscitadas por fábulas. Aqui se faz necessário o entendimento de Paulo não está falando nestes textos de todo e qualquer debate. Para este apóstolo a verdade tem de ser defendida.
As questões loucas das quais Paulo fala aqui são mitos [μυθοις], histórias extraordinárias oriundas da literatura apócrifa e nas quais cristãos passaram a incorrer pela importância que se atribuiam às mesmas nas controvérsias com os judeus. De acordo com Stott Jubileus e Salmos dos Filhos de Salomão figuravam entre tais livros.
Este simples trabalho de exegese fica como lição de que toda a vez que a canonicidade é estrapolada, a doutrina é violada. Ultrapassar os limites da doutrina de Cristo nunca foi tão fácil quanto neste momento, uma vez que há o abismo cultural, teológico, filosófico e linguístico. Diante de tais abismos é grande a tentação de se interpretar a Bíblia de acordo com o que se acha, ao invés de o fazer segundo a exegese.
O ministro que não for exegeta, mas que sinceramente possuir desejo de conhecer a verdade, pode conhecer e alimentar seu rebanho com as sãs palavras de Cristo, uma vez que Cristo disse: a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo (Jo 7. 16, 17 ACF). Todavia, hoje há muito recurso acessível de exegese no mercado e obreiro algum deveria se olvidar ao dever e sagrado direito de acessar os mesmos.
O alvo do Evangelho é a οικονομιαν (oikonomian), palavra da qual vem economia, ou mordomia, ou administração. Trata-se do que comummente se chama de dispensação. O Evangelho marca uma aliança cujo agir e mover divino são marcados pela relação baseada em graça e em misericórdia. O que inevitavelmente conduz a presente reflexão para a questão do Evangelho e da lei.
O EVANGELHO E A LEI
Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas; Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente; Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, Para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina, Conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado (I Tm 1. 5 - 11 ACF).
- a lei se cumpre em sua plenitude na vida de quem ama. A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei (Rm 13. 8 ACF).
- Aqui convém atentar para a expressão νομον πεπληρωκεν [nomon peplerookeen], ou cumpre plenamente a lei.
- o centro da lei era o coração humano, tanto que o shemá Ishrael [שְׁמַ֖ע יִשְׂרָאֵ֑ל], diz: amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, para somente então dizer: e estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração (Dt 6. 5, 6 ACF), indicando com isto que o centro do mandamento era o coração.
- O centroda atenção da lei era o coração. Este é um ponto que o Evangelho preserva, tanto que Jesus chamou a atenção dos seus discípulos para o coração como centro de onde procedem as saídas da vida (Pv 4. 23; Mc 7. 10 - 21).
- Não ter esta percepção sujeita o indivíduo aos debates infrutíferos.
- os que não se conformam ao Evangelho terminarão por terem de se adequar à lei, em razão de sua clara rejeição à boa nova.
- Quem possui um viver contrário a são doutrina acaba por se enquadrar na lei, que foi dada em razão das transgressões acima enumeradas, sendo cada uma delas correspondentes a um mandamento do decálogo.
No Evangelho da graça não há espaços para a glorificação pessoal, tal como no judaísmo farisaico do primeiro século.
E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério; A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo. Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna. Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, seja honra e glória para todo o sempre. Amém (I Tm 1. 12 - 17 ACF).
- A graça do Evangelho é vista no fato de que não havia nada em Paulo para que Deus o escolhesse para o seu ministério. Pelo contrário ele era um perseguidor feroz da boa nova. Mas onde o homem vê um inimigo, Deus vê um instrumento.
- Paulo não diz: graças a Deus por que sou fiel, mas: graças ao que me teve por fiel. O julgamento de Deus foi prévio a qualquer obra de justiça da parte de Paulo. Nas palavras do Senhor a Ananias: eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome (At 9. 16 ACF).
- O testemunho de Paulo foi o de que a graça superou sua ignorância em seu zelo judaico, e seu histórico de perseguição da fé.
- Do texto se conclui que a eleição de Paulo nada tem a ver com conhecimento prévio, da parte de Deus, das boas obras deste apóstolo, mas com misericórdia.
- O exemplo do amor, da graça, da misericórida e graça de Deus para com Paulo se torna modelo do agir gracioso e misericordioso de Deus para com todos quantos viessem a crer em Cristo para a vida eterna.
- Por meio do exemplo de Paulo, fica claro que Deus pode salvar todo e qualquer tipo de homem, dos que demonstram simpatia pelo Evangelho aos que se mostram seus mais feroses opositores.
- No final, a glória cabe exclusivamente a Deus, não havendo no Evangelho da graça espaço algum para a glorificação humana, bem ao contrário do que este evangelho humanista da atualidade advoga.
Este é o cerne do Evangelho da graça de Deus, e por este Evangelho o ministro tem de combater o bom combate.
Em Cristo, Marcelo Medeiros.