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domingo, 20 de julho de 2014

O tempo e as jabuticabas



Com vistas a uma justa homenagem a este pensador que trouxe significativas contribuições para a vida intelectual de tantas pessoas, venho postar aqui o texto mais visceral que li do mesmo: 


O TEMPO E AS JABUTICABAS

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver 
daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela 
menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela 
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.



Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. 
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir 
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.



Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos 
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem 
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. 



Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, 
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'. 
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas 
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. 
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a 
essência, minha alma tem pressa...



Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente 
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, 
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo. 



Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse
amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'
O essencial faz a vida valer a pena.

Rubem Alves

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Igreja sem religião?


Há algum tempo atrás publiquei neste blog um texto mostrando que a religião não mais pode ser considerada o ópio do povo, e que este lugar foi ocupado pela mídia leia aqui. Desde então tenho preparado um artigo, cujo título sugestivo seria somos todos viciados em ópio. Minha intenção seria mostrar que somos irremediavelmente religiosos e como disse Chesterton, quando tiramos Deus colocamos no seu lugar historia, economia, revolução, alguma coisa. Mas para a minha surpresa, me deparei com esta foto no facebook, anunciando uma Igreja sem Deus.
De acordo com este site todo o formato das reuniões é eclesiástico e religioso, incluindo a caixinha de ofertas, mas não há menções a Deus, e também não existe uma filosofia ateísta. Sim, eles rejeitam a pecha de ateus, ou humanistas, mas se identificam com os britânicos que não possuem religião. O mais interessante é que se trata de um movimento sem religião, mas que gera expectativas religiosas.
Mas este site já afirma que se trata sim de uma igreja para ateus, visto ser um público que precisa sim se reunir e que precisa se apropriar de estratégias já empregadas por cristãos. O motivo da celebração seria o milagre da vida, em lugar de um deus, o que ao meu ver nos leva de volta ao que Chesterton falou, e Pondé repetidas vezes nos lembrou. Mas deixando Pascal e Chesterton falaram quero me voltar para a matéria de acordo com este site.
Ao ver e ouvir o vídeo, percebo que as pessoas esperam que as assembleias despertem a bondade das pessoas, outra afirma querer ver um pouco de amor e também cantar. Não posso imaginar algo mais religioso do que isto, sendo que não há um objeto definido para a adoração. Existe um blog que traz uma perspectiva bem interessante a respeito do tema. Para este autor, estamos presenciando a união entre religiosidade e ateísmo e tal vem se dando em razão de que a dimensão religiosa está entranhada no ser humano.
Na perspectiva de Caio Fábio (veja aqui), estas pessoas estão dizendo com os seus gestos que estão saturadas dos deuses das denominações e instituições, cristãs, evangélicas, pentecostais. A análise de Caio é ao meu ver a que mais se aproxima do que Pascal e Lewis afirmam. Meu único problema é ver nesta busca algo imbuído da verdade, mas Caio acerta sim ao afirmar que este ateísmo (ao meu ver mais um anticlericalismo) não mata a sede que as pessoas possuem do transcendental.
Me despeço aqui com a promessa de voltar a este assunto e elaborar o post que prometi, mas desde já antecipando que na época em que fui assinante da revista Galileu, sucessivas vezes vi Marcelo Gleiser falar em seus artigos e entrevistas de uma espiritualidade cósmica, assunto que não é novo na boca dos cientistas, visto que Einstein mesmo fala desta forma de espiritualidade e que conforme falamos aqui ele a identificava com a mesma religiosidade dos salmistas bem como de personagens como Francisco de Assis.

Pr Marcelo Medeiros
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