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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Honrarás Pai e Mãe



Para o autor das lições da Escola Bíblica Dominical o mandamento de honrar pai e mãe é o elo de ligação entre os mandamentos que expressam amor a Deus, e os que exprimem o amor ao próximo. A honra aos progenitores, ou àqueles que possuem a tutela, é um indício de amor à Deus, visto que por meio da relação pais e filhos, se sujeita à autoridade, que é um princípio divino. Quando se honra pai e mãe, o amor é demonstrado de forma efetiva, isto porque como bem observou Deus não ordenou simplesmente a obediência aos pais, mas que os mesmos fossem honrados. É possível obedecer e odiar, mas é inviável odiar e honrar.

PATERNIDADE DIVINA, O PRINCÍPIO DA AUTORIDADE

Tanto a religião judaica, quanto a cristã baseiam seus relacionamentos com Deus na interpessoalidade. Neste sentido Deus é comparado com Pai. Ao falar de Salomão para Davi, Iahweh lhe disse:  Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens (II Sm 7. 14 ACF). Perceba que Deus castiga tão somente aqueles a quem ama (Ap 3. 19).


Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo (Sl 68. 5 ACF). Quando se fala em Deus como pai dos órfãos, com isto o autor quer dizer que Ele defende a causa do órfão e da viúva e ama ao estrangeiro, dando - lhe alimento e roupa (Dt 10. 18 NVI). Todo Israel é filho de Deus, mas como tais ninguém do povo tem o direito de oprimir a quem quer que seja do mesmo povo. Neste caso, ele se levanta como um Pai para defender o filho indefeso.


Ao falar de Davi, Deus disse que após o mesmo experimentar livramentos de sua parte, este o chamaria dizendo: Tu és meu pai, meu Deus, e a rocha da minha salvação (Sl 89. 26 ACF). Da mesma forma que um filho encontra amparo no seu pai, o salmista encontra amparo e abrigo em Deus.

Perceba caro leitor, que não há como exprimir a compaixão e afeição divina, sem que se recorra à figura do pai. É mais do que óbvio que tais expressões são antropomórficas, ou antropopáticas (em outras palavras, expressões que atribuem sentimentos e formas humanas a Deus). Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó (Sl 103. 13, 14 ACF).

Perceba que mesmo para falar da oração, Jesus recorre à figura do Pai, para demonstrar que tal como o pai que sempre busca atender o filho em sua necessidade, Deus atende às nossas orações (Mt 7. 7 - 11). Sendo que neste caso fica estabelecido um princípio, por pior que seja o pai, ele sempre se esforçará em dar coisas boas aos seus filhos, e aqui está o que considero o maior fundamento da obediência dos filhos aos pais.

A EXTENSÃO DO QUINTO MANDAMENTO


De acordo com o autor da lição de Escola Bíblica Dominical, o mandamento de se honrar pai e mãe se estende a toda relação de autoridade, incluindo: os pais espirituais, o que é exemplificado na 1) relação de Eliseu e Elias (II Rs 2. 12), 2) Paulo e Timóteo (I Tm 1. 2; II Tm 1. 2), 3) Paulo e Tito (Tt 1. 14); os pais intelectuais.


Fato é que aquele que é instruído deve repartir em tudo com aquele que o instrui (Gl 6. 6), se o que acabei de escrever lhe deu algum nó, entenda que o verbo honrar, nas línguas originais da Bíblia não se restringe à dignificação, e a distinção conferidas a quem se atribui honradez. Honra (kabed [כַּבֵּ֥ד], ou tima [τιμα]) aqui, equivale a remuneração, ou ajuda de custa. Abordo melhor este assunto aqui, aqui, e aqui. O fato é que esta ligação entre os verbetes originais e a ajuda de custo fica mais pontual quando se depara com a crítica de Jesus aos fariseus.
E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição. Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá. Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor; Nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe, Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas (Mt 7. 9 - 13 ACF). 
Perceba que neste texto Jesus considera a honra ao pai e à mãe como ajuda, da qual dentro do esquema farisaico o filho poderia escapar, caso afirmasse que o que estava destinado à ajuda era oferta ao Senhor. Logo, conforme pontuado acima, o verbo honrar, na verdade é ajudar, até porque o termo Kabod [כָּ֫בֹ֥וד], de onde vem a expressão glória, pode significar, entre outras coisas, preciosidades, ouro, ou peso mesmo. 

APROFUNDANDO A QUESTÃO DA HONRA AOS PAIS E DO SUSTENTO

Na seção três da revista, ao falar de sustento dos pais, o autor apela aos sucessivos exemplos das Sagradas Escrituras para firmar seu ponto de vista, ao meu ver corretíssimo. Paulo fez uma abordagem primorosa a respeito desta questão, em sua primeira carta à Timóteo, mesmo admitindo que ele estava falando da situação das viúvas, é possível extrair dali algum princípio a este respeito. 
Honra as viúvas que verdadeiramente são viúvas. Mas, se alguma viúva tiver filhos, ou netos, aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria família, e a recompensar seus pais; porque isto é bom e agradável diante de Deus. Ora, a que é verdadeiramente viúva e desamparada espera em Deus, e persevera de noite e de dia em rogos e orações; Mas a que vive em deleites, vivendo está morta. Manda, pois, estas coisas, para que elas sejam irrepreensíveis. Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel (I Tm 5. 3 - 8 ACF). 
O que se pode inferir do texto?
  1. Em consonância com o ensino do antigo testamento, as viúvas deveriam de serem honradas pelo ministro.  
  2. Esta honra envolve remuneração e ajuda mesmo, conforme visto na expressão  τιμα. 
  3. Existem critérios claros para se definir o que é uma viúva com condições de ser inscrita no programa de ajuda da Igreja. 
  4. Esta viúva, deveria contar exclusivamente com Deus, e viver em rogos e em orações. 
  5. Não poderia ser nova e viver em deleites. 
  6. Quanto às viúvas que tivessem filhos e netos, estas deveriam ser amparadas pela família. 
  7. É precisamente neste ponto que o ensino Paulo tem a contribuir para o presente estudo. 
De que forma?
  1. O texto diz claramente: se alguma viúva tiver filhos, ou netos, aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria família, e a recompensar seus pais; porque isto é bom e agradável diante de Deus (I Tm 5. 4 ACF), em outras palavras os filhos devem recompensar os seus pais. 
  2. Em recompensar os pais, o filho está vivenciando o legítimo exercício da piedade. 
  3. Quem não se comporta de tal forma tem negado a fé e de acordo com o texto é pior do que o infiel. 
  4. Estas recomendações estão sendo feitas em plena dispensação da graça de Deus, e tem de ser observada por cristãos que não desejem ter tal sentença sobre sua vida. 
Não observar o mandamento da forma que foi abordada neste texto traz ao ouvinte o risco de estar sob maldição? Creio que sim. Perceba que ao citar o mandamento de honrar pai e mãe, Jesus o ligou à citação de Ex 21. 17, mostrando a equivalência das duas transgressões, a da omissão quando à ajuda e a o ato de amaldiçoar os progenitores. 

O novo Testamento reafirma o mandamento da ajuda aos pais, mas também impõe a obediência dos filhos aos mesmos, visto que para Paulo este é o primeiro mandamento com promessa. Sem tais diretrizes o caos social se instala na sociedade. Hoje tem sido cada vez mais comum agressões à pais, professores, alunos, e tais fatores são indicadores de que paira uma crise de autoridade na sociedade, e creio que o Evangelho de Cristo, e tão somente este é a saída para tal. 

Marcelo Medeiros. 


terça-feira, 1 de abril de 2014

Filhos e sabedoria que eles nos transmitem


Soube por meio das redes sociais que Saramago é ateu, ou ateísta, ou como quiser. Mas a frase que vejo aqui, além da beleza é uma das frases que mais traduz a influencia da herança cristã. Primeiro ao colocar o filho como algo mais do que um produto biológico, segundo por colocar o mesmo como meio para um curso intensivo, terceiro por trazer á tona o heroísmo trágico da filosofia existencialista, cuja matriz principal é a cosmovisão cristã.
Como pai percebo nas palavras atribuídas ao Saramago a mais pura realidade, afinal um filho desperta em um pai a vontade de ser cada vez melhor para que ele (o filho) seja melhor do que foi o pai. A imagem daquele ser que depende se não exclusivamente, ao menos majoritariamente, de seus progenitores para crescer e se desenvolver plenamente, desperta em um pai uma coragem fora do comum. 
Ao ler estas palavras, me lembro que Jesus expressou as mesmas ideias de forma diferente. Em seu famoso sermão do Monte ele disse que mesmo sendo maus, sabemos dar boas coisas aos nossos filhos e que Deus age da mesma forma em proporção infinitamente maior. O salmista disse que tal como um Pai que se compadece de seu filho a quem ama, o Senhor se compadece do gênero humano, pois ele lembra a nossa estrutura e sabe que somos pó. É nos saltério que lemos que os filhos são herança do Senhor, e galardão. Em fim, a terra toda pertence a Deus, tudo é de Cristo é Cristo de Deus. Visto da visão cristã as palavras de Saramago ganham extremo apreço.
Se pudesse me encontrar com Saramago e travar um dialogo com ele o parabenizaria por tal percepção, e perguntaria: quem teve tal ideia? O acaso? Quem planejou tal curso intensivo, e para quê? Se um filho é empréstimo, que fez tal concessão? Por ora fico com este insight divino que Saramago teve e absorvo a sabedoria divina em suas palavras.
 
Marcelo Medeiros  
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