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quarta-feira, 7 de março de 2018

Eu Não Nasci pra ser chefe



Há algum tempo atrás me lembro de ter ouvido um hit de Ed Motta cujo refrão era eu não nasci pra trabalho. Algo plenamente compreensível quando se sabe que a palavra deriva do francês tripallium, um instrumento de tortura, pelo menos é o que diz ninguém mais ninguém menos do que Mário Sérgio Cortella o filósofo do trabalho. 

A filosofia do trabalho deste é muito interessante devido às obviedades que ele diz, mas como ninguém enxerga o próprio nariz são verdades auto evidentes proferidas pelo mesmo precisam receber devida acuidade. Uma delas é que ninguém fica sem trabalhar, nascemos sim para o trabalho, e que nosso problema com o mesmo dá-se por conta das relações conflituosoas que temos com colegas e chefes. 

Há chefes e chefes, e líderes mesmo são os mais escassos possíveis. Voltando àqueles, há os que pensam que ser chefe é fazer da vida dos outros um inferno, ou ser dono de alguém, ou dispor da vida e tempo alheios, fazer dos outros uma escada um meio para alcançar seus objetivos pessoais. Estes são apenas alguns fatores que colaboram para que a vida se torne insalubre no ambiente de trabalho. 

Um remédio salutar para tal, talvez fosse se aqui gozássemos da mesma situação que em determinados países de primeiro mundo, onde os profissionais competentes demitem seus respectivos chefes (mudam de trabalho, vão embora da empresa, ou da instituição). O carinha metido a chefinho teria de se mancar, senão perderia seus melhores funcionários. 

Hoje compreendo que nasci para o trabalho. Nasci para escrever, para tocar peças musicais no meu instrumento, para ler, para ensinar, mas não nasci para ser chefe, e muito menos para ser escravo. Não sirvo para fazer da vida de ninguém um inferno. Não sirvo para ser porcorativista (corporativo em nome de uma ética). Não sirvo para ficar ao lado do chefe e com isto garantir a minha paz, enquanto alguém está sendo seriamente injustiçado. 

Garanto que tento me enquadrar, mas está ficando cada vez mais difícil, e sinceramente algumas coisas pretendo jamais aprender. Transigir com justiça e com ética em nome de uma deontologia? Jamais!!! Cresci faz tempo já não consigo brincar de faz de conta que você não é nada, que eu finjo que estou feliz. 

Marcelo Medeiros. 

sábado, 17 de outubro de 2015

Relacionamentos em Ambiente de Trabalho



A lição de Escola Bíblica Dominical do corrente trimestre aborda a temática dos relacionamentos. Na presente o tema será sondado sob a perspectica do ambiente de trabalho. É perceptível que o autor da mesma assume a posição de que o trabalho em si não se constitui como maldição e castigo para o homem. Para fundamentar tal concepção ele recorre ao termo מְלַאכְתֹּ֖ו (mela'khto), que em Gn 2. 2 é traduzido por obra (me aprofundsarei nesta discussão no transcorrer do estudo). 

Há uma sinalização tímida de que os relacionamentos em ambiente de trabalho são complexos em viritude da dinâmica das relações contaminadas pelo pecado. Elas se manifestam nas variadas formas de exploração e de exercício de poder. Outros fatores são destacados por Mário Sérgio Cortella em seu livro Qual é a Tua Obra?

A PERCEPÇÃO CLÁSSICA DO TRABALHO

No mundo clássico havia duas concepções de trabalho. A primeira: a de que haviam atividades mais dignas e outras menos dignas. Assim, o trabalho mais braçal, servil, duro era feito pelos escravos, ou desafortunados, com a finalidade de garantir aos mais abastados o exercício da cidadania e de funções mais elevadas. Na grécia, os ociosos se ocupavam do exercício da cidadania, a saber: dos debates e das discussões na ágora, já os judeus se ocupavam da atividade da leitura e estudo da lei. Para Ben Sirac
A sabedoria do escriba se adquire em horas de lazer, e quem está livre de afazeres torna-se sábio. Como se tornará sábio aquele que maneja o arado, aquele cuja glória consiste em brandir o aguilhão, o que guia bois e o que não abadona o trabalho e cuja conversa é só sobre gado? O seu coração está preocupado com os sulcos que traça e as suas vigílias com as forragens das bezerras (Eclo 38. 24 - 26 Bíblia de Jerusalém). 
O saber em geral se adquire em horas de ócio! Esta é a grande verdade extraída deste texto. Em seguida Ben Sirac examina todas as demais profissões manuais e demonstra como o exercício das mesmas impede a dedicação ao estudo da lei. Por extensão pode-se entender que toda forma de estudo, ou de afazer criativo demanda ócio. 

Aqui preciso fazer uma observação: não se trata de afirmar categoricamente que quem trabalha não possa em hipótese alguma desenvolver habilidades cognitivas, mas que o desenvolvimento de ambas ficará prejudicado pela ausência de exclusividade. Neste aspecto Ben Sirc considera o escriba feliz, uma vez que:
Ele investiga a sabedoria de todos os antigos, ocupa-se das profecias. Conserva as narrações dos homens célebres, penetra nas sutilezas das parábolas. Investiga o sentido obscuro dos provérbios, deleita-se com o segredo das parábolas. Presta serviço no meio dos grandes e é visto diante dos que governam. Percorre países estrangeiros, faz experiência do bem e do mal entre os homens (Eclo 39. 1 - 4 Bíblia de Jerusalém). 
Este tabalho mais prazeroso é chamado de מַּעֲשֵׂ֙נוּ֙ (matseh), ou conforme dito acima de obra, é usualmente empregado para as obras de Deus. Aqui tem-se a segunda percepção clássica de trabalho, o de uma obra. Outro termo a ser considerado é מְלַאכְתֹּ֖ו (mela'khto), usado para a obra de Deus. Voltando a  מַּעֲשֵׂ֙נוּ֙ (matseh), este termo faz referências às obras de arte do santuário (Ex 27. 16; 28. 11, 14, 15, 22, 32; 30. 25, 35; 38. 18; 39. 15, 22, 27, 29). Neste post faço um estudo mais apurado dos termos bíblicos que envolvem trabalho. 

O TRABALHO NA SOCIEDADE INDUSTRIAL

Para Salomão Todo o trabalho do homem é para a sua boca, e contudo nunca se satisfaz o seu apetite (Ec 6. 7 ACF). O termo empregado aqui é עָמָֽל ('amal), cujo sentido pode ser o mesmo esforço fatigante, tormento, mágoa, aflição; podendo ser empregado como sinônimo de אָ֑וֶן ('ãwen), cuja definição é a de problema, tristeza, mal, ou dano. 

Para Salomão o homem se submete ao sofrimento em razão de sua necessidade consumir. Como o apetite do mesmo não é saciado por meio das necessidades mais básicas (como ocorre com todo animal), este se vê em constate obrigação de estar trabalhando. Na sociedade industrial o consumo é a mola que impulsiona os homens a trabalhar, a despeito das experiências ruins com os diversos ambientes de trabalho. 

Similar percepção fez com que Cortella elaborasse as concepções clássicas de trabalho sob uma nova ótica etimológica. Cortella faz menção ao termo francês tripallium, um instrumento de tortura e observa de maneira perspecaz que este é um instrumento de tortura. Somadas as péssimas condições (que envolvem más conduções, o tempo de deslocamento para o trabalho e as relações de poder no mesmo), não fica difícil entender os motivos. 

Neste ponto da nossa reflexão há que se abrir espaço para o filósofo alemão Arthur Shoppenhauer. Para este os homens que possuíam habilidade mais elevadas, mas que por necessidade econômicas não poderiam exercer as mesmas se viam torturados, quando forçados a trabalharem em uma atividade para a qual além de não posssuírem vocação, lhes vedava o exercício da mesma. 

A superação proposta por Cortella é que os homens, ao invés de verem no trabalho um instrumento de tortura vejam no mesmo uma oportunidade para mostrarem ao mundo a sua obra. O termo aqui empregado pelo filósofo é poiésis, de onde vem a palavra poesia. No Novo Testamento aparece soba forma do verbo fazer cujo equivalente em grego é ποιειω [poieoo]. 

Fazer, ou  ποιειν [poiein] equivale a produzir. A ideia remete à produção de uma árvore. A solução é boa e digna, mas há que se resgatar seriamente o conceito protestante de vocação. Macieiras produzem maçãs, bananeiras, bananas, laranjeiras, laranjas e assim por diante. Os homens são diferentes, tal como as árvores. Aqui há que se lembrar do hit cada um no seu quadrado

RELACIONAMENTOS EM AMBIENTE DE TRABALHO

Os relacionamentos no ambiente de Trabalho são complicados em razão da visão que se tem de trabalho? Sim, mas também o são em razão do acúmulo de desejos, paixões, frustrações e demandas. Não há como se deixar os problemas de casa em casa e deixar os do trabalho no trabalho. Somos uma pessoa inteira tanto em casa quanto no trabalho.

Daí que o autor acertadamente aponta a adoção dos valores cristãos como chave para a construção de relacionamentos saudáveis no ambiente de trabalho. Afinal, convém ressaltar a fala de Tiago, para quem os conflitos nos relacionamentos tem a sua origem nos desejos de nossa carne. Exatamente por este motivo ressaltei no tópico acima a necessidade de uma reflexão do trabalho como meio de satisfação dos desejos.
De onde vêm as guerras e pelejas entre vós? Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam? Cobiçais, e nada tendes; matais, e sois invejosos, e nada podeis alcançar; combateis e guerreais, e nada tendes, porque não pedis. Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites (Tg 4. 1 - 3 ACF). 
Embora a psicanálise veja a cobiça e a inveja como fatores de criação, convém ressaltar que dentro da cosmovisão bíblica esta pode ser uma força paralisante. Também vi eu que todo o trabalho, e toda a destreza em obras, traz ao homem a inveja do seu próximo. Também isto é vaidade e aflição de espírito (Ec 4. 4 ACF). Invejar o outro é vaidade e aflição de espírito. O que importa é que cada faça aquilo que lhe vem às mãos para fazer, e o faça de acordo com as suas forças (Ec 9. 10).

Que os mesmos valores que permeiam a vida cristã familiar sejam os norteadores na vida profissional como um todo. Hoje estas idéias estão cada vez mais comuns, por meio do conceito de liderança servidora. Este tem vindo à tona através do livro O Monge e o Executivo de James Hunther. Este é o momento em que se faz necessário voltar aos princípios bíblicos.
E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens (Cl 3. 23 ACF). Este texto está no contexto do ambiente e da vivência familiar (Cl 3. 18 - 22). Daí que se em razão da convivência as pessoas do trabalho não se vêem como uma família, há algo de errado nas relações pessoais. 

E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, é precedido por outro texto de vital importância: E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai (Cl 3. 17 ACF). Ambos podem ser articulados com o dito paulino: Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas (Fp 2. 14 ACF). 

Marcelo Medeiros

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O stress mora em casa mesmo?



De acordo com uma recente pesquisa (aqui), trabalhadores se estressam bem mais em casa do que nos seus respectivos trabalhos. A razão é bem simples tanto homens quanto mulheres se armam para enfrentar situações pertinentes ao mundo do trabalho, em tese a casa deveria ser o lugar em que os trabalhadores poderiam desarmar, mas não desarmam, e aí surge o problema. 

Um fator agravante é a insatisfação, ou o perfeccionismo feminino, mesmo com a ajuda dos homens, e o maior empenho por parte dos mesmos na criação, educação, enfim, nos cuidado geral dos filhos, as mulheres se sentem pressionadas a darem conta da vida familiar, pior, a fazerem isto de forma perfeita. Some isto, com a necessidade de uma vida de consumo ideal, e se obtém uma formula explosiva. 

O artigo também aponta para a dura realidade de que os trabalhadores realizados em seus respectivos trabalhos são aqueles que além de um salário superior à margem de setenta e cinco mil dólares anuais, são devidamente reconhecidos, mas em contrapartida, estes profissionais possuem menos tempo para as suas vidas pessoais, o que torna a convivência do lar ainda mais distante. 

Eu fico com o que diz o filósofo Mário Sérgio Cortella. Parafraseando o pensador, afirmo que o tempo atual demanda profundo discernimento entre o que é essencial e fundamental, e mais, coragem para criar e se decidir por um modelo de vida que prime por aquilo sem o qual a humanidade simplesmente deixará de ser humana. Menos tempo no trabalho, menos dinheiro para aquisição de bens de consumo, em contrapartida, MAIOR QUALIDADE DE VIDA. 

Forte abraço, Marcelo Medeiros. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A sabedoria de Sulley e as lições de Monsters S/A

Monstros S/A é mais um destes filmes que tive de ver mais de sessenta vezes por filho, e como tenho dois, posso afirmar que vi bem mais de cento e vinte. A história é bem simples. O filme narra a historia de toda uma cidade de monstros, que se alimenta de uma energia extraída dos sustos das crianças. Desta surgem empregos na fabrica de sustos e uma economia bem movimentada, etc.... . Tudo transcorre bem até que um dia Randall Boggs que é um dos principais antagonistas do filme elabora e da seguimento a um estranho plano com Henry. J. P. Waternoose, que é o presidente da Monstros S.A. de  sequestrar uma criança que garantisse a produção da fábrica. É neste momento que entram em cena James P. Sullivan, apelidado "Sulley", e Mike Wazowski , que interceptam a criança e a partir destes elementos se desenvolve uma trama bem interessante.
O que gostaria de pontuar aqui, é que no meio da trama é descoberto, acidentalmente, que o riso possui um potencial de energia muito, mas muito superior mesmo ao susto, e é aí que gostaria de centrar a minha reflexão. Monsters S/A não é um filme para crianças, na verdade é um convite à reflexão para os adultos. Sério? Onde as crianças entram nisto, afinal, é um desenho animado? Se você se fez esta pergunta, é sinal que houve uma abertura em você para entender qual é o nosso papel, no sentido de traduzir para as futuras gerações.
Primeiro, o filme traz uma linguagem que contesta, de forma criativa, o modo de produção de uma sociedade fictícia. Segundo, o filme contesta a tradição que se forma em torno de práticas cruéis. Terceiro, percebo uma condenação explicita tanto à liderança quanto a chefia feita que se faz independente de ética, e pior ainda quando tal se dá para manter o tradicional. Por último, o filme se constitui como um desafio, pois tal como Sulley, somos desafiados a fazer de um modo diferente. Estas são as mensagens para nós adultos. Agora quero passar as considerações a respeito de cada uma das observações.
Nossa sociedade possui um modo de produção esgotante. Pais são constantemente pressionados a serem três coisas, senão mais, inconciliáveis: bons pais, bons maridos e bons profissionais. Além disto, o conceito de bom pai não se restringe ao bom educador de uma criança, mas abrange alguém que dá a sua família todos os bens de consumo. O resultado de tudo isto, é que a qualidade de vida cai.
Não bastassem tais pressões, o meio de trabalho parece ser o mais contaminado e deteriorado no campo das relações humanas, produzindo ambientes insalubres do ponto de vista social e emocional. Daí que raras são as vezes e mais raros ainda são os trabalhadores que chegam em casa, após um dia de serviço com a sensação de prazer de uma obra concluída. Há quem diga que brasileiro não gosta de trabalho. Mas não é o que se vê, por exemplo, em mulheres, que conciliam a jornada em casa, com a criação de filhos e uma carreira profissional, e isto sem ajuda de empregadas domesticas (falo isto porque fui filho de uma, e sou casado com uma assim). O grande problema no que toca ao mundo do trabalho. Passa pela mudança dos modos de produção, uma mudança que não produza desemprego, mas que viabilize ao homem tempo para que o mesmo possa se dedicar ao que é essencial, a família, por exemplo. Não estou sendo vanguardista em dizer isto, porque a questão que abordo aqui já foi abordada por Oscar Wilde e tem sido abordada nos livros do Mario Sergio Cortella.
Voltando ao filme, quando assistimos o Universidade Monstros percebemos que aquele modo de produção era cultural, visto haver uma universidade voltada para a formação de futuros assustadores. Quando aplico esta situação ao mundo do trabalho percebo que há uma sólida e perversa tradição cultural estabelecida em nossa sociedade: a de associar o trabalho a dor, e ao sofrimento (já falei sobre isto aqui).
Neste artigo falamos que uma das palavras que o mundo hebraico elaborou para trabalho é o termo עָמָֽל ('amal), cujo sentido é o de esforço fatigante, tormento, mágoa, aflição; é empregado como sinônimo de אָ֑וֶן ('ãwen), cujo sentido é o de problema, tristeza, mal, ou dano. Curiosamente עָמָֽל ('amal) será empregado por Salomão, caso o leitor o considere autor de Eclesiastes, para o trabalho mesmo (Ec 2. 10, 11), indicando com isto, que nem sempre a teologia bíblica verá o trabalho com algo penoso, vão e inútil.
Isto não seria nenhum problema se junto da cultura não houvesse uma prática, mas há. Existem em nossos dias líderes, que à semelhança de Henry. J. P. Waternoose, preferem sequestrar mil crianças para não verem a fábrica falir, assim violam os princípios mais básicos da ética. assediam moralmente os seus subordinados, criam um ambiente de tensão desnecessário no trabalho, fazem com que o trabalho, que deveria ser uma poiesis (obra na qual o artista se reconhece) se torne um tripalium (palavra para instrumento de tortura, que segundo Cortella deu origem a nossa palavra trabalho).
A redenção do trabalho passa inevitavelmente pela redescoberta da dimensão artística do mesmo. Não creio que tal se dará por meio da adoção de políticas que trazem consigo aumento da carga horaria. Produtividade nada tem a ver com o tempo que se passa no trabalho. Uma coisa que tem se descoberto é o valor do ócio. Começou com o Elogio do Ócio de Bertrand Russel, e depois tivemos o Ócio Criativo de Domenico di Mais. Agora temos a maravilhosa ideia de Cortella com o seu Ócio recreativo, que consiste no emprego do ócio com vistas ao ato de recriar. A despeito da beleza e da propriedade do pensamento não há como pensar em tais coisas sem antes de mais nada mudarmos algumas concepções em nossa sociedade.
Na escola, o recreio, o lúdico está ligado ao processo educacional, ao menos na educação infantil é assim. Tanto que na primeira parte da infância as crianças amam a escola, mas ao chegar nos primeiros ciclos das séries iniciais, tudo muda, e então o lugar dantes amado passa a ser odiado. Infelizmente o mundo do trabalho também tem seguido esta tendência. Mas é na alegria com que se desempenha a função que o trabalhador encontra sua poiesis e se sente mais motivado para produzir, para recriar. Creio que seja exatamente isto que esteja faltando.
O filme termina com monstros felizes porque não mais precisam assustar, e crianças que se divertem com os mesmos, e da diversão vem o sustento do mundo dos monstros. O mais curioso é o caso do personagem Mike Wazowski que no filme Universidade Monstros é desligado da Universidade, por não ter vocação para ser assustador, mas que no novo modo de produção encontra papel fundamental, e o próprio Sulley que se descobre um grande gerente da nova fábrica.
Escrevo estas coisas sabendo que a mudança não é nada fácil, na verdade é justamente por nos tirar de nossa zona de conforto que ela se torna extremamente difícil. Esta lição é mostrada em um outro filme A Corrente do Bem, onde um garoto de aproximadamente oito anos tem uma ideia genial de pessoas que fariam algum bem a uma outra pessoa desconhecida. Ao ser entrevistado o garoto demonstra sua desilusão para com as pessoas, visto que bem cedo ele percebe a relutância das mesmas em mudar para melhor.
Em nosso mundo as pessoas preferem reclamar do que se moverem em direção ao novo. Um caso curioso é o da peregrinação do povo de Israel no deserto. Ao se depararem com o desafio que a liberdade traz, eles quiseram voltar ao Egito, para a condição de escravos. Daí a dificuldade com que mudanças possam vir acontecer. Na verdade, é mais fácil colaborar para com, do que resistir ao sistema. Voltando ao desenho em questão, não custa nada lembrar que a maracutaia do Waternoose não teria ido em frente não fosse a colaboração do Randall Boggs, personagem este descrito como alguém que sempre invejou o Sulley, dada capacidade deste como assustador.
É verdade que existem os chefes que criam um inferno na vida dos seus subordinados, mas creio que seja nosso papel como pais, criar filhos que não sejam como estes, ou que mesmo que venham a ocupar a posição de liderança tenham coragem de fazer diferente, e que jamais sejam colaboradores na manutenção do sistema.
Marcelo Medeiros, em Cristo.

sábado, 19 de outubro de 2013

Lição da EBD n° 3: Trabalho e prosperidade

Atividade física ou intelectual que visa a algum objetivo; labor, ocupação. Esta é a definição inicial que os nossos dicionários nos dão para trabalho. Já prosperidade, é entendida tanto como abundancia, fartura e riqueza, quanto como progresso, sendo este último o que mais se coaduna com o conceito de prosperidade das Escrituras. Gordon Fee e Douglas Stuartt afirmam que os provérbios embora busquem inculcar a sabedoria nos jovens, por meio de máximas simples, os mesmos não podem, de forma alguma serem lidos como verdades universais. O caráter superficial se pode ver nas afirmações que associam a impiedade com uma vida fracassada. Uma breve leitura de alguns salmos de sabedoria e do livro do Eclesiastes são suficientes para comprovar isto. O mesmo se dá com a perspectiva que Provérbios demonstra a respeito do trabalho e da prosperidade, a relação não é tão lógica assim. O mesmo se dá com relação à prosperidade em Provérbios Salomão dá a entender que a prosperidade é resultado do trabalho feito com pericia, ao passo que em Eclesiastes ele apresenta outra perspectiva. Passemos então à visão da sabedoria a respeito do trabalho.

I ) O trabalho na Filosofia

A visão filosófica a respeito do trabalho não é das mais positivas. A Grécia, berço do pensamento filosófico, foi uma das sociedade nas quais o trabalho era executado exclusivamente por escravos. Neste período se instalou um padrão cultural que foi seguido por sociedades como a romana, e que foi verificável mesmo durante a Idade Média, ainda, os servos faziam os trabalhos e os nobres se dedicavam ao ocio, à discussão, à política.

Sócrates foi o único a ver os que exerciam profissões manuais como os mais sábios. Ao receber o oráculo de que era o homem mais sábio em toda a Grécia, ele dialogou e entrevistou muitos cidadãos, e os que ele considerou como sendo os mais sábios, visto que ao menos sabiam a respeito do seu ofício. Uma leitura, ainda que superficial da filosofia socrática à luz do contexto desta Grécia escravocrata nos mostra o quão ofensivas foram as conclusões do filósofo.

Mário Sérgio Cortella afirma que Platão, ao contrário do seu mestre (Sócrates), entendia que qualquer pessoa que exercesse uma atividade manual iria para um compartimento do inferno inferior aos que exercessem outras atividades. Desta forma, o trabalho foi vilipendiado. No entender de Cortella, a visão judaica de que o trabalho é castigo, foi o fundamento religioso por excelência desta ética que o Ocidente herdou. E é mais do que fato que dentre as mais variadas palavras que o idioma hebraico possui para trabalho, ao menos duas são correlatas à ideia de sofrimento. Em caso de dúvida, observe bem a fala de Elifaz, em que este afirma: Porque do pó não procede a aflição, nem da terra brota o trabalho. Mas o homem nasce para a tribulação, como as faíscas se levantam para voar (Jó 5. 6, 7 ARCF).

No texto supra, necessário se faz considerar que o termo עָמָֽל ('amal), cujo sentido é o de esforço fatigante, tormento, mágoa, aflição; é empregado como sinônimo de אָ֑וֶן ('ãwen), cujo sentido é o de problema, tristeza, mal, ou dano. Curiosamente עָמָֽל ('amal) será empregado por Salomão, caso o leitor o considere autor de Eclesiastes, para o trabalho mesmo (Ec 2. 10, 11), indicando com isto, que nem sempre a teologia bíblica verá o trabalho com algo penoso, vão e inútil.

Aqui cabe considerar o que Salomão, caso o aceitemos como o autor do Salmo 127, em um dos versos ele afirma: Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono (Sl 127. 2 ARCF). A expressão empregada para pão de dores é o termo hebraico עֲצָבִ֑ ('eshebh), que também pode ser o trabalho duro, ou a labuta mesmo, mas que em alguns contextos assume o mesmo significado de עָמָֽל ('amal).

Retornando á filosofia, e particularmente à Cortella, cabe ressaltar que para este filósofo, a guinada com respeito à visão de trabalho vem com a Ética Protestante. Esta vai colocar o trabalho humano como continuidade da criação, e com isto vai conferir ao mesmo uma imagem mais positiva do que a da herança católica medieval. O Pensador alemão Max Weber soube muito bem explicar como funciona esta ética, que se construiu a partir da ascese puritana, da visão positiva do trabalho, e do acúmulo do resultado deste. Feitas as considerações supra passemos à visão teológica do trabalho.
II) Visão teológica do trabalho
A visão consensual é a de que o trabalho foi na verdade instituído antes da queda do homem, visto que este mesmo fora criado para cuidar do jardim (Gn 2. 15), logo, isto é uma ocupação. Ela só se torna enfadonha na medida em que o homem, ao pecar, recebe, de Deus a seguinte sentença:
maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.
Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.
No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás
(Gn 3. 17 - 19 ARCF). 
Aqui temos a ocorrência do termo עֲצָבִ֑ ('eshebh), indicando que o trabalho outrora feito de forma natural, de agora em diante seria feito com dor. Anos após a expulsão do homem do jardim, nasce Lameque, da descendência de Sete, e este ao ter um filho lhe põe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará acerca de nossas obras e do trabalho de nossas mãos, por causa da terra que o Senhor amaldiçoou (Gn 5. 29 ARCF), mais uma vez é empregado o termo  עֲצָבִ֑ ('eshebh) para trabalho, sendo que neste texto em particular ele vem acompanhado de מַּעֲשֵׂ֙נוּ֙ (matseh), usualmente traduzido como obra.

Das treze ocorrências desta mesma palavra no livro do Êxodo, todas são referências às obras de arte do santuário (Ex 27. 16; 28. 11, 14, 15, 22, 32; 30. 25, 35; 38. 18; 39. 15, 22, 27, 29). Quatro referências em Deuteronômio fazem alusão ao trabalho e á prosperidade decorrente do mesmo (Dt 2. 7; 16. 15; 28. 12; 30. 5), em todas o mesmo termo é empregado מַעֲשֵׂ֣ה. A obra do templo de Salomão também é denominada com o mesmo termo.

Em nossa pesquisa, não identificamos este mesmo termo em Provérbios, e em Eclesiastes, o autor o reserva para se referir às obras de Deus, jamais à ação humana, que é claramente designada de עָמָֽל ('amal). Isto é compreensível se observarmos que na visão de Qoélet, tudo é vaidade, e é a sabedoria que vai ajudar o homem a viver e trabalhar de forma proveitosa. Voltando ao termo מַּעֲשֵׂ֙נוּ֙ (matseh), creio ser ele o termo que melhor expressa a perícia humana.

Na visão dos escritores bíblicos, o trabalho humano pode sim ter o seu devido proveito, ele não é somente sofrimento. Em todo trabalho há proveito, mas ficar só em palavras leva à pobreza (Pv 14. 23 ARCF). Aqui o termo é עֲצָבִ֑ ('eshebh). O trabalho permite, inclusive que o homem dê inicio aos seus projetos. Prepara de fora a tua obra, e aparelha-a no campo, e então edifica a tua casa (Pv 24. 27 ARCF).

Por outro lado, a preguiça é algo que pode levar à penúria. O preguiçoso esconde a sua mão ao seio; e não tem disposição nem de torná-la à sua boca (Pv 19. 24 ARCF). O preguiçoso pode vir minguar diante de seu próprio desejo de consumo, uma vez que a disposição para trabalhar não é compatível coma ânsia de consumo. O desejo do preguiçoso o mata, porque as suas mãos recusam trabalhar (Pv 21. 25 ARCF).
III) Prosperidade na Bíblia e na Filosofia
A prosperidade é entendida em nossos dias como sendo a posse e o usufruto de bens de consumo. Neste caso, ela é sinônimo de riqueza, opulência. Nos tempos bíblicos os homens trabalhavam a fim de ajuntar mantimentos em abundancia e com isto garantir o seu futuro. Tanto Jesus quanto Salomão condenaram tal atitude. Para este, Quem amar o dinheiro jamais dele se fartará; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda; também isto é vaidade (Ec 5. 10 ARCF). Já Cristo diz: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui (Lc 12. 15 ARCF).

A totalidade do ensino bíblico vai de encontro com o pensamento da Teologia da prosperidade e o pensamento que tem permeado o meio evangélico atual. Não faltam "teólogos" para se apossarem de textos isolados de Provérbios para ensinarem uma teologia maléfica. É neste contexto que a fala dos amigos de Jó, e alguns textos isolados viram um prato cheio.

A prosperidade bíblica é antes de mais nada o êxito no exercício de uma função. sob este aspecto o trabalho de José na casa de Potifar, e sua atividade no cárcere foram prósperos. Em ambas as situações é dito que Deus era com ele. E, é exatamente nisto que consiste o êxito do servo de Deus, ao invés de suas habilidades de gestor, Deus é o autor do triunfo do mesmo nas atividades que exerce (Gn 39. 3, 21- 23).

A fim de que evitemos erros, precisamos ler Provérbios sob o contexto da antiga aliança. A riqueza de procedência vã diminuirá, mas quem a ajunta com o próprio trabalho a aumentará (Pv 13. 11 ARCF). Para Salomão, a prosperidade é a consequência imediata do trabalho, ao menos esta é a visão deste em Provérbios. A pobreza é fruto da ausência de diligência. O que trabalha com mão displicente empobrece, mas a mão dos diligentes enriquece (Pv 10. 4 ARCF).

O contexto de Provérbios nos ensina que a preguiça tem de ser evitada, não que a prosperidade seja consequência inevitável do trabalho, em caso de dúvida, leia:
Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono?
Um pouco a dormir, um pouco a tosquenejar; um pouco a repousar de braços cruzados;
Assim sobrevirá a tua pobreza como o meliante, e a tua necessidade como um homem armado
(Pv 6. 9 - 11 ARCF). 
A lição é que no lugar de se entregar ao sono, ou à preguiça, o homem deve de envidar suas forças no trabalho.  Afinal, A preguiça faz cair em profundo sono, e a alma indolente padecerá fome (Pv 19. 15 ARCF), esta é a lição de Provérbios. Tais textos jamais devem ser lidos como se fossem promessas de prosperidade a todo trabalhador, afinal, existe toda uma ordem de ensinamentos bíblicos a serem considerados antes de tomarmos os textos de Provérbios de forma isolada.
Passei pelo campo do preguiçoso, e junto à vinha do homem falto de entendimento,
Eis que estava toda cheia de cardos, e a sua superfície coberta de urtiga, e o seu muro de pedras estava derrubado.  O que eu tenho visto, o guardarei no coração, e vendo-o recebi instrução. Um pouco a dormir, um pouco a cochilar; outro pouco deitado de mãos cruzadas, para dormir, Assim te sobrevirá a tua pobreza como um vagabundo, e a tua necessidade como um homem armado
(Pv 24. 30 - 34 ARCF). 
A lição deste último texto, por exemplo, é que a indolência conduz inevitavelmente à pobreza, por este motivo, ao invés de se entregar ao sono excessivo, o homem deve cuidar de sua terra, de suas posses, mas esta perspectiva, se choca com a que o mesmo autor demonstra nos Salmos (Sl 127. 2). Aqui o pão de dores é vão visto que Deus dá aos seus enquanto dormem. Por esta mesma razão que o pregador introduz uma perspectiva a partir da qual o trabalho somente é válido se o homem desfruta do mesmo (Ec 2. 24, 26; 3. 13), de nada adianta acumular e não saber para quem vai deixar (Ec 5.  8 - 20).

Na Bíblia, nem o trabalho, nem a prosperidade são fins em si, mas meios para algo. A doutrina apostólica é a de que no lugar de ser pesado para alguém o homem tem de trabalhar para ter para si, e para ajudar ao seu próximo (Ef 4. 28; ITs 4. 11; II Ts 3. 11, 12). Neste sentido, o ser prospero não se resume ao usufruto de bens de consumo, mas em ajuntar tesouros nos céus, por meio da caridade. Ver estudos sobre a Reciprocidade do amor cristão e o Sacrifício que agrada a Deus.

A verdadeira prosperidade consiste em possuir projetos e paulatinamente ir alcançando um por um. Mesmo aos que não enriquecem, estes podem experimentar a prosperidade por meio da fruição de alegria em seu trabalho, ou em sua obra. Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha? (Ec 3. 9 ARCF). A resposta é: Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida; E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus (Ec 3. 12, 13 ARCF). Ainda que o trabalho seja sofrido, ele vem acompanhado de coisas que são dom de Deus.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros. 
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