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domingo, 15 de outubro de 2017

A salvação e o Advento do Salvador



O termo salvação implica a noção de livramento, libertação. Para Stott, se no tempo de Jesus a salvação possuía correlação com vida eterna, no presente momento, ela se relaciona com a noção de liberdade. Edward  define como sendo a libertação da punição em consequência do pecado, e a admissão na vida eterna, e felicidade no Reino de Cristo, o salvador.


No novo Testamento, dois termos são empregados para expressar o conceito são σωζω (soodzo), e σωτηριον (sooterian, ou sooterion), empregados respectivamente para livramento temporal e espiritual. Tanto o léxico do Novo Testamento grego, de Edward Robinson, as notas exegéticas da Bíblia de Estudo Palavra chave, e o léxico do Novo Testamento grego de Gingrich e Danker, possibilitam o entendimento de que mesmo quando aplicados em relação aos perigos temporais, tais verbetes indicam que o fundo do problema é o pecado.


É sob este prisma que σωζω precisa ser compreendido, uma vez que os evangelistas o empregam para os relatos das curas de Jesus (Mt 9. 21 - 23; Mc 5. 23, 28, 34), livramentos temporais (Mt 8. 21 - 27), e salvação espiritual (Mt 18. 11; Lc 9. 56; 19. 10). Esta introdução se faz necessária em razão de uma maior concatenação entre a lição de escola bíblica e a exegese bíblica.

A razão de ser do advento de Jesus, cujo nome significa salvação, é a salvação dos homens de seus pecados. Isto é afirmado inicialmente no sonho de José, onde o anjo lhe explica a natureza da concepção de Maria.
Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Que estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo. Então José, seu marido, como era justo, e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente. E, projetando ele isto, eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo; E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta, que diz; Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, Que traduzido é: Deus conosco. E José, despertando do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu a sua mulher; E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus (Mt 1. 18 - 25 ACF). 
Neste texto Jesus é ao mesmo tempo aquele que salva o povo dos seus pecados e por isto ele é Deus presente. As expectativas, outrora depositadas na descendência davídica, agora recaem sobre Jesus. Ele é o DEUS CONOSCO. Aqui o alvo da salvação é a nação de Israel, à nação judaica se destina a salvação (γαρ σωσει τον λαον αυτου απο των αμαρτιων αυτων -  porque ele salvará o seu povo dos seus pecados).

Em sucessivos textos dos Evangelhos Jesus identifica a salvação como sendo seu propósito maior.
Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus. Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido (Mt 18. 10, 11 ACF). 
Neste contexto a pergunta é a respeito de quem é o maior no Reino dos céus, o que faz com que Jesus pegue uma criança e a coloque entre os seus discípulos. Brennan Manning afirma que na época de Cristo, as crianças não eram vista de forma idealizada, mas com desprezo. Jesus identifica o desprezo direcionado às crianças com a situação do pecador perdido, e mais: diz que os que se identificam com os mesmos são o alvo de sua obra.

Neste contexto é inserida a parábola da ovelha perdida, sendo neste contexto cada pequenino uma ovelha e Jesus, o Pastor que vai em busca dos tais. Esta mesma fórmula se repete ainda mais duas vezes em Lucas. Na primeira, na ocasião em que os samaritanos opõem-se à passagem dele pelo seu território, e os discípulos propõe-se a clamar para que desça fogo do céu, ao que Jesus responde: que o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia (Lc 9. 56 ACF).

Lucas também narra a história de Zaqueu, um coletor de impostos que queria conhecer quem era Jesus, e para tal subiu em um pé de figueira brava. Convidado por Jesus para que descesse, ele recebe a Jesus com alegria e motivação de repartir seus bens com os pobres e restituir tudo o que ele havia defraudado alguém. Diante de tal reação Jesus diz: 
E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador. E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado. E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido (Lc 19. 7 - 10 ACF). 
A expressão para perdido é απολωλος (apoloolos) que vem do verbo απόλλυμι (hapólymi). O prefixo από denota intensidade, ao passo que όλλυμι denota destruição. A criança desprezada, a prostituta, e o publicano odiado foram terrivelmente afetados pelo pecado e destruídos intensamente pelo efeito do mesmo. Daí a necessidade de um salvador.  

Ao longo dos Evangelhos sinóticos σωζω será empregado para os eventos de cura, sempre acompanhado da expressão a tua fé te salvou (Mt 9. 22; Mc 5. 34; Lc 8. 48; 17. 19; 18. 42). Estas curas são sinal da presença do Reino, ser curado é indício de ser alcançado pela presença do Reino de Deus. 

Por último, 
E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele (Jo 3. 14 - 17 ACF). 
Quem crê em Jesus não perece, mas tem a vida eterna. Esta verdade é afirmada duas vezes no texto. Também é dito que Deus enviou seu filho ao mundo para que o mundo fosse salvo por ele. Estas palavras encontram eco na fala de Paulo a seu filho na é, Timóteo:
Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna (I Tm 1. 15, 16 ACF). 
A razão de ser do advento de Cristo, foi a salvação dos pecadores. Ele se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo (I Tm 2. 6 ACF). Esta verdade te, de ser mantida acesa em nossos corações e em nossas mentes. 

Marcelo Medeiros, em Cristo. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

A Condição da Criança Quanto à Salvação



Uma pergunta que sempre me é feita nos seminários em que ministro é: uma criança que morre ainda no período da inocência, pode vir a ser condenada? Há pessoas que respondem com um sonoro não, por pressuporem, erradamente, diga-se de passagem, que toda criança é pura e inocente. O mais curioso é que pensam que estão lendo Mt 18. 1 - 4, quando na verdade estão lendo O Emílio de Jean Jaques Rousseau. 

Não há razões para se pressupor que ao dizer que das crianças é o Reino, Jesus o tenha feito em razão de uma suposta pureza. Pelo contrário, a Bíblia é clara em dizer que o coração do homem é mau desde a sua infância (Gn 6. 5; 8. 21). Nas Confissões de Santo Agostinho o pensador em apreço fala a respeito de um caso em que observa inveja em uma criança. (Fato este admitido pela Psicologia, com a ressalva de que dentro deste ramo do saber a inveja não é vista como um pecado). 

Jesus afirma que das crianças é o Reino, e que quem quiser ser o maior no mesmo tem de se fazer como um dos pequeninos pelo fato de que as crianças no seu tempo eram desprezadas, não possuíam autonomia social, portanto eram dependentes dos adultos. Fazer-se como uma criança é assumir total dependência de Deus. 

Recentemente o teólogo reformado Jonh Piper causou na net ao afirmar que "todos os bebês são salvos por Cristo". Para justificar o teólogo não apela jamais à pureza das mesmas, antes ao conhecimento dos mesmos, sendo este um fator preponderante no juízo de Deus (At 17. 30; Rm 2. 14, 15). Neste artigo Piper afirma que pelo mesmo princípio crianças com deficiências mentais também podem ser salvas, visto que as mesmas nasceram sem as condições necessárias para a compreensão do conteúdo da revelação. 

Louvo a Deus pela vida de Piper e rogo que ele seja o sinal de levantamento de toda uma geração de calvinistas, ou reformados que pensam fora da caixa, e com isto evitem as incosistências bíblicas internas a este ramo de conhecimento. 

Minha conclusão inicial é a de que se uma criança morre, antes de poder discernir entre o bem e o mal e ouvir e entender o conteúdo do Evangelho, ela será julgada pelo seu conhecimento, e portanto inocentada. Outra questão é que biblicamente, a vida está nas mãos de Deus (Sl 39. 5, 6, 11). A verdade é que uma criança que morre com poucos dias morre porque Deus assim o permitiu, para não dizer que quis, e o seu querer sempre redunda em algo bom (Rm 8. 28). Mas como disse esta é apenas uma conclusão inicial. 

Marcelo Medeiros. 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Pastor Antônio Gilberto fala de Calvinismo



Sempre vi, e continuo a ver, o Pastor Antônio Gilberto como modelo de formação acadêmica a ser seguido por mim. Ele é uma raridade no meio pentecostal, marcado pela estranha ênfase no emocionalismo, na experiência prática em detrimento dos estudos, principalmente no que tange ao campo teológico. Daí a importância deste ícone das assembleias de Deus para jovens que pretendem unir piedade com erudição intelectual. 

Li alguns livros do autor, dentre os quais A Bíblia Através dos Séculos, e dois que falam sobre a Escola Dominical. Confesso que do pouco que li nada pode perceber a respeito de sua posição teológica no tocante à doutrina da salvação, ou seja, não sei dizer se o mesmo é, ou não reformado. E sinceramente, não interessa a esta altura do campeonato. 

Li um artigo no blog Teologia Pentecostal a respeito de vários temas, dentre os quais calvinismo, predestinação, arminianismo e outros receberam devida abordagem. Confesso que pouco entendi da posição do pastor supra, mas um fator importantíssimo ao debate veio à tona: a preocupação de que uma vez adotada a fé calvinista o Brasil se torne uma Europa, veja o tópico três [leia aqui]. Eu gostaria de fazer algumas observações:

  1. A frase uma vez salvo, salvo para sempre é uma afirmação do senso comum não encontrada na Bíblia, mas que expressa a verdade bíblica da doutrina da perseverança dos salvos. Segundo esta, os salvos, os eleitos perseverarão, pois estes possuem no penhor do Espírito (Ef 1. 13, 14; 4. 31), no caráter pleno da obra de Deus (I Co 1. 8, 9; Fp 1. 6; I Pe 5. 10) e no poder de Deus a garantia de que perseverarão (Jd 23, 24). Face ao fundamento e apoio bíblico desta doutrina, a questão a ser colocada é se esta é uma obra sinérgica, ou monergística. 
  2. A Bíblia trabalha com a ideia de apostasia e nenhum apóstolo incentiva o pecado, ou a falta de zelo. Mas mesmo nas exortações pertinentes ao perigo de desvio da fé, se percebe que os escritores bíblicos julgam estar falando com pessoas crentes (Hb 10. 34, 35, 38, 39; Jd 3 - 5, 19). 
  3. Calvinistas e arminianos não tem a mínima dificuldade de reconhecer que a eleição bíblica se dá por Cristo e em Cristo. A questão está no que isto vem a significar e creio que para ambos tem sentido diferente. 
  4. Para o arminiano a eleição é baseada na presciência de Deus, que elege as pessoas de acordo com a decisão futura delas em abraçar a Cristo. De imediato esta contradição foi percebida por Wayne Grüdem em sua Teologia Sistemática, e tratada como uma falsa solução. Mas o argumento de bíblico de que não há um justo, nem um sequer, ninguém que busque a Deus, é mais do que suficiente para anular esta concepção. 
  5. Colocar a culpa do esfriamento religioso da Europa no calvinismo é injusto, fatores históricos diversos precisam ser levados em conta. a) A prosperidade criada pelo capitalismo, foi identificada por Weber como causa de um futuro esfriamento da religião, b) associe a esta o crescimento da secularização (ou desencantamento de mundo), e é possível vislumbrar o ambiente europeu. c) Nesta equação não se pode deixar de considerar as guerras entre arminianismo e calvinismo. d) Estas redundaram no Evangelicalismo que devido ao seu caráter superficial permitiu que a cultura minasse a fé em países de primeiro mundo. É contra estas coisas que cristãos precisam se armar. 
  6. Os males do arminianismo não se resumem à autonomia exacerbada do homem, que na verdade está mais para o pelagianismo revivido por Finney do que para qualquer outra posição. 
  7. Enquanto doutrina, o arminianismo discorda do calvinismo apenas a partir do segundo ponto, e deixa o último em aberto. Esboço minha posição em um artigo que pode ser lido neste blog e acessado neste link
Mas sou forçado a concordar com a opinião do autor de que a melhor opção é o equilíbrio bíblico, que aliás vejo em calvinistas como Spourgeon, Lloydd-Jones e no evangelical Stott, e que de certa forma esboço em artigos que estão neste blog, dentre os quais este textoeste e este aqui. Que Deus em Cristo vos abençoe. 

Marcelo Medeiros. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Como conciliar Mt 10. 21, 22 com Jo 10. 27 - 29



Me fizeram esta pergunta há algum tempo atrás e prontamente respondi que não. Ao dar semelhante resposta tinha em mente aqueles textos em que Cristo e os demais escritores dão aquelas garantias da segurança da salvação (Jo 5. 24ss; 6. 35 - 44; 10. 27 - 29). Face ao meu posicionamento imediatamente ouvi: acredito que aquele que perseverar até o fim será salvo. A resposta talvez seja uma menção aos discursos de Cristo antes da missão dos doze (Mt 10. 21, 22) e do sermão do monte das oliveiras (Mt 24. 12, 13). Minha questão é por que estas duas verdades tem de ser opostas uma à outra? Por que tem de serem vistas como contraditórias quanto foram ditas pelo mesmo Cristo? E como harmonizar ambas?

A primeira observação a ser feita é que não é por ser adepto das doutrinas da reforma protestante que irei menosprezar os apelos da Bíblia em relação à perseverança, mas conforme demonstrarei mais detalhadamente em outras postagens, creio que em função da seriedade do apelo à perseverança, a mesma seja sustentada exclusivamente pelo poder de Deus. Afirmo isto porque a Bíblia diz que os eleitos de Deus são regenerados para uma nova e viva esperança e são sustentados pelo poder de Deus, mais do que isto, são guardados para a salvação que há de se manifestar no dia final (I Pe 1. 2 - 5). E na medida em que se atenta para o contexto dos textos em que a perseverança é exigida percebe-se que não é qualquer tipo de persistência, mas uma paciência tal face às tribulações que somente por meio do poder de Deus a mesma pode ser alcançada. 

A segunda observação é a de que ao contrário do que se ventila por aí nenhum crente, pastor, ou pregador reformado apresenta adesão, ou anuência ao relaxamento com a vida de santidade, igualmente exigida pela Bíblia. Em escrito algum de reformador algum você, caro leitor verá isto. Leia MacArthur, Owen, Stott, Spourgeon e quantos reformados forem, jamais vossa mercê irá ver uma única linha em que se afirme que o crente pode pecar, pelo contrário!

Uma última observação inicial é a de que o modo como a perseverança é pregada pela esmagadora maioria dos crentes desta nação dá a entender que a perseverança exigida por Cristo seja similar ao mito de Sísifo. O que sabemos a respeito deste vem de um ensaio de Camus, que narra a história de um homem que todos os dias levava uma pedra ao cume de um monte e ao chegar lá ela rolava ribanceira abaixo, o que condenava o mesmo a repetir tal ato todos os dias. Quem sabe o que é lutar de verdade contra pecado sabe o que é assim mesmo e se o homem estiver sozinho neste empreitada a guera estará literalmente perdida. 

Sabedor de que os reformadores consideram a totalidade das Escrituras com seriedade, e que este tem de ser o meu comportamento, de que não devo privilegiar um texto em detrimento de outro, como conciliar a fala em que Cristo pede perseverança com a que ele dá garantia da salvação? Primeiro, reconhecendo que ambas não são excludentes, nem ilógicas. Segundo, sabendo que a garantia de segurança de salvação é para a ovelha de Cristo (Jo 10. 27 - 29), para o que ouve a sua palavra e crê na mesma (Jo 5. 24; 6. 35 - 44), e portanto, não se estende a todo crente nominal. Por último, reconhecendo que a perseverança exigida não é qualquer tipo de perseverança, mas a paciência oriunda da tribulação (Tg 1. 2 - 4). 

No contexto deste texto Jesus afirma que os seus discípulos são como ovelhas no meio dos lobos (sobrevivência zero), que eles serão arrastados para a sinagoga, serrão traídos pelos seus familiares, e que serão odiados de todos por amor ao nome dele (Mt 10. 16 - 21). Agora pense comigo: quem por suas próprias forças sobrevive em um ambiente deste? Quem em são consciência mantém sua fé firme em tal situação? E que pode dizer que o faz por sua própria força? A leitura do contexto geral do Evangelho revela que Pedro, o único que ousou dizer que ia com Cristo até a morte o negou, será que isto não deveria acender o alerta dos caros crentes pelagianos da nação brasileira?

Creio que as duas verdades devem de ser mantidas e que a segurança da salvação não deve ser motivo para o relaxamento, pelo contrário! Perseverar é a resposta do cristão que foi alcançado pela graça e olha para o exemplo de Cristo (Hb 12. 1, 2 ). De igual modo creio que as advertências não devem alimentar o legalismo, nem servir de base para um discurso de mérito, muito menos de ameaça para que as pessoas fiquem na Igreja (leia-se instituição) sob jugo de opressão, a perseverança tem de ser no amor e na Palavra, do contrário não serve. 

Abraços fraternos em Cristo Jesus, Pr Marcelo Medeiros. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Lição da EBD n° 5: As virtudes dos salvos em Cristo


A palavra virtude pode ser compreendida como disposição constante de praticar o bem e evitar o mal. Este é o significado que encontramos, por exemplo, no Aurélio online. No Michaelis online vemos: excelência moral, probidade, retidão, propriedade, eficácia, qualidade própria para produzir certos resultados. Tais definições nos levam a refletir a respeito do texto base de nossa lição semanal (Fp 2. 12 - 17). Façamos algumas considerações a respeito de nossa salvação e do nosso progresso.

O conceito de virtude face ao conceito de graça

Nossa salvação é exclusivamente pela graça de Deus (Ef 2. 8, 9). Foi ele quem começou a boa obra em nós, e será ele mesmo o aperfeiçoador daquilo que ele mesmo começou (Fp 1. 6). Sendo que o verbo επιτελεσει (epitelesei), de επιτελεω (epiteléoo), cujo sentido é o de completar, levar a seu objetivo, levar até o fim, indicando com isto que do inicio ao fim de nossa caminhada a salvação é obra exclusiva de Deus.
Diante desta realidade não nos cabe pensar em virtude como qualidade própria para produzir certos resultados. Até porque não há um único homem justo nesta terra, que faça o bem e nunca peque, este é o veredito do pregador (Ec 7. 20). O julgamento do salmista a respeito deste mesmo assunto é de que não há uma única pessoa justa, e que todos juntamente se extraviaram (Sl 14. 2, 3). O mesmo é dito pelo apóstolo Paulo, na sentença: todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3. 23).
A verdade é que não temos uma disposição constante de praticar o bem e evitar o mal. Pelo contrário nossa inclinação é constantemente má, perversa (Gn 6. 5; 8. 21). De forma antropomórfica Isaias descreve o espanto divino com a total ausência de um único ajudador humano no plano da salvação. Para o profeta, Deus viu que não houve ninguém, admirou-se porque ninguém intercedeu; então o seu braço lhe trouxe livramento e a sua justiça deu-lhe apoio (Is 59. 16 NVI).
Face ao que nos é dito pela Bíblia, que Deus nos livre do pensamento arrogante e blasfemo de pensar que nossa salvação seja produto de uma única obra nossa, como disse Paulo, não por obras, para que ninguém se glorie (Ef 2. 9 NVI). Logo,  não foi por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo (Tt 3. 5 NVI).
 
Crescendo mais e mais
 
Embora a salvação seja exclusivamente pela graça de Deus, como dito acima, nossa resposta à graça que nos é oferecida, é a de crescer mais e mais. Paulo sabe que foi Cristo quem começou a boa obra na comunidade (Fp 1. 6), mas de igual modo ele ora para que o amor dos crentes de Felipo cresça mais e mais (μαλλον και μαλλον [mallon kai mallon]), em todo o conhecimento e percepção (Fp 1. 9). E qual é a finalidade deste crescimento? O apóstolo mesmo responde, para discernirem o que é melhor, a fim de serem puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo,  cheios do fruto da justiça, fruto que vem por meio de Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus (Fp 1. 10, 11 NVI).
O crescimento tem por alvo: 1) um maior discernimento, cuja finalidade é a aprovação de coisas superiores, 2) um caráter puro e irrepreensível até o Dia de Cristo, 3) a plenitude do fruto do Espírito, sendo que neste último caso, Paulo faz questão de enfatizar que este se dá por meio de Jesus Cristo e para a glória de Deus.
Assim, Deus começa e conclui a obra, mas este concluir engloba um crescimento paulatino em discernimento (aisthesei [αισθησει] somente aqui em todo o NT), era aplicada ao senso de percepção do mundo exterior, passando a ser empregada para a percepção moral interior. É esta percepção que nos conduz a sermos irrepreensíveis. O termo απροσκοποι (aproskopoi) é usado para aquilo que não serve de causa de tropeço. Paulo o emprega em sua carta aos Coríntios ao pedir que os cristãos não fossem motivo de tropeço, nem para judeus, nem para gregos, nem para a igreja de Deus (I Co 10. 32 NVI). Ser irrepreensível aqui, na verdade é o mesmo que não dar motivo de escândalo aos que estão de fora.
A salvação, que é exclusivamente pela graça, se torna cada vez mais evidente em nossa vida na medida em que praticamos as obras de justiça que Deus de antemão preparou para que andássemos nelas (Ef 2. 8 - 10). Antes de sermos salvos não havia em nós a mínima predisposição ao bem, mas agora que fomos alcançados pela graça, nós podemos desenvolver a nossa salvação com temor e tremor.

Desenvolvendo a salvação

Paulo pede ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor (Fp 2. 12 NVI). O verbo κατεργαζεσθε (katergazesthe), de κατεργαζομαι, pode ser traduzido como trabalhai (ARC), ou desenvolvei (AC). Muitos são os crentes que influenciados pela teologia do perfeccionismo wesleyano, tem interpr
etado este texto como sendo uma ordem a fim de que o crente trabalhe pela sua salvação. Algo que de acordo com a Bíblia, é simplesmente inviável.
O termo κατεργαζομαι pode ser entendido como o ato de realizar, de completar um trabalho até o término do mesmo. Mas ele precisa ser entendido à luz do contexto da carta em apreço onde é Deus quem começa e leva a obra da salvação até o fim (Fp 1. 6 - 11). O contexto imediato nos dá esta visão, visto que no período abaixo o apóstolo Paulo afirma: é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele (Fp 2. 13 NVI). Entendemos com este texto que em meio ao nosso trabalho εργα (erga), Deus atua (ενεργων [energon]). É ele quem nos dá poder para que possamos trabalhar a nossa salvação com temor e tremor. Esta atuação se dá mediante o eterno propósito de Deus (θελειν [thelein]). O termo que nossas Bíblias empregam para traduzir a vontade de Deus aqui é ευδοκιας (eudokias), cujo sentido é o de boa vontade, beneplácito, podendo ser aqui entendido como aprovação, consentimento. Se realizamos qualquer progresso que seja em nossa vida cristã, tal se dá mediante o eterno beneplácito de Deus.

A salvação em termos práticos

A salvação, em termos práticos, se dá quando fazemos todas as coisas sem murmuração. O termo γογγυσμων (goggosmon), pode ser traduzido por reclamações, mas indica um queixume em tom de zum-zum-zum, uma murmuração em voz baixa. E o termo que as nossas Bíblias traduziram por contendas, na verdade é διαλογισμων (dialogismon), cujo sentido é empregado para discussões em tons de crítica, questionamentos e criticismo interior.
Elucida, e muito, que saibamos que foi esta a palavra empregada pelos tradutores do Antigo Testamento para se referirem á prática dos judeus na peregrinação do deserto. Não se trata somente de uma reação emocional contra aquilo que Deus faz, mas da incredulidade que se manifesta na resistência crítica.
Face ao contexto entendemos que diante da ordem em imitar a Jesus como exemplo humildade e de vida; de servir ao nosso irmão colocando as necessidades do mesmo como prioridade, de considera-lo superior a nós mesmos, não cabe contestação. Nosso Papel aqui é o de reconhecimento do nosso Senhor e Mestre, e de disposição em imitá-lo em tudo.
É este padrão de comportamento que revela ao mundo que somos filhos de Deus. Para que ele seja alcançado temos de reter firmemente a Palavra de vida, a fim de que todo o nosso esforço e todo investimento divino feito em nós não seja vão. Que Deus nos abençoe mais e mais mediante o seu operar em nossas vidas.

Em Cristo, Pr Marcelo Medeiros.

 
 
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