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sábado, 13 de agosto de 2016

A Evangelização no Mundo Acadêmico e Político



Por Evangelização pode-se entender a ação de pregar o Evangelho. O Mundo Acadêmico engloba as Universidades com seus alunos de nível superior. A academia foi fundada na Grécia, por Platão, como um modelo de escola filosófica. O maior desafio de se pregar neste ambiente consiste no fato inegável de que a simplicidade do Evangelho pode vir a ser rejeitada dadas às vindicações do mesmo.

Já o mundo político tem a ver com a pólis. πολις (pólis) é a expressão grega, que dá origem à palavra πολιτευμα (politeyma), das quais procedem política. A política, de acordo com Mário Sérgio Cortella consiste na administração das questões da  πολις. Pregar o Evangelho no mundo político consiste em representatividade cristã sólida em todas as esferas do viver.

O autor da lição da EScola Bíblica Dominical optou pela abordagem a partir de Daniel. Optarei por outra, uma vez que em Babilônia não houve pregação do Evangelho em si, antes preservação da tradição judaica - devidamente representada em Daniel e em seus amigos. O reconhecimento de Nabucodonosor não se dá pela ação evangelística de Daniel e seus amigos, mas via ação divina. Em outras palavras Deus humilhou diretamente ao soberano babilonico a fim de que este reconhecesse que há um Deus nos céus.

Por último, a evangelização, tanto na esfera acadêmica, quanto na política, passam pela ação apologética. O sentido desta nada tem a ver com o embate intelectual, mas com a defesa do Evangelho. O termo απολογιας (apologias) significa defesa. A despeito da rejeição de alguns autores, a apologética confunde-se com a Evangelização e dois textos deixam isto bem claro.
Como tenho por justo sentir isto de vós todos, porque vos retenho em meu coração, pois todos vós fostes participantes da minha graça, tanto nas minhas prisões como na minha defesa e confirmação do evangelho. Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho (Fp 1. 7, 17 ARCF). 
São estes os pressupostos para o desenvolvimento da presente temática.

A EVANGELIZAÇÃO EM AMBIENTE ACADÊMICO

O pressuposto bíblico para a Evangelização no mundo acadêmico e político é a pregação de Paulo no Areópago, em Atenas, cujo texto segue na íntegra abaixo. O leitor tem a liberdade de pular a citação, caso queira. Opto pela mesmo por ser imprescindível para a exposição da temática.
E, enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria. De sorte que disputava na sinagoga com os judeus e religiosos, e todos os dias na praça com os que se apresentavam. E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele; e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos; porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição. E tomando-o, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas? Pois coisas estranhas nos trazes aos ouvidos; queremos pois saber o que vem a ser isto (Pois todos os atenienses e estrangeiros residentes, de nenhuma outra coisa se ocupavam, senão de dizer e ouvir alguma novidade). E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos; Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas; E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação; Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós; Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração. Sendo nós, pois, geração de Deus, não havemos de cuidar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens. Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos. E, como ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos outra vez. E assim Paulo saiu do meio deles. Todavia, chegando alguns homens a ele, creram; entre os quais foi Dionísio, areopagita, uma mulher por nome Dâmaris, e com eles outros (At 17. 16 - 34 ARCF).  
Da citação observo que:

  1. Evangelizar no mundo Acadêmico demanda uma correta motivação. No caso de Paulo a sua comoção em espírito pela idolatria ateniense, a despeito da intelectualidade demonstrada pelos mesmos. 
  2. Evangelizar no mundo acadêmico demanda abordagem correta. perceba que o texto diz que Paulo disputava. O termo aqui é διαλέγομαι (dialegomai), que para Robinson tanto pode ser discursar, arrazoar (expor direito uma causa, alegando razões), disputar (sustentar opiniões contrárias, debater, defender). A abordagem aqui remete à tarefa apologética. 
  3. Paulo é chamado de paroleiro, do grego σπερμολογος (spermalogos), ou apanhador de sementes, figurando alguém que transmite notícias fragmentadas. Talvez pelo fato de o apóstolo juntar diversos poetas e escritores em sua abordagem junto aos gregos. Evangelizar no mundo acadêmico demanda preparo para as críticas. 
  4. Evangelizar demanda que se parta de elementos comuns entre o Evangelho e a cultura. Quando falo de cultura quero me referir aos elementos que constituem as ciências, as artes, e tudo o mais. Atualmente esta abordagem se daria em torno das letras de músicas seculares, poesia e mesmo filosofia. 
  5. Pregar o Evangelho na academia demanda intransigência com os elementos mais básicos do Evangelho, tais como o nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo. É mais que sabido pelos trabalhos de Norman T. Wrigth que a ressurreição era uma doutrina nada recepcionada no mundo antigo. Para os gregos o corpo era uma prisão da alma, e a morte era uma forma de libertação. Logo, Paulo falou de elementos que não agradavam aos intelectuais da época. 
  6. A despeito de não haver partido das Escrituras, como fazia nas sinagogas, Paulo, foi ao cerne do Evangelho ao pregar o arrependimento, o juízo de Deus e a ressurreição dos mortos. 
  7. O resultado da pregação de paulo pode ser visto na fala de Lucas: chegando alguns homens a ele, creram; entre os quais foi Dionísio, areopagita, uma mulher por nome Dâmaris, e com eles outros. O resultado é óbvio, alguns crerão, outros não. 
Feitas as considerações supra, necessário se faz passar à questão do Evangelho na política. 

A EVANGELIZAÇÃO EM AMBIENTE POLÍTICO

A política é conceituada como sendo a arte ou ciência de governar. A política pode ser exercida por meio dos cargos eletivos, por meio da participação popular e no exercício da influencia. Tenho escrito vários artigos neste espaço a respeito da participação do crente na política. Neste artigo exponho o ambiente de hostilidade que cerca cristãos. Além do mais a política tem se tornando um ambiente hostil por conta do papel dos cristãos na oposição à votação de lei pertinentes a aborto, Casamento entre iguais e outras do tipo.

O parâmetro para a Evangelização está em Pedro.
Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais, que combatem contra a alma; Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem. Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; Quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos; Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus. Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao rei (I Pe 2. 11 - 17 ARCF). 
Em primeiro lugar: considero todo o ambiente em que ocorre convivência como politico. Conforme afirma Mário Sérgio Cortella a política se faz com vistas à preservação e conservação dos meios de convivência. O contrário da ação política é a idiotia, ou a busca pela satisfação dos próprios interesses.

Daí a importância de observação da fala de Pedro, que chama a atenção para os seguintes fatores:

  1. O Crente é cidadão, mas é igualmente peregrino e estrangeiro, e tem na carne seu maior adversário. 
  2. O viver do crente tem de ser honesto, a fim de que mesmo diante de duras críticas o crente seja motivo de glorificação pessoal ao nome de Deus. 
  3. As ordenações humanas devem ser obedecidas, visto que seu papel consiste na condenação das más obras e louvor das boas. 
  4. O crente atua politicamente e Evangeliza fazendo o bem, e com o bem que faz ele tapa a boca dos ignorantes. 
  5. Outro aspecto é o do exercício da liberdade que nunca é usada para cobrir a malícia, mas para a prática das boas obras. 
  6. O apreço à pessoa humana é de fundamental importância. Honrar a todos equivale a reconhecer o valor intrínseco do ser humano e das funções que o mesmo exerce. 
  7. Amar a fraternidade á ter apreço por lações fraternais. Uma das maiores bases de defesa da Igreja é a fraternidade, ou seja, quando a mesma se firma como espaço no qual ocorre a reconciliação entre as pessoas. 
  8. Temer a Deus consiste em odiar ao mal (dentre os quais destacam-se a soberba e a arrogância). Na vida social e política tal se expressa no repúdio a toda forma de injustiça. 
  9. Honrar ao Rei, consiste no reconhecimento das instituições. 
Este é o proceder que deve acompanhar a Evangelização no meio político. Do contrário de nada adiantarão as palavras. 

O EXERCÍCIO DA APOLOGÉTICA

A despeito da visão negativa quanto a apologética, esta nada mais é do que a defesa firme e segura do Evangelho. Este foi o entendimento na carta aos Felipénses e o de Pedro aos crentes da diáspora. Veja:
Porque Quem quer amar a vida, E ver os dias bons, Refreie a sua língua do mal, E os seus lábios não falem engano. Aparte-se do mal, e faça o bem; Busque a paz, e siga-a. Porque os olhos do Senhor estão sobre os justos, E os seus ouvidos atentos às suas orações; Mas o rosto do Senhor é contra os que fazem o mal. E qual é aquele que vos fará mal, se fordes seguidores do bem? Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis; Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós, Tendo uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam do vosso bom porte em Cristo (I Pe 3. 10 - 15 ARCF).

  1. A primeira observação a ser feita é a de que a Apologética não abre mãos de um cabedal de conhecimentos, mas igualmente demanda um comportamento irrepreensível. 
  2. O apologeta sabe que tem de viver sua vida sob a consciência de que dará contas a Deus. A defesa intelectual tem de ser precedida por uma vida íntegra, cujas obras glorifiquem a Deus. 
  3. Vida intelectual tem de ser conjugada com piedade. É deste modo que o o crente estará preparado para responder com mansidão e tremor a quem pedir razão da esperança. 
Estes são os passos pára a Evangelização no mundo acadêmico e político. Em Cristo.
Marcelo Medeiros.

 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O Trabalho e Atributo de um Ganhador de Almas


Particularmente gostaria de propor ao leitor uma leitura a partir da temática: O Trabalho e Atributo de um Evangelista. A expressão Ganhador de Almas pressupõe aquisição de benefício, ou vantagem no exercício de uma tarefa, o que nada tem a ver com a figura do pregador do Evangelho. Feita esta observação inicial cabe ressaltar que:

  1. A tarefa da Evangelização é de incumbência do povo de Deus como um todo. 
  2. Que Deus levanta Evangelistas com o intuito realizarem um trabalho de pregação e plantação de Igrejas. 
  3. Que as pessoas que se enquadram neste perfil precisam desenvolver um trabalho com os devidos moldes bíblicos e serem marcadas por determinadas qualidades. 
Feitas as colocações há que se passar ao estudo. 

A EVANGELIZAÇÃO E A CONGREGAÇÃO

Um texto que serve para esta reflexão inicial é o de Atos dos Apóstolos. 
Mas os que andavam dispersos iam por toda a parte, anunciando a palavra (At 8. 4 ARCF). E os que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. E havia entre eles alguns homens chíprios e cirenenses, os quais entrando em Antioquia falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus. E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor. E chegou a fama destas coisas aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé a Antioquia  (At 11. 19 - 22 ARCF). 
O que o texto mostra é que o Evangelho saiu do círculo judaico, por meio de uma perseguição, decorrente da morte de Estevão. O termo dispersos é a tradução de διασπαρεντες (diasporentes), de onde vem διασπορα (diáspora), ou dispersão. É curioso que uma perseguição tenha promovido a expansão do Evangelho, mas foi isto que aconteceu. 

Antes destes versos, o que se percebe é a atuação majoritária dos apóstolos. Daqui para frente uma narrativa em que o papel dos irmãos da congregação é primordial. Lucas afirma que eles ευαγγελιζομενοι τον λογον (euaggelizomenói ton logon). O anúncio do Evangelho confunde-se com a propagação da própria palavra de Deus. 

O texto destaca ainda que em princípio o evangelismo era direcionado aos judeus, uma vez que os que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. Este mesmo padrão é seguido por Paulo em razão da compreensão de que estes precedem aos gentios na economia da salvação. 

Todavia esta mesma lógica é quebrada uima vez que chíprios e cirenenses, entraram em Antioquia falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus - ελαλουν προς τους ελληνιστας ευαγγελιζομενοι τον κυριον ιησουν (elaloun pros helleenitstas euanggelizomenoi ton kurion Iesoun) - em outras palavras, eles evangelizavam ao falar de Jesus. EVANGELIZAR É FALAR DE CRISTO, e TÃO SOMENTE DE CRISTO.

Tudo o que advém da fala evangelística resulta de uma ação divina. Aqui há que se observar que não existem ganhadores de almas. Há mensageiros cujo efeito de suas mensagens é visto de imediato, e aqueles cujo resultado se dá à médio e longo prazo. Independente de como ocorra o texto afirma asseveradamente: E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor., indicando com isto que os resultados são garantidos pela ação de Deus.

Lucas afirma que todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar (Lc 2. 47 ARCF), Se é Deus quem acrescenta à Igreja quem tem de ser salvo, onde está o espaço para que se pense em ganhadores de almas? Escrevendo aos irmãos de Corinto Paulo pergunta: quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? (I Co 3. 5 ARCF) e prossegue dizendo: Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento (I Co 3. 6 ARCF), e arremata afirmando:  Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento (I Co 3. 7 ARCF).

Cada Evangelista é um serviçal, cuja capacidade de conduzir pessoas à fé em Cristo decorre da medida do dom de Cristo concedida a cada um. A razão de ser do evangelismo em conjunto, se deve ao fato de que nem mesmo Paulo realizou a obra sozinho, antes contou com a cooperação de vários obreiros dentre os quais Apolo.

Independente de qualquer fator, o crescimento procede de Deus. Esta é uma marca distinta do Reino. Jesus disse:
O reino de Deus é assim como se um homem lançasse semente à terra. E dormisse, e se levantasse de noite ou de dia, e a semente brotasse e crescesse, não sabendo ele como. Porque a terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, por último o grão cheio na espiga. E, quando já o fruto se mostra, mete-se-lhe logo a foice, porque está chegada a ceifa (Mc 4. 26 - 29 ARCF). 
O que este texto ensina é que o Reino de Deus é similar à dinâmica da plantação. Ao homem cabe o papel de semear, ao passo que é a terra e a natureza da semente que traz o devido resultado. No contexto de Marcos, esta parábola segue a do semeador. Com isto  fica indicado que os resultados da pregação dependem exclusivamente de Deus. Somente uma visão histórica romanceada assimila que existam heróis no Reino de Deus.

Evangelismo é atividade eclesiástica, é incumbência da Igreja de Cristo Jesus e ponto. Ao Senhor compete o acrescentar almas à sua Igreja, algo que ELE  faz de acordo com sua soberana e eterna vontade.

FELIPE O EVANGELISTA
E, descendo Filipe à cidade de Samaria lhes pregava a Cristo. E as multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe dizia, porque ouviam e viam os sinais que ele fazia; Pois que os espíritos imundos saíam de muitos que os tinham, clamando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos eram curados. E havia grande alegria naquela cidade. E estava ali um certo homem, chamado Simão, que anteriormente exercera naquela cidade a arte mágica, e tinha iludido o povo de Samaria, dizendo que era uma grande personagem; Ao qual todos atendiam, desde o menor até ao maior, dizendo: Este é a grande virtude de Deus. E atendiam-no, porque já desde muito tempo os havia iludido com artes mágicas. Mas, como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus, e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres (At 8. 5 - 12 ARCF). 
Em consonância com a ação da Eclésia, Felipe prega a Cristo. Sendo que para a ação deste evangelista o termo empregado é κηρύσσώ (keryssoo). O papel de Felipe foi o e um arauto, cuja missão é anunciar em voz alta as decisões judiciais. Deus cooperou com este como o fez com os demais apóstolos, confirmando a palavra por meio de sinais. Estes vão desde a expulsão de demônios,até as mais diversas curas. 

A menção da conversão de um mago, ou mágico serve para a distinção entre as manifestações do poder de Deus e as habilidades ilusionista. A narrativa fecha com a proposta de simão ao apóstolo Pedro a fim de obter junto a este o poder de realizar os sinais que estes realizavam. Diante da negativa e da repreensão este segue seu caminho e os apóstolos continuam a anunciar Cristo nas aldeias dos samaritanos. 

O tema da pregação de Felipe era o Reino de Deus e o nome de Jesus. Possivelmente a menção ao nome se devesse às explicações sobre a origem e natureza dos milagres. O Resultado foi a adesão e o batismo de todos quantos ouviram e creram na mensagem de Felipe. Mas o Evangelismo não se esgota aqui. O papel decisivo do Evangelista em apreço junto ao eunuco tem de ser destacado. 
E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te, e vai para o lado do sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta. E levantou-se, e foi; e eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração, Regressava e, assentado no seu carro, lia o profeta Isaías. E disse o Espírito a Filipe: Chega-te, e ajunta-te a esse carro. E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entendes tu o que lês? E ele disse: Como poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse. E o lugar da Escritura que lia era este: Foi levado como a ovelha para o matadouro; e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, Assim não abriu a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra. E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro? Então Filipe, abrindo a sua boca, e começando nesta Escritura, lhe anunciou a Jesus. E, indo eles caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. E mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e o batizou. E, quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco; e, jubiloso, continuou o seu caminho (At 8. 26 - 39 ARCF). 
A direção para Felipe vem de Deus. Aliás Deus manda Felipé pregar ao Eunuco, manda Pedro acompanhar a comitiva de Cornélio, proíbe Paulo de pregar na Mísia e na Bitínia, mas o orienta em sonhos para se dirigir à Macedônia. Todavia a orientação se restringe à aproximação entre o Evangelista e o público alvo.

Uma dúvida bíblica foi a causa da aproximação entre Felipe e o Eunuco. Da resposta veio a oportunidade de anunciar Cristo. O texto lido Is 53 despertava dúvidas porque alguns diziam que se tratava do profeta, outros que o servo do Senhor seria o povo de Israel. Felipe diz que era Cristo. Maus uma vez o Evangelho trouxe alegria e como resultado o Batismo.

Mais uma vez o alvo foi o anúncio de Cristo, tendo na Escritura o seu ponto de partida. Não cabe ao evangelista propor soluções para necessidades além de Cristo. Esta é a maior oferta do Evangelho, na verdade a única. Como disse Brennan Manning Jesus é todo o Evangelho. Qualquer pessoa que apareça no Evangelho aparece como alguém que reage à Cristo.

QUALIDADES DE UM EVANGELISTA

  1. O Evangelista tem como qualidade o senso de oportunidade. O que poderia ter sido uima tragédia para a Igreja do primeiro século foi a maior das oportunidades para que o Evangelho chegasse em Samaria e daí fosse para os confins da terra, representado por Antioquia no texto de At 11.  
  2. Fidelidade à mensagem da Palavra de Deus. O Evangelho é bibliocêntrico, evangelizar é anunciar a Palavra de Deus. 
  3. Demanda conhecimento das especificidades do público alvo. A facilidade em Evangelizar aos judeus (o mesmo se aplica ao eunuco que vinha na carruagem) se deu em razão de que as Escrituras funcionaram como mediadoras, o mundo da ápoca er amais inserido na cultura bíblica. 
  4. Hoje o Evangelista é alguém que tem o papel de um construtor de pontes. No Evangelismo tal se dá mediante a percepção dos anseios do mundo atual e de como o Evangelho responde a tais anseios. 
  5. A conversão é a finalidade do Evangelho, Todavia esta é uma obra feita exclusivamente por Deus em Cristo e pelo Espírito. Daí a necessidade de que o pregador do Evangelho conte com o auxílio divino na tarefa. 
Deus os abençoe em Cristo, Marcelo Medeiros. 


sábado, 16 de julho de 2016

Igreja Agência Evangelizadora



A Igreja é a Agência Evangelizadora. Com isto, o que se quer dizer é que a razão de ser desta é a evangelização, ou a pregação do Evangelho. A grande comissão é o relato que expõe claramente  esta dimensão, ou modo de ser da Igreja. Todavia existem outros ensinos claros de Cristo que apontam para esta mesma verdade. O objetivo primordial deste post consiste em apontar para estes ensinos e articular os mesmos com os relatos da grande comissão e a descrição da atividade da comunidade primitiva nos Atos dos Apóstolos. 

O ENSINO DE CRISTO A RESPEITO DA NATUREZA DA IGREJA
Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus (Mt 5. 13 - 16 ARCF). 
Não se sabe ao certo, se por razões medicinais, ou meramente religiosas o sal era um elemento que era esfregado em uma criança recém nascida. Todavia seu uso mais importante se deve às funções preservativas do mesmo, conforme destacado por Lucas em seu evangelho. Bom é o sal; mas, se o sal degenerar, com que se há de salgar? Nem presta para a terra, nem para o monturo; lançam-no fora. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça (Lc 14. 34, 35 ARCF). 

Partindo deste elemento pode-se concluir que o texto de Mt 5. 13 - 16 na verdade versa a respeito da influência que os discípulos exercem na terra. É de suma importância, para a percepção de tal a leitura articulada com Mt 5. 2 - 12, onde as características dos discípulos de Jesus são traçadas. Quais?

  1. Senso de miséria espiritual e dependência divina, representado na pobreza. Falo a respeito neste e neste texto
  2. A contrição e o arrependimento decorrentes do senso de miséria espiritual, do qual falo melhor neste texto.  
  3. A mansidão cuja marca maior é a capacidade de autocrítica. 
  4. A fome de Deus e de Cristo e de sua Palavra.
  5. A misericórdia de acordo com este post, esta pode ser exercida pelo comedimento no julgar aos outros, ou pelo menos em fazê-lo de forma temerária. 
  6. A esta última pode-se somar um coração limpo, e 
  7. um espírito pacífico, decorrente da mansidão e misericórdia. 
Estes, mesmo sob o peso e esmagamento da perseguição exercem influência sobre os indivíduos. Deus soberanamente escolheu trabalhar desta forma a fim de que os êxitos do Evangelho pertencessem exclusivamente a Ele. Em outro texto Paulo fala claramente desta contraposição entre a majestade de Deus e do Evangelho e a fragilidade dos instrumentos que Cristo levanta a fim de proclamar sua Palavra. 
Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor; e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus. Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós (II Co 4. 3 - 7 ARCF). 
Que o leitor perceba uma verdade. O Evangelho traz a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus, traz como conteúdo o próprio Cristo, o Senhor, traz  iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Tal como no caso das lamparinas da Judeia, é marcada pela contraposição fragilidade do recipiente e excelência do conteúdo. Feitas as considerações iniciais, necessário se faz abordar a Grande comissão. 

A GRANDE COMISSÃO
E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém (Mt 28. 18 - 20 ARCF). 
A comissão na ótica de Mateus tem a ver com a autoridade que Cristo recebe imediatamente após a ressurreição, a fim de que se perceba tal verdade basta olhar para o kerigma primitivo e ver o quanto Jesus é chamado de SENHOR.  Sob esta autoridade os discípulos são enviados a batizar em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo

A comissão aqui compreende o discipulado cuja marca é a submissão obediente ao que Cristo ensinou. Para mais a respeito do discipulado ver aqui. A Igreja compreendeu isto perfeitamente tanto que o primeiro historiador chamou os fiéis da mesma de μαθηται (mathetai). O crescimento da Igreja primitiva equivalia ao crescimento do número dos discípulos. 
E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porãoas mãos sobre os enfermos, e os curarão. Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus. E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém (Mc 16. 15 - 20 ARCF). 
A respeito deste último texto traço minhas considerações neste post.  A ordem é para que os discípulos preguem pelo caminho. somente duas reações são possíveis, a de crença no Evangelho, e a de rejeição. Jesus oferece aos seus sucessores poder para que a mensagem seja confirmada por meio de sinais. 

A IGREJA PRIMITIVA E A OBEDIÊNCIA À GRANDE COMISSÃO

O testemunho da Igreja primitiva decorre do derramamento do Espírito no Pentecoste. E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder (Lc 24. 49 ARCF), e: Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra (At 1. 8 ARCF). 

Após o derramar do Espírito, os apóstolos compeçaram a pregar com ousadia. Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras (At 2. 14 ARCF), e como efeito da mensagem entregue sob autoridade, inspiração e poder do Espírito, três mil almas se renderam. 
E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, homens irmãos? E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo; Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar. E com muitas outras palavras isto testificava, e os exortava, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa. De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas (At 2. 37 - 41 ARCF). 

  1. A mensagem esmaga, quebranta o coração dos ouvintes. 
  2. Eles perguntam aos apóstolos o que devem fazer. 
  3. Os apóstolos apontam para eles o arrependimento e o batismo como condição, a fim de que os ouvintes desfrutem  dos dons do Espírito e da salvação. 
  4. Os apóstolos recomendam aos seus ouvintes, agora convertidos que os mesmos se separem de sua geração. 
  5. Somente após tais recomendações as pessoas são batizadas. 
  6. O batismo aqui decorre da recepção à PALAVRA DE DEUS. 
Ao lado do mover do Espírito, a oração era a mola propulsora da evangelização na Igreja primitiva. E, tendo orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com ousadia a palavra de Deus (At 4. 31 ARCF). O efeito imediato do mover do Espírito Santo aqui é a fala aberta e ousada por parte dos discípulos de Cristo. O termo anunciar aqui tem a ver com o verbo grego λαλέω (laleoo), que é a fala a respeito de um assunto específico. 

Outro termo importante é παρρησιας (parresias), cujo sentido é o de ousadia. Em outras palavras os discípulos propagavam o Evangelho abertamente, e até de forma rude. Talvez seja uma alusão ao caráter acusatório do Evangelho, uma vez que em todo o querigma os judeus são acusados da morte de Cristo e os gentios de sua idolatria. 
Mas vós negastes o Santo e o Justo, e pedistes que se vos desse um homem homicida. E matastes o Príncipe da vida, ao qual Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas (At 3. 14, 15 ARCF). 
Por mera questão de tempo concluo este estudo afirmando a dependência do Espírito, da oração e da palavra para que a Igreja conclua sua missão enqunto agência evangelizadora. Em Cristo. 

Marcelo Medeiros. 

sábado, 2 de julho de 2016

O Que é Evangelização



No sentido lexical do termo evangelização é o ato, efeito, ou movimento de evangelizar, de pregar a palavra do Evangelho, sendo posteriormente entendido como a divulgação de qualquer sistema de ideia. Ainda seguindo o mesmo dicionário pode-se dizer que o Evangelismo consiste na divulgação de qualquer doutrina religiosa baseada no Evangelho, ou na elaboração de um sistema moral e político que tem naquele a sua base. A pregação e a propagação do Evangelho em si são a essência do Evangelismo.

Destas definições compreende-se que evangelizar é pregar o Evangelho, perdoem-me pela redundância. a discussão se dá em torno da seguinte questão: qual o papel da ação social nesta? Com exceção da TMI (Teologia da Missão Integral), pouquíssimas propostas de evangelização trazem em seu bojo um projeto de melhoria social. É como se a salvação de almas fosse equivalente a uma garantia de vaga no céu, quando na verdade o Evangelho reclama o homem por completo. Neste estudo buscarei base bíblica e exegética para o que até o momento foi afirmado.

CONSIDERAÇÕES TEXTUAIS
Ele, porém, disse-lhes: Não vos assusteis; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; já ressuscitou, não está aqui; eis aqui o lugar onde o puseram. Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis, como ele vos disse (Mc 16. 6, 7 ARCF). 
Uma consideração inicial  é a de que a base por excelência da ação evangelística é a encarnação, vida, morte e ressurreição de Cristo. Sem Jesus encarnado, humanizado, tentado, morto e ressurreto não há Evangelho de fato. A encarnação e vida de Cristo diz concernente à presença de Deus entre os homens. Afinal, o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1. 14 ARCF), e: Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou (Jo 1. 18 ARCF). Todos os evangelistas justificam a ressurreição de Cristo nesta base.
E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios. E, partindo ela, anunciou-o àqueles que tinham estado com ele, os quais estavam tristes, e chorando (Mc 16. 9, 10 ARCF). 
A qualidade essencial do Evangelista é o encontro com Jesus, e as marcas resultantes do mesmo. Em Maria as marcas foram a libertação. Somente quem experimenta libertação tem poder de anunciar Cristo para quem está triste. Neste contexto απηγγειλεν (apaggelein) vem απηγγέλλω (apaggeloo), cujo sentido é o de levar e trazer informação, uma mensagem, notícias. A notícia neste contexto tem a ver com a ressurreição de Cristo. Ela não é endereçada a todos, mas aos tristes. 


Não é a primeira vez que se associa o Evangelho (boa notícia) com os tristes. O próprio Jesus disse: O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração, A pregar liberdade aos cativos, E restauração da vista aos cegos, A pôr em liberdade os oprimidos, A anunciar o ano aceitável do Senhor (Lc 4. 18, 19 ARCF). Pobres, tristes, quebrantados de coração, este é o público destinatário do Evangelho. 

E, ouvindo eles que vivia, e que tinha sido visto por ela, não o creram. E depois manifestou-se de outra forma a dois deles, que iam de caminho para o campo. E, indo estes, anunciaram-no aos outros, mas nem ainda estes creram (Mc 16. 11, 12 ARCF). 
Nem sempre o Evangelho atrai a credibilidade, e não é para menos afinal a ressurreição era uma doutrina incrível, na acepção do termo. Os judeus a condicionavam à restauração de todas as coisas. E a ressurreição de Jesus tem como diferencial dos demais casos de ressurreição, o fato de ter como propósito uma nova vida. Em seguida texto faz menção indireta a um evento cujo relato encontra-se no Evangelho de Lucas sobre o encontro com Cristo no caminho de Emaús, e de como Cristo os convenceu pelas Escrituras de que seus sofrimentos, morte e ressurreição eram necessários. A base do Evangelho é a própria Escritura, e em certo sentido evangelizar é compartilhar a mesma com quem não a conhece.
Finalmente apareceu aos onze, estando eles assentados juntamente, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado  (Mc 16. 14 - 16 ARCF). 
Tal como a missão, A evangelização pressupõe uma experiência íntima com Deus e com Cristo. Nesta a incredulidade natural é lançada em rosto. Em outras palavras Deus trata as várias facetas do ceticismo natural. Somente após o homem é enviado. O que quero falar aqui é que enquanto o homem é escravo de sua autocentricidade, de sua arrogância, ansiedade e desejos por prazer ele não possui a percepção e a sensibilidade necessárias ao pregador do Evangelho. O coração do evangelista é totalmente tomada pela realidade da cruz e da ressurreição.

O verbo que aparece aqui é κηρύσσω (keryssoo), cujo sentido é o de apregoar, proclamar em voz alta. Usualmente este era empregado para designar a função do arauto. Este era um mensageiro que saía até as praças públicas para anunciar as decisões judiciais. O Evangelho possui este caráter por ter uma mensagem de apelo ao arrependimento. Do judeu, por ter matado e crucificado a Cristo, do pagão por ter se entregue à idolatria e ao culto dos prazeres sensuais. 

A fé é a resposta exigida pelo Evangelho a fim de que o homem possa ser salvo. A pregação é acompanhada de uma série de sinais. 
E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porãoas mãos sobre os enfermos, e os curarão (Mc 16. 17, 18 ARCF).
A expressão σημεια (seemeia) indica um sinal pelo qual Deus torna seu poder conhecido. O Evangelho é poder de Deus. Não é sem razão que Paulo afirma: não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego (Rm 1. 16 ARCF). Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus (I Co 1. 18 ARCF). 

Por último, os sinais são Deus cooperando com os seus santos no intuito de confirmar a mensagem. Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus. E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém (Mc 16. 19, 20 ARCF). 

EVANGELIZAÇÃO E AÇÃO SOCIAL

Não é nova a discussão a respeito do papel da ação social na Evangelização, menos ainda da predominância de uma sobre a outra. Para Jonh Stott a evangelização tem a ver com o anúncio da boa notícia, podendo ser acompanhada de ação social enquanto sinal de libertação da autocentricidade humana. Sim a ação social é mais um sinal de que a salvação chegou na vida da pessoa do que da missão em si. Em consonância com o texto acima Stott afirma categoricamente:
Aboa nova é Jesus. E a boa nova que anunciamos a respeito de Jesus é que ele morreu pelos nossos pecados e foi ressuscitado da morte. Em consequência, ele reina como Senhor e Salvador a destra de Deus e tem autoridade tanto para ordenar o arrependimento e a fé quanto para conceder o perdão de pecados e o dom do Espírito Santo a todos aqueles que se arrependerem, crerem e forem batizados. E tudo isto, de acordo com as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. E mais: isso é exatamente o que significa "proclamar o Reino de Deus". Pois, em cumprimento às Escrituras, o Reino de Deus penetrou na vida dos homens por meio da morte e ressurreição de Jesus. Este reino ou domínio de Deus é exercido a partir do trono por Jesus, que concede a salvação e requer obediência. Essas são as benção e exigência do Reino (STOTT, Jonh. A Missão Cristã no Mundo Moderno). 
A afirmação de Stott aqui é a de que Jesus é a totalidade do Evangelho, que por sua vez diz a respeito de Cristo e tão somente deste. 
Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor  (Rm 1. 1 - 4 ARCF).
São recorrentes em todo o querigma primitivo a abordagem a respeito da morte, ressurreição e exaltação de Cristo.  Esta é a base da Evangelização. Tudo o mais é tão somente detalhe. A grande questão é deixar o evangeliquês de lado e pregar a Cristo encarnado.  O lugar da ação social é o de sinal da libertação do eu. Ação social aqui não é assistencialismo apenas, mas uma tomada de ações visando a correção dos fatores que produzem e aprofundam as injustiças sociais. 

CONCLUSÃO

Evangelizar é pregar o Evangelho, que por sua vez é a boa nova de Salvação em Cristo, que traz a promessa de perdão, salvação e reconciliação entre o homem e Deus, e por outro a exigência de arrependimento e obediência radical. Em Cristo, Marcelo Medeiros. 
 


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