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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Isto sim é campanha difamatória




Os produtores desta página precisam entender,entre outras questões, que foi do calvinismo que veio a ética protestante que deu ao mundo um conjunto de valores que permitiram a ascensão do capitalismo. Possa ser que prefiram o feudalismo ao capitalismo e a cultura católica à protestante. 


Max Weber em sua análise do fenômeno supra disse que o que em princípio era acumulação de riqueza para a glória de Deus, daria margem a uma série de vícios. Daí que posso intuir que o fenômeno com a Europa nada tenha a ver com Calvinismo, como levianamente colocado aqui, mas com a prosperidade experimentada neste continente. Veja a América,. por exemplo, majoritariamente arminiana. 

Resumindo o que mata com uma Igreja são problemas relacionados à ansiedade, enriquecimento, busca desenfreada por prazeres (hedonismo), e um evangelho que se coloca à serviço destes propósitos humanos mais baixos. Esta é a luta real pela causa do Evangelho, o resto é picuinha de quem não sabe nem o que é calvinismo, nem arminianismo, mas acha chique escolher um lado para defender, como se ser um, ou outro fosse o mesmo que ser flamenguista e vascaíno. 



Abraços. Marcelo Medeiros. 

domingo, 26 de abril de 2015

O que dizem os pais da igreja sobre o livre-arbítrio? (A Falácia do CACP)



Li um artigo no site do CACP (Centro Cristão Apologético de Pesquisa) afirmando que os pais da Igreja eram defensores do livre arbítrio. A informação não é de todo estranha uma vez que o referido toma como fonte as citações do teólogo e filósofo Norman L Geisler em seu livro Eleitos, mas livres. A minha estranheza se deu pelo fato do autor conseguir enxergar livre arbítrio na Bíblia [aqui]. 

Falo assim, porque enxergo uma distância muito grande entre o suposto direito de escolha e a liberdade para de fato obedecer a lei, ou os mandamentos do Senhor. Mas para que arminianos não digam que estou vendo coisas que não existem na Bíblia, vou tecer algumas considerações a respeito da visão do Deuteronômio e a lei. 

Deus disse, por meio de Moisés: Eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição (Dt 11. 26 ACF). Agora preste atenção neste texto: 
Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, Amando ao Senhor teu Deus, dando ouvidos à sua voz, e achegando-te a ele; pois ele é a tua vida, e o prolongamento dos teus dias; para que fiques na terra que o Senhor jurou a teus pais, a Abraão, a Isaque, e a Jacó, que lhes havia de dar (Dt 30. 19, 20 ACF). 
Uma leitura superficial pode dar a entender que o texto seja uma clara defesa do livre arbítrio. Nada mais enganoso. Por quê? Simples, qualquer seminarista e aluno da escola bíblica dominical sabe que a Bíblia é a fiel interprete de si mesma. Qual o evangélico devidamente ambientado que nunca ouviu a frase texto sem contexto é pretexto para heresia? Agora a pergunta crucial, por que o contexto de Deuteronômio não é levando em conta quando se quer ver aqui o que não há - a doutrina do livre arbítrio? 

Um primeiro fator a ser levado em conta é que a leitura da lei em Deuteronômio, toma como certa a possibilidade de que Israel não a cumpriria. Não se trata de um conhecimento antecipado dos atos futuros do povo, mas também de um conhecimento pessoal. Deus sabe que o povo é de dura cerviz, logo, eles não possuem um coração disposto a obedecer a voz de Deus, bem como aos seus mandamentos. 

Uma particularidade da Teologia do Dt é que ali a centralidade da piedade é colocada no coração. A obediência aos mandamentos deve ser baseada no amor a Deus de todo o coração (Dt 6. 5, 6; 11. 13). A sabedoria judaica entende que o coração é o local de onde procedem as saídas da vida (Pv 4. 23). E no Dt há uma antecipação de que o coração tem de ser circuncidado (operado para que as impurezas sejam removidas). Veja então o texto abaixo:
E sucedeu que, ouvindo a voz do meio das trevas, e vendo o monte ardendo em fogo, vos achegastes a mim, todos os cabeças das vossas tribos, e vossos anciãos; E dissestes: Eis aqui o Senhor nosso Deus nos fez ver a sua glória e a sua grandeza, e ouvimos a sua voz do meio do fogo; hoje vimos que Deus fala com o homem, e que este permanece vivo. Agora, pois, por que morreríamos? Pois este grande fogo nos consumiria; se ainda mais ouvíssemos a voz do Senhor nosso Deus morreríamos. Porque, quem há de toda a carne, que ouviu a voz do Deus vivente falando do meio do fogo, como nós, e ficou vivo? Chega-te tu, e ouve tudo o que disser o Senhor nosso Deus; e tu nos dirás tudo o que te disser o Senhor nosso Deus, e o ouviremos, e o cumpriremos. Ouvindo, pois, o Senhor as vossas palavras, quando me faláveis, o Senhor me disse: Eu ouvi as palavras deste povo, que eles te disseram; em tudo falaram bem. Quem dera que eles tivessem tal coração que me temessem, e guardassem todos os meus mandamentos todos os dias, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos para sempre. Vai, dize-lhes: Tornai-vos às vossas tendas. Tu, porém, fica-te aqui comigo, para que eu a ti te diga todos os mandamentos, e estatutos, e juízos, que tu lhes hás de ensinar, para que cumpram na terra que eu lhes darei para possuí-la. Olhai, pois, que façais como vos mandou o Senhor vosso Deus; não vos desviareis, nem para a direita nem para a esquerda. Andareis em todo o caminho que vos manda o Senhor vosso Deus, para que vivais e bem vos suceda, e prolongueis os dias na terra que haveis de possuir (Dt 5. 23 - 33 ACF). 
Perceba que mesmo ordenando ao povo que cumpra com os mandamentos Deus sabe que o mesmo não possui um coração que o tema. 
Estas são as palavras da aliança que o SENHOR ordenou a Moisés que fizesse com os filhos de Israel, na terra de Moabe, além da aliança que fizera com eles em Horebe. E chamou Moisés a todo o Israel, e disse-lhes: Tendes visto tudo quanto o Senhor fez perante vossos olhos, na terra do Egito, a Faraó, e a todos os seus servos, e a toda a sua terra; As grandes provas que os teus olhos têm visto, aqueles sinais e grandes maravilhas; Porém não vos tem dado o Senhor um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje (Dt 29. 1 - 4 ACF).  
Este texto deixa vlaro que somente mediante uma intervenção divina o homem pode vir a ter um novo coração e com este a disposição, ou como diria Edwards a motivação correta para temer a Deus e obedecê-lo. 

Aqui convém deixar claro que pouco importa a falsa solução que o arminianismo dá para esta questão, se a graça é soberana, ou preveniente. O fato é que sem que Deus intervenha, sem que o coração seja mudado, não há a mínima possibilidade de que o homem satisfaça as condições exigidas na lei. 

Assim, Deus pede para que o povo escolha (Dt 30. 19, 20), mas sabe que o povo não escolherá, tanto que o exílio já é previsto (Dt 30. 1 - 4), como é prevista que a libertação do mesmo se dará mediante a circuncisão que Deus fará no coração humano. 

Concluo que não há na Bíblia espaço para que se creia em algo como livre arbítrio. quanto as citações dos pais da Igreja é necessário maior material para que se saiba o que os mesmos pretendem combater. Com toda certeza não é o Calvinismo, e menos ainda o Arminianismo, visto que ambas são leituras históricas da Bíblia com a fins de resolução de problemas históricos específicos que não foram sequer cogitados pelos cristãos primitivos. Mas falarei mais a respeito em outro artigo. 

Abraços calvinianos em Cristo. Marcelo Medeiros. 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Pastor Antônio Gilberto fala de Calvinismo



Sempre vi, e continuo a ver, o Pastor Antônio Gilberto como modelo de formação acadêmica a ser seguido por mim. Ele é uma raridade no meio pentecostal, marcado pela estranha ênfase no emocionalismo, na experiência prática em detrimento dos estudos, principalmente no que tange ao campo teológico. Daí a importância deste ícone das assembleias de Deus para jovens que pretendem unir piedade com erudição intelectual. 

Li alguns livros do autor, dentre os quais A Bíblia Através dos Séculos, e dois que falam sobre a Escola Dominical. Confesso que do pouco que li nada pode perceber a respeito de sua posição teológica no tocante à doutrina da salvação, ou seja, não sei dizer se o mesmo é, ou não reformado. E sinceramente, não interessa a esta altura do campeonato. 

Li um artigo no blog Teologia Pentecostal a respeito de vários temas, dentre os quais calvinismo, predestinação, arminianismo e outros receberam devida abordagem. Confesso que pouco entendi da posição do pastor supra, mas um fator importantíssimo ao debate veio à tona: a preocupação de que uma vez adotada a fé calvinista o Brasil se torne uma Europa, veja o tópico três [leia aqui]. Eu gostaria de fazer algumas observações:

  1. A frase uma vez salvo, salvo para sempre é uma afirmação do senso comum não encontrada na Bíblia, mas que expressa a verdade bíblica da doutrina da perseverança dos salvos. Segundo esta, os salvos, os eleitos perseverarão, pois estes possuem no penhor do Espírito (Ef 1. 13, 14; 4. 31), no caráter pleno da obra de Deus (I Co 1. 8, 9; Fp 1. 6; I Pe 5. 10) e no poder de Deus a garantia de que perseverarão (Jd 23, 24). Face ao fundamento e apoio bíblico desta doutrina, a questão a ser colocada é se esta é uma obra sinérgica, ou monergística. 
  2. A Bíblia trabalha com a ideia de apostasia e nenhum apóstolo incentiva o pecado, ou a falta de zelo. Mas mesmo nas exortações pertinentes ao perigo de desvio da fé, se percebe que os escritores bíblicos julgam estar falando com pessoas crentes (Hb 10. 34, 35, 38, 39; Jd 3 - 5, 19). 
  3. Calvinistas e arminianos não tem a mínima dificuldade de reconhecer que a eleição bíblica se dá por Cristo e em Cristo. A questão está no que isto vem a significar e creio que para ambos tem sentido diferente. 
  4. Para o arminiano a eleição é baseada na presciência de Deus, que elege as pessoas de acordo com a decisão futura delas em abraçar a Cristo. De imediato esta contradição foi percebida por Wayne Grüdem em sua Teologia Sistemática, e tratada como uma falsa solução. Mas o argumento de bíblico de que não há um justo, nem um sequer, ninguém que busque a Deus, é mais do que suficiente para anular esta concepção. 
  5. Colocar a culpa do esfriamento religioso da Europa no calvinismo é injusto, fatores históricos diversos precisam ser levados em conta. a) A prosperidade criada pelo capitalismo, foi identificada por Weber como causa de um futuro esfriamento da religião, b) associe a esta o crescimento da secularização (ou desencantamento de mundo), e é possível vislumbrar o ambiente europeu. c) Nesta equação não se pode deixar de considerar as guerras entre arminianismo e calvinismo. d) Estas redundaram no Evangelicalismo que devido ao seu caráter superficial permitiu que a cultura minasse a fé em países de primeiro mundo. É contra estas coisas que cristãos precisam se armar. 
  6. Os males do arminianismo não se resumem à autonomia exacerbada do homem, que na verdade está mais para o pelagianismo revivido por Finney do que para qualquer outra posição. 
  7. Enquanto doutrina, o arminianismo discorda do calvinismo apenas a partir do segundo ponto, e deixa o último em aberto. Esboço minha posição em um artigo que pode ser lido neste blog e acessado neste link
Mas sou forçado a concordar com a opinião do autor de que a melhor opção é o equilíbrio bíblico, que aliás vejo em calvinistas como Spourgeon, Lloydd-Jones e no evangelical Stott, e que de certa forma esboço em artigos que estão neste blog, dentre os quais este textoeste e este aqui. Que Deus em Cristo vos abençoe. 

Marcelo Medeiros. 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Como Vejo o Interesse Pela Fé Reformada no Brasil



Escrevi recentemente a respeito do crescente interesse dos crentes brasileiros, inclusive pentecostais, pela fé reformada. Fato este que vejo com profunda alegria [aqui]. Não se trata de querer calvinizar a assembleia de Deus, e muito menos de discutir questões loucas, mas de alegrar-se por ver ventos de renovação teológica em nosso país. 

Do pouco que estudei em história da Igreja, pode observar a controvérsia de Agostinho com Pelágio, seguida das tentativas de síntese das assertivas agostinianas com as pelagianas, que voltaram ao cenário cristão no contexto da reforma (um retorno à teologia agostiniana), e no movimento da contra reforma (que levou católicos a aderirem o semi pelagianismo, possivelmente em razão da influência da companhia de Jesus). 

O surgimento do arminianismo, e mais especificamente o processo de radicalização das ideias de Iakobus Arminius (algo que foi obra dos seguidores do mesmo), o retorno do pelagianismo com toda força nas pregações e Teologia de Charles Finney, e a ascensão do liberalismo teológico como alternativa a série contínua de controvérsias, contribuíram para o sucessivo descrédito na teologia. 

O liberalismo Teológico, é um filho da teologia com os ideias iluministas. É o resultado de uma tentativa de aplicar a metodologia científica  à produção teológica, de forma a produzir um conhecimento tão indubitável quanto o das ciências naturais. A descrença no elementos sobrenatural da Bíblia é tão somente uma consequência da adoção de pressupostos naturalistas e deístas na produção teológica liberal. 

O leitor me perdoe o exagero, mas o Brasil vivia um estranho processo. Eu diria que influenciado pelo que há de pior na teologia evangelicalista americana, o pelagianismo foi excessivamente absorvido, e de outro lado, o amplo crescimento do liberalismo teológico nos seminários. Este último fez com que muitos crentes marginalizassem a Teologia, visto que a mesma foi transformada em ferramente crítica, ao invés de em um mapa que auxilia na leitura da Bíblia. E a Estranha mistura de pelagianismo com semi pelagianismo?

O discurso do mérito predominou, principalmente nas Igrejas pentecostais e neopentecostais. Pasme, mas mesmo a Bíblia dizendo: pela graça sois salvos [...], não foram poucas as vezes que ouvi, temos de trabalhar pela nossa salvação, quando Paulo diz: ora, o salário do homem que trabalha não é considerado como favor, mas como dívida, todavia aquele que não trabalha, mas confia em Deus que justifica o ímpio, a sua fé lhe é creditada como justiça (Rm 4. 4, 5 NVI). 

Sucessivas vezes ouvi de pregadores a seguinte frase: você ainda não está salvo, algo que enquanto teologia não sei expressar o que é, dado o caráter aberrante e antibíblico. Jesus disse que todo aquele ouve as suas palavras e crê naquele que o enviou já está salvo, passou da morte para a vida (Jo 5. 24 [paráfrase]). Já era hora de mudar mesmo.

Embora Reformado por convicção, não creio que um processo de luteranização, ou de calvinização resolverá o problema. O interesse pela teologia reformada é fruto de leitura e reflexão, que ao meu ver se ampliará cada vez mais em razão da ampla literatura, da disponibilização das obras em mídias digitais, e da crescente discussão, e o caminho é o mover do espírito, que trará bom senso para que as pessoas vejam a consistência bíblica da Teologia da Reforma. As discussões, os fóruns, podem ser de máximo proveito desde que a coerência fale, e nunca a soberba. 

Em Cristo, Marcelo Medeiros
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